30.5.09

Do you remember? #54



Frank Sinatra - I've got you under my skin - 1936

(sugestão enviada pela Cheila)

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

27.5.09

Verdade #47

"I guess I’m loosing faith in Humanity. I mean, can two people really stay together forever? I need to know that is possible."

Juno

25.5.09

Amor e o seu final

Ganhei o braço de ferro, venci a resistência à compra dos crepes que guardei este tempo todo com medo do lamento e da saudade que me podiam provocar. Os crepes que preparavas para mim ao pequeno-almoço, o leite que às sete da manhã deixavas de fora para se encontrar com a temperatura ambiente e não me fazer mal à garganta, afinal já tinham sido comprados por todos. Foi quando rendida à falta de stock dei meia volta e o alperce cruzou o meu caminho junto ao pés, rolando para baixo das estantes frigoríficas. Mesmo ao meu lado, uma criança com cara de Marta, denunciou a expressão mais comprometida. Fui em frente, sorri cúmplice, não ia contar a ninguém.

A Marta não sabe que me perguntei o que seria da vida dela daqui a uns anos. A Marta não sabe que atento nos pormenores, que me pergunto o que mais ninguém se lembra nas situações a que mais ninguém ocorre. A Marta não sabe que é com frequência que me lembro daquele casal tão velho quanto velho se pode ser, deitado numa cama que já teria atravessado gerações, rodeados de molduras com retratos a sépia que já nem todos se lembram quem é quem, dos cogumelos que teimavam em crescer no tecto, do calendário amarelado e já com vinte anos que terá permanecido na cozinha porque deviam era gostar do desenho dos cisnes, do verniz escarlate comido pelo tempo nas mãos da senhora que, diziam, já não dá de si. Faziam-me crer que ela não entenderia nada do que se passava, e eu nunca me convenci.

Nas mãos de ambos estavam marcadas o matrimónio, as bodas de ouro e prata. A mão dele, não conseguia nem levantá-la para pedir ajuda a uns pulmões que se apagavam e a um coração gasto. E ela ali permanecia, deitada ao lado dele na cama, com os dedos cruzados sobre o peito a olhar para o tecto, sem nunca desviar o olhar porque não dá de si, mas para mim, como quem olha para Deus e pede, se mo levares, leva-me também, sempre sem se incomodar com o que se ia deixando por cima da cama, os tubos que se puxavam, as máquinas que se ligavam e sem dar conta do sobrinho que, sentado num sofá que o tempo indefiniu a cor, mostrava a paz de quem está preparado, de quem sabe, o pior está a uma questão de minutos.

Tentou-se. Desfez-se um casal, quebrou-se um amor, ficou um corpo morto ao lado dela que ali permanecia, com as mesmas mãos cruzadas sobre o peito, sem ninguém que lhe pintasse as unhas velhas e tortas, sem o marido de toda a vida, com o olhar fixo no tecto e sem uma lágrima. Ela não dá de si, continuavam, mas eu sabia que o coração sabia, naquela minha mania de quem tem um dom, o de ver mais do que está à vista, o de adivinhar o que está por detrás de um corpo inerte. Amar não se vê, sente-se, e amar uma vida inteira transcende tudo o que posso saber. Levou-se um corpo, ficou a saudade, a raiva, o deveria ter sido eu e não ele, as memórias e, em mim, a crença de que quando se quebra um amor de uma vida inteira, partirão os dois em pouco tempo.

A senhora do verniz carcomido morreu, não lembro se seis, se sete dias depois.

A Marta que faz rolar alperces no chão é pequenina, não sabe que a dor de amor pode ser tão psicossomática que é capaz de levar uma vida. Aos meninos como a Marta, contam-se histórias de finais felizes que, na verdade, não existem. É que o amor quando é verdadeiro, tem sempre um final trágico.

23.5.09

Do you remember? #53



The Cars - Drive - 1984

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22.5.09

Consultório #14

Olá X.,

antes de mais, deixa-me dizer que lamento a tua situação. Desculpa o tempo que tardei em responder-te, mas queria fazê-lo com dedicação e cuidado, o que me obriga a ter de arranjar tempo para escrever linhas que não se querem curtas.

