19.2.21

Documentário: Fake Famous

Este documentário é tãaaaaaaa bom que ando há dias a pensar nele e podem vê-lo na HBO.

A ideia é genial: fazer uma experiência social e criar um influencer de forma artificial, ou seja, que não cresceu a pulso produzindo conteúdos capazes de reter a atenção de potenciais seguidores. 

E o que é preciso para se ser famoso no Instagram? Dinheiro. Só e apenas dinheiro.

O documentário começa com um casting que procura pessoas que querem ser famosas. Uma pessoa sente logo um vazio constrangedor. Para que é que uma pessoa quer ser famosa? E daí assiste-se a um desenrolar de poses, acção, falsidade e enganos. Mas nem tudo corre como previsto e é aí que está a parte interessante.

Até onde vai o poder da realidade vs dinheiro? 
Quanto empenho serão capazes de colocar em mostrar uma coisa que não são em nome da fama? 
Quanto pesa a mentira na consciência?
Mais vale ter poucos seguidores verdadeiros ou não importa a qualidade, desde que sejam muitos?

A realidade dos seguidores comprados é doentia desde a responsabilidade do próprio Instagram às manobras pessoais de querer parecer mais do que se é. OK, isso até é expectável, o Instagram só quer dinheiro e estes jovens vivem obcecados com a fama. Mas estranhei o papel de palhaço das marcas. 

Como marca já fui contactada mil vezes para parcerias. Dou um olho e zás, encontro seguidores falsos. E - para mim - quem compra seguidores não se acha suficiente, tem fraca auto-estima, engana as marcas e está o negócio fechado, é um "não".

Para ver se um perfil tem seguidores comprados e há muitas (mas muitas) influencers portuguesas que fazem isso, basta dar um olho aos seus seguidores. Uma lista onde constem nomes estranhos, demasiados nomes estrangeiros, sobretudo com caracteres ilegíveis para nós (árabe, persa, chinês, etc.), demasiados seguidores que quase não têm fotos, que seguem poucas páginas ou mal têm seguidores, isso é sinal de que há seguidores comprados. 

Pena que o documentário não tenha um segundo episódio que passe o pente pelo comportamento de algumas influencers e, mais ainda, pela antítese do profissionalismo e do rigor, entalando algumas marcas pela falta de palavra. Já me aconteceu. Adorava poder contar, mas terei de guardar para mim. No entanto, enquanto marca que comunica com outras marcas, eu conto. Algumas pessoas podem não saber, mas entre marcas vamos pedindo referências, partilhamos histórias e opiniões. E isso, riquezas, pode significar mais ou menos trabalho para a influencer. Geralmente menos.

No entanto, discordo completamente da ideia que o documentário transmite de que estes influencers querem que as pessoas se sintam mal, inferiores. Não, acho antes que querem parecer mais, gabar-se, ostentar, parecer que são os maiores. São diferentes pontos de vista, embora ambos maus.

Anyway, neste belíssimo documentário o fim é muito interessante, mas cada um terá a sua conclusão. Qual foi a vossa? E qual é o futuro dos influencers que não constroem nada e contam com a eternidade das suas caras bonitas?




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3.6.20

COVID-19: não saber o que está a ser feito significa que nada está a ser feito?



Há cerca de um mês o Gabinete Português para o Parlamento Europeu convidou-me a participar de um webinar. O convite estava endereçado a alguns influencers e jornalistas. Objectivo: disseminar informação, informar quem trabalha com plataformas e audiências, com informação real e verdadeira, da fonte, em vez de alimentar a sede de conhecimentos com informação duvidosa que vai circulando onde a desinformação é rainha: nas redes sociais.

Foi uma experiência muito interessante, adorei! Foi a primeira vez que participei num webinar, é como uma reunião gigante, uma vídeo-chamada com vários intervenientes, super ordeiro, foi possível intervir, colocar questões, foi bom ver gente nova interessada. Caras bonitas (lindas, na verdade), maquilhadas, mas eram mais do que a sua beleza, os cremes ou as roupas que as influencers têm fama de publicar nas suas páginas. 

Tudo com cérebros funcionais e inteligência nas questões colocadas, foi uma lufada de ar fresco. 

Podia ficar aqui uma eternidade e escrever um longo texto sobre o que aprendi, mas vou resumir em alguns highlights as coisas que achei mais interessantes:

1. A União Europeia a trabalhar com influencers e a procurar cidadãos mais activos é uma forma certeira de olhar para o mundo real. No webinar o interlocutor afirmou que mais do que governos ou entidades, "people tend to trust people”. E é verdade, os seguidores com o tempo estabelecem uma relação de confiança. Isso significa que podemos aproveitar o "público" que temos, assumir sentido cívico e ajudar com informação, que muitas vezes até pode calhar ser da área profissional do influencer. Exemplo: durante o mês de março fiz imensos stories para ajudar os meus seguidores a interpretar os gráficos da COVID-19 no mundo. Já não é a minha área profissional, mas durante muitos anos trabalhei em comunicação em saúde. E nisto difundi informação verificada e indiquei fontes. Noutros casos motivei à solidariedade fazendo a ponte entre marcas fabricantes de cremes e hospitais com profissionais com problemas de pele provocados pelos equipamentos de protecção. Ajudei a preencher necessidades, informei e isso foi gratificante.

Sobre informação verdadeira, para saberem mais pelas vossas mãos, cliquem aqui, têm notícias do que se faz na Europa (incluindo em português).   


2. A União Europeia iniciou um combate às fake news que durante algumas semanas se debruçou sobre 
"notícias" (com origem fora das fronteiras da UE) de que a União Europeia era useless e que a crise da COVID-19 iria desintegrar a União Europeia. Provavelmente todos passámos por artigos que traçavam cenários negros. 


3. A European Center for Disease alertou a União Europeia para um potencial perigo do vírus a meio de Janeiro. Em Janeiro o assunto discutia-se na comunicação social como sendo um problema da China.


4. Logo em Janeiro a União Europeia enviou ajuda médica para a China. E isto não é de conhecimento público porque é habitual da União Europeia ajudar outros países, os fundos não gastos para fazer campanhas de propaganda.


5. Num par de semanas, a União Europeia mobilizou milhões para minimizar o impacto económico na Europa. Afirmaram, com algum humor, que nessas duas semanas foram tomadas mais decisões que no espaço de um ano.


6. Existe um enorme financiamento para o desenvolvimento de uma vacina. Não é dinheiro atirado ao ar sem controle, trata-se do financiamento de equipas científicas específicas que com a ajuda da União Europeia são colocadas em contacto, em comunicação e coordenação, em vez de haver lugar à concorrência. Isto é muito importante para, por exemplo, não se fazerem os mesmos testes em diferentes laboratórios, o que seria duplicar trabalho, gastar o tempo e o investimento financeiro da ciência, tudo em vão.


7. A União Europeia alterou rapidamente a legislação para acabar com os ghost flights. E o que é isso? Eu não fazia ideia. Para poder trabalhar determinada rota, uma companhia aérea tem de cumprir um mínimo de voos. Em pleno COVID-19, com as pessoas em casa e as viagens canceladas, as companhias aéreas estavam a fazer voos vazios para não perderem essa rota na sua lista de destinos.  


8 . Nos anos 50, aos primeiros passos da criação da União Europeia, um dos projectos paralelos era o de criar uma União Europeia para a Saúde, o que veio a cair por terra. Agora a questão renasceu e bem. Esta pandemia, a chapada no sentimento geral de que seria impossível acontecer algo assim mudou muita coisa (convenhamos, parece um episódio de Black Mirror), sobretudo a forma de pensar em muitas áreas e, nomeadamente, a dependência que a Europa mostrou ter do continente asiático em relação à produção de máscaras.

Para mim que trabalhei na área, uma União Europeia para a Saúde seria um trabalho espectacular. Devemos lembrar uma enorme conquista que é o direito à saúde: um espanhol doente em Itália é tratado num hospital como um italiano. Temos isso tão garantido que esquecemos que é algo fantástico. Mas o que acontece a um mexicano doente nos EUA? Aliás, o que acontece a um doente americano sem dinheiro nos EUA? 

Conheço uma pessoa, portuguesa, que sofreu um acidente na neve há uns anos. Foi para a Suíça, o acidente aconteceu nas montanhas do lado de Itália, foi transportada, foi operada, ficou com uma excelente cicatriz, foi acompanhada, voltou a Portugal. Na altura acompanhei o caso de perto e achei tudo de um profissionalismo, de um sentido de humanidade e de boas práticas entre países, assinalável. De facto fazer parte de uma União Europeia é uma coisa fantástica.

Por falar nisso, pessoas que fazem viagens pela Europa, sabiam que existe um Cartão Europeu de Seguro de Doença (aqui)? Se vos acontecer alguma coisa num país da União Europeia só têm de mostrar o cartão e a conta fica paga. Podem requerer o cartão no site da Segurança Social Directa, enviam para casa e tem a validade de dois anos. Tenho sempre que faço uma viagem!


No webinar eu era única portuguesa, mas foi impossível não reparar na quantidade de croatas activos. Destacavam-se. Por que motivo os portugueses serão tão pouco activos nestes assuntos? Existirá um desinteresse total por parte dos influencers e de quem os segue? Ou os portugueses em geral dão tudo por garantido, alguém faz o trabalho e por isso o assunto não merece melhor reflexão e dedicação? "Alguém que trate" chega?

Alguns seguidores sabem, no início de março, com a COVID-19 a dar os primeiros passos, decidi fazer um vídeo a ver se chegava ao Primeiro Ministro. Com o risco de sair dali completamente humilhada, dei o passo em frente, tornei-me voz activa, gravei e publiquei (e acabei convidada para o webinar).

