26.8.11

Consultório #76

"A minha história é tão confusa que nem sei muito bem por onde começar. Isto nem é sequer um pedido de opinião, porque no fundo eu já sei o que me vai dizer, é mais um desabafo. Estou divorciada há 6 anos e sou mãe de 3 crianças lindíssimas, a mais nova, com 6 anos. O meu divórcio aconteceu depois de ter percebido que o meu ex-marido tinha uma relação com a ainda esposa do meu irmão mais novo. Na altura, toda esta situação foi muito dolorosa e traumatizante, mas hoje, vendo as coisas à distancia e com maior frieza, reconheço que no fundo eu nunca o amei. O nosso casamento aconteceu (tinha eu 21 anos na altura), porque era o que a sociedade esperava de mim. Tinha acabado de estudar, já tinha trabalho, tirado a carta de condução, carro, as amigas começavam a casar e era suposto também eu ter um namorado certinho, casar e ter filhos. E foi o que aconteceu.

Já na fase do namoro muitas coisas me desagradaram e eu fui "metendo" para trás das costas pensando "são feitios", "as coisas vão-se limando", "é tudo uma questão de tempo". Puro engano!Quando me confrontei com as suspeitas de traição do meu marido, o meu maior problema não foi a traição em si mas sim a outra pessoa envolvida na traição. E se não fosse o que eu estava a pensar? Como iria eu abordar o assunto com a familia? Como reagiria o meu irmão? Não sabendo com quem falar sobre tudo isto, foi na internet que fui fazendo perguntas, de forma anónima era-me muito mais fácil expor tudo o que me ia cá dentro.

Algum tempo depois, já decidida a levar o divórcio em frente, mesmo tendo a minha filha mais nova apenas 2 meses de vida, com a auto-estima completamente arrasada, travei conhecimento com um fulano de Lisboa, a quem chamaremos de Vítor, também acabado de se divorciar, que entretanto foi trabalhar para uma obra na minha cidade.

Das pequenas conversas, às mensagens trocadas, a duas saídas para nos conhecermos um pouco melhor, na terceira eu quis que houvesse envolvimento físico. Eu precisava de saber, sentir, se ainda era capaz de agradar a um homem. Precisava de me sentir desejada. Estive sempre convicta que esta "relação" iria apenas durar o período de tempo que ele estivesse a trabalhar na minha cidade, nunca me iludi com nada. Mas o facto é que, mesmo depois de ele ter regressado a Lisboa, fomos sempre trocando mensagens ou falando no msn.

Algum tempo depois ele foi trabalhar para outro país e eu pensei que seria nesse momento que perderíamos o contacto de forma definitiva. Foi o contrário. As mensagens tornaram-se mais intensas e constantes. Comecei a ficar confusa, a gostar de ser alvo de atenção, mas confusa. Afinal o estar longe, num local tão diferente daquele a que se está habituado, longe da família e amigos, deixa-nos mais frágeis, não é? Tive sempre em linha de conta de que ele estaria carente e daí tanta insistência comigo.

Quando veio de férias, ao contrário daquilo que eu estava à espera, tendo em conta o teor das mensagens que me enviava, houve um afastamento. Depois uma nova aproximação. Eu fiquei de pé atrás. Entretanto conheci outra pessoa e resolvi experimentar uma relação com essa outra pessoa, o Diogo, de 48 anos, porque no fundo é isto que me falta, aos 37 anos de vida, e com 3 filhos, eu só tive o meu ex-marido como namorado e depois a história com o Vítor, não vivi a minha adolescência como devia de ter vivido, não fiz nessa altura todas as experiências que devia de ter feito.

O Vítor soube desta minha tentativa de relação com o Diogo e chamou-me à atenção, dizendo que eu me iria magoar. E magoei. Na altura, senti inclusivamente necessidade de pedir ajuda psicológica porque me senti um farrapo. Porque não consigo eu um relacionamento estável? Por que é que os homens me desejam mas não me amam? O que estou eu a fazer de errado? As respostas a estas perguntas ainda não as encontrei. Infelizmente, por motivos económicos, tive de deixar as consultas com a psicóloga.