Ao ler esta troca de e-mails, a primeira coisa que não faria era pedir desculpa pelo quer que fosse. Uma pessoa que desaparece e aparece, algo que já tive na vida e sei o nefasto que isso é, não merece coisa nenhuma. Nem um pedido de desculpa e muito menos uma declaração, que é o que consta no fim do teu e-mail. Disseste-lhe, por outras palavras, que estavas apaixonada por ele o que, desculpa se te magoo na minha franqueza, era claro que não era recíproco.

Com o tempo aprendi que quando um homem quer verdadeiramente uma mulher, não há nada que se meta pela frente, não há falta de saldo no telemóvel, não há volume de trabalho ou situação familiar que o impeça de obter o que procura. Um homem movido pelo coração é mais insistente que uma mulher.

Tenho muita pena, mas é como disseste, as respostas sempre estiveram lá. Um homem que aparece de vez em quando para dormir contigo não é um homem apaixonado, mas quando uma mulher gosta faz de conta que essa não é a verdade ou, pior, aguenta-se na esperança que o sentimento se torne recíproco, o que é do mais destruidor e desgastante que há, digo-o por experiência própria. Não te ofendas, mas pelo que li, das duas uma: ou és muito nova e faltam-te algumas "ferramentas" ou não viveste algumas coisas que se tornarão fundamentais na aprendizagem que carregam.

Uma coisa é certa, por muito ridículo e doloroso que te possa parecer, no final de contas tens muita sorte pela sinceridade com que te respondeu. Embora não fosse o que desejasses ler, a verdade é que ele não deixou qualquer margem para que tivesses dúvidas. Para ele foi bom enquanto durou, mas sempre pensou que a relação sem compromisso era a vontade de ambas as partes, era apenas isso que procurava em ti. E nunca pensou que teria de dar uma justificação porque a relação parecia não exigir isso. Foi sincero o suficiente para te dizer que apareceu alguém, o que é raro, pois na maioria das vezes um homem procura manter as suas conquistas em stand-by, não vá o Diabo tecê-las.

Com esta atitude, está a ser mais que claro que não tem qualquer intenção de voltar atrás e, mais, pede-te desculpa por não ter correspondido, desejando de coração que encontres alguém que te dê o que procuras. E eu sei que dói muito, mas quando um homem deseja isto a uma mulher com quem se relacionou, não há volta a dar.

Parece-me que está entretido na vida dele, que te tem em boa conta, mas não está nem nunca esteve próximo de se apaixonar. Deverias pensar seriamente se o que te dói é um sentimento por ele que não vês realizado, se é a sensação de abandono, de uma felicidade amorosa que desejas, mas que tarda em chegar. Afinal, o que é que este homem te deu para que o quisesses tanto? SMS sem resposta, falta de atenção, falta de cuidado, aparições esporádicas e apenas quando a vontade dele ditava... e é isto que queres para ti? É que claramente ele fez sempre a vida dele e em momento algum foste prioridade. E isso é bom? Pensa com franqueza, dói a perda dele ou um sentimento de abandono associado a algo que te faz falta?

Com o tempo aprendi que ninguém muda, que isso que lhe disseste de achar que tudo está mal porque ele ainda não teve tempo para conversar contigo, não existe. Eu tenho enfatizado no meu blog que quem gosta está e quem não gosta não está, preto e branco, sem áreas cinzentas. Quando duas pessoas se apaixonam há sempre tempo e as conversas acerca do que os move surgem naturalmente e repetem-se diariamente.

Aprendi da forma mais dura que se nos primeiros 15 dias um homem não mostra estar de acordo com os nossos desejos, é correr com ele imediatamente, antes que seja tarde e um sofrimento maior nos bata à porta. Também aprendi que a distância, o cortar de relações e não procurar saber absolutamente nada desse alguém é a forma mais rápida de esquecer, de aliviar o sofrimento, de começar a levantar a cara e deixar que apareça alguém que se revele à altura do que somos e temos para dar. Não é fácil, claro que não, há que chorar tudo, deixar a revolta amansar e ir levantando a cara aos poucos. E pensamos sempre que nunca vai aparecer alguém, mas aparece sempre.