No meu coração achei que ia ter algumas pessoas a ver, as pessoas que já me seguem. É que os assuntos políticos cativam pouco as pessoas e não esperava muito dali. Mas o resultado foi completamente viral e muito além de qualquer boa expectativa que pudesse ter.

Em geral, eu também não gosto de política ou de políticos. Mas gosto de determinação e de ver trabalho feito.

Não tenho um espírito de que o meu país não presta, acho que temos coisas muito boas e competentes, mas no vídeo fiz críticas à lentidão da acção. No reverso da medalha, Espanha aqui ao lado está há três meses na imprensa a admirar a estratégia portuguesa, as competências profissionais, parece que somos os maiores. E cá dentro achamos que é tudo farinha do mesmo saco.

Criticar é fácil, há sempre uma sensação de que se está a fazer muito menos do que se poderia fazer porque muitas vezes não há exactamente aquilo que é uma necessidade óbvia: informação sobre o que está a ser feito.

Com o estalar da COVID-19, achei curioso e interessante que a União Europeia tenha pedido cooperação às plataformas das redes sociais para combater a desinformação. O fact check ganha cada vez mais importância no mundo moderno e hoje em dia a disseminação de um tipo de informação criada para gerar cliques é mais difícil que há dois anos. Mas ainda assim é um trabalho volumoso e em constante adaptação. Se precisarem de confirmar se uma notícia é verdadeira, vão a esta página que vai fazendo trabalho (e que eu nem sabia que existia).

A União Europeia tem grupos de trabalho na criação de conteúdos digitais. Seria ingénuo pensar que basta escrever meia dúzia de linhas e esperar que a informação se dissemine. Não, são precisos conteúdos gráficos, atraentes, pois os olhos comem e é aí que nasce a primeira atracção pelo conteúdo. No entanto, é só uma parte do caminho. 

Produzir é fácil, mas a partilha fica nas mãos de outras pessoas. Disseminar depende da boa vontade de terceiros e, sobretudo, da consciência de sentido cívico e de sentido europeu. Para ir seguindo e saber mais do que está a ser feito, sobre o tema COVID-19 e outros assuntos, sigam estas páginas de Instagram aqui, aqui e aqui.

A União Europeia fez-se do espírito de solidariedade, dos melhores princípios humanos e, mais do que ser um cidadã de um país, ser cidadã europeia para mim significa "segurança". Entre muitas outras características, gosto de me sentir parte da União Europeia, a expressão "juntos somos mais fortes" faz todo o sentido.

No fim, depois de diálogos tão interessantes e aprendizagem, perguntei-me: como é que um país europeu pode preferir o isolamento à oportunidade pertencer à União Europeia? Será sempre um mistério para mim.

Sejam activos, isso melhora a qualidade de vida de todos ❤


Entretanto fui hoje convidada para um novo webninar, desta vez sobre desinformação e fake news em detalhe. Estou curiosa! Interessa-vos saber mais?




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8.4.20

Do divino

- Ministro, Ministro!
- Cala-te, aventesma! Até me assustaste, reles empregado!
- Desculpe, Ministro.
- Diz lá o que te traz. Desembucha!
- Deus mandou recado, Ministro.




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1.3.20

"Wuant" you out


Eu não fazia ideia quem era este moço que dá pelo nome de Wuant, até que há uns meses o vi aparecer na comunicação social como um dos youtubers portugueses com maior número de seguidores. Como não sigo youtubers e só vejo vídeos quando estou à procura de um tutorial para aprender alguma coisa, fiquei na mesma.

A pouca informação que li nunca chegou para me ensinar o que é que esta criatura faz exactamente, o que produz, que riqueza acrescenta à vida dele ou à dos outros. Procurei hoje, encontrei isto que, espremido, deu em nada.  Em suma, creio que o maior feito dele vai ser ficar conhecido pela imaturidade e a forma como se expôs para dizer que ele e a namorada já não estão juntos, desrespeitando-a.

Apercebi-me da existência deste vídeo através da comunicação social. Não fiz caso. Mas depois o Nuno Markl (que é um gajo que prima pela sensatez) falou no assunto e decidi ver.

Em 48h o escândalo gerou viralidade, a comunicação social, personalidades públicas e leitores têm debatido o assunto exaustivamente, as pessoas falam de uma geração desgraçada, e eu nem ia escrever sobre o assunto, por não ter mais nada a acrescentar.

Toda a gente condena o caso. Diria que para as pessoas civilizadas a opinião é praticamente unânime, o tipo é um traste.

Mas depois apareceu uma única pessoa com opinião contrária, a Mia Rose, para dizer que não percebe a polémica e afirmar publicamente que naquele vídeo "só vê amor". 

É urgente explicar à Mia Rose o que é amor, não vá ensinar a os mais novos o que acha que é.

O vídeo em questão tem cerca de sete minutos. A Mia certamente saberá, ele não foi filmado durante este tempo. Foi muito mais que isso. Depois é editado (durante hooooras) e feita uma montagem com as "melhores" partes.

Quem vê aquela montagem, escolhida pelo Wuant, durante todo aquele tempo de vídeo ele aparece como o gajo que está bem, não sofre, é um macho do caraças, boa pessoa (acredita ele). A ex-namorada é a sofrida, sensível, coitada, as mulheres são assim, é normal [ironia]. Ela é a pessoa que mostra as fragilidades e lágrimas, ele é o gajo inabalável que até a consola. Mia Rose, não. Esta montagem foi mais do que pensada e não mostra amor. Mostra muita coisa, mas não é amor.

Eu percebo que as relações acabam e começam, também já passei por isso. Mas há um abismo que separa as pessoas sensatas dos merdosos. Eu percebo que tendo tantos seguidores quisessem fazer um anúncio público que podia ser escrito. Ou que podia ser um vídeo sucinto e em separado, sem azo a grandes conversas. Se tivessem optado pela discrição não existia viralidade, o assunto não acabava na comunicação social. Mia Rose, o que fez nascer viralidade foi exactamente a falta de respeito, a falta de cuidado, a falta de noção e isso, quando existe, não é amor.

Quando o vídeo começa ele já está a rir, diz "nota-se que estiveste a chorar um bocadinho", seguido de uma bela gargalhada. Depois anuncia que já não estão juntos, que ninguém se zangou, que foi uma conclusão a que chegaram, para interromper o discurso: "aliás, eu se calhar cheguei à conclusão, tu ainda não... Ahahhaha!". NÃO, Mia Rose! Isto não é amor! Isto é enxovalhar uma pessoa, é desconsiderar os seus sentimentos!

Completamente desnecessário a um anúncio de separação que quisessem dar, o Wuant vem dizer "para quem não sabe fomos os primeiros em tudo (...) primeira foda". NÃO, Mia Rose. Isto não é amor, é uma falta de respeito! É uma informação completamente desnecessária, mas para explicar o mesmo podia dizer-se que juntos perderam a virgindade ou juntos tiveram a primeira relação sexual e não haveria como condenar a escolha de palavras, apenas a falta de noção. Só que a escolha das palavras foi "primeira foda", dito diante dela para milhões de pessoas que, nota, baixa a cabeça de VERGONHA. Não é o Wuant o homem com que todas sonhamos, Mia Rose? 

Depois diz que tem 24 anos (quem diria), que chegou a um ponto em que quer viver novas experiências e "não quero foder, não é nada disso" - na verdade é só isso, qualquer pessoa com experiência de vida sabe ver. Explica que só se conhecem um ao outro, não quer viver com "ses" na cabeça, quer apenas tirar tempo. Não, Mia Rose. Isto não é amor. Na verdade é total ausência de amor. Tempo dão os relógios, sim? Isto tem um nome que também serve a culinária: banho-maria.

Não faltam surpresas. Diz ao mundo que já estava a pensar em acabar o namoro "há cerca de dois anos". Dois anos! Não, Mia Rose. Isto não é amor! Isto é dizer uma pessoa que metade do tempo estiveram juntos ele já pensava em não estar com ela! Traduzido, terá ficado a viver com ela à falta de melhor opção.

Mais chocante é a total surpresa da ex-namorada a ouvir esta informação, que ao fim de uns segundos responde magoada: "that's hard to swallow..." e ele faz o quê? Peida-se! Peida-se com expressão de esforço prazeroso.

Mia Rose, não é o Wuant um homem de sonho?

Volto a lembrar, este vídeo foi editado. Levou horas a editar, ele teve tempo para mudar de ideias e ESCOLHEU incluir o seu peido em resposta à dor dela, não foi um acidente. Não há maior adepta do movimento do peido livre entre um casal do que eu, mas a dois, em privado, e nunca em resposta a um coração partido numa publicação para milhões de pessoas.

Cereja no topo do bolo, ele está a optar pela separação agora, mas é uma pausa porque "não imagina o futuro com outra pessoa". Não, Mia Rose. Isto não é amor! Isto é uma clássica forma de manipulação emocional, chama-se banho-maria, é colocar a mulher na eterna esperança de um regresso porque mais vale uma pomba na mão do que duas a voar. 

Ela, a Owhana, tenho pena. Ainda não chegou o momento dela, ainda não aprendeu a impor-se. A forma como os outros nos tratam somos nós que ensinamos e ela ainda não compreendeu que parte disto é culpa dela, que aceita ser tratada assim. Compreendo, eu levei uma década para aprender a dar murros na mesa sem medo. Espero que ela encontre o seu caminho e que com o tempo perceba que este break up foi a maior sorte que teve.

