"Estou casado há 3 anos com a Maria e, quando nos conhecemos há 10 anos, apaixonámo-nos rapidamente. Sempre nos demos lindamente e o deslumbramento inicial evoluiu para um amor forte e uma relação estável. Não me lembro de termos tido alguma discussão séria e quando das duas ou três vezes que nos chateámos nunca fomos dormir sem antes resolver o problema. Ambos temos famílias e grupo de amigos grandes que se deram lindamente e ao fim de 4 anos começámos a pensar em viver juntos e casar.
Nessa altura a Maria teve um acidente e esteve um mês nos cuidados intensivos. Depois disso ainda esteve três meses no hospital e cerca de um ano e meio mais de recuperação durante o qual teve uma depressão. Estive sempre ao lado da Maria, mesmo tendo a consciência de que a pessoa que tinha ao meu lado não era a mesma pela qual me apaixonei e sem saber ao certo se alguma vez voltaria a ser (…)
Aproximadamente um ano depois do acidente, com a Maria em profunda depressão, conheci uma rapariga no Algarve. A Kate é inglesa, tinha 19 anos e estava a estagiar numa empresa de turismo. Fizemos um click imediato, demo-nos lindamente primeiro como amigos (…) e depois mais do que isso (…) Vivemos durante praticamente seis meses uma relação de fim-de-semana. O regresso da Kate a Inglaterra coincidiu com um período de melhoria substancial da Maria que procurou reatar a nossa relação que estava há dois anos em banho-maria. Tive que tomar uma decisão e, por mais apaixonado que estivesse pela Kate, acabei por optar por tentar reatar a maravilhosa relação que tinha tido com a Maria durante quatro anos antes do acidente.
Ao princípio custou-me mas ao fim de um ano a Maria tinha recuperado completamente e estávamos outra vez tão bem juntos que decidimos comprar casa e casar (um dia de felicidade total!). Durante dois anos vivemos super felizes (o casamento não alterou nada ao contrário da tua "fobia") e começámos a pensar ter filhos. Durante este tempo, e depois de um ano sem qualquer contacto, voltei a falar com a Kate por e-mail e Facebook, esporadicamente. Tudo normal e vivia com a certeza que tinha tomado a decisão correcta. No Verão passado a Kate regressou a Portugal em trabalho (…) Começámos a falar com regularidade e, devo confessar, pontualmente com um pouco de flirt. Entre trabalho e outros compromissos acabámos por nos encontrar (…) No segundo em que a vi (…) senti um murro no estômago e tive a certeza que a minha paixão por ela não tinha acabado (…) Da segunda vez que nos encontrámos caímos nos braços um do outro e retomámos a nossa relação de fim-de-semana. Mais ou menos na altura em que a Kate regressou a Portugal, eu e a Maria começámos a ter alguns problemas. O meu trabalho obriga-me a estar fora de Lisboa com frequência. Isso causa uma grande tristeza na Maria que queria que pudéssemos dormir juntos todos os dias. Desde que casámos a Maria teve uma ameaça de recaída da depressão e nessa altura arranjei trabalho no escritório (…) Foi um excelente período para nós porque estávamos muito mais tempo juntos, mas profissionalmente, para mim, foi desesperante! Adoro trabalhar no terreno e não tenho feitio para estar fechado num escritório. Ao fim de 6 meses regressei ao trabalho de rua. A Maria apoiou esta minha decisão mas com ela regressou também uma certa tristeza e insegurança acerca do futuro. E sempre que a Maria está triste, regressa o fantasma da depressão. Como podemos conciliar a necessidade dela em estar perto de mim com a minha incapacidade de trabalhar todos os dias no mesmo sítio? É neste contexto de mini-crise que surge o regresso da Kate a Portugal e à medida que a nossa relação de tornava mais forte mais me afastava da Maria. Deixámos completamente de fazer amor e eu passei a viver dividido entre o reatar de uma paixão que apenas tinha estado adormecida e o tormento de estar a quebrar o compromisso que fiz com Maria para toda a vida (saúde ou doença, alegria ou tristeza!). A Kate estava numa situação parecida (com as diferenças que ela não é casada e a relação dela só tem dois anos) e sentia exactamente o mesmo do que eu. Estivemos cerca de 6 meses nesta situação mas ambos sabíamos que não era sustentável e decidimos que tínhamos que tomar uma decisão (pela 2ª vez). Remoí durante esses 6 meses o que havia de fazer, comparei o que seria a minha vida com a Maria e com a Kate, pensei se poderia alguma vez encontrar um equilíbrio com a Maria, fiz uma introspecção para tentar saber como me sentiria melhor comigo mesmo. Falei com um grande amigo meu.
