"Saí de uma relação de quatro anos há cerca de dois meses. Eu sei bem que tipo de pessoa é o meu ex-namorado, mas durante muito tempo andei equivocada e bem! Conheci o dito cujo quando fazíamos Erasmus. Mal me conheceu comentou logo com os amigos que eu tinha de ser dele e assim foi. Começámos a andar, sem compromisso, visto naquela altura ambos termos saído de relações recentemente (eu há cerca de seis meses, ele um mês e pouco). Tudo a correr com normalidade quando a ex-namorada dele aparece na história e ele lá voltou para ela. O problema é que ela estava de Erasmus longe e como era com ele que eu me cruzava, acabámos por ficar juntos.
O tempo foi passado e o Erasmus acabou. Voltámos cada um para a sua terra, eu no centro, ele no norte do país. Pensei que a nossa história estava acabada mas ele continuou interessado e eu continuei a combinar cafés e a fazer planos com ele e os nossos amigos de Erasmus. Pouco tempo depois, começámos oficialmente a namorar, já conhecia a família dele e as famílias entre si. Como namorávamos à distância tínhamos que dormir em casa da família um do outro, o que ao início foi estranho mas que com o tempo era uma rotina habitual.
Posso dizer que a postura dele após um ano de namoro ficou muito melhor, ele sempre foi uma pessoa reservada, fechada e de fases mas via-o muito diferente. Negociava comigo as coisas, fazia questão de me agradar, falávamos imenso, passámos a estar juntos todos os fins-de-semana e ele dizia que tínhamos uma dependência muito boa.
Neste último verão tivemos uma discussão feia porque eu não suportava que sempre que tínhamos os amigos dele na minha casa de praia, ele mudasse a atitude dele comigo. Era a única pessoa que o confrontava com a realidade. Ele pediu-me desculpa pela discussão, mas pouco tempo depois acabou. Ele acabou porque eu andava demasiado cega para ver que ele já não sentia amor por mim. Suportou a decisão dele no facto de termos a distância entre nós, mas a verdade é que ele já andava a preparar a ruptura há algum tempo. Eu é que não vi os sinais.
O que me perturba no meio disto é que sempre fiquei amiga dos meus ex e com ele estou com muita dificuldade em sê-lo porque não acredito que ele genuinamente o seja. O comportamento dele no primeiro mês de nos termos separado foi de «vamos ficar amigos, és muito importante para mim», ligava-me a perguntar com quem saia e coisas desse género. Agora, passados dois meses é grave. Um dos nossos amigos de Erasmus (que já era amigo dele de faculdade) não me convidou para o aniverário dele (afinal parece-me que não eram meus amigos!) e ele depois de ir e ter estado com os amigos na festa, acrescentou no facebook uma amiga minha que também estava na festa e ao que parece fala com ela no Facebook. Não é que não ache que deve ter amigas e conhecer pessoas, mas uma amiga minha? Ele não percebe a imagem que passa?
Soube também que os amigos dele falam de mim como aquela que o controla e que agora vai ser difícil que eu aceite que ele conheça outras pessoas, que eu ainda não o esqueci, etc. Mas numa relação séria de quatro anos não seria o esperado? Não era de esperar que estivesse triste? E controlá-lo como, se eu raramente lhe ligo, ele é que me liga, ele é que me aborda? Descobri que há mesmo pessoas mázinhas que não têm vida própria.
No meio disto tudo percebi que ele não é homem para mim e ainda bem que acabámos, tinha idealizado muito da nossa relação. Mas vale a pena ficar amiga dele? É tão estranho para mim, que noutras situações em que fui deixada consegui ficar bem com as pessoas e algumas delas são minhas amigas, neste caso (o meu namoro mais longo) não me parece que seja possível."
Olá Margarida!
Na sua mensagem começa logo por dizer que namorou durante quatro anos, mas que andou muito tempo enganada. Eu esperava um desenrolar da história com faca e alguidar e, no fim de contas, além de o namoro ter acabado, com as tristezas, as irritações e a raiva que isso traz, o que aconteceu de errado? À partida não vejo nada de invulgar ou algo de indecente no comportamento dele.
O facto de sempre ter ficado amiga de antigos namorados não significa que tenha de acontecer com todos. No meu caso, sou amiga de uns (nem me lembro que foram namorados um dia), outros desapareceram por sua iniciativa (pergunto-me se estarão vivos) e outros optei por não ter qualquer relação. Nesses, não é que me recuse a falar, mas não tenho nada para dizer. São pessoas que, concluí, não servem para amigos, pelo menos para mim. São pessoas de quem não quero saber, que deixaram a desejar. O que em tempos nos ligou, deixou de existir e não sobrou nada. Isso não tem mal, não temos de gostar de toda a gente. Se encontrar um destes namorados na rua até posso acenar com a cabeça, dizer «olá», não tenho vontade de lhes cuspir em cima, mas também não sinto que faça sentido uma aproximação, e em alguns casos não é que não tenham tentado.