E dizem vocês, eventualmente: "Maçã, foste dar audiência a este gajo?". Estão a ver o copo meio vazio, têm de ver o copo meio cheio. Este imberbe tinha de ter a cara em cartazes pelo país fora, em todo o lado. Esta viralidade é boa, é uma espécie de don't date him, girls para avisar toda e qualquer mulher que na inteligência dele o conceito de privacidade é uma cena abstracta, que não é apresentável pela forma como fala, que os momentos de intimidade são fodas, que se ri enquanto a mulher chora de sofrimento (perdão, dá gargalhadas), que gosta de manter as mulheres em banho-maria, etc. Há muito por onde pegar e, assim, outras mulheres já vão avisadas e pode ser que goze a solteirice todo o tempo que merece.

Vendo o copo meio cheio, acho que sim, acho que todos os adolescentes deviam ver este vídeo como bom exemplo de como não tratar uma pessoa em público. Parece-me boa a ideia colocar os mais novos a ver isto e a colocar-se na pele de um e de outro, fazendo um exercício emocional, de empatia, perguntando-se se vestiriam alguma destas peles, para ser o protagonista ou o alvo disto. Pode ser valioso para ensinar a quem não tem experiências amorosas o que não se faz e o que não devemos aceitar NUNCA!

Ver homens que não respeitam as mulheres já é difícil, mas ver um garoto com a mania que é homem a desrespeitar a mulher com quem namorou e viveu anos, dá dó.

O tamanho do ego dele, o tamanho da falta de educação, da falta de noção sobre os mais básicos comportamentos de respeito numa relação amorosa, exposto num vídeo, é directamente proporcional ao número de seguidores que tem enquanto youtuber: uma imensidão.

Depois, ver a Mia Rose dizer publicamente "eu só vejo amor", referindo-se ao vídeo sofrível, gerador de vergonha alheia, explica por que motivo há homens assim: é da educação que mães e pais lhe deram sobre a forma como devemos tratar os outros. Ou falta dela, melhor dizendo. E nisso, há pessoas que acham que podem tudo.


NOTA: eu não faço ideia se há marcas a patrocinar o menino Wuant, mas sugiro que revejam os vossos princípios. Como marca (que também tenho as minhas) não quereria ver-me representada por um imberbe que se mostra ao mundo de forma altamente condenável. Lembro o caso mediático do Tiger Woods que foi apanhado a enganar a mulher. O escândalo foi tal que o jogador de golf ficou sem patrocínios. À parte disso, é um princípio básico: a forma como tratamos os outros diz muito de nós. Alguma marca quer ser representada por isto?




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28.2.20

Tudo o que precisam de saber sobre o coronavírus, mas for real


Fonte: Observador, a 28/2/2020
Notícia: "não há notícias"

Uma década da minha vida profissional passei-a no ramo da saúde, como assessora de imprensa, com os pés em comunicação de crise, passando pelo INEM e outros organismos do Ministério da Saúde. 

Ainda estava a estudar comunicação e eu já sabia que nunca iria para jornalismo, por vários motivos: 1) Gosto de ganhar dinheiro; 2) Não gosto de maçar pessoas; 3) A maior parte das notícias são pura desinformação e eu não quereria fazer parte disso.

Isto para falar no coronavírus ou CODIV-19. É de revirar os olhos ao pânico provocado pela comunicação social que acontece, acredito, por ser uma novidade. A pressão da comunicação social começa com olho nos chineses que, já se sabe, são uns histéricos. E espalha-se pela Europa à falta de notícias mais sumarentas, levando os governos a tomarem medidas para não parecer que não estão a fazer nada. 

Para inglês ver, portanto. Nenhum governo eleito quer fazer figura de que não se importa com os cidadãos. E se for para ficar bonito no retrato, seja. O guito é de todos, querem lá saber.

Vejamos, na propagação de um surto a sério em que todos nos transformamos em zombies, não há, mas não há mesmo, nenhum país que esteja preparado para o conter. Nenhum! Esqueçam isso.

Um dos maiores surtos de sempre é a gripe espanhola (1918) que, dizem as estimativas, em seis meses matou 25 milhões de pessoas. Milhões!

Vamos pensar de outro ponto de vista: por que é que a vacina da gripe muda todos os anos? Porque o vírus também muda. E mesmo assim a vacina não protege contra todas as estirpes.

Todos os anos se morre de gripe em todo o mundo. Este é um vírus novo que tem uma taxa e mortalidade mais alta nas faixas etárias mais velhas, com especial foco em pessoas já debilitadas, não existindo fatalidades a registar em bebés ou crianças pequenas. Todos os anos, todos os anos, em todo o mundo se morre de gripe. E fevereiro é o pico da estatística.

Para perceber melhor a coisa, recomendo este texto muito bom de um médico que devia ser de leitura obrigatória.

E se a comunicação social já deixa a desejar, suspirei quando a escola da minha filha passou a alimentar o comportamento a que se assiste na TV: o pânico. Ainda que afirmem que o objectivo não é instalar o pânico, a escola envia um longo texto por email, com link para um questionário que vai alertar no caso de alguma criança (ou os seus pais) terem andado em alguns dos países onde o vírus tenha aparecido.

Ora, eu estive em Milão e se respondesse ao questionário ontem, a minha filha não poderia ter ido à escola hoje, até que fizesse 14 dias do meu regresso de Itália. Então, vou responder ao questionário apenas no domingo, data limite para o questionário obrigatório, que é também o dia que marca o meu período de quarentena. Logo aqui se vê como a medida não serve para coisa nenhuma.

Além disso, qualquer pai que está obrigado a preencher aquele questionário, pode estar longe do período de quarentena, estar infectado sem sintomas e mentir. Não há como controlar.

Toda a mensagem trata as pessoas que se deslocaram em viagem como alvos de contágio garantido a 100%, tendo estes pais de arranjar soluções mirabolantes para poder continuar a trabalhar, pois as crianças ficam impedidos de entrar na escola durante duas semanas. 

Afirmam que estão a trabalhar em estreita colaboração com as autoridades, sem dizer quais. 

E a Direcção Geral da Saúde emite hoje um comunicado que contraria exactamente as medidas da escola tomadas em "estreita colaboração com as autoridades":

Fonte: Observador a 28/02/2020


Qual é o resultado prático de ver tal contradição? Deixo para a vossa imaginação.

Vou dar dois bons exemplos em como estas precauções servem de pouco ou nada, mostrando que as medidas de protecção (a achar que estão a prevenir) apenas transtornam a vida das pessoas e não fazem muito por evitar o contágio:

Exemplo 1: imaginemos que têm no prédio uma vizinha hospedeira de bordo. Não faz parte do vosso agregado familiar, portanto, no questionário assinalam que ninguém do agregado familiar viajou para as "zonas perigosas". Em casa estão em segurança, de mãos lavadas. Mas de manhã levam as crianças à escola, descem no elevador, marcam o andar do R/C para sair do prédio, o mesmo andar onde a vizinha hospedeira meteu os dedos, regressada de uma zona de contágio. Imaginemos que estava doente, já levam o vírus nas mãos, levam as crianças à escola, fazem-lhes umas festinhas de despedida, mais uns beijinhos e tal, já está a criança contaminada! Que durante o dia vai distribuir por todos os colegas. Mas no agregado familiar ninguém viajou para "zonas perigosas", por isso, todos estão safos!

Exemplo 2: Manel das Couves foi a Paris passear com a mulher, não têm filhos, volta contagiado sem saber. Os dias passam e ele é um dos casos assintomáticos. O Manel tem os dedos lambidos daquelas batatas fritas que comeu ao almoço, unhas cheias de vírus, vai ao supermercado, paga com o cartão multibanco e aqueles dedos porcos ficam com o vírus colado ao painel onde marcou o código do cartão. Na vez seguinte, na fila da caixa para pagamento, vai a Maria Quitéria, que tem o filho a brincar no carrinho de supermercado. Usa o cartão multibanco para pagar as compras e lá vai ela, com os dedos lambidos do cuspo do Manel das Couves, doente sem saber. No dia seguinte, a criança vai à escola, pode ir à escola porque os pais estão sempre em casa e não viajam, não representa perigo de contágio, acredita a escola.

Este texto serve para tentar que as pessoas pensem pela própria cabeça e passem a colocar questões: quem disse? Por quê? Qual é a fonte? O que dizem as estatísticas? O que ensinam casos semelhantes? E, importante, o que faz sentido?

Só existe uma maneira de impedir a entrada do coronavírus em Portugal que é fechar as fronteiras. Ninguém entra ou sai até a coisa se dissipar. E isso não vai acontecer - que eu saiba nunca aconteceu em país nenhum - pois a vida continua e a economia não pára.




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7.1.20

Trabalhar com números vs trabalhar com pessoas



Todos os anos (às vezes várias vezes por ano) pingam no email mensagens muito elaboradas de agências de meios a pedir dados estatísticos do blogue, nº de likes, views, números, números, números, aliciando a possibilidade de trabalhar com imeeeensas marcas e fazer parte da base de dados, blá, blá, blá.

Há muito que deixei de responder a estas mensagens.
Acho-as um vazio.

Desta vez, a um "novo ano, precisamos de novas estatísticas!", apetece-me responder: no que respeita a influencers ainda trabalham com números?

Nem eu trabalho com números, trabalho com marcas (quando trabalho). Trabalhar com as pessoas is the new black, com verdadeira publicidade/divulgação, com verdadeiro engagement e capacidade de levar uma seguidora a experimentar um creme que a Maçã gosta mesmo e por isso deve ser bom em vez de ser "o creme nem é mau, é igual a outros, mas eu faço isto porque me estão a pagar". É claro que há números à mistura, não vale a pena ser hipócrita, mas também é uma ingenuidade pensar que grandes números vendem mais. Ou vendem, pela proporção, mas o que é que fica disso? Não vejo a hora de o IG eliminar os likes em PT.

Com o tempo, se este registo não muda, não sei onde vão parar as agências de meios que não conhecem de perto os influencers e vêem números. Imagino que perderão lugar para um gabinete de gestão de social influencers criados nos escritórios das marcas para uma parceria de proximidade em vez de ser um serviço sub-contratado.