Encontrámo-nos para tomar uma decisão. A Kate disse que era comigo que queria ficar para o resto da vida. Eu disse-lhe que não conseguia deixar a Maria. O meu raciocínio foi o seguinte, Poisoned: neste momento tenho a certeza absoluta que a Kate é a mulher da minha vida. Amo-a profundamente, sentimos uma paixão como nunca senti e temos/tínhamos uma relação de cumplicidade total que não acredito seja possível voltar a ter. Lemos os pensamentos um do outro, sentimos o mesmo, apoiamo-nos e ajudamo-nos. Mas não creio que conseguia viver com o facto de ter quebrado um compromisso com a Maria, uma relação de 10 anos que já teve altos e baixos (como todas) mas que resistiu e que se foi tornando mais forte com cada crise.
Acredito que as pessoas definem-se essencialmente pelos seus actos e pelas escolhas que fazem e não consigo esquecer que a mesma certeza que tenho sobre a Kate já tive com a Maria. Não quero ser uma pessoa que quebra compromissos e falta à sua palavra por causa de uma paixão. O "fim" de viver o que acredito ser o amor da minha vida não justifica "os meios" de quebrar um compromisso de uma vida em conjunto que foi assumido perante a Maria, eu, os amigos, a família e Deus". Olá João!
Depois de ler e reler o seu e-mail, não sei o que lhe diga sobre uma série de aspectos. Mas outros há em que sei o que lhe dizer. Uma dessas certezas (e por favor não se ofenda) é a de que a Kate é uma miúda. Ela pode ser fantástica, mais madura que outras mulheres da idade dela mas a vida adulta dela ainda agora começou. Eu não duvido que ela goste de si, mas da mesma forma que gostou da pessoa que entretanto partiu, o mesmo fim pode acontecer consigo. A vida é feita de várias fases, estamos sempre em crescimento e à Kate ainda lhe falta muita coisa. É claro que uma relação entre um homem e uma mulher que tem menos 10 anos que ele pode resultar. Eu acho que tudo resulta enquanto dura e também acho que tudo é eterno enquanto dura.
Expressões como
"é o homem/mulher da minha vida" é coisa que só se sabe já velho e quando se olha para trás. Para saber qual foi a pessoa da nossa vida é preciso olhar para trás e não para a frente.
Eu acredito que durante um casamento passe (mais do que uma vez) um passarinho verde carregado de novidade, de frios na barriga e de questões. Acredito que se pergunte, mais em jeito de afirmação do que de questão, se a sua vida não seria melhor, mais excitante e empolgante com a Kate do que com a Maria. Embora entenda que não se pode condenar ninguém pelo que não domina, espero que uma coisa destas não me aconteça nunca. Prefiro não viver essa experiência. No entanto, aquilo que sem dúvida pode ser dominar é a decisão.
Eu não gosto de paixões, nunca gostei. São perturbadoras da razão e do bom senso. Sem dúvida que dou preferência ao amor, a amar, a uma relação boa, calma, que nos deixa preenchidos e realizados. As paixões dão cabo de uma pessoa, é uma ansiedade contínua e, mais contínuo que isso, são as eternas questões "e se". As paixões são uma barulheira, o amor é muito mais calmo. À sua frente parece desdobrar-se um leque de possibilidades para uma vida que julga ser melhor do que a que tem agora, mas talvez isso não passe de uma ilusão.
