24.2.12

Consultório #99

"Vivi uma relação pautada pela violência emocional, que acabou por gerar alguma violência física. Conheci esta pessoa há 4 anos, depois de uma relação morna de 5 anos. Ele parecia ter tudo o que eu procurava na altura: paixão, fogo, intensidade. Na verdade, sempre me senti mal amada com esta pessoa. Sempre senti que dava mais do que recebia, amava intensamente e demonstrava-o sem pudor. Não recebia na mesma medida, e ele sempre foi claro comigo, que era assim e que não sabia ser de outra maneira, mas eu achava que o conseguiria moldar tal era o amor que sentia por ele.

Volta e meia sentia que ele gostava mesmo de mim, mas nunca pelos bons motivos. Ou era por ciumes doentios, ou era por me querer sempre em casa, ou por me dizer várias vezes que o sonho dele era ganhar o suficiente para mantermos o nível de vida que tínhamos, mas só com ele a trabalhar e eu ficaria em casa. Falámos em eu engravidar, mas eu tinha muito receio que ele piorasse se eu engravidasse, ficaria mais amarrada aquele amor que não me fazia bem. A verdade é que lentamente fui ficando prisioneira desse homem. Ele fazia de mim uma marioneta. Às vezes sentia-me completamente enfeitiçada por ele.

Acabámos há cerca de dois meses. Decisão minha porque estava farta de ser maltratada, de ser acusada de promiscua e adúltera quando eu era completamente cega por ele. A verdade é que sinto falta dele como se de uma droga se tratasse.

Ele agora está muito doente e fui visitá-lo. Sabia que poderia ser maltratada, mas não quis saber. Ele sempre esteve em 1º lugar! Fui recebida da pior forma. Fui escurraçada como um cão vadio.
Humilhei-me e fui mais uma vez acusada de coisas que jamais faria na frente de familiares dele.

A minha decisão é de não o procurar mais, até porque me disse que já não me amava há muito. Foi cruel de uma forma que nunca pensei. No passado, sempre que discutíamos ele dizia que não me amava, mas depois vinham as desculpas e ficava tudo bem.

Neste momento conheci pessoa que é extremamente diferente dele, e se calhar por isso não consigo avançar. Depois de falar com o meu terapeuta, foi-me dito que eu procuro homens do mesmo padrão e sendo este o oposto, era natural que não sentisse a dita paixão. Sinto-me completamente desorientada. Se por um lado sei que não quero voltar atrás (até porque ele não me aceita visto nunca mais me ter procurado), também não sei se conseguirei sentir algo de profundo pela pessoa que estou a conhecer. Esta pessoa não me pressiona, não exige nada de mim. Tem sido um companheiro, uma excelente pessoa, mas não consigo sentir nada mais que amizade e receio estar a fazê-lo perder tempo comigo."

Olá Helena!

O primeiro passo é reconhecer o cenário em que vivia, o que já o fez. Também, foi capaz de pedir ajuda e, com reconhecimento e ajuda, o caminho é para a frente tem de ser bom! Parece-me que o seu maior problema, muito mais do que gostar desse homem, foi ter sido dependente dele. Ainda o é, de alguma forma, mas era a sua dependência que a fazia sentir que o amava desmesuradamente, quando na verdade estava apenas embrenhada nas teias de manipulação desse homem. Prova disso é o facto de saber que não devia engravidar. A sua consciência assim o ditava. Uma mulher que ama cegamente, engravida; uma mulher que tem alguma capacidade de análise e de ver que há algo de errado, sabe que já está enterrada num buraco e que com filhos a tendência é para cavar ainda mais.

De alguma forma, cansou-se. Acho sempre que dependendo da rapidez com que as mulheres compreenderem que há mais mundo lá fora, que aquele não é o último homem na terra, que não vão forçosamente ficar sozinhas, dependendo do tempo que demoram a interiorizar que o mundo não acaba ali, é o mesmo tempo que levam a abandonar o barco. Para umas demora apenas uns meses, para outras anos, e deve haver quem nunca venha a ter coragem.