Trabalhem pela dinâmica e personalidade, pela qualidade de conteúdos do influencer, pela identificação do produto/marca com a pessoa, não exclusivamente pelos números. Nem eu trabalho pelos números e não gasto o meu tempo em responder a estas mensagens. 

Há dias comentei que deixei de seguir a Chiara Ferragni, supostamente a maior influencer do mundo, 18 milhões de seguidores! Seguia por defeito profissional, mas às tantas perguntei-me por que motivo o fazia. Tem uma apresentação completamente vulgar, um mau gosto inenarrável a vestir, adora andar de t-shirt branca sem soutien, mostrar o rabo de fio dental (e tudo bem, ela escolhe o que fazer com o corpo dela), é uma montra de logótipos nas roupas e nas malas. Este é o resumo que consigo depois de uns bons tempos a segui-la. Gira nas horas, mas sem um comportamento geral elegante e não havia conteúdo que me trouxesse inspiração. Seguia porque sim. Eliminei, junto com mais umas centenas de likes retirados. Tento manter a coisa pelas 400 páginas. Como é que é possível seguir 1000 páginas? 3000 páginas? Não se segue, estão só ali.

Isto pode ser visto como "esta tem a mania que é rebelde", mas a verdade é que no dia-a-dia já temos tão pouco tempo, eu consigo retirar tanto prazer do IG, percebi que era muito mais interessante limitar o espaço (e o meu tempo) àquilo que gosto mesmo. É como ver uma revista e eliminar as páginas que são entulho, só vejo o que me interessa.

Falo por mim, já fiz algumas compras porque algumas influencers portuguesas micro me inspiraram, me deram a conhecer alguma coisa que gostei, mas nunca fiz compras por influência de influencers internacionais de milhões das quais (as poucas que sigo) só gosto de ver as fotos.

Fica a sugestão de algo que tem funcionado para mim, em 2020 optem por redes sociais mais limpas, mais inspiradoras e - às marcas e agências de meios - por parcerias com conteúdo, de verdadeiro interesse e envolvimento. É como não ter de ser obrigada a comprar presentes de Natal: libertador e concentrado no que verdadeiramente interessa. Isto para ser interessante e divertido não pode resumir-se ao número de laranjas, têm de ter sumo.



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16.10.19

Dialogar com leitoras: o lado de cá



Escrevi no FB sobre uma conversa com um amigo que vai ser pai e a quem perguntei: "sabes que destruíste a tua vida?". Quer parecer-me que a maioria das pessoas entendeu que me referia à liberdade individual, à possibilidade de fazer coisas de adulto como se faziam até a criança nascer, o lado bom da vida de não ter a responsabilidade dos filhos, etc.

Mas este texto não é sobre isso. Em traços gerais, encontro-me com isto:


Leitora: previsível, és capaz de muito melhor.

Maçã: melhor? Mas eu estou a dizer o que sinto... Pode nem toda a gente concordar, claro, mas é a minha forma de ver o assunto, só isso.

Leitora: quando digo que és capaz de melhor é para escrever sobre outras coisas, que estes assuntos já cansam.

Maçã: mas isso é porque me lê há muito tempo. Há pessoas que me seguem recentemente e nunca leram estes conteúdos. Mas só escrevi sobre isto porque aconteceu ontem e achei que tinha graça.

Leitora: leva a bicicleta! Já te sigo há muitos anos e sei que nunca, nunca, dás o braço a torcer. 


E é isto...

Se eu der um bocadinho do meu tempo para o diálogo e explicar o meu ponto de vista, sou uma mula teimosa, incapaz de dar o braço a torcer (whatever that means).

Se eu não responder sou uma diva que nem é capaz de dar uma palavra aos seguidores.

Do lado de cá, em alguns casos, se eu não respondo sinto que me permito ser mal interpretada quando gostava de me explicar melhor. O que fica para mim? Ser uma besta porque respondi (e eu é que não aceito respostas) ou sentir-me mal porque permito que fiquem a pensar uma coisa errada.

E ninguém pensa no lado de cá. Resume-se a ser teimosa. As pessoas não querem dialogar, querem ter razão. E não querem colocar-se no lugar do outro (porque têm razão).

Desisto, retiro-me, atiro a toalha ao chão e remeto-me ao silêncio que isto não é produtivo.
Desistir também pode ser dar o braço a torcer? Espero que sim. É libertador.

#I'mnotapeopleperson





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9.8.19

A culpa não é dos motoristas, é dos consumidores


Não são os grevistas que instalam o caos, é cada uma das pessoas que corre às bombas.

Não são os grevistas que fazem pressão social, é cada uma das pessoas que corre às bombas.

Tenho hoje 1/4 de depósito, um bocadinho menos. Ontem fiz a minha vida e todas as bombas por onde passei tinham filas enormes. Não me presto a isto!

Hoje vou ter de dar voltas e vou ficar com ainda menos gasolina. Se acabar, fico em casa, ando de transportes, ando de boleia, não trabalho, adio as coisas, mas alimentar o caos e a ganância, recuso-me.

Se cada um dos grunhos que corre às bombas fizesse a vida normal, abastecendo com a regularidade habitual, havia combustível para 15 dias. Assim, cedem exactamente a favor do objectivo dos grevistas (que apoiei, mas já não tenho saco). E isto não significa que não tenho responsabilidades, que não preciso de combustível, significa que é preciso ser inteligente e pensar maior.

No FB do blogue, um comentador dirigiu-se a mim como se eu fosse estúpida: "a Maçã diz que se ficar sem gasóleo fica em casa ou não trabalha lol, fala como se toda a gente fosse assim, sem responsabilidades, sem famílias para alimentar, acha que toda a gente tem uma vida tranquila (...) a criticar sem saber a situação pessoal e profissional de cada um".

É preciso pensar, usar a cabeça, ir mais além do que o agregado familiar lá de casa.

1. Não estamos perante uma calamidade mundial do tipo "o petróleo acabou" e a crise aí seria indiscutível e mundial.

2. Estamos perante motoristas NACIONAIS a ameaçar greve. A gasolina existe, só não há quem a transporte caso não se ceda às vontades dos meninos.

3. Vivemos em Portugal, um país da união europeia. Havendo combustíveis e só faltando quem os transporte, acreditam mesmo que chegaríamos a um estado de emergência declarada? Poupem-me. Nem que viessem motoristas de outros países. E ao que parece há militares a serem treinados para poderem substituir estes motoristas.

4. Mas assumindo que aconteceria, não é só lá em casa que não teriam como ir para o trabalho, é um país e toda a sua economia! Mais dia, menos dia (conforme a ganância pela gasolina se tivesse verificado), TODA A GENTE teria de ficar em casa! Até quem correu para as bombas. Em suma, a corrida às gasolineiras é um "tanto faz".

5. Assumindo um declarado estado de emergência nacional sem combustíveis, os carros estacionados na rua iriam ser assaltados. E os que estivessem em andamento, depressa vos apontariam uma arma para retirar o que têm. Na selva reina a violência.

6. Assumindo um declarado estado de emergência nacional, ao fim de umas semanas os militares tocariam à porta para confiscar os combustíveis que todos estiveram a meter em bidões. Seriam direccionados para transportes prioritários e de bens de primeira necessidade, não para o Zé Manel que tem responsabilidades lá em casa e tem de ir para o escritório [o pensamento pequenino é de revirar os olhos].

7. Para quem trabalha, com a economia parada, em declarado estado de emergência nacional, se o Zé Manel não fosse trabalhar porque não há combustíveis na generalidade, outras pessoas conseguiriam ir? O quê, levam falta? Arriscam-se a ser despedidos? Quando um deixasse de ir, em poucos dias era quase o país inteiro.

8. Para quem conseguisse chegar ao escritório por outros meios, acham que o trabalho iria realizar-se? Num país em estado de emergência e serviços mínimos, acreditam que atenderiam telefones do outro lado? Que os fornecedores e entregas continuariam? Que as empresas seguiriam sem percalços? Não, elas paravam também.

Não são precisos muitos dias sem combustíveis para um cenário destes acontecer num país, o que inclui Portugal.

Se o Zé Manel parar de trabalhar por falta de gasolina, vamos parar todos. É uma questão de dias.

E no meu caso, que não mexo uma palha para colocar gasolina no meu carro quase vazio, se todos pararem não me adianta continuar, pois eu não faço acontecer sozinha, por isso não me entrego ao drama. No fundo, é usar a cabeça. Ou em estado declarado de emergência nacional acho vou continuar a vender sapatos e bikinis?

Esta corrida e este alarmismo é mentalidade de povo. Num verdadeiro estado de emergência nacional a gasolina a que se agarram com ganância ser-vos-ia retirada.

E agora aguardemos, a ver se vai haver um dia sequer de emergência nacional... é que nem um! Se não forem os motoristas portugueses, serão outros. O problema não está na falta combustíveis, está na falta de transportes.

Não se entreguem a essa palhaçada que vos cega numa corrida às bombas, a perder tempo, a gastar gasolina numa espera enorme de chegar a vossa vez [non sense] e se põem a discutir com os outros.

Se efectivamente faltar gasolina por falta de transporte é para todos. Se um for ao fundo, agarrem-se porque numa questão de dias vamos todos.

Ya, odeio povo. Isto aqui filmado é uma vergonha.




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25.6.19

Desejos: "colocar fezes nas caixas de correio dos vizinhos e tacinhas de milho nas varandas"




Até 2019 achava que vivia num prédio com gente do bem, civilizada, mas então as necessidades de uma vizinha levaram à colocação de cortinas de vidro e os umbigos da vizinhança exibiram-se em todo o seu esplendor.