Céus! O que passei com uma pessoa como ele durante três anos. Demorei para perceber, cada um tem a sua resistência às evidências, mas curiosamente esta foi a pessoa que trouxe a firmeza e determinação que precisava para encarar e correr com quem não presta no mais curto espaço de tempo possível. Hoje tem o nome de Defunto, não sinto por ele nada mais que pena, porque é uma criatura que será sempre infeliz, e não tem autorização para me contactar nem que precise de sangue.

Sei que as minhas palavras servirão de pouco, porque a teoria também já a ouvi muitas vezes de pessoas que sabem mais que eu. Mas não há nada a fazer, somos seres humanos e, como tal, imperfeitos, temos de viver na pele para aprender e com isso crescer. Desejo-te de coração que tudo passe o mais rapidamente possível e, tenho a certeza, daqui a um tempo quando olhares para trás vais pensar que não valeu a pena sofrer por uma criatura que, na verdade, não te trouxe nada de especial, apenas a esperança de viver um amor, o que era uma ilusão. Daqui a uns tempos verás que essa pessoa não tem qualquer importância.

Beijinhos,

Poisoned Apple

20.5.09

Dos pontos luminosos, dos manjericos e dos porcos

Perco a conta às vezes que olho para a vista da esplanada, na noite alta e no lugar do costume, perguntando-me se de entre os milhões de pontinhos luminosos se vê a casa de quem me tomará o coração para fazer de mim, de uma vez por todas, alguém feliz. Cada vez sei menos, não falo a mesma língua que a minha geração, não sou deste tempo nem do de ninguém. Sei muito mais de amar do que de ser amada e sobrevivo na esperança que cesse, que a vida se faça mudar, pensamentos já tão repetitivos que, desta vez, toco ao som da marcha que treina a sua descida pela Avenida da Liberdade, um esforço de quem busca, como eu, um lugar de destaque. Sei que as sementes dos manjericos que não vou ganhar já terão sido lançadas, manjericos que vou afagar e cheirar com a mão do cigarro, que tenho gelada por causa de um falso vício que não é mais do que alguma companhia, enquanto aqueço a outra mão no bolso do casaco e brinco com o forro descosido de quem ainda não teve energia para o coser. É o quente e frio espelho das minhas fases, do segura e larga, do vem e vai-te embora, dos pontos altos e baixos, da instabilidade típica de uma futura menopáusica, a simultaneidade da gargalhada e da tristeza, do sorriso e da cara fechada, do calor e do frio, a cruel instabilidade de quem já passou a fase do choro, de quem já não sente saudade e procura encontrar uma nova vida no meio de coisa nenhuma. O pensamento dá-me mais questões que respostas, os casais beijam-se nas minhas costas e eu pergunto-me porque é que mereço isto. Outros dão a mão, atento nos detalhes, oiço a conversa que traduz o alarmismo da gripe suína e depois de dois cigarros resta-me voltar a casa a pensar que esta é mesmo uma fase que sente quem tem passado a vida a dar pérolas a porcos.

18.5.09

Paralelos ao peito

Engoli um paralelo, o meu corpo ganhou caruncho até aos ossos, os dias parecem ter mais horas que o habitual. As noites e os fins-de-semana são verdadeiras provações, sacrifícios e literalmente espero que as horas passem. Nestas alturas, o mal do tempo é que leva muito tempo a passar. Os ponteiros de relógios riem-se, como se lhes tivesse mordido, vingativos que se juntam ao que vai em mim e me tornam profundamente infeliz.

