7.4.14

O outro lado do Brasil

Aviso: este texto tem algo de impressionante, pode ferir e deixar incomodados os mais sensíveis.


Estive no Brasil.

Muitas apostas se fizeram para saber em que país da América do Sul teria ido em busca de oportunidades de vida. Houve até uma leitora que me escreveu "não nos deixes, por favor!", mas eu fui num pé e voltei no outro, demorei cinco dias e se em parte fiquei maravilhada, por outro lado vim absolutamente horrorizada.

Já conhecia o Rio de Janeiro e Pipa, desta vez estive mesmo no sul, quase na fronteira com o Uruguai. O Brasil é um país fantástico, mas tem tanto de maravilhoso como de horrível. O maior problema desta terra: a segurança. Ou melhor, a falta de segurança.

Fui em trabalho, à procura de locais onde pudesse investir para o meu projecto que darei a conhecer este verão. Fui com um parceiro que estabeleceu contactos, alguém que conheço há pouco tempo. O Poisoned Apple Man não pôde acompanhar-me, o que me custou. Mas a vida é assim mesmo, temos de construir o caminho, procurar oportunidades profissionais e não podemos fazê-lo dependentes da presença do marido ou da mulher.

Não fui sozinha, mas senti-me a viajar mais ou menos sozinha. Não sou uma pessoa mariquinhas, mas também não sou inconsciente ou medrosa. O Brasil é uma terra rica, com tanto para dar, tão maravilhosa, e no entanto tão pobre e miserável. Quem tem dinheiro, tem mesmo dinheiro. Estive em casas que davam capa de revista, fui recebida de forma espectacular, deram-me de comer mesmo bem, não podia ter pedido melhor recepção.

Mas andei em carros de vidros escuros, pretos, fiz caminhos mais longos para não passar em certas estradas, avisaram-me para não ter medo se seguissem na estrada e não parassem nos semáforos, pois era normal. A minha ida obrigava-me a deslocar-me na estrada e eu detestava andar na rua.

Ali, as auto-estradas são um perigo, cheias de buracos. Em algumas estradas, em caso de acidente, ali pode uma pessoa ficar quatro, cinco horas, o dia inteiro numa fila. Não existem estradas alternativas nem saídas por onde fugir. Também não se fazem 5Km sem encontrar um animal morto. Sejam animais de estimação ou pequenos animais selvagens, nunca na minha vida vi tantos animais atropelados na estrada. Imensos. Perguntei se eram recolhidos alguma vez, não sabiam dizer, mas a decomposição trata.

Os limites de velocidade não são propriamente respeitados e as pessoas atravessam as estradas. Sim, as pessoas correm no meio das estradas. Dão uma corrida para atravessar no meio de dezenas de carros em aceleração. O meu corpo ficava duro de stress cada vez que via ao longe uma pessoa a atravessar entre carros. Quantas vezes levei o pé ao travão como se fosse eu a conduzir. No último dia, quando achava que já tinha visto tudo sem que conseguisse criar habituação, vi uma mulher dar corridinha a atravessar a estrada, empurrando um carrinho de bebé com uma criança de cerca de um ano sentada que agitava na mão um qualquer boneco. Até fechei os olhos.

Há quem tente vender água e frutas no meio deste caos das estradas. Não sei quem pára, nunca se sabe se não é uma emboscada. Também pode ser um pai que apenas quer dar de comer aos filhos. E uma pessoa fica de coração pequeno perante estas vidas miseráveis, numa linha que separa a segurança do querer ajudar, com sentimento de culpa de ter refeições todos os dias, de ter o luxo de ter mais do que um par de sapatos, de me besuntar em cremes caros, eu que tenho a oportunidade de ir ali investir o meu dinheiro. É depressivo.

Nestes trajectos, todos os dias tinha de parar numa portagem. No último dia estava tudo parado e quando olhei bem, percebi: ali estava parada uma carrinha de recolha de dinheiro, uma série de homens armados, armas enormes e automáticas, eles costas com costas e olhar de águia, como que fazendo um só corpo com olhos à frente e atrás. O que observei era digno de um cenário de guerra, mas era uma dia normal. Como que ao longe dentro do meu carro, ouvi: "esta é a pior altura para estar aqui. Um dia, há uns anos, cheguei aqui e fiquei quatro horas. Tinham explodido a portagem para tirar o dinheiro". As portagens não são automáticas, ali trabalham pessoas. Nem quis saber o resultado de tal explosão. Naquele momento achei que dali podia sair qualquer coisa, eu só queria pagar a correr e ir embora.