Tem sido inenarrável observar todo o egoísmo e hipocrisia que ali reina, lixando a vida a quem desespera por segurança e higiene, a quem fez investiu um dinheirão, acenando com acções em tribunal, mas acabando todas as comunicações com frases do tipo "muito prezamos a vizinha e sempre manteremos a melhor relação". [Inserir palavrão]. [Inserir palavrão]. [Inserir palavrão].

Isto dá-me vontade de vender a casa a uma família de 10 pessoas de etnia cigana para só assim desejarem ter tido maior cuidado com as necessidade de quem mora na porta ao lado.

Vejamos, há uns anos deu-se no prédio uma praga de pombos em registo apocalipse. Não havia palavras para os cocós que se acumulavam num par de dias, o estado das varandas, a dificuldade de limpar os dejectos, os pombos a barulhar ao raiar do sol... quantas vezes o PAM subiu os estores para se colocar aos gritos às seis da matina, numa vã tentativa de espantar os pombos. No limite chegou mesmo a usar uma pressão de ar.

Acontecer isto num dia seria chato, agora imaginem todos os dias. Era altamente desgastante e perturbador do nosso descanso. Fomos usando várias estratégias, entre elas verdadeiros atentados ao bom gosto, como pendurar alguns compact discs na varanda esperando que o reflexo do disco em arco-íris afugentasse os bichos.

Entretanto, junto de médicos veterinários aprendemos: os pombos (além do inferno e da porcaria que provocam) são chamados de "ratos do ar", transportam todo o tipo de doenças como os ratos. E são animais fiéis, acasalam com a mesma parelha e no mesmo local a vida toda, pelo que livrarmo-nos dos casalinhos roçava o impossível.

Comecei a pensar em colocar uma cortina de vidro na varanda, recebemos a empresa em casa e um orçamento de três mil euros que soou como uma chapada. Não nos apeteceu fazer naquele momento, deixámos para outra altura. Entretanto a Carminho nasceu, colocámos vidros até ao peito na varanda das traseiras e as cortinas de vidro na varanda da frente ficariam para outra altura, quando a criança começasse a andar.

Várias vezes pedimos à administração de condomínio uma reunião sobre este assunto, mas foi-se falando em encontros casuais nas escadas e nunca aconteceu. No espaço de três anos em que isto se passou e com o drama dos pombos, algumas pessoas que eram contra as cortinas de vidro às tantas já eram a favor. Mas nunca se formalizou nada.

O último inverno foi generoso, os pombos quase desertaram, achámos nós. Não desapareceram completamente, mas a situação tornou-se quase suportável, tirando algumas manhãs esporádicas.

E então descobrimos, os pombos não tinham desertado! Apenas mudaram de varanda para a minha vizinha de baixo, para uma divisão da casa que não usa e que tem os estores fechados. O vizinho do lado começou a sentir cheiros, a ter o espaço dele sempre cheio de moscas, um dia debruçou-se na varanda para ver a do lado e deparou-se com um estado de calamidade total: inúmeras famílias, ovos, o aparato de fezes de pombo era tal que havia montes com um palmo de altura (literalmente). Era como se uma casa tivesse sido abandonada e largada aos pombos.

A vizinha foi então alertada, foi até à varanda da divisão que não usa, encontrou um problema de risco biológico. Teve de contratar um serviço especializado, daqueles que limpam cenas de homicídios, o que lhe custou 4.365,45€. Trocos!

Ora, isto não ia resolver o problema, isto apenas serviu para limpar a varanda, os pombos ali continuariam, o que também foi informação cedida pela empresa de limpeza. Então, falou com o administrador de condomínio (e vizinho do lado afectado) sobre a colocação de cortinas de vidro. Chamou uma empresa, mostrou o orçamento e tal, passaram umas semanas, a vizinha colocou as cortinas de vidro ao valor de 4.082,37€ e deu-se um "ai jesus" no prédio.

Honestamente, eu nem reparei nas cortinas de vidro colocadas. Já tinham passado alguns dias quando alguém reparou e deu o alarme. E ninguém reparou porque não existe impacto arquitectónico!

Uma curiosidade é que as cortinas não eram minhas por acaso. Desconhecia o que se passava no andar de baixo e estava prestes a avançar com as minhas cortinas de vidro depois de falar com a Câmara Municipal e de me informarem que consideram "uma obra sem relevância urbanística", não existindo uma alteração de estrutura e por isso não carecendo de autorização.

Safei-me por uma questão de semanas e deu-se no prédio um alvoroço numa troca de emails. Marcou-se uma reunião de condomínio que foi a coisa mais triste e degradante de ouvir, um desfile de umbigos enormes, completamente a cagar-se para o facto de eu ter expressado que a varanda me provoca ansiedade (vivo no último andar), expliquei que já encontrei as portas encostadas esquecidas por duas vezes e que a segurança da minha filha é fundamental para mim e para o meu bem-estar mental.

Igualmente, mostraram-se completamente a cagar para a necessidade de higiene da vizinha, tudo com o argumento de que existe uma "marquise" (que não é, isso obriga a uma autorização de obra) e o argumento de se um dia quiserem vender a casa, eventuais compradores podem desistir porque uma das varandas tem vidros. Isto mostra-se ainda mais estúpido quando o prédio tem TODO varandas diferentes porque é assim de origem.

Daquela reunião resultou por maioria (dos presentes) que a vizinha tinha de retirar a cortina de vidro, como se tivesse sido um mero capricho dela.

Juro, tinham de ir parar a uma cadeira de rodas, precisar de montar estruturas elevatórias nos espaços comuns do prédio, sentir o que é uma necessidade e ver um egoísta dizer "voto não porque acho feio". Achei tudo tão triste que me levantei com a desculpa de ter mudar a fralda à cria e abandonei a reunião, deixando o PAM na sala. Não deu para partilhar o ar com tanto egoísmo.

O tempo passou, a vizinha não aceitou o pedido de retirar as cortinas e esta semana recebeu uma carta da administração de condomínio a dizer que vão avançar com uma acção em tribunal. Eu nem sei se isto é legal, podem gastar o dinheiro do condomínio assim, à parva?

Aaaah, mereciam fezes nas caixas do correio e que eu mandasse colocar uma rede de protecção neon na varanda (não é preciso autorização para redes de protecção). Se não fosse apanhada, mandava o drone do PAM às varandas com tacinhas de milho para só assim perceberem como nos afecta na higiene e no bem-estar ter uma praga de pombos em casa. [No caso de algum vizinho me ler, como é evidente, isto é uma ironia].

Entretanto, em fevereiro escrevi este post em que me deram algumas dicas. Há quem pergunte o que diz o regulamento de condomínio (no caso do nosso prédio acho que não existe um regulamento) e quem alegue que a decisão de colocar cortinas de vidro tem de ser aprovada por dois terços dos condóminos. Mas, again, à nossa excepção só compareceram na reunião os moradores contra. Os neutros ou a favor ou não se pronunciaram ou pronunciaram-se sem efeito, pois tudo isto é demasiado burocrático, um simples "a favor ou contra" por email não chega, é preciso uma procuração e eu percebo, as pessoas têm mais do que fazer. Juro que percebo. E por outro lado, outras pessoas há que não sendo da importância na vida delas, não comunicam e desconhece-se se são a favor ou contra. O que opino como desconsideração.

Acontece que este argumento de ter de ser aprovado por maioria de condóminos não chega. A lei diz que o direito à habitação condigna tem protecção constitucional. Também existe o direito a um urbanismo ordenado, mas em caso de colisão, prevalece o que se considera superior.

Entretanto soubemos de dois casos em que o tribunal deu razão a quem colocou as cortinas de vidro, exactamente casos que reflectiam o direito à habitação condigna e de segurança com menores. Infelizmente não consigo obter os acórdãos para mostrar aos vizinhos e ver se poupam o dinheiro do condomínio para ser aplicado no que realmente precisamos, como lâmpadas, pequenas obras, etc.

Portanto, preciso de um/a advogado/a que seja uma barra nesta matéria, que já tenha tido experiências semelhantes anteriormente. E preciso ainda de precedentes em que tenha sido dada razão a quem quis colocar cortinas de vidro por motivos de higiene e/ou segurança. Alguém já passou por isto?


Nota: as cortinas de vidro são painéis de vidro amovíveis que podem ser todos recolhidos a um canto ou podem ser estendidos tapando a varanda e oferecendo segurança, diminuição do ruído, higiene, etc. Não é uma marquise, isso carece de autorização de obra, isto são vidros amovíveis que não carecem de permissão para colocação, no caso da minha Câmara. A estrutura resume-se a calhas aparafusadas ao tecto e chão, colocação de vidros deslizantes nas calhas e é só. No caso de ser necessário retirar só é preciso força de braços e desaparafusadora, não existe obra. No entanto, pelo que investiguei e por ser uma coisa nova, parece não ser igual em todo o país e cada Câmara vê a coisa da sua maneira.





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14.2.19

Novo projecto, weeee! ❤



Novo projecto! I'm so proud que não me aguento! 

Tal como eu, muitas mulheres não compram revistas. Passam os olhos, vêm muita fotografia, mas são pouco dadas à sua leitura. Pessoalmente, olho para algumas capas e já não aguento ser tratada como estúpida, ler sugestões infalíveis para orgasmos múltiplos, ler um artigo de duas páginas para cada 50 páginas de publicidade e ainda ler artigos com verdades absolutas cujas fontes são duvidosas. Dou um exemplo: há tempos li um artigo sobre depilação a laser, não sei com quem falou a autora, o texto além de incompleto era uma vergonha de informação. Sofrível. E quem não sabe leu isto a pensar que é informação útil, pensei na altura.

