5.7.11

Enquanto não me tirarem o pio, não me calo #7

To: info@emel.pt
Assunto: reclamação

Exmos. Senhores,

serve este e-mail para expressar o profundo ódio e desprezo que tenho pela EMEL e ainda para colocar algumas questões.

Eu respeitaria a EMEL, palavra que sim, caso se tratasse de uma economia sustentável, em que o valor dos parquímetros teria como destino o arranjo dos buracos no alcatrão, dos passeios irregulares, dos canteiros, se o dinheiro fosse aplicado em transportes públicos, na sua melhoria e frequência, ou seja, se o dinheiro fosse realmente aplicado para servir a melhoria das condições de vida dos lisboetas. Não consigo respeitar a EMEL quando diz que trata do ordenamento na cidade - é-me indiferente e nem sequer vejo transformações realmente benéficas desde a sua existência - e quando pinta traços no chão (quando pinta!) para marcar uma zona de estacionamento. A impressão que tenho, e gostaria de refutassem com tal argumentação que me levessem a reconsiderar a minha opinião, é que a EMEL enriquece alguém, diz-se mulher de um antigo presidente da Câmara de Lisboa, com concursos duvidosos, ou seja, conflitos de interesses.

Não bastava o meu ódio relativo a uma má situação, agora é pior: decidiram aumentar o valor dos parquímetros para valores incompreensíveis e insuportáveis pelos portugueses. Posso ler a afirmação da EMEL, no DN, de 27 de Agosto de 2010, quando afirma que Lisboa "é a cidade onde é mais barato estacionar na zona vermelha (...) a média europeia é de 2,30 euros". E eu pergunto, qual é a média de salários para esses europeus? Qual a relação parquímetros/vencimentos desses europeus? Como são os transportes públicos na sua qualidade e frequência desses europeus?

No Público de hoje, 4 de Julho de 2011, a EMEL "sustenta que os aumentos no preço do estacionamento se farão sentir fundamentalmente nas zonas com concentração de comércio". E eu explico o que vai acontecer por vossa causa: se na Baixa e Chiado vêem as lojas fechar portas, as montras despidas e sujas por causa da crise, agora, ao valor de 3,20€ por 2 horas, vão arruinar o comércio de rua e encher os centros comerciais, quando alguns nem sequer cobram pelo estacionamento. Por exemplo, a mim já não me apanham por lá de passeio, só em casos que não possa evitar.

Mais, leio ainda no Público de hoje, que "o presidente da Emel garantiu anteriormente que estas alterações terão consequências quase nulas nas receitas da empresa". Mais um motivo para estarem quietos e deixar como estava, que já era mau. Quietos incomodavam menos as pessoas, roubavam menos e provocavam menos ira colectiva.

Sobre o novo tarifário, vou ao vosso site e leio coisas ridículas, como quem insulta os lisboetas na sua inteligência:

1. "Aplicação de um tarifário ajustado às diferentes realidades sócio-económicas da cidade de Lisboa", classes altas e baixas trabalham no centro de Lisboa. Isto é uma anormalidade.

2. "Incentivar a utilização de transportes públicos nas zonas de maior rotação", eu também gostava, se os houvesse de onde vivo e se fossem de facto funcionais!

3. "Coincidir com boas práticas europeias através da aplicação de um tarifário ajustado ao perfil de utilização: mais barato nas zonas de baixa rotação e mais caro e com uma duração menor nas zonas de maior rotação e mais bem servidas de transporte colectivos", e já agora, coincidam com as outras boas práticas europeias de que falava.

4. "Contribuir para uma melhor gestão do espaço público e para um aumento da sustentabilidade da cidade de Lisboa", expliquem-se, que isto parece conversa de Gato Fedorento.

A existência de parquímetros é má, o aumento dos parquímetros é pior, e este bordel legal montado aos olhos de todos, sem qualquer impacto nos transportes públicos é tão escabroso que não tenho adjectivos para classificar. Eu respeitaria a EMEL, se fosse respeitável.

Querem ser europeus como nessas "grandes" cidades? Querem armar-se em modernos e internacionais? Com certeza, mas se isso respeitar um todo, se isso beneficiar os cidadãos e não for apenas roubar. Eu não me importo que os parquímetros cobrem 5€ a cada 5 minutos, se eu tiver transportes para me deslocar (o que não tenho, tenho de me meter no carro para chegar perto deles), se a rede for alargada, se não tiver de esperar uma vida por um autocarro, se o serviço nocturno não funcionar uma ou duas vezes por hora, se o Metro estiver aberto durante a madrugada, se o valor ganho nos parquímetros tirar as empresas de transportes públicos do contínuo buraco financeiro em que se encontram, se eu de facto conseguir fazer a minha vida de transportes públicos, se a EMEL servir de facto para alguma coisa, no lugar de fazer mil agradecimentos e gastar fortunas com publicidade que dizem "obrigada, parvos. Por vossa causa a cidade está mais arrumadinha", quando por vossa causa andam todos mais irritados, mais frustrados e, pior, mais pobres.

Assim, coloco as seguintes questões:

1. A EMEL é uma economia sustentável ou não?
2. Se não é, qual o nome da pessoa que anda a encher os bolsos com isto?
3. Qual o argumento legal para privados ganharem dinheiro com a EMEL quando o espaço é público? (Não vale enviar resmas de PDF sobre o estado de direito e afins para responder a esta questão).
4. Por que motivo o valor ganho nos parquímetros não é aplicado nos transportes públicos, no arranjo de buracos e no aspecto das ruas em geral?
5. Se não é possível, por que não tornar possível, fazer mais e melhor?

