O meu homem é uma jóia de moço, mas não pode beber. Não pode beber porque me deixa cheia de nervos e com vontade de abandonar os locais onde estamos. Sofre de uma regressão na maturidade que eu não tenho como explicar. Ele não é dado a bebida, mas se beber um bom vinho, a história é outra. A minha primeira experiência com este problema que desconhecia foi no casamento de uma amiga. Podia ser num jantar qualquer, mas não, tinha de ser no casamento de uma amiga próxima para me matar de vergonha. A juntar à festa, juntou-se o marido da minha amiga Vizinha, o Vizinho. Estes dois homens estão bem um para o outro.
Ora, já bebido, começou a melgar-me. É a altura em que expressa todo o seu amor por mim, diz mil vezes que gosta de mim, tanto que não aguenta - dizem que a verdade está no vinho, não é? - abraça-me mil vezes, quer outros tantos beijos e nos casamentos eu gosto de conversar com as outras pessoas, quero comer, quero fazer o que as pessoas fazem nos casamentos, ele não precisa de estar o tempo todo em cima de mim.
Então, quando lhe peço para ir apanhar ar e deixar de beber, começam as acusações de que não gosto dele, pergunta-me se quero que ele vá embora, começa a andar rápido para destino incerto e desgovernado. Enfim, a paciência torrou-se-me neste casamento. Sobretudo quando falava com os meus amigos Vizinhos e o Poisoned Apple Man apareceu a meter conversa com um ar comprometido, de mão ao peito. A Vizinha abriu-lhe o fraque e voltou a fechá-lo, rindo às gargalhadas. Tinha furtado da casa de banho das senhoras os toalhetes de limpar pipis. Toalhetes esses que ainda tenho em casa. Motivo: ele disse que podia vir a precisar.
O segundo momento foi quase um ano depois, na festa anual de verão dos Vizinhos na Comporta. Foi de caixão à cova. Pela meia-noite pedi-lhe que parasse de beber. Estávamos com o carro dele, uma banheira olímpica, de caixa automática, que eu só conduzo quando o vinho fala mais alto. Na falta de hábito, não me sinto confortável ou confiante, muito menos em estradas que não conheço. Eu nunca quero conduzir aquela banheira.
Às três da matina, homens empoleirados em cima de sofás e cadeiras gritavam de copos na mão, cigarros muitos, e o Poisoned Apple Man que apenas conhecia o anfitrião da festa, já era amigo e camarada de todos, que gritavam pelo apelido dele enquanto perante meu horror, lhe davam a beber de penalti misturas que só Deus sabe o que tinham. Os homens são tão estúpidos. Às tantas da madrugada, o meu regresso da Comporta a Lisboa, com o homem a dizer que se ia gregoriar todo a cada dez segundos, e eu a responder que vomitasse nos estofos de pele que me estava a cagar, foi:
1. Três paragens na estrada nacional, onde não há luz (não há mesmo), parada em quatro piscas, sempre cheia de medo, com o homem etilizado e debruçado numa vala onde cabiam três carros. Medo e gritos histéricos da minha pessoa.
2. Duas paragens na auto-estrada, na berma de emergência, depois de ter sugerido várias vezes que se vomitasse dentro da banheira. Nervos e gritos.
3. De volta ao carro, e após regurgitação do conteúdo gástrico em quantidades anormais, nervos e gritos inúmeros da minha pessoa. Nunca lhe falei naqueles modos, não sei se não tive vontade de lhe bater.
4. Finalmente chegada a casa, o homem atirou-se para o chão do quarto, onde permaneceu por minutos vários deitado no tapete, de barriga para baixo, lamentando a maldade dos seus novos amigos. O facto de ele estar assim era culpa doa amigos, não era de não saber dizer "não".
5. Fiz a minha vida no quarto passando sempre por cima do peso morto que estava no chão do quarto, sem abrir a boca.
Silence treatment.
6. Deitei-me, apaguei a luz e ouvi o homem no chão do quarto:
"mas assim apagas a luz!". Non sense.
A próxima festa de verão dos Vizinhos na Comporta era para ser na semana que vem, mas teve de ser cancelada. No entanto temos já mais um casamento em poucos dias. Estou em pânico. Qual é o melhor tratamento para desencorajar um homem a deixar-se ir nestas festas? É muito homem junto, ficam todos selvagens. Ao menos temos dormida e ninguém tem de conduzir.