Mais uma vez, os sinais. Um homem que tem uma crise de ciúmes, é aceitável, embora deva ser uma crise gerida com sabedoria para que não se repita. Um homem que tem diversas crises de ciúmes, que prefere que esteja em casa, que confessa que o ideal de vida é ganhar pelos dois enquanto a mulher fica em casa, é claramente um homem doente, com desvios comportamentais e necessidade de poder sobre os outros. É claro que há mulheres que ficam em casa enquanto os maridos trabalham, mas não é por isso que todos têm de ser lunáticos. É preciso ter em conta o motivo desta decisão: se é para tomar conta das crianças ou porque faz sentido, se é para que não seja vista por ninguém.

Quando diz que sente falta dele como se fosse uma droga, não está a mentir. É que é mesmo uma droga! Há quatro anos que a Helena não conhece outro registo de uma relação que não seja de manipulação, tensão e medo. Provavelmente afastou-se de muita gente, o que a impediu de ser chamada à atenção, o que por sua vez torna o raciocínio mais turvo. Ou seja, já há muito que a Helena não pensa com clareza, pois foi constantemente manipulada. Provavelmente, de cada vez que saía do trabalho perguntava-se como ia correr a noite. Vivia na ansiedade de não saber se ia ter um dia mau ou um dia bom.

Eu percebo que não consiga cortar o mal pela raiz, da noite para o dia, mas visitá-lo, doente ou não, foi uma estupidez. Era óbvio que esse homem iria maltratá-la, sobretudo porque é um homem habituado a ter uma posição de poder e foi vê-lo num momento de fraqueza. Ainda bem que ele foi cruel consigo, acredite que um dia vai agradecer o facto, pode ser que essa seja a forma de interiorizar que ele não é boa pessoa. E quando lhe disse que não a amava há muito, eu pergunto-me se alguma vez amou. É que homens como esses, que vivem da manipulação sobre os outros e não de sentimentos, não gostam de ninguém. Simplesmente não sabem gostar, desconhecem esse sentimento porque se alimentam de outro: da sensação de poder.

Não sei como foi a sua vida afectuosa antes deste homem, mas o facto de não sentir uma paixão avassaladora por esta nova companhia não é motivo para alarme. Por dois motivos:

1. Apesar de ele gostar de si e de ser carinhoso, não tem de ser forçosamente alguém para si no amor. Nem todas as pessoas são correspondidas só porque mostram carinho, ele pode ser apenas um amigo.
2. Passou muito pouco tempo para quem foi vítima de maus tratos durante 4 anos.

A Helena tem de compreender que já não se conhece, perdeu-se no meio dessa relação abusiva e tem de se encontrar, o que leva tempo. Tem de perceber como é estar sozinha, entreter-se sozinha, como é viver sem medo de uma má reacção, viver sem pensar nesse homem, sentir-se livre, e quando tudo isso passar, aí sim, alguém tratará de ocupar espaço no seu coração.

No entanto, tem de parar para pensar que nem todos os amores começam com um paixão avassaladora. O seu conceito de amor parece implicar sofrimento e angústia, ser algo maior do que a própria Helena, mas a verdade é que só quando se colocar sempre em primeiro lugar é que vai poder viver um amor em pleno.

Olhando para trás, comparando umas relações com outras, aquelas que mais me consumiram foram exactamente aquelas que menos prestaram. O amor pode começar do acaso, de uma companhia, de uma coisa calma pela qual inicialmente não daria nada. Amar não é viver com o coração nas mãos, vítima de um estalo, a inventar desculpas como "bateu-me, irritou-se por gostar tanto de mim". Isso são conversas de quem quer outra coisa qualquer que não amor. O amor a sério é aquele que contribui e acrescenta algo ao nosso dia-dia, é aquele com quem a vida é melhor do que sem ele, mesmo nos momentos maus. Quem tem chatices ou uma discussão de vez em quando, zanga-se, mas sabe que é passageiro e não trocava esse pequeno instante pelo todo. Quem tem a mão assente na cara diz que gosta, mas trocava tudo para não ter de passar por aquele sofrimento outra vez.