Das pessoas que conheci, as que viviam bem, todas elas tinham histórias de terror para contar. Todos já tinham sido raptados, eles, algum familiar próximo ou amigos. O objectivo: os resgates. Um levou uma tareia e foi metido na bagageira do carro quase um dia inteiro à espera que a mulher deixasse uma mala com dinheiro em sítio combinado. Outros tinham sido feitos reféns recentemente, dentro da própria casa, com a família e crianças pequenas, enquanto os bandidos "limparam" o que conseguiram. Alguns, era evidente, apresentavam um stress traumático que os impedia de estar sozinhos. Perguntei se nesses casos faziam queixa à polícia, mas nunca o fazem. É mais perigoso, daí surgem as retaliações porque uns estão feitos com outros. A polícia é para ter medo. Alguns têm mais medo da polícia do que dos ladrões, o que para mim é um sentimento completamente esquizofrénico. O meu conceito de "polícia" é protecção.

As casas estão rodeadas de grades altas. Ruas inteiras de casas com grades. Algumas têm grades electrificadas. Os vidros dos carros têm de ser escuros para que não se veja quantos vão lá dentro. Os trajectos são escolhidos a dedo conforme a hora do dia, o lado de fora das casas está controlado por câmaras e até almocei numa fazenda, com uma sala de jantar gigante, onde estavam enormes televisões com o monitor divido em quadradinhos, cada um com a imagem que dava determinada câmara do lado de fora. Eu almoçava e controlava as câmaras. Tinha um olho na picanha e outro na televisão.

Onde há dinheiro, há perigo. Mas até estar ao ar livre, sem quaisquer sinais de riqueza, é um perigo. Das coisas que mais me choca no Brasil é o valor da vida humana, que é pouco ou nenhum. Num compasso de espera pela hora de ir jantar, no meu quarto de hotel, cometi o erro de ligar a televisão. Da mesma forma que por cá temos a SIC Notícias, com notícias 24h/dia, por lá existem canais dedicados ao crime do país. O zapping levou-me à desgraça.

Foi assim que soube que na semana passada, em São Paulo, começaram a ser encontrados partes de um corpo masculino desmembrado, metido em sacos de plástico e deixados no meio da rua para que fossem encontrados. No dia em que aterrei no Brasil, a cabeça tinha aparecido no centro da cidade, num parque onde circulam crianças. Voltei e (estupidamente), tenho acompanhado o caso através da Folha de São Paulo. Hoje que escrevo o texto vejo que "falta ainda encontrar a bacia, com os órgãos genitais e as pontas dos dedos". Embora não queira saber, há um lado de mim que quer estar informada. Aquilo que eu espero ver em filmes macabros que tiram o sono, no Brasil é a vida real.

A televisão ainda falou de um caso em julgamento, um tipo que seguia de bicicleta com uma arma no bolso e escolhia uma pessoa para matar. Isto passou-se na cidade onde eu estava e durou que tempos até ser apanhado. Não sei quantas pessoas matou. É a verdadeira roleta russa, não é assassinato por ajuste de contas, não é crime passional, não é fruto de relações conjugais ou familiares desavindas, é uma questão de sorte ou azar, o perfeito desconhecido que faz a sua rotina de casa para o trabalho e vice-versa que se vê no fim da vida por uma criatura que retira prazer disto. Desliguei a televisão, chamaram-me para jantar e nem me apetecia pôr os pés na rua.

E depois há picanha, feijão com arroz, rabanetes cor-de-rosa, o melhor abacaxi que como é sempre de lá, pequenino e sem acidez, o melhor gelado de avelã que já comi está lá, o jeitixinho brasilêro, a cultura diferente, a língua tão semelhante, a recepção calorosa, o calor, a vegetação, o café da manhã, suco de acerola, cajú, as praias, o samba, Seu Jorge, Rita Lee, Havaianas, calor, há tanta coisa boa!

Nos próximos anos a vida vai levar-me ao Brasil. Este está longe de ser o sítio mais perigoso do Brasil, mas é um país muito diferente do nosso onde o perigo sempre espreita e todo o cuidado é pouco.

No regresso, assim que fiz o check-in e ouvi falar português de Portugal no aeroporto, senti uma sensação de alívio e conforto inexplicável. Estava feliz por regressar, por voltar à minha rotina, à minha vida com o PAM, a família e aos amigos. Voltei e senti que Portugal é um paraíso.



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© A Maçã de Eva

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