Todas as questões que constam deste e-mail não representam ironia, são questões sérias que gostaria de ver respondidas. Cada uma delas tem um ponto de interrogação.

Cumprimentos,

13 caroço(s):

Carla Isabel disse...

E quem fala assim não é gago!

Bjs

Anónimo disse...

E era assim que deveriamos todos agir para um país melhor.... pelo menos alguém já o faz!!!

Beijinhos

Sandra / Funchal

T.P. disse...

http://arrastao.org/2300839.html

Dina disse...

Isso é que é falar!!

Anónimo disse...

Eu sou do Porto, logo não me cabe (eu sei) comentar o que se passa em Lisboa. Não vivo lá, não conheço essa realidade, pelo que me remeto ao silêncio. Mas gostaria só de destacar uma expressão sua "se os (transportes) houvesse de onde vivo e se fossem de facto funcionais!". Não tenho qualquer dúvida de que há pessoas tanto em Lisboa como aqui no Porto que, de facto, não têm alternativa ao automóvel. E acredito que a PApple não tenha. Mas conheço muita gente que acha que "transportes públicos funcionais" seria terem um autocarro todos os dias à porta de casa que os levasse à porta do local de trabalho e vice-versa à hora que lhes conviesse e, de preferência, que não transportassem mais ninguém (que horror, os transportes estão cheios de povo!). Dou um exemplo: aqui no escritório somos 18. A pessoa que vive mais longe sou eu. Todos (todos mesmo) moram em sítios bem servidos de transportes (com frequências de 10 a 15 minutos) e eu sou a única que me desloco de autocarro. Os restantes têm todos uma desculpa para continuarem a utilizar o automóvel.

Dulce Fernandes / Porto

Juanna disse...

Poxa...os preços andam ao nível dos parques de Madrid. Pronto, é da maneira que passo a ir apenas ao centro comercial porque o parking é mais barato. E que se fod* o comércio de rua.

Anónimo disse...

1. A EMEL é uma economia sustentável ou não?
Sim. Receita superior à despesa = proveitos x 25% de IRC para o Estado.

2. Se não é, qual o nome da pessoa que anda a encher os bolsos com isto?
Pergunta mal formulada. Se não fosse sustentável ninguém encheria os bolsos. Sendo, quem os enche são: Accionistas. Funcionários recebem ordenado.

3. Qual o argumento legal para privados ganharem dinheiro com a EMEL quando o espaço é público?
O mesmo argumento por exemplo dos restaurantes, bares e esplanadas que utilizam via pública para fazerem dinheiro.

4. Por que motivo o valor ganho nos parquímetros não é aplicado nos transportes públicos, no arranjo de buracos e no aspecto das ruas em geral?
Se tem a certeza, não vale a pena ler o contrato.

Zade disse...

Cara Maçã, aqui não posso deixar de discordar consigo. Não tenho carro e frequento assiduamente a zona da Baixa/Chiado, onde faço a maioria das minhas compras. Nunca deixei de comprar nada por ir de Metro, ou mesmo a pé até ao Cais do Sodré, o que aliás, prefiro. Se vou mais pesada, ou se estou mais cansada, apanho um táxi, o que não fica assim tão mais caro de que pagar parquímetro, e é bastante prático. E quem diz Baixa - Chiado, diz Avenida da Liberdade, etc: estações de metro é o que não falta nas nossas zonas comerciais!
Lisboa está cada vez mais poluída, por isso, sim, qualquer medida que leve a que haja menos carros em Lisboa, é boa. Além disso, nas outras cidades europeias, o que é raro é alguém levar o carro para ir ás compras!

Piston disse...

Há transportes. Nunca serão tão confortáveis e rápidos como o carro, mas existem.

Anónimo disse...

Há sempre uma boa desculpa para não se usar os transportes públicos...

Anónimo disse...

Acrescento mais 2 questões:
1) Vamos continuar a ter estacionamentos com pagamento adicional obrigatório as "colaboradores" (certamente da EMEL) que nos "ajudam" (ou intimidam) a arrumar o carro, mais conhecidos por arrumadores ou a EMEL vai agir de vez ?
Hummmmm! Não me parece...

2) Será que é agora vão criar condições de exploração dos locais, ou vão continuar a limitar-se a cobrar, enganando muitas vezes os utentes e obrigando-os a correr riscos, como atravessar estradas de 4 vias para comprar o ticket ?

Começo a chegar à conclusão que é melhor estacionar em 2ª fila, pois embora perturbe abundantemente o transito é muito mais barato e ninguém faz nada (EMEL ou Policia).

Já agora: Há uns tempos questionei a EMEL sobre o facto de multarem e bloquerem e um carro por 60€ (preço antes do aumento de 100%) não era suficiente para penalizar alguém que apenas não comprou o ticket, mas que também não prejudicava ninguém, sendo preciso também rebocá-lo.
A resposta foi que os funcionários da EMEL têm autoridade para agirem dessa forma...
Uma multa de 60€ já "doi". Ter de pagar mais 150 € só por não ter pago o ticket é revoltante, ainda por cima quando estamos cheios de