Eu nunca acreditei em namoros em que no dia seguinte um dos lados diz "então a partir de hoje vamos ser amigos!" e começam os telefonemas, os cafés, como se nada fosse ou tivesse acontecido. Não sei se algum dia isso funcionou para alguém, mas não era para mim. E se calhar, pela falta de tolerância que demonstra e a forma como se sente afectada, também não é para si. Os namoros que resultam em amizade levam o seu tempo, a pessoa tem de fazer o luto, tem de esquecer, tem de se habituar à ideia de poder haver outra pessoa na vida do ex e, sobretudo, tem passar muito silêncio. A minha ideia e experiência de namoros que dão em amizade é uma coisa que não acontece logo na meia hora a seguir ao ponto final. Às vezes passam-se anos até que isso aconteça e um dia, num aniversário ou na brincadeira de facebook, um mete conversa e começam lentamente a falar. É um processo tão natural mas tão lento que só depois de já ser amiga é que repara que ficou amiga, ao olhar para trás.
Não há nenhuma obrigação em ficar amigo de um ex, a não ser que coleccione troféus de "sou amiga de todos os namorados". Se começa por dizer que se sente enganada pelos quatro anos que esteve com esse homem, como raio quer ser amiga dele? Como raio lhe atende o telefone, sequer? Se eu me tivesse sentido enganada por um namorado (facto) eu nunca mais o procurava e muito menos lhe atendia o telefone (facto). O que ganhei com isso? Paz e dignidade. Depois de sofrer feita condenada, é certo. Mas a minha dignidade não a quis ver arrastada pelo chão.
Se um dos seus amigos de Erasmus não a convidou para o aniversário, foi opção dele e nada tem a ver com o ex-namorado. No limite, se foi influenciado para faltar com um convite, então não é seu amigo como pensava. Ora pense comigo, se tem uma amiga de quem gosta e é óbvio que vai fazer parte do seu aniversário, deixava de a convidar porque alguém a pressionava para tal? Não, logo, o ex-namorado não se portou mal consigo e o amigo talvez não se tenha portado mal da mesma forma, não se esqueça que eles já eram amigos antes da Margarida. No fim de contas, talvez seja possível que se tenha sentido mais amiga do que afinal era.
Após esse jantar de aniversário, ele adicionou no Facebook uma amiga sua. Ao que parece eles falam através do chat. Ele é livre de adicionar quem quiser, pode mesmo ter tido uma agradável conversa com ela no jantar sem qualquer segunda intenção e ter tido vontade de adicionar. No entanto, a única coisa que me parece estranha é que a sua amiga não lhe tenha dito nada. Eu não aceitava o convite de um ex-namorado de uma amiga sem antes falar com ela. Isto se se tratar de uma amiga mesmo e não de mais uma conhecida do que outra coisa qualquer.
"Não é que não ache que não deva ter amigas e conhecer pessoas, mas uma amiga minha? Ele não percebe a imagem que passa?" Imagem de quê? Nem eu percebo o que quer dizer. A única coisa que me choca é aquilo que parece ser omissão de informação por parte da sua amiga. Ele é livre de fazer o que entender, se de facto parece que anda a arrastar a asa para cima das suas amigas ou a arranjar forma de se aproximar do seu mundo, é problema dele, pois as figuras são dele. E será constrangedor. Sim, as pessoas são más como disse. Sim, vão falar até o assunto estar esgotado. Sim, ao conto vão acrescentar um ponto e vai ouvir as histórias mais mirabolantes, e vai perguntar-se se serão verdade ou não.
Em suma, o que mais parece é que sente raiva. Tem raiva de ele continuar com a vida dele, de estar a ser algo excluída daquele que costumava ser o seu círculo de amizades, depara-se com amigos e amigas que afinal não têm laços tão fortes consigo como imaginava e está a sair de um namoro longo. É natural que esteja triste, revoltada, que se sinta humilhada e que se contorça e deseje ser mosca para saber o que toda esta gente está a dizer e a especular, mas tudo isso faz parte do processo de luto.
As desilusões com aqueles que achava serem seus amigos também faz parte deste processo, costuma-se descobrir muita coisa nestas fases. Mais tarde o sentimento vai apaziguando, deixa de dar importância a todos os pormenores e começa a esquecer. O facto de ter namorado mais tempo com este do que com outros namorados pode ser justamente a razão pela qual é mais difícil a ideia de estabelecer amizade, já pensou nisso? Se tiverem de ficar amigos, isso acontecerá com o tempo, não precisa de se obrigar a isso porque fica bem ou acha que é correcto. Não tenha dúvidas, custa, mas o tempo limpa isso tudo para crescer uma amizade ou para varrer tudo a um canto e esquecer.
5 caroço(s):
E não acrescento nem mais uma palavra. Disseste tudo o que eu queria dizer.
Pum!!
De facto, ser amiga de um ex leva o seu tempo. Se tal sequer vier a acontecer. Eu tb terminei há pouco tempo uma relação de quatro anos. Sinceramente? Não falo com o meu ex (sou pessoa de lhe ligar no aniversário, no Natal e pouco mais ou se for efectivamente necessário por alguma questão de trabalho), não faço questão de falar e queria muito era que ele seguisse com a sua vida. Mas isso requer, como a Apple disse silêncio. Muito silêncio, muito afastamento, muita interiorização.
É assim a vida...A vida e a nossa dignidade, paz e serenidade.
Muito, muito bom. É excelente entrar num blog e perceber que se fala de algo tão complicado, como fazer o luto depois de terminar uma relação, de uma maneira tão sensata, tão coerente, tão digna, tão transparente. Adorei.
http://amanhecertardiamente.blogspot.com/
Ressabiada, lol
E dai??????????
Fez o certo, ta querendo ouvi o que mais?
Manda esse mané se fU&D&$
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