Depois do papel, as revistas digitais marcaram presença. Mas além de algumas sugestões de restaurantes e ideias para passear ao fim-de-semana que são interessantes, em termos de conteúdo deixaram muito a desejar. Não trouxeram nada que fidelizasse a leitura. Já não aguento ler o que se ouviu a bordo do barco da Soflusa, mais um texto sobre um dieta que a autora do texto nunca colocou em prática, nem sobre as fofocas dos famosos, se A está separado de B e detalhes sórdidos que não se percebe onde está o interesse da exploração da vida alheia.

Para onde foram os conteúdos interessantes que há uns anos se liam em blogues? Aqueles artigos sobre relações e vida pessoal verdadeiros que nos deixavam a pensar, que tinham sumo para nos inspirar? Desapareceram para dar lugar a conteúdos comerciais e, no caso dos blogues, deram lugar a redes sociais com fotografias, que é giro de ver, mas o conteúdo morreu. De vez em quando lá aparece um texto interessante, mas já não é habitual.

Para quem tem saudades de ler textos de tamanho certeiro, nem curtos nem longos, com bom conteúdo, eu garanto que vão encontrar esse registo que deixou saudades na LIIV. E, riam, o projecto é de uma antiga maçã que fazia parte deste blogue, a Liliana.

A Liliana é brilhante a escrever. Mas brilhante, daquela forma que me inveja. Acabamos um texto e ficamos a pensar nele, acrescenta alguma coisa ao nosso cérebro, aprendemos alguma coisa, nem que seja a construir um raciocínio em que se discorda. E eu não escrevo isto porque somos amigas (muitos anos a virar frangos, oh!, se soubessem!), mas escrevo porque é a minha opinião, porque gostava de escrever assim, porque acredito neste projecto e acho que fazia falta. Junto com a Liliana escreve a Sílvia, que não conheço pessoalmente, mas também tem imenso jeito para a escrita.

Acompanhei o processo desde a ideia, vi o site em construção, li os textos, opinei, dei ideias, está bom, bom, bom! Com temas que nos interessam, sem estar pejado de publicidade que a existir, é altamente seleccionada. A ideia não é aceitar quem paga, é publicitar o que é bom. E isto não é um projecto com uma redacção imensa, com valores comerciais a falar alto, com grupos empresariais a exigir resultados, o que faz toda a diferença no resultado dos conteúdos.




A LIIV é isto, conteúdos que vêm de algum lado e não porque um chefe mandou escrever. Ainda não li este texto que vem aí, mas traz qualquer realidade que também é minha. A LIIV é uma espécie de casamento entre um blogue e uma revista digital e eu tenho a certeza que vão adorar ❤

Amiguem-se do Facebook aqui ou do Instagram da LIIV aqui para irem apanhando artigos. 
Podem também subscrever a newsletter no rodapé da LIIV, para quem prefere receber emails.

E já agora, partilhem esta nova página com quem gosta de ler e com quem está farta dos mesmos conteúdos nas revistas habituais. I'm so proud! Deixem a vossa opinião, sugestões de artigos, a Liliana vai gostar de saber.





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18.9.18

Documentário: Bully



Bully, trailer aqui

Cruzei-me com este documentário no Netflix por acaso e decidi ver. Eu e o PAM ficámos num estado de tristeza e apreensão que só nos fazia suspirar. Todas as pessoas deviam ver este documentário, especialmente quem tem filhos. 

Pergunto-me se isto sempre foi assim, se não era assim e passou a ser, se sempre houve disto mas tornou-se muito mais comum e ganhou força ao receber um nome com um estrangeirismo. 

Imaginem a dor de um miúdo de 11 anos para quem ir à escola é um terror tal, que prefere matar-se. 

Qual é o miúdo de 11 anos que pensa em suicídio? O que é preciso fazer-lhe para sentir que essa é a solução e o alívio? Este documentário é absolutamente arrasador, coloca muitas questões, coloca o dedo na ferida, deixa-nos alerta e faz-nos querer estar mais por dentro do que se passa na escola.

Eu tive a minha dose de bullying, não na escola, mas onde vivia. Queria ser amiga de toda aquela gente e andar com os meninos populares. Eu via-os da janela, pareciam divertir-se tanto! Mas não estava autorizada a socializar com aquela gente (a minha mãe sabia o que fazia). Podia dar-me com as minhas vizinhas do prédio, tenho óptimas memórias desse tempo e por extensão delas, nas férias do verão comecei a conhecer algumas pessoas desse grupo num campo liso onde se jogava futebol e eu podia patinar quando não havia jogos. 

Não era o meu meio social. Nunca foi e eles sabiam. Sem que ainda hoje eu saiba explicar como aconteceu, como foi a cadeia de eventos, passei de uma pessoa que só queria fazer amigos e divertir-me com pessoas da minha idade (13 ou 14 anos) para ser motivo de gozação. Se estivessem em grupo e me vissem passar na rua, cantavam em uníssono chamando de "purgante". Para eles eu era o remédio para cagar. Se me vissem passar na varanda, ecoava o "purgante" pela rua outra vez. Cheguei a sair, a sentir a proximidade de algumas pessoas deste grupo nas minhas costas para me escarrarem na roupa. Tinha de voltar a casa, limpar e desejar que não me vissem outra vez para não me cuspirem.

Não era só eu. Ao irmão mais novo de um deles, com problemas cognitivos, cantavam "deficiente". O próprio irmão cantava isto e ria. Uma vida inteira colocado de parte, com problemas cognitivos e dificuldade na fala.

Isto foi há muito tempo, eu não fiquei traumatizada, mas magoou-me e nunca esqueci. E durante muito tempo morri de pena do rapaz que nunca mais vi. Nunca percebi como era possível os adultos permitirem que fizessem isto ao rapaz e hoje percebo que eram tão burros quanto os filhos. Não percebiam a extensão do problema, achavam que se tratava de um episódio sem importância ou não sabiam de todo. No documentário há um rapaz que nos faz doer a alma de tão maltratado que é pelos colegas. Tão maltratado que procura enganar-se a si próprio e tenta convencer-se que muito do mal que lhe fazem afinal é a brincar. 

Toda a vida odiei de morte os bullies. Quando vi este documentário, sendo mãe, eu não sei se não lhes ia à tromba. Eu acho que não me segurava. Por outro lado, bem sei, não podemos promover como castigo exactamente aquilo que condenamos. Então como se resolve? Não sei.

Toda a gente devia ver este documentário. E devia passar nas escolas, logo no primeiro dia de aulas. E todos os bullies reincidentes deviam ser expulsos das escolas. Ser o homem da câmara e filmar este documentário sem meter o dedo nas situações, deve ter sido das coisas mais difíceis que o gajo da câmara fez.

Neste documentário só faltou explorar um lado que nunca vi explorado como deve ser: os pais dos bullies. Sofrem com isto ou vem o argumento "o meu filho nunca faria uma coisa dessas"?

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4.9.18

Salvar o mundo com marmitas na rua

  


Eu quero muita coisa. E na minha lista interminável de coisas que quero, está perder 4Kg (ainda não estou realmente focada para o fazer) e reduzir o consumo de plástico ligado à alimentação diária. Já todos vimos ao longo do verão vídeos de praias completamente dominadas por lixo plástico (exemplo aqui), uma visão aterradora para mim que sou uma freak de reciclagem. Ao ver estes vídeos perguntei-me: apesar de ser cuidadosa, será que algum lixo que eu reciclo vai parar ao mar?

Vi também há tempos uma reportagem sobre a quantidade de paus de cotonetes que se vêem na praia porque as estações de tratamento de resíduos não as conseguem reter. Mas quem é que em consciência atira cotonetes pelo cano?

Acredito que quase todo o plástico que não é reutilizável deveria ser proibido. Devagar se vai ao longe: aboli caixas plásticas de conservação/refeição que não sejam reutilizáveis, reviro os olhos de cada vez que vejo uma palhinha (já acabei com elas há que tempos e até o Starbucks vai fazê-lo). Não quero ver copos, pratos, nem talheres de plástico. Com isto, tenho comido menos vezes na rua comprando fora, controlo o que como porque levo de casa (maior probabilidade de conseguir perder o peso que quero), poupo dinheiro e ainda ajudo o planeta.

#nãoépublicidade , já tinha escrito aqui nesta receita sobre as caixas de conservação da Tefal que descobri depois de me terem enviado um press kit (chamam-se Masterseal) e algumas leitoras colocaram questões: plástico ou vidro?

Oh, se eu tivesse conhecido há mais tempo! Quantas sopas verteram nas minhas lancheiras noutro tempo da minha vida… Nunca tive caixas de conservação tão boas, transporto-as na minha mala de cada vez que faço uma refeição fora de casa sem que uma única vez me tivessem dado um desgosto de fugas. Zero! Não absorvem cheiros e nem tingem.

Claro, podia ter optado pelas caixas da marca iguais mas em vidro (que também tenho e recomendo), mas confesso que para mim não é prático para fazer vida de rua, são mais pesadas e corro o risco de se partirem (e ficar sem refeição). Sinto que estou a ser amiga do planeta ao optar por reutilizar vezes sem conta as mesmas caixas de conservação.

Ainda sou do tempo em que ninguém transportava comida de casa para o trabalho, em que as pessoas quase se sentiam constrangidas a fazê-lo. Hoje em dia é mais do que comum, já ninguém liga e na verdade as pessoas juntam-se nas copas para fazerem as suas refeições. Lembro-me de ter tido alguns “desastres” nas lancheiras, de ficar chateada, mas nunca me lembrei que poderia ter evitado estes dramas se tivesse optado por adquirir caixas boas. Até porque também nunca pensei que existissem caixas verdadeiramente à prova de fugas. Vão por mim, vale a pena a aquisição.