Mas também acho que os casamentos não têm de durar a vida inteira caso o casal deixe de gostar um do outro, o que não é o seu caso. O seu caso passa mais por uma alternativa o que, lamento, é sempre um motivo estúpido para acabar uma relação. Se é para acabar, acabe porque já não gosta da sua mulher e não porque tem outra no encalço, ainda mais alguém tão novo e a quem falta tanta experiência de vida. Alguém com quem nunca viveu nada mais do que o nervoso do proibido que deve apimentar muito as coisas. Depois, da porta de casa para dentro, tudo é diferente.
Por outro lado entendo o peso que a Maria deve representar para si. Por outras palavras, ela é emocionalmente dependente do Joºao, o que deve ser uma coisa difícil de suportar. Inevitavelmente, isso controla-lhe a vida e fá-lo sentir numa prisão. Não tenho dúvidas que deve ser difícil ter de fazer até escolhas profissionais em função de uma maior disponibilidade para ela. Inicialmente, pensei que a Maria tinha sofrido um acidente que a tinha deixado limitada do ponto de vista físico, mas sendo afinal algo de emocional, por um lado é menos grave, por outro torna tudo mais pesado. Eu compreendo muito pouco a fraqueza humana. Eu percebo que uma pessoa fique de rastos, que chore, que se humilhe, que perca a auto-estima, mas não compreendo um descontrolo mental que deixa alguém à mercê de comprimidos, internamentos e médicos porque não compreendo a falta de reacção.
Não duvido que a Maria seja hoje outra pessoa, é mais que compreensível que o João sofresse um desencanto, é mais que possível que a dependência dela sobre si seja um fardo muito pesado de aguentar. Mais do que a existência de uma Kate, acho que precisa de um escape para isso tudo. Esse escape transformou-se numa pessoa, na Kate, mas eu não acho que seja uma escolha sábia. Mais do que gostar da Kate, o João tem saudades do tempo em que sentia menos 10 Kg nos ombros, tem saudades do tempo em que andava mais ligeiro, com menos obrigações, tem saudades do antigamente. Mas não se esqueça que a decisão de casar veio depois do problema da Maria. Logo, já sabia, não era nada de novo.
A sua vontade de mudar aparece exactamente quando já se encontra mais saturado da falta de espaço e condicionamento que o problema da Maria lhe provoca, quando já existem anos de casado e de vida em comum. Podia ter "dado o salto" quando o barco estava parado. Não o fez porque não quis, porque tinha a certeza da opção que estava a tomar. Agora, compreensivelmente, está mais cansado. E pode ser que todo esse sentimento pela Kate não seja verdadeiro e seja apenas o inverso do cansaço que a Maria lhe está a provocar.
O que lhe falta é ver a Maria independente, solta, poder admirá-la e não saber que estará para sempre debaixo da sua asa porque não vive sem si. Na falta disso, olha para o passarinho verde que tem isso tudo. Ter alguém por garantido é o primeiro sinal de marasmo numa relação, seja namoro ou casamento.
Não tenha dúvidas quando afirma que as pessoas se definem essencialmente pelos seus actos e pelas escolhas que fazem. Quando diz que sabe que a certeza que tem na Kate também já teve pela Maria, está a dizer aquilo onde quero chegar: só sabemos que nada sabemos. É de carácter não querer ser a pessoa que quebrou o compromisso por causa de uma paixão. O maior problema não é atingir o fim de viver o que acredita ser o amor da sua vida não justificando os meios (acabar o casamento). Aqui a questão maior será o arrependimento de acabar por dar um tiro no pé, ou seja, cometer um erro a achar que estava a fazer a coisa certa e, com isso, destroçar o coração da Maria e desiludir tanta gente que vos rodeia.
Não tenha dúvidas que a Maria ficará, quem sabe irremediavelmente, arrasada, dada a sua fraqueza emocional. Também não duvide, o João será apontado como a causa disso o resto da sua vida.
Se tomar a decisão de se manter casado, deixo-lhe outro sábio conselho: leve este segredo consigo para a cova.