Assim que o Vítor soube que a relação com o Diogo terminou, veio todo contente dizer que me amava. E eu, toda carente, lá me deixei ir outra vez para os braços dele. Ciente que nunca iria dar em nada, porque como já referi, ele é de Lisboa e eu de outra cidade, além do facto de o trabalho dele ser como o dos saltibancos, agora aqui, depois ali, depois não se sabe onde. Mesmo sabendo que nunca iria dar em nada criei laços de afecto com ele. Apesar de ele dizer que me amava, as atitudes diziam o contrário e eu fui-me deixando ficar. Depois doía-me quando se afastava. E ele afastava-se e depois voltava. E depois afasta-se outra vez e eu sinto-me magoada com todas estas atitudes porque sou burra, já devia de ter colocado um ponto final, eu sei. E sei também que não me sinto com estrutura para ter uma relação a sério, daí o ter mantido esta. Porque está longe. Porque não interfere na minha vida. Não sei se algum dia vou ser capaz de viver com outro homem".

Olá Mafalda!

Eu fiquei de queixo caído quando li que o seu marido tinha uma relação extra-conjugal com a ainda mulher do seu irmão. Mas que gente! Esses dois devem ser boas peças e espero que vivam arrastados num amargo arrependimento. O cenário de família, todos juntos à mesa, a trocar presentes no Natal, debaixo dos olhos dos seus pais, é inacreditável! Adiante.

Homens recém-divorciados nunca são uma boa hipótese. Acho sempre que as mulheres que se seguem servem apenas para curar a ressaca. Da mesma forma, homens já com uma certa idade, que nunca viveram com ninguém, que não têm filhos e que nunca deixaram crescer raízes em lado nenhum, também são de desconfiar, na maior parte das vezes. E também, homens (ou mulheres) que não acertam as palavras com os gestos, são de fugir.

Mafalda, há sempre sinais, basta estar atenta. Como já leu centenas de vezes no blog, as pessoas vão até onde lhes permitir. Eu sei que é difícil encarar a realidade desta forma, mas a verdade é que muitas vezes uma pessoa só nos magoa uma segunda vez se deixarmos. Nestas coisas a esperança acaba por ser a nossa maior inimiga: a esperança de que tudo mude, a esperança que venha a tornar-se mais carinhoso, a esperança de vir a estar mais presente, blá, blá. Não sei porquê, nós mulheres, na maior parte das vezes ou em muitas fases das nossas vidas, achamos sempre que um dia mais tarde tudo pode vir a mudar e então ali nos mantemos a dar com a cabeça nas paredes, a perder a paciência, o orgulho, a auto-estima, tudo em nome de um bem-maior que nunca acaba por chegar e deitando por terra tudo o resto. Há que meter uma coisa na cabeça: ninguém muda. Ou se é, ou não é; ou funciona, ou não funciona.

Eu compreendo que não tenha vivido muita coisa numa fase mais jovem e não me parece que ande à procura disso. Acho que anda procura de si própria só que ainda não sabe que é isso que precisa. A Mafalda, para ser Mafalda, não precisa forçosamente de ter um homem ao lado, mas é assim que se conhece e por isso não se vê de outra forma, então procura substituir esse vazio com pessoas que se vêm a revelar perfeitos trastes. Enquanto que o Diogo parece ter sido uma relação que não resultou, o Vítor é um inferno de vida que não descola, um ai gosto tanto de ti, num contínuo picar de ponto, mantendo-a em banho-maria para sempre que precisar de um conforto quando está longe ou de uma cama quente quando está por perto. Esse homem não presta.

Não acredito que tenha criado laços de afecto com esse homem, pois não criamos laços de afecto com quem nos faz mal. Acreditamos sim que criamos laços de afecto, o que não é a mesma coisa. Se pensar bem, provavelmente criou alguma dependência emocional, uma âncora que a liga a uma vida a dois, o tipo de vida que sempre conheceu na fase adulta e não sabe o que é viver sem essa âncora. Na falta de uma boa pessoa, agarra-se ao que há, e que infelizmente coincide com um traste.