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9.8.18

Publicidade em blogues: o horror - parte III


Publicidade em blogues: o horror - parte I, aqui
Publicidade em blogues: o horror - parte II, aqui


Estou dos dois lados da barricada: como blogue e como marca. E ainda como marca que tem relação saudável com outras marcas. E eu não sei tudo, mas sei muita coisa. E sei muito bem quem gera negócio e quem é fogo de vista.

Eu por exemplo, faço ofertas com as minhas marcas, não pago para aparecerem nas redes sociais, por um simples motivo: não trazem retorno. Através das minhas lojas online e em algumas campanhas, através de um código é-me possível saber quantas vendas geram cada uma destas autoras. E a verdade é que pelo menos para o meu tipo de artigo, pode valer a pena a oferta, mas não vale a pena o investimento financeiro ao valor que cobram os posts. Alguns exemplos estatísticos, rigorosos, retirados do meu sistema:

a) Em 2016 uma das autoras mais conhecidas do país gerou 18 vendas. Fazendo contas aos impostos, ao lucro, vezes o nº de peças, não compensaria nunca o valor de post que cobra. Mas a oferta de produto deixa-me contente e a quem recebe também, por isso, perfeito!

b) Uma autora que adoro de coração, tanto a pessoa como a página, quatro vezes mais seguidores do que eu, gerou uma venda. Uma venda. Neste caso não deu para pagar nem a oferta, mas gosto dela de coração, não olho a isso e continuo a oferecer. No entanto, sei ver que não vale o pagamento de um post segundo a sua tabela.

c) Uma actriz de novelas com milhares e milhares de seguidores, fez um post com umas sandálias. Uma foto horrível, atiradas ao chão, parecia que as sandálias tinham andado no caixote de lixo. Fiquei em choque com a falta de cuidado na apresentação, a falta de brio em querer fazer giro e em bom e, claro, podem imaginar que dali não veio nada. Zero vendas. E este é outro dos problemas que tenho tido, em alguns casos trabalha-se tão mal que me levou a desistir de ofertas. Não tenho paciência para ensinar bom senso, nem estas pessoas estão dispostas a ouvir/aprender.

Na verdade, uma vez fiz uma oferta a uma influencer com muito mais seguidores do que eu e pouco tempo depois vi-a vender no blogue as sandálias que lhe tinha oferecido. Ou outra influencer que aceitou a escolher um presente, publicou uma foto do bikini escolhido, mas sem qualquer referência à marca. Regra geral, sinto que se trabalha mal (e contra mim falo que estou atrasada em agradecimentos de ofertas).

Acho bem que as pessoas sejam pagas pelo seu trabalho, o problema aqui é que a larga maioria das influencers (não vou dizer o todo, mas quase) agem como sendo a última coca-cola do deserto, sendo que alguns preços são absolutamente injustificáveis para o retorno que geram. Poderia pensar que se calhar a questão está no meu produto, mas a qualidade, o crescimento das marcas, o facto de ter feito crescer a marca praticamente à margem das influencers, o facto de eu própria fazer muito pouca divulgação às minhas coisas hoje em dia, o facto de ter crescido bem ao ponto de já ter uma loja no centro da capital, faz-me deduzir que a questão não estará no produto.

Esta semana fiz uma série de convites para ofertas de fatos de banho e bikinis. Umas pessoas respondem que sim com gosto, há quem responda com alegria, "claro que sim, a apoiar a ROS desde o início!", porque gostam mesmo e valorizam receber uma oferta com um valor de mercado de cerca de 100€. Mas há quem não dê resposta ainda que me conheça, há quem recolha a oferta e goste tanto que compre outro e há quem responda "não trabalho a troco de oferta de produto nem faço testes de potencial" (autora com cerca de 115 mil seguidores). E eu percebo, juro que percebo, mas lamento imenso que daquele lado não considerem a possibilidade de não darem retorno.

Verdade seja dita, apenas uma, e apenas uma página com visibilidade valeu a pena pagar para mostrar a minha marca. E sabendo eu a verdade, por mim e através de outras marcas com os seus produtos, por que motivo haveria de queimar os lucros em investimentos que não oferecem retorno?

MAS - e notem neste "mas" - se alguma influencer acreditar que vende muito e em vez de um pagamento único quiser optar por uma percentagem do que vender, é já! Com isso, se de facto for uma influencer geradora de vendas em volume, pode ganhar muito mais do que o valor que cobra por um post.

Esta calculadora de Instagram está acessível a todos, basta colocar o nome da página de Instagram e poderemos ver um intervalo médio de valores por post nesta rede social e o engamentent rate. Notem que esta calculadora funciona com um algoritmo que tem por base as últimas 12 publicações e Agosto, pela afluência menor de seguidores, não será o melhor mês para medir com rigor. Mas vai-se a ver e o meu preço médio por foto anda agora por volta dos 65€, um preço que não me deixa rica e também não leva nenhuma marca à ruína (mas levou uma agência a responder "nunca mais falamos contigo!").

Pegando noutro blogue português conhecido, a média por foto ronda os 500€ e a Kim Kardashian está à vontadinha para cobrar entre 170 mil a 288 mil dólares por foto.

Mas é curioso ver que eu tenho um engagement rate maior que o da Kim Kardashian. Ou seja, a confiança que os seguidores depositam no que estou a dizer é maior. Mas perco na dimensão de escala, claro.

O que nos leva a outro tema da área em que muitas autoras são novas, não têm experiência de trabalho (embora tenham muita visibilidade), algumas são simplesmente mal-educadas e têm comportamentos inaceitáveis. Falo com muitas marcas e digamos que Portugal é um país pequeno onde se fala. Sei de bloggers que destratam pessoas que trabalham para as marcas (juro, fico maluca). Bloggers que vão a lojas querem fazer uma compra, não querem pagar e iniciam a conversa do "sabe quem eu sou?". Bloggers que num evento fazem uma cena constrangedora porque não têm cadeira, deixando as pessoas que estão a tentar resolver a situação a falar sozinhas, literalmente virando-lhes as costas e abandonando o espaço. Bloggers que chegam a uma banca num mercado, perguntam pela peça que escolheram e que a marca ainda não tem disponível, "eu vou de férias para a semana que vem, não esperam que vista o modelo do ano passado!". E eu juro, juro, já vi algumas pessoas desconcertadas, sem saber o que fazer, aflitas, porque trabalham para uma agência, representam marcas e têm de tratar todas estas pequenas nas palminhas. Eu já fui ter com algumas pessoas que estão a trabalhar e a levar com isto para dizer-lhes que lamento. 

Embora o Instagram esteja em alta, acredito que esteja ao mesmo tempo a começar a gerar desconfiados. São vidas perfeitas, viagens perfeitas, fotos perfeitas, rabos perfeitos, vidas fantásticas - que todos gostamos de ver e sonhar, sem dúvida! - mas onde é que isto nos vai levar? Qual é a próxima rede social, sendo que passámos de textos criativos a muito rabo com pouco texto? E estas pequenas que vivem da imagem, bonitas, jovens, corpos esculturais (meio caminho andado para conseguir milhares de seguidores), o que vão fazer quando se lhes gastar a beleza e chegarem outras mais bonitas? Viverão como influencers a mostrar o unboxing day até quando?

Há dias falava com um amigo mais velho que eu, trabalha em eventos, por força do trabalho dá-se com as camadas mais jovens convidadas a aparecer em festas, onde fazem stories "isto está o máximo, apareçam, alta festa!", para depois desligarem o telefone e dizerem "isto está uma seca, tenho de ficar até que horas?". Ou a magra gira e fotogénica que está fechada no escritório, deprimida, a fazer render as fotos das férias que acabaram há que tempos num registo "a vida é boa", mas na verdade, a vida está uma merda.

À parte das realidades inventadas, há ainda o mercado das it girls, as tais dos rabos (fantásticos) à mostra, onde tantas marcas investem, quando a percentagem de seguidores masculinos em busca de material masturbatório é enorme. São seguidas maioritariamente por homens e pitas que querem ser estas it girls, não porque lhes deram um voto de confiança na personalidade, mas só por serem giras, tesudas e, portanto, a capacidade de gerar negócio não garanto que seja má, mas deixa-me dúvidas. Ou as it girls nascidas no meio digital, com páginas espectaculares, mas seguidas pelas miúdas da sua geração, ainda dependentes dos pais e sem poder de compra.

Este não é um texto destrutivo ao trabalho das bloggers/influencers. De todo. Acredito mesmo que cada um deve ser pago pelo seu trabalho de alguma forma. Tenho a certeza que algumas autoras que eu sigo fazem um trabalho espectacular. Muitas têm uma enorme visibilidade, mas uma grande parte não compensa o investimento que cobram. A verdade é que Portugal é um mercado modesto, o poder de compra não é espectacular e por mais que achássemos interessante, nenhuma influencer portuguesa está para chegar sequer perto das influencers espanholas, com um registo completamente diferente e procuradas pelas casas de alta costura internacionais. Mas por outro lado, quando aí se chega, as redes sociais seguidas na maioria por comuns mortais, passam a dar ao dedo no telemóvel para sonhar alto, para um escape de uns minutos, não por serem potenciais compradores de modelitos que custam um ano de poupanças, quando antes era uma peça da Zara que quase todas podíamos comprar.

Em suma, os influenciadores devem ser pagos pelo seu trabalho? "Nim". Em muitos casos estas páginas envolvem muito mais que 8H de trabalho diárias, envolvem prestadores de serviços e até staff, devem sempre receber alguma forma de retorno, financeira ou na forma de produto (se no produto tiverem interesse). Mas a verdade é que à larga maioria falta-lhes ganhar consciência de que no mercado português e sobretudo para as PME, não valem o investimento que pedem.




