Estava no trabalho a ouvir o apito do senhor que afia as tesouras e as facas, coisas de Lisboa que tem os dias contados, coisas que deixei de ouvir desde que saí do centro da capital, o que me deixa saudosista.
A minha mãe ouvia o assobio e lá descia à rua com umas facas e outras tesouras teimosas, utensílios que já não queriam fazer o seu trabalho. Eu ficava em casa, olhava curiosa da varanda e por entre grades, aquela roda de pedal que devolvia o fio às facas. Para mostrar o bom trabalho de uma faca ou uma tesoura renovada, o senhor do apito ou assobio cortava a tela dos guarda-chuvas velhos que levava no carrinho de mão. Escudos entregues, um obrigada, a minha mãe subia as escadas e o assobio continuava. Rua fora, bairro fora, até um novo dia em que voltava a passar.
Adoro o assobio. Por alguma razão associo-o aos meses de Primavera, ao calor que está quase aí, à lembrança de quando a minha mãe, de manhã, com um sol que subia das costas do Tejo e inundava as traseiras da casa ferindo os olhos, tirava lençóis do estendal e deixava entrar joaninhas no meu quarto. Eu, lá as recolhia com muito jeitinho numa missão salvadora e tratava de as devolver ao jardim, largando-as ao ar do lado de fora da janela. Espero que soubessem voar em altitude.
17 caroço(s):
No meu bairro (Madrid) passa. Mas é um assobio gravado e transmitido via colunas manhosas no tejadilho de um carro :)
Não é só coisas de Lisboa. No Alto do Minho em Corroios onde vivi em pequena também havia o senhor das tesouras com o seu assobio e agora no centro de Aveiro (onde vivo) também há :)
Eu desde de pequena (já tenho 33 anos)que ouvia o Senhor das facas...era assim que lhe chamava e do meu pai dizia...vêm lá chuva, como se fosse uma premonição e realmente chovia no dia a seguir...Já não o oiço há algum tempo, 10 anos talvez...e também me deixa saudades...
Eu moro em Tomar, e de vez em quando, ainda ouço o Senhor "afia tesouras", mas por cá diz-se que é sinal de chuva. e faz-me sempre lembrar a minha querida avó.
bj
Margarida
Olá,
Aqui no porto, também há o senhor que afia facas!!!E ainda o ouço, aqui na zona da Foz.
O que já não vejo há muito tempo, são joaninhas e dessas é que já tenho muitas saudades.
Em Coimbra também há. Ou havia. Vivo no centro da cidade, nesse centro que se diz histórico mas que agora já só conta história de madrugadas inundadas de bares, discotecas, bêbedos e malcriados que vomitam e urinam na soleira das portas.
Quando havia o amola-tesouras, também havia padeiro que vinha trazer o pão à porta, e a senhora do leite do dia que também vendia as hortaliças que lhe sobravam da horta a clientes certas e agradecidas. Os vizinhos eram todos conhecidos, alguns mesmo amigos e trocavam-se chávenas de açúcar por limões ou ovos, caso a mercearia da esquina estivesse já fechada....
Daqui do coração do Ribatejo, volta e meia ainda passa o "amola-tesouras" e ainda se deixa o pão na porta...do que tenho mesmo saudades são das idas ao leiteiro ao fim da tarde...escusado será dizer que muitas vezes quando chegava a casa leite ...nem vê-lo..ficava pelo caminho...
É engraçado porque sempre associei este assobio à pronuncia de chuva...acho que foi porque me disseram que "vem aí o senhor que arranja os chapéus de chuva":)
Toda a gente fala da chuva, coisa que já nem me lembrava de estar associada a isto. Mas alguém viu uma nuvem? :P
O senhor que afia as tesouras e as facas ainda passa aqui no Parque das Nações!! (ainda? Ou agora passa, visto ser um bairro relativamente recente...). É curioso, porque sendo o Parque das Nações um bairro tão novo e tão moderno, ter a visita deste simpático senhor que de vez em quando, aos domingos, aqui passa na minha rua a tocar a sua harmónica. Confesso que tenho alguma pena do senhor, pois nunca vi ninguém a utilizar os seus serviços...
Toma: http://www.youtube.com/watch?v=JNJpFzAne_0
Parece que soam todos ao mesmo. http://www.youtube.com/watch?v=cYiXsBX4YIY&feature=related
Amolador. É o nome da profissão. Lembrei-me, bolas.
Pi, é isso mesmo! :)
Há amoladores em todo o lado, aqui em Braga também há :) E realmente o som do seu assobio logo pela manhã também me traz boas recordações!
o único amolador que eu tenho visto é um senhor que anda numa vespa benfiquista, o apito não é o mesmo.
Mas lembro-me muito bem de um senhor que passava à porta da minha escola, A Voz do Operário na Estrela, sempre perto da hora do almoço e sempre em dias de sol primaveril.
Aqui em Portimão também havia....digo havia, porque já não o ouço há anos...e tal como por esse país fora, quando se ouvia o assobio, a minha mãe dizia: Vem aí chuva..."
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