25.7.11

Sem dó nem piedade

Antes de ir para Londres fui a casa da minha mãe buscar um guia que para lá andava e que me ia dar jeito na viagem. Arrumei umas coisas e acabei por olhar para a cómoda que está no meu quarto. Pus as mãos nos puxadores da gaveta onde guardava mil coisas, entre elas, registos de amor passados, testemunhas de papel, guardadas também debaixo de um forro de papel. Ali permanecia há anos o somatório de poucas cartas de amor que recebi, muitas mais as que enviei, escritas numa folha de rascunho para depois escrever novamente numa folha impecavelmente limpa, com letra bonita e cuidada. Eram muitos bilhetes trocados, mil cartas enviadas, muitos corações desenhados, muitas fotografias de homens a quem perdi o rasto, que não sei se efectivamente chegaram a transformar-se em boa gente ou se continuam centrados neles próprios, usando e abusando de quem cai na má sorte de os ver como pares.

E à medida que me passavam nas mãos cada vez mais provas do passado, como quem desfaz um baralho de cartas, vi amores antigos, frases intermináveis e sorrisos desmedidos nas fotos a dois. Recuei no tempo. Parei, tirei do ombro a mala que me pesava e eu que me preparava para sair, puxei de um caixote de lixo para perto de mim, assumi uma posição confortável - ia estar ali uns minutos - retirei tudo de cada envelope e li na diagonal o que um dia tinha escrito. Li algumas daquelas linhas intermináveis, algumas desesperadas, os "gosto de ti" repetidos, a exposição do meu íntimo.

O meu primeiro pensamento, ao ler frases avulsas de muitas daquelas cartas foi: "como pude ser tão estúpida?". Suspirei e rasguei. Raguei sem dó nem piedade dezenas de cartas, papéis amarelados pelo tempo, fotografias, dividindo cada par, deixando-me a mim e a outro homem cada um numa metade da fotografia, e atirei tudo para o caixote de lixo ao meus pés. Rasguei sem olhar para trás com saudade, umas atrás das outras, apenas com pena de ter sido tão estúpida. Como fui tão burra um dia? Rasguei as folhas em quatro, oito, mil metades, umas atrás das outras, algumas vezes constrangida, não acreditanto o longe que a esperança me tinha levado, atirando por terra o orgulho, a auto-estima, os valores e os princípios, esforçando-me tanto por agradar que deixava de ser eu mesma e, por isso, incapaz de fazer resultar qualquer relação.

Diz-me um amigo que a rúbrica "Consultório" não deveria dar-me assim tanto trabalho, pois poderia criar uma resposta modelo que serviria para a maioria das mensagens que recebo. Então ela aqui fica: quando um homem age como se não gostasse de nós, é porque não gosta mesmo. Não é porque tem traumas, porque está ocupado, porque tem uma vida difícil. É mesmo porque não gosta de nós. Todas as cartas que rasguei mostravam isso mesmo.

20 caroço(s):

Piston disse...

A teus pés me vergo. Resposta que funciona sempre e para ambos os sexos.

Ana Princesa disse...

Numa altura menos boa da minha vida tinha uma montanha de presentes simbólicos e cartas de amor escritas. Foram as primeiras. Especiais e únicas não se repetirão.
Num acesso de loucura, cega queimei tudo.
Ainda me perguntaram: tens a certeza?
Nem respondi, aticei o lume.

Continuo presa a essas palavras porque continuo com quem as escreveu, mas não me arrependo.

Já dizia o outro: "Palavras leva.as o vento".

A. disse...

Obrigada Poisoned Apple. Talvez não imagines como nem porquê, mas estas tuas palavras tocam sempre, sempre, em alguém. Eu hoje sou esse alguém.

filosofo disse...

Muito bom o seu blog,tem algumas passagens com as quais me identifico.continue assim!já agora se sentirem curiosidade,deixo este endereço atitude-critica.blogspot.com acredito que não vão dar por mal empregue o tempo da visita.obrigado

Espiral disse...

Sim. É isso.

Sem enfeites.

Carla Isabel disse...

Olha a minha mãe, numa daquelas limpezas gerais, ligou-me:
- Olha tenbs aqui umas cartas, muitas...
- Ah sim, deita tudo fora....
-Ok
- Bjs e obrigada!

(viste, como resolvi rápido e sem recuerdos!)

Anónimo disse...

O último parágrafo acho que é das palavras mais verdadeiras que já ouvi. É tão simplesn ,não é? Porque inventamos desculpas e criamos ilusões. É tão simples quanto isso..

Anónimo disse...

Acho que vou imprimir estas últimas linhas e colar em algum sítio BEM visível, para que as possa ler várias vezes ao dia...

Filipa disse...

É a pura verdade, não há que complucar. É assim e pronto!
Um dia também fui muito burra, esse dia já lá vai e hoje sou muito feliz :)

Um beijinho

Belinha disse...

Li, gostei e partilhei...

Belinha disse...

Li, gostei e partilhei...

Euzinha disse...

"Quando um homem age como se não gostasse de nós, é porque não gosta mesmo. Não é porque tem traumas, porque está ocupado, porque tem uma vida difícil. É mesmo porque não gosta de nós. Todas as cartas que rasguei mostravam isso mesmo."

Das melhores coisas que alguma vez li... Isso resume aquilo que penso (mas que não pensei sempre...) e aquilo que tenho tentado fazer acreditar a algumas amigas que vivem isso... As atitudes, o empenho, o carinho, a presença física ou estão presentes, ou não vale a pena insistirmos em viver um amor não correspondido.

Quando se gosta realmente as atitudes são espontâneas, os gestos saem sem pernsarmos neles... Quando não se gosta, não se demonstra e isso é um sinal de que devemos virar as costas.

Obrigada pelo privilégio que é lermos as suas palavras (já lhe agradeci mas nunca é em demasia) :)

Beijinhos,

Ana

compintas qb disse...

tal e qual. Infelizmente precisamos passar por estas situações algumas vezes para reconhecermos que é a mais pura das verdades.

Luis Bento disse...

Envenenaste-me com a maçã das tuas palavras... tenho que cá voltar...

Anónimo disse...

Maçã, realmente vale a pena vir aqui todos os dias...Felicidades

Sofia Tavares

Juanna disse...

Guardei tudo como uma doce recordacao de que as promessas sao facilmente quebraveis. E foram promessas deliciosas.

Squeeze disse...

"quando um homem age como se não gostasse de nós, é porque não gosta mesmo. Não é porque tem traumas, porque está ocupado, porque tem uma vida difícil. É mesmo porque não gosta de nós."

E pronto...e se dúvidas tivesse estavam esclarecidas....
É a primeira vez que visito este blog e na minha primeira visita levo logo com aquela frase que tem tudo a ver com o que estou a viver...Tudo na vida tem uma razão...

Vou publicar no Facebook!! Posso???

Obrigada! Vou só ali dizer a um certo senhor para se fazer à estrada!!!!

Ana disse...

Como tens razão Maçã. :)

Ardnaxela disse...

Concordo plenamente acerca do que dizes no último paragrafo. Há uns anos também fiz uma limpeza dessas e que leve me senti...

Ai que desgrácia disse...

São textos como estes que me fazem vir aqui todos os dias...

Obrigada!