Queria eu ter o dom da palavra, poder descrever como é sofrer de amores, na esperança que isso expiasse o pesado paralelo de calçada portuguesa que engoli, vomitar o coração, órgão que se faz sentir no peito quando todos os outros arrumados no tronco não dão conta da sua existência. O coração tem de ser o centro de tudo para que eu o sinta o bater do desgosto como se tivesse subido uma escada em correria, para que nunca me deixe dormir uma noite sossegada. Sofrer um desgosto é não ter uma noite tranquila por muito tempo, é adormecer e de repente, a horas obscenas, abrir repentinamente os olhos como um morto que volta à vida, como quem sentiu um punho fechado bater na garganta. Sofrer de amores é sentir espamos frios no peito, é ter mais água nos olhos do que água tem o Tejo, é abri-los como quem acorda com um susto, o estrondo do bater de uma janela. Sofrer de amores é constatar que nos falta um membro, que afinal não é bem um membro, mas é também parte de nós. Sofrer de amores é pedir a Deus que nos leve durante o sono na esperança de que, finalmente, se acabe a tristeza que arrendou espaço debaixo da pele. É querer fugir de todo o convívio, segurar as lágrimas nos sítios públicos, ir buscar força onde não a há e deixar que as comportas se abram, escondida, quando o peso da água se torna insuportável. Sofrer de amores é não ter como explicar o quanto dói, é ter uma dor física quando não se está doente, é ter um vocabulário insuficiente que o explique, é perguntarmo-nos porquê?, é perder a paciência para quem não merece a falta de cuidado.

Desenham-se noites de namoro perdidas no mais afrodisíaco elemento, o calor. Contam-se já seis verões em que não compararei o tom dos meus braços com os de ninguém a quem pertença verdadeiramente, mais noites de calor sumidas no calendário a quem não darei o que julgo ter de mais especial: o meu amor.

Carrego um arrependimento espinhoso e a falta de sentido obriga-me ao atropelo das lembranças. Não tenho vergonha de sofrer, pois o que vai em mim só existe porque o que tinha por ti e contigo era especial. Tenho apenas vergonha de me ter deixado iludir, eu que já tanto devia saber de pessoas como tu. Contas feitas, resta o consolo de que quem perdeu foste tu. Eu perdi alguém de carácter duvidoso, tu perdeste quem ficaria do teu lado o resto da vida.

Lisboa, 20 de Abril de 2009

17.5.09

"Adoro-te!"

E não é que há quem adore A Maçã de Eva? Mais um prémio, este entregue pela Miss Kin!
Obrigada!

16.5.09

Do you remember? #52



Art of noise - Moments in love - 1983

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15.5.09

Nabi Rahim Mussa Gulamo Fakir

Mulher prevenida vale por duas. Se eu desaparecer do mapa, se não deixar rasto, se me encontrarem esquartejada, que é como quem diz às postas, numa mala de viagem atirada ao Tejo, se me tiverem arrancado os dentes e as impressões digitais para que os CSI portugueses não possam identificar-me, foi este o homem que me matou.

Quando uma mulher acha que a vida não pode ficar pior, aparece quem nos ameace de morte de forma escrita, ou seja, pensada, me acuse de ser uma "branca nazi do caralho" junto com a entidade patronal, palavras que me lembram que sem dúvida é o momento para abandonar este ofício que apresentou sempre uma dissimulada abertura ao perigo. E protecção garantida à princesa? Guarda-costas? Nada, isso não é nada...!

Devo lembrar que nesta que é a mais linda carta de amor de sempre, o homem que desconheço é claramente muçulmano. Ora, muçulmano - Bin Laden - Twin Towers - Atocha - Londres - terrorismo - muitos mortos - ai, ai...

Tudo normal nesta vidinha parada. Confesso que preferia a queda de um OVNI no jardim e agora tenho de andar na rua com medo a controlar tudo.




E se me põe uma bomba no princesa-mobil...? Fios eléctricos ligados à fechadura de casa? As possibilidades são múltiplas!

14.5.09

Há sempre alguém

A minha caixa de e-mail tem-me reservado algumas surpresas. Há sempre alguém que gosta de nós de forma especial, há sempre alguém que nos faz convites tentadores, há sempre quem mande um sms quando a cabeça deita na almofada, sinais de vida nascidos no silêncio e no escuro, eu estou aqui, não fiques triste, mas a tristeza deixa-se ficar, resistente. Se desapareço, logo me vem buscar, se respondo torto, vem fazer as pazes que eu devia ter feito.