Continue a ir às suas consultas que está no bom caminho. Não procure mais esse homem, não deixe que a procure, é fundamental para si, para se encontrar e para a sua felicidade. O resto virá com o tempo, à medida que for aprendendo a valorizar-se cada vez mais. Tenho a certeza que dentro de uns tempos será uma mulher nova, sempre que não voltar atrás.

16 caroço(s):

Juanna disse...

O meu pai sempre tratou mal a minha mãe e eu decidi que nunca tal me aconteceria. Fiquei tão marcada que sei que no dia em que alguém me levante a mão, provavelmente desfaço-o. Glup, não sei que dizer. É horrível e nunca me aconteceu, por isso prefiro não falar. Procure forças no infinito mas não volte a estar com essa pessoa.

Sílvia disse...

Já aqui referi este grupo, que é brasileiro, mas faz reuniões em Portugal - grupo MADA (mulheres que amam demais anónimas).
http://www.grupomada.com.br/

http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/dependencias3/?k=Existe-um-grupo-de-ajuda-a-mulheres-que-amam-demais.rtp&post=5840

Se calhar conhecer historias identicas à sua pode ajudar.

Anónimo disse...

Juanna, acredite ou não, eu sempre apregoei que homem nenhum nunca me faria o que o meu pai fez à minha mãe. Mal eu sabia que aos 28 anos estaria a embarcar numa relação bem pior que a dos meus pais... aprendi a não atirar a 1ª pedra.

Anónimo disse...

Não sofri violencia física mas psicológicamente fui vítima sim, durante quase 10 anos. Sentia que o nosso "amor" valia a pena. Agora a esta distância, vejo que ele não passou de um manipulador e um mentiroso (quissá compulsivo) que me sujeitou a pressões e humilhações que nenhuma mulher merece. E fui chamada à atenção muitas vezes por pessoas exteriores à relação que gostam de mim, mas de nada adiantou porque estava verdadeiramente cega. A esta distãncia (vários meses) tenho uma tranquilidade que não sentia há anos. Quando me passa pela mente a possibilidade de o aceitar de volta, logo passa porque sei (e sinto) que não preciso dele para ser feliz, antes pelo contrário, só me traria incertezas, inseguranças, total ausência de paz.
E não penso tão cedo aproximar-me de outra pessoa, aliás tenho fugido, porque sei que não estou preparada. Estou melhor assim e preciso de tempo para me reestruturar, me conhecer de novo, a perdoar-me pelo que fiz, a ser feliz por mim própria. Sinto que já dei uma boa caminhada, mas que ainda tenho uns Km pela frente.
Não é fácil, mas vais conseguir (aproveita o afastamento dele para viveres). E não penses em comparar, em apaixonar-te ou amar alguém pré-definido, porque tenho cá uma ideia de que a coisa não funciona assim ;-)
Coragem

Anónimo disse...

Também eu passei por isso. Também eu achava que era amor. Também eu descobri que amor é muito mais do que aquilo que existia. E também eu sou mais feliz hoje, dois anos passados. Cortar o mal pela raíz, acabar com os contactos, desaparecer do mapa, ir em frente, pensar em si. Força. *Rita

Anónimo disse...

nunca devemos derrumar lágrimas por alguém por quem não merece, Helena não desperdice o seu tempo com alguem que sabe que nunca terá tempo para si, tenha força de decisão,
para amar o seu homem mas somente se aquilo que os une é amizade, respeito e amor.
e Helena acima de tudo ame-se si, como mulher e respeite-se como mulher.

Anónimo disse...

Já sofri de violência psicológica por um ex-namorado. Eu era a oferecida, descabida.. Queria sempre q tivesse linda pros amigos mas tinha q ter cuidado ao abrir a boca!! Mesmo quando terminamos sofri mt. Tinha uma obecessão louca por ele.. Acho q era porque ele me deixou mesmo em baixo..porque me acabou com a auto-estima. Passado pouco tempo conheci o meu actual namorado. E agora percebo o q é uma verdadeira relação. Trata-me como uma princesa:)

Juanna disse...