Acredito sim que vá encontrar alguém, que vá ser capaz de viver com outra pessoa um dia, mas isso só vai acontecer de forma certeira quando estiver mais confiante, mais segura de si, quando deixar medos e fragilidade de lado e quando deixar de permitir que façam de si gato-sapato. O que tem a fazer é o mesmo que se faz quando se quer cultivar uma horta simpática: arrancar ervas daninhas. Mas isso já sabe, só ainda não colocou em prática.

8 caroço(s):

Rute Borges disse...

Deixe-me dar a minha opinião, a Mafalda ainda está magoada na sua auto-estima, na forma como se olha, tem o seu orgulho, o seu coração magoado. Mais do que amar o Victor ou o Diogo, sente que precisa de ser amada, isso é o que procura a todo o custo e que deseja que seja para ontem. E quem não precisa? Como sabe, o amor não se procura, encontra-se, ele vai aparecer numa esquina qualquer quando menos esperar. Mesmo no começo do seu relato fala de como partiu para o passo de casar, algo que esperavam de si, algo que também queria viver, fosse ou não fruto de um amor engrandecedor. Tente aceitar as relações que a vida lhe proporciona sem a carregar de espectativas, mas deixe o lume aceso para o dia que esse amor chegar. Não se bata mais e procure ser feliz. Um beijo

CS disse...

Acho que convém frisar um termo que utilizou e que pode a ajudar a Mafalda: Dependência Emocional.

Mafalda, leia acerca deste tema e pesquise na Net situações verídicas e irá perceber que algumas são semelhantes á sua...

Sem querer acusar ninguém, acho que neste caso, pode haver alguma responsabilidade da sua parte... já pensou nisso?? Sim, o que não falta são homens sem carácter...Mas porque é que só lhe calham esses? Já pensou nisso?

Á priori, identifico várias hipóteses:

1º Não sabe o que procura num homem;

2º É demasiado receptiva a tudo que lhe aparece á frente;

3º Sofre de um cegueira nas relações, em que vê tudo muito rosa enquanto está nas relações(e tudo muito negro, quando já saiu das relações);

4º Sofre de interdependência emocional e gosta de relações em que sinta que vai conseguir mudar a outra pessoa; Sim, o sindrome de "Sim ele sempre foi mulherengo, mas comigo é diferente: Ele ama-me!" ou "eu vou dar-lhe tanto aquilo que ele quer/precisa, que ele vai amar-me"; ou "com o meu apoio, ele tornar-se numa pessoa de sucesso e confiante, e saberá que não pode viver sem mim" - TODOS ESTES PENSAMENTOS ESTÃO ERRADOS!;

Enfim, acho mesmo que deve fazer uma introspecção; Se achar difícil leia sobre os casos de outras mulheres na Net, vai ver que é mais fácil analisarmos casos semelhantes ao nosso e decidir...Quando decidir, fique-se por aí...e mude o modo como vê as relações, pois parece sempre alguém que têm de estar numa relação (seja qual fôr o motivo que esteja a usar, não me parece que tenha mudado desde que casou com 21 anos)...

Enfim, todos estes comentários foram no sentido de a ajudar e não ofender...

Gluck

Miri* disse...

Aconselho vivamente um livro : "As mulheres que amam demais" tenho a certeza de que a vai ajudar :)

Anónimo disse...

Também deixa de ser boba ajuda muito.

Anónimo disse...

Mafalda, tem três filhos a precisar de uma mãe presente e com uma vida estável. Concentre-se neles e o resto virá por acréscimo. Muitas felicidades.

Any =D disse...

Olá. Ofereci-te um selo :)

Podes vê-lo aqui:http://o-mundo-da-any.blogspot.com/2011/08/mais-2-selinhos.html

Beijinhos

Anónimo disse...

Muito obrigada a todos pelos vossos comentários :)

Em especial à Rute e ao (à?) CS.

Esta história recebeu um ponto final definitivo em Junho passado.

Sim, de facto andei meio perdida de mim logo após o meu divórcio, afinal, o meu projecto de vida, aquele que pensei que seria até ao final da minha vida, ruiu por completo...

Estas duas situações que vivi, apesar de soarem recambulescas, serviram para me ensinar e fortalecer em muita coisa :)

Obrigada a todos!

"Mafalda"

Poisoned Apple disse...

Olá Any!

Muito obrigada pelo selo! ;)