Há alguém que traz no coração um sentimento por mim que me consola, mas não me retira o vazio. Talvez com o tempo, tal como aconteceu com quem para trás ficou.

"Chega até ti um abraço invisível e sem que notes envolve-te.
Algo te faz levantar os olhos,
não há ninguém.

Mas o corpo aquece,
algo se passou.

Era eu".

12.5.09

Back to the old days

Recordo com saudosismo os velhos tempos, em que o ano numérico começava por um e por nove, tempos que pertenciam ao século passado, com vista para um futuro promitente, cheio de novidade. Tempos a que fiquei presa e, hoje, me fazem pensar que qualquer pessoa que nasceu pelos anos 80, terá por volta de 12 ou 13 anos. Quem nasceu pelos anos 90 não terá mais de dois ou três anos. Fiquei-me lá atrás, como quem não arranca as páginas ao calendário, porque este tempo não é o meu, embora não saiba se o tempo que atrás ficou seria o meu tempo.

Sinto saudade da falta de questões que nunca se me colocavam para além do que seria o jantar, se havia morangos ou que brincadeiras me reservavam o dia. Foram tempos em que o Twix ainda se chamava Raider, que o Sundy, tão alegre como o sol que até fazia saltar os cereais, ainda existia e os Sugus eram mais pequenos. Os CD's eram coisa quase rara, o E-mule e o LimeWire ainda não tinham sido paridos e comprava cassetes virgens na Valentim de Carvalho para gravar os últimos hits em fita. Esperava ansiosamente que a estação de rádio os tocasse e corria como quem procura salvar a vida para um gravador da Sony, branco, último grito da tecnologia que gravava o que eu queria carregando no Rec e no Play ao mesmo tempo. Tempos do walkman e da multiplicação de pilhas que na altura nem se reciclavam, de cassetes que ainda existem, algures numa caixa empoeirada no sótão, o mesmo pó que sopro às memórias da varicela em Agosto, do corpo pintalgado e do tédio de quem não pode ir à praia. Registos que ficam para sempre, em fotografias, a franja da minha irmã que cortei rente à testa com um tesoura de unhas antiga, brincadeiras de uma futura e promissora cabeleireira com saltos altos que não eram meus e que marcavam o calcanhar muito à frente do que deveria estar.

Tempos das nódoas negras nos joelhos e dos cotovelos esfolados, dos bigodes de Epá na piscina do Tamariz e das braçadeiras amarelas com flores cor-de-laranja. Tempos de dois únicos canais de televisão, da emissão do Brinca Brincando, sessão curta de algo hoje equivalente ao Disney Channel que nunca vi. Emissão essa, um dia sistematicamente interrompida por um gigantesco incêndio no Chiado. Memórias da agitação familiar, das sirenes em histeria, do calor abrasador, das janelas fechadas para fazer frente ao fumo invasor que invadiu cada colina de Lisboa e nos deixou a casa presa a um estranho nevoeiro. Tempos em que o meu pai era vivo, me levava a comer bifes no Império, às festas da embaixada e fazia chegar a casa caixas de bifes vindos das pampas da Argentina, na altura coisa rara nos melhores supermercados. Tempos em que me levou pela mão à Brasileira, onde polícias de bigode característico se escondiam por detrás de grades que não permitiam mais que um olhar desolador ao que restava dos Armazéns do Chiado, uma fachada suja, uma estrutura oca, um amontoado de ferros dobrados. Restos do pânico vivido, do cansaço marcado nas expressões de cada elemento das corporações de bombeiros lisboeta, carros destes que por muito tempo não arredaram pé, não fosse o Diabo tecê-las. E que bem que me lembro, como se fosse hoje.

Foram tempos em que o meu vizinho de baixo ainda vivia com a Luísa, desconfio que vinda de um bar de alterne e que não gostava de trabalhar. Pintava sinais na cara com lápis preto dos olhos e eu regava-lhe a roupa acaba de estender com groselha. Depois era esperar para rir desalmadamente a gritaria de quem trabalhou em vão e as palavras obcenas ouvidas pela primeira vez e sem que lhes conhecesse o significado. Tempos em que saltava à corda e ao elástico, os 1, 2, 3 incansáveis, com a filha da Luísa, quem também o meu pai levava a jantar fora e nos deixava ficar numa mesa sozinhas, mesmo ao lado das pessoas crescidas. Orgulhosas, deixávamos o rabo ficar quadrado por cima de duas Paginas Amarelas encavalitadas por umas Páginas Brancas, para chegar à mesa como adultas, fase que ansiava para pintar as unhas com verniz, envergar vestidos iguas aos da minha mãe, de mangas assimétricas e de ombro à mostra, anseios de um tempo em que haveria de tirar os pêlos das pernas, tempos que agora tenho e tantas vezes daria para trocar.

11.5.09

Magnum - Embaixadora do Prazer

Adoro viver num antigo bairro lisboeta, de poder controlar as cores do Tejo, ver o eléctrico 28 passar e percorrer as colinas a pé. Foi o que fiz na semana passada, numa ida à Baixa a pé, umas compras, coisa pouca que os tempos são de crise, e um Magnum para me deliciar no regresso e dar energia numa escalada que se previa dura debaixo daquele calor.

Ia perdida nos meus pensamentos a pensar que agora a Olá desencantou uma Embaixadora do Prazer, na cara da Marta Leite Castro para representar os Magnuns, perdida em pensamentos lisboetas, olhar avaliador em tantos prédios devolutos até que prendi o olhar numas águas furtadas, onde uma mulher sacudia à varanda e com vigor um lençol.

Lisboa é linda, pensei.

O Magnum de amêndoas ia a meio e a senhora do lençol recolheu-se nas suas águas furtadas depois de o sacudir.

Interrompi o passo.

Colado ao meu Magnum estava um pêlo púbico que, calculo, viajante sacudido daquele lençol de cor duvidosa. Não, não era um pêlo do braço, nem das pernas, que eu sou crescida e sei distinguir um pêlo púbico de outros. Sim, queiram perdoar o meu francês, era o chamado pintelho, sabe Deus se proveniente de uns testículos a precisarem de ser escovados por uma escova de unhas.
Revoltou-se-me o estômago e pus o Magnum no lixo.
Ainda estou chateada.

9.5.09

Do you remember? #51



The Police - Every breath you take - 1983

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

8.5.09

A porta

Perfeição, com todas as suas imperfeições, é como descrevo o que temos. Palavras faltam para contar o bate-bate do coração, a forma como me cortejaste durante tanto tempo, irredutível, da guerra que marcaste primeiro à minha indiferença, depois às minhas dúvidas e me mostraste a tua paixão, o teu arrebatamento por mim que me tirou o tapete, derrubou muros e bolhinhas actimel onde me escondia. Uma sintonia perfeita, um encontro de almas, o espanto de quem não procurava e descobriu a roda, a surpresa de quem se suspira, afinal aqui sempre foi a minha casa, o coração onde sempre quis morar.

Foi uma surpresa mágica, um arrebatamento sem igual, ainda que lembrasse o já vivido há mais de um punhado de anos. Continuam a faltar palavras que contem da nossa história e cumplicidade, da tua e nossa entrega, de dizeres que me amas e insistires nesse amo-te, querendo que retribua nas mesmas palavras, clone das tuas, um amor que te deixa incompleto quando não estou, um amor que depois de tantas provações na vida te fez encontrar em ti próprio, na existência da felicidade, num céu que afinal existe, um amor que me levou aos teus, esta é ela, com orgulho e peito inchado. Esse amor que dizes não ter capacidade para saber eu as saudades que sentes por mim e afirmares continuamente quero-te tanto...

