Acho sempre querido quando um homem procura ajuda sentimental. As questões colocadas, a pedido do próprio, não são publicadas, apenas a minha resposta:
"(...) aquilo que me lembrei de imediato é que as pessoas tendem a complicar o evidente e, nos piores casos, a enganar-se a si próprios. Não tenha medo da minha resposta porque no final de contas, acho este e-mail não vai ser nem mau nem bom. Vou pedir-lhe que atente nas palavras que escreveu e que tente interpretá-las como se estivesse de fora, como se não tivesse assinado o texto.
O XY disse que "a relação corria bem até aos quatro anos e meio, onde começaram a existir algumas discussões se calhar normais, de casais que já se conhecem relativamente bem". O XY sabe que discussões não são normais, sobretudo se começarem depois de tanto tempo juntos, conhecendo-se bem um ao outro. Pense comigo: ao fim de tantos anos em comum é que é começam a discutir? A discussão (e pelo que percebi partia quase sempre dela) é um sintoma de algo que não vai bem. Esta é para mim a tentativa de engano nº 1, mas por favor não se ofenda com o que lhe digo nem tome as minhas afirmações como lei. Escrevo-lhe na medida das minhas experiências e do meu lado como mulher.
Enganamo-nos a nós próprios para que a realidade não seja tão cruel, para desculpar alguém que não queremos que tenha mudado, mas com isso só atrasamos a nossa vida. Quer-me parecer que o XY é uma pessoa pacífica e ela um vendaval, calculo que estivesse habituada a que lhe fizesse as vontades e quando não o fez tirou-lhe o tapete. Aliás, tomou a iniciativa de um afastamento, algo com que ela não contava de certeza. Mas XY, 3 meses é muito tempo e dá para muita coisa. Quando uma pessoa se afasta por uma semana ou 15 dias, tudo bem, mas 3 meses, ainda que com algum contacto, é demasiado. E quando digo demasiado não falo de regras universais, falo do tempo que lhe foi dado a que ela agisse, a que conhecesse um mundo no qual está ausente e a que se habituasse à distância e à ausência. Somos todas diferentes, mas o que custa são as primeiras semanas. Depois, dependendo se se fica em casa a carpir ou se sai para descobrir o que há lá fora (o que ela parece ter feito), vem a mudança.
O XY diz que o sentimento não pode ter desaparecido em 15 dias porque ela fez uma tentativa antes da sua nesse horizonte temporal, mas tem de se lembrar que deu ao sentimento 3 meses para se gastar e o que pode ter ficado afinal não era sentimento, mas sim orgulho ferido, o que a leva a rejeitá-lo quando consegue o que tanto parecia querer, quase como quem diz "agora já não tem graça".
Não me leve a mal mas, não sei porquê, através do seu texto algo me leva a querer que ela será algo mimada, a ter sempre o que quer - não que isso faça dela boa ou má pessoa - mas se assim for confirma a suspeita de querer só para depois largar, não digo por maldade, mas por questões e necessidades humanas que me ultrapassam.
"Estive uma última vez com ela, faz um mês agora, para lhe dar umas coisas a pedido dela. Não se aproximou de mim mais do que um metro, não me cumprimentou, nem tão pouco agradeceu o facto de eu ter ido lá levar-lhe as coisas. Pedi 5 minutos e tive-os a muito custo", isto são atitudes de quem não quer mesmo estar consigo, a não ser que se trate de uma sonsa que quer é vê-lo de rastos implorando pelos 5 minutos. Para quem tem 32 anos e, calculo eu, queira ser mãe a médio/longo prazo, ela parece ter uma rede de defesa. Sabe aqueles baloiços de circo lá no alto? Uma pessoa atreve-se a maiores acrobacias se souber que tem uma rede que a segura lá em baixo, a sensação de que nunca cairá no chão. E é isso que me parece, que há algo que lhe é omitido que lhe dá uma grande segurança e, normalmente, sobretudo depois de relações longas, é uma terceira pessoa.
Não sei se é seguidor do meu blog, mas eu acredito muito numa coisa que é a seguinte: quem gosta está, quem não gosta não está. Não há amuo que dure indefinidamente se a pessoa realmente gostar da outra (...)
E o XY, acha mesmo que gosta assim tanto dela ou tem um sentimento de perda? Todos estamos sujeitos a errar, mas não acha que se fosse assim tão arrebatador não teria aguentado tanto tempo longe dela? Pense nisso, até que ponto o hábito e o sentimento de perda não estão a falar mais alto, confundido-lhe os sentimentos. Já passei por isso. O meu melhor conselho é que seja claro e transparente olhos nos olhos, sem margem para dúvidas. Não lhe permita birras nem fitas, leve tudo o que tem dela, apareça-lhe e diga-lhe que gosta dela, que lamenta o que aconteceu e que está arrependido, mas está ali para recuperar o que havia e não vai andar a sofrer nem a remoer a hipótese de não ter lutado o suficiente. Assim, prova disso, ali está à frente dela, para que lhe diga que sim ou que não de uma vez por todas.
Se optar pelo não, entrega o que lhe pertence, explicando que não tem mais motivos para o contactar, partindo à sua vida. O destino ditará se um dia poderão ficar amigos ou não mas, a acontecer, não vai ser em pouco tempo. Ou então seriam os primeiros. E na verdade isso não é importante, porque lhe iria saber sempre a migalhas o que ela teria para dar, seria apenas uma fonte de sofrimento e, essa, o melhor é cortar pela raiz. Se ela lhe disser que não, diga-lhe também que não, desapareça da vida dela informando-a disso mesmo e proibindo qualquer contacto.
Chore o que tiver para chorar e um dia tudo mudará. É sempre assim, não querendo reduzir a sua situação a uma frase, estas histórias, também minhas, são sempre iguais, só mudam os pormenores. Ou como costumo dizer: a merda é a mesma, só mudam as moscas. E lembre-se sempre que - "se não a puder ter de volta, existe uma coisa que me consome ainda mais que é saber que sou odiado pela pessoa que mais amo, sem ter merecido isso" - se ela o odiar algum dia, foi porque assim tristemente decidiu, porque é garota, porque a si é que não lhe deu o devido valor e não o contrário.
Disponha,