Tem razão, anónimo. É melhor eu ficar calada mesmo, é mau demais.

Como saber o sexo do bebe! disse...

Me emocionei.....bjs
sua mais recente seguidora...até

maria madeira disse...

Ao ler o post e todos os comentários, agradeço por nunca ter passado por uma situação destas.
Acho que as mulheres têm que começar a pensar que o amor não é tudo na vida, existe antes de tudo mais, o amor por nós próprios, e quando temos uma saudável auto-estima não deixamos que ninguém nos "ponha o pé em cima" seja ele namorado,sela ele marido, seja ele o que fôr. E podem pensar "falar é fácil". Eu respondo, falar é fácil sim, mas vale a pena o esforço de sabermos que tanto nos conseguimos sentir felizes quando estamos sós e convivemos perfeitamente com isso,como quando estamos com alguém e exigimos para além do tal amor, respeito. Quando em nome do amor deixamos que a pessoa que está ao nosso lado nos falte ao respeito uma primeira vez, estamos perigosamente a abrir uma porta para algo muito assustador e que não vamos conseguir controlar. Eu, pessoalmente prefiro não a abrir, mas sim trancar, se possível a sete chaves.

http://amanhecertardiamente.blogspot.com/

Piston Cabeça disse...

Discordo da Poisoned. Se ele está muito doente fez muito bem em ir ter com ele. Se algo de fatal vier a acontecer, ganhou a paz de espírito necessária para prosseguir a sua vida e não irá estar presa a um "e se?".

No que toca a essa nova hipótese de relacionamento, seja completamente transparente acerca do que sente e deixe acontecer o que tiver que acontecer.

sofas disse...

passei por uma situação em tudo igual. pessoas como essas, nao amam ninguem, nao sentem empatia, atraem-se pelo poder. querem dominar, manipular e fazemnos sentir que caminhamos em cima de ovos. o que lamento é que tenha conhecido uma pessoa assim, pq foi algo que a meu ver nao lhe trouxe nada de bom mas apenas mazelas e magoas. ha-de passar pq tudo passa! beijos para si

Anónimo disse...

Olá,

tenho 25 anos e namoro à 4 anos. Sou vitima de violência física e psicológica. Já não aguento mais. Já fui deixada na autoestrada à noite embriagada sem dinheiro e telemóvel, pontapeada, cuspida, chamada de puta e burra. Tudo isto pelo homem que me diz amar.

Fisicamente sou uma pessoa normal, nem linda de morrer nem feia, curso superior e boa amiga. Mas tive o azar de conhecer este homem que me trata como merda e não sei sair desta relação.

Quando as agressões acabam ele diz que não se lembra....e oferece-me viagens, dinheiro e mais algumas coisas. Não consigo entender se me ama ou não....


tou a morrer por dentro

Anónimo disse...

Anónima das 22:56.... sei demasiado bem o que está a viver. Vivi num inferno semelhante até há bem pouco tempo (sou a Helena). Deixei tudo por este homem e só levei porrada e maus-tratos. Eles não mudam. Não acredites nisso. Empenhei quase 5 anos da minha vida, deixei passar os melhores anos da minha vida à custa desta minha «doença». És nova, segue com a tua vida, não te prendas por quem não te merece. Esta pessoa de quem te falo, está gravemente doente e nem mesmo assim se tornou uma pessoa melhor...
Qq coisa que precises diz-me que te posso ouvir.

Poisoned Apple disse...

Olá Anónima!

A minha recomendação é que me envie um e-mail e eu trato de reencaminhar à "Helena". Assim podem falar e quem sabem ajudam-se uma à outra. Eu sirvo de pouca ajuda numa situação tão complexa, visto que a constatação de que esse homem não serve não lhe chega.

Piston Cabeça disse...

Anónima 22:56, o que raio se passa nessa cabeça?
"Não consigo entender se me ama ou não...."?
Porque é que esta dúvida a perturba? Se ele a amar pode apagar-lhe cigarros nos olhos e esfaqueá-la? Importa mesmo o quanto a possa amar se o tratamento que lhe dá, a si, é completamente inaceitável?