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Publicidade em blogues: o horror - parte II


Publicidade em blogues: o horror - parte I, aqui


Depois de ter escrito o primeiro texto, chegou o momento da segunda parte, depois de esta semana uma agência de comunicação (em representação de uma marca que não terá conhecimento do que fizeram), me terem "retirado o convite" e avisado que nunca mais voltariam a contactar-me, após ter explicado por que tinha enviado um preço para as publicações que me contactaram a pedir. Recebi um mimo do tipo: "ai é? Ficas de castigo para  todo o sempre!".

Foi a primeira vez que uma coisa destas me aconteceu:



Honestamente, não faço ideia se esta resposta foi iniciativa de uma pequena imberbe num momento sem noção ou se foi de facto uma resposta mandada por um chefe ou até pelos donos da agência que me contactou (cujo nome vou omitir). O que tenho a certeza é que a marca envolvida não tem conhecimento de que me enviaram uma resposta destas.

Na dúvida, se foi a junior manager ou um chefe, dúvidas não existem para concluir que os colaboradores podem ser o melhor e o pior de um negócio. Debato-me com isto todos os dias, nas cenas mais básicas como ensinar que quando se atende uma cliente, não se passa a bola para a colega dizendo: "atende aqui a cliente, vou fumar um cigarro à rua". O sentido de noção que para mim é básico, infelizmente não é um dado adquirido para muita gente e tem de se ensinar. E o pior: a falta dessa noção básica, no limite, pode levar danos a um negócio.

No caso do email, não fico chateada por me terem tirado da lista das campanhas. Juro que me é indiferente, felizmente não me falta trabalho para fazer com gosto. Mas tendo eu negócios e colocando-me no lugar da marca (que vou omitir), enlouquecia ao saber que davam uma resposta destas. Esqueceram-se de um pormenor básico: ter influência é ter influência para o bom e para o mau. Calha eu não ser maluca, ter bons princípios e não ter vontade de assassinar negócios, mas imagine-se que eu era uma pita, que ficava enraivecida, não olhava com rigor, dava a marca pelo comportamento da agência e expunha nas redes sociais "olhem o que a marca X me escreveu!".

Bem podiam começar a gerir um momento de comunicação de crise. Já imagino a marca a pedir desculpa publicamente, dizendo que não se revê nas palavras da agência. E ao negócio da agência com essa e outras marcas, o que acontecia? Esta resposta foi mesmo de amador.

Não só de amador como a resposta foi parva. Eu não disse que não trabalho a troco de produto, porque o faço (com regularidade, até). Não faço é três posts fixos cheios de regras por produto, datas, indicações do que pode e não pode entrar na imagem, tudo com um valor de venda ao público de cerca de 8€. No entanto, no ano passado recebi um press release da mesma marca através de uma outra agência (civilizada), respondi a perguntar se não quereriam enviar-me alguns artigos, enviaram, recebi, divulguei e foi de graça. Ou melhor, foi a troco de produto.

Convenhamos, se a ZARA me propusesse receber um vale de 100€ em troca de mostrar as peças (o que já faço habitualmente), eu perguntava onde assinava. Se me exigissem 3 posts com regras e exigências a troco de um vale de 8€, eu não teria interesse. Para isso compro eu e não tenho obrigações.

A resposta continua a ser completamente parva quando nenhum blogue, nenhum, nem sequer uma página de publicidade ao valor de três mil euros na Caras, dá garantia de retorno. É um investimento. Só poderão medir retorno quando existe um código ou algum meio de consultar visualizações digitais que se podem estimar em vendas. E por entre as exigências que me foram enviadas, uma delas dizia que tinha de colocar o link de cada um dos posts numa qualquer plataforma, pelo que certamente iriam retirar algum tipo de leitura estatística.

Perderam completamente a noção. Podia ter corrido muito mal se eu fosse má pessoa, mas calhou eu ser só uma pessoa que não gostaram de ler. O meu email era construtivo, simpático mas verdadeiro e tenho pena que tenham lido como um ralhete. Poderiam ter optado pelo silêncio, poderiam ter respondido "compreendemos, mas não temos possibilidade", agradecendo. Podiam ter respondido "talvez numa outra oportunidade", agradecendo e apagando-me para todo o sempre. Faltou-lhes estaleca, mas serviu de inspiração para dar continuidade a esta série de textos.

Os blogues morreram. Já nenhuma agência quer saber do número de visualizações.
O Facebook morreu (ainda vai resistindo nos utilizadores entre os 30 e os 50, mais ou menos).
O Instagram está em alta, mas na sua maior parte vende ilusões. Vai cair e dar lugar a outra rede, só não imagino quando e em que formato.

Nunca quis viver do blogue (nem de nenhuma rede social), sempre me pareceu uma estratégia pouco consistente. Nada contra quem tomou essa opção, simplesmente para mim nunca fez sentido. Deixei-me ficar no canto onde estava, outras autoras que na altura estavam em pé de igualdade com a minha página, expuseram-se, criaram a substituição das novelas com infinitos stories e directos (que nunca fiz ou tenho gosto em ver), apanharam um space shuttle de visibilidade e têm hoje em dia muito mais seguidores do que eu.

Para mim, a partir de determinada altura, o que me fazia sentido era criar negócio e não gerar negócio para os outros. Em 2014, com a visibilidade que o blogue me dava, decidi abandonar a carreira de Assessora de Imprensa, apostei todas as minhas fichas para criar uma marca de sapatos. Correu bem, mas a intuição dizia-me que depois da crise, não podia ter apenas um só negócio. Tinha de diversificar para diminuir o risco de ficar sem nada. Fiz um novo investimento e em 2016 criei uma marca de fatos de banho. Somei outro negócio em 2017, um cabeleireiro de luxo entre o Marquês de Pombal e o El Corte Inglés. Em 2018 o crescimento ditou: abri uma loja para os sapatos e os bikinis numa das principais avenidas de Lisboa, com uma montra gigante para o Saldanha . E no meio disto ainda adquiri metade de um outro negócio que nunca comentei.

Na verdade não sei bem como isto tudo aconteceu, foi acontecendo. Não há dúvida nenhuma que estes negócios tiveram como pontapé de arranque o blogue. Olho para trás, acho isto um fenómeno inacreditável da internet e sinto-me sortuda que me tenha acontecido a mim. Mas do inacreditável volume de trabalho em que isto me fez mergulhar (o último ano tem sido particularmente pretty shitty) nasceu uma auto-traição: o tempo disponível rareou e o blogue, aquele que começou por me dar isto tudo, foi perdendo. Eu mergulhava nos meus negócios, Portugal começava a falar de influencers, as marcas começaram a desviar investimentos nos meios de papel para apostar nas redes sociais e isto começava a gerar verdadeiro dinheiro às autoras das páginas mais seguidas.

Hoje os blogues morreram, são neste momento meros acessórios das redes sociais porque estes formatos não convidam à leitura de conteúdo maior, vivem de imagens e muito pouco texto. Mas as pessoas gostam de ver fotos, sobretudo se forem boas fotos. Quem não gosta de folhear uma revista cor-de-rosa? Houve quem tivesse talento para fotografar ou visão para fazer um investimento e subisse em flecha.

As visitas aos blogues diminuíram, o Facebook passou a ser old school, as revistas foram diminuindo as impressões e algumas perceberam o rumo da coisa e aumentaram as suas versões digitais. Mas outras impressões em papel caíram de vez. Portugal disse adeus à Cosmopolitan em 2017, no Brasil esta semana a Elle e a Cosmopolitan anunciaram as últimas capas (entre outras revistas) e a editora Abril vai despedir cerca de 500 jornalistas (não se fala noutra coisa no Brasil). Um dos "culpados" apontado é o consumo das redes sociais e o interesse do público que passou das revistas para outros criadores de conteúdos, os influencers/bloggers.

Quando escrevi o primeiro texto, "Publicidade em blogues: o horror - parte I,", por curiosidade contactei algumas revistas em nome da minha marca para saber quanto cobravam por uma página de publicidade. É impressionante, ia de três mil euros numa revista cor-de-rosa, a 10 ou 15 mil € em revistas de moda e se fosse para aparecer numa capa, facilmente ultrapassava os 20 mil €. A minha pergunta era e continua a ser a mesma: no mercado português, não consigo compreender o investimento e duvido imensamente do retorno.

Do outro lado das revistas estão os blogues e influencers, com mais seguidores do que as revistas têm tiragem. Isto significa uma possibilidade muito maior de o público reparar numa marca porque a Maria das Couves diz que gosta (vou deixar de parte a possibilidade de ser uma publicidade falsa), enquanto na revista a página de publicidade é passada para o lado num dedo lambido sem que seja notada. As marcas redireccionaram os seus investimentos para o meio digital, as revistas em papel têm perdido recursos e fecham umas atrás das outras. Até o DN já só imprime ao fim-de-semana.

Todas estas influencers com 100 mil e 300 mil seguidores no Instagram (melhores realidades portuguesas), aquilo deu trabalho a conquistar! Aquelas páginas representam muitas horas de trabalho, de criatividade, de tentativas-erro, de investimento no tempo pessoal, de investimento financeiro e acho que devem ser pagas pelo seu trabalho. Mas é aqui que a porca torce o rabo.

Nos últimos meses tenho lido no instagram textos inflamados de meninas populares num registo ofendido "não me peçam para trabalhar de graça!", altamente replicado por outros blogues num grito de "capitalismo ao poder, não mais seremos exploradas!", "muito bem, é assim mesmo!", parecendo um manifesto em luta pelas 8H de trabalho diárias. Menos.

Enquanto ia lendo estes textos, suspirava. Eu compreendo e acho a "luta" aceitável em termos de lógica: as pessoas devem ser pagas pelo seu trabalho, isto é indiscutível. O que faltou neste manifesto foi dizer "eu tenho visibilidade, mas posso não justificar o investimento".


Continua com conclusão em Publicidade em blogues: o horror - parte III, aqui



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