Em dois dias, há muito mais dias que dedos das minhas mãos chegam para contar, arruinaste a minha confiança em ti, uma machadada com efeitos inarráveis. Em dois dias deixei de te reconhecer nas palavras, nas expressões, não sei quem és, viraste bicho, dúvido do teu carácter e o arrependimento corrói-me como soda cáustica. Em dois dias, depois de confessares continuamente o teu amor, depois de dares como perdida a audição do meu "amo-te" que se desenhava para breve, numa situação tremendamente especial para que inesquecível fosse, entendeste que precisavas de te reestruturar, mas que não me querias perder. E estou cansada de fracos, de mentirosos, de frouxos como tu, que acreditava seres grande, maior que ti próprio, grande na nobreza do teu carácter que, afinal, não passou de uma representação. E que representação, há que tirar o chapéu e aplaudir, é de reconhecer!

E tão perto do fim, dizia-te que era tudo tão bom, tão perfeito, que tinha medo que se estragasse, que a desgraça batesse à porta, uma e outra vez, como se desenha habitual na minha vida. E tu trouxeste uma doce calmaria, era para durar, tudo era colorido, nada era assim-assim, era especial, temos o que somos e não havia nada melhor que isso. Mas como a minha forma de amar é sempre mais alta que as alturas, a minha resposta aos teus dramas existenciais tem um som: o estrondo do bater de uma porta.

*A todos que me conhecem, sabem que não quero nem uma palavra, nem um telefonema, coisa nenhuma sobre este assunto.

6.5.09

Aviso - a decisão

Por motivos de ordem pessoal anunciei que em pouco tempo este blog passaria a deixar de estar aberto ao público, como sempre esteve. A televisão e a maldade de alguém levou a uma raiva inexplicável e de tentiva de descoberta deste blog que, afirmei mais que uma vez, não queria divulgar. O meu público sempre foi maioritariamente anónimo e os que não o são, são da minha absoluta confiança.

Pessoas más existem em todo o lado e a invasão de espaço, a divulgação do meu eu, do meu íntimo a terceiros, não se fez esperar, eventualmente até a quem me queira mal, o que fará muita gente esfregar as mãos de felicidade. Afinal não sou melhor que toda a gente como dizem ter a mania que sou, afinal sou humana e tenho imensas fragilidades, o que aos olhos de outros me tornará mais fraca, a mulher que julga que todos são estúpidos e só eu no mundo é que sou esperta. Afinal sou simplesmente humana, sempre fui, embora nada me ditasse que isso mesmo teria de mostrar a quem não merece a minha consideração.

A invasão forçada, a maldade, abriu o mundo a meu pés: de um lado a hipótese de acabar já com isto, de outro lado uma forma de poder continuar debaixo de uma guest list. Com os dias percebi que nenhuma guest list iria funcionar com segurança e, pior, estava a deixar de ser eu própria.

Para meu espanto, recebi centenas e centenas de e-mails tecendo os maiores elogios. Revelou-se um mundo de leitores que dizem encontrar-se nas minhas palavras, que têm uma visita diária a esta casa e alguém que não conheço me tocou particularmente, ao afirmar que A Maçã de Eva era como sol: devia existir para todos.

Assim, tomei a decisão de deixar tudo como está. É certo que corro o risco de que este endereço seja divulgado massivamente por quem eu não quero, tudo por causa de uma mulher que não cresce. Mas eu decidi manter-me fiel a mim mesma. Por esta invasão, pela falta de respeito aos limites claros que ditei, pagará um preço alto: a minha consideração e cuidado e o olhar de lado de terceiros.

Guardei cada e-mail enviado para que nunca me esqueça que há quem pense que acrescento algo ao mundo, ainda que por muitas vezes a inspiração desapareça, ainda seja a minha pior crítica e que muitas vezes duvide daquilo que escrevo.

A todos, um sincero obrigada pelas vossas palavras.

1.5.09

Aviso

Por motivos de ordem pessoal, a partir do dia 8 de Maio este blog passará a estar fechado ao público, sendo apenas possível de ler pelas pessoas por mim convidadas. Para tal terão de enviar um e-mail para amacadeeva@gmail.com

Até lá não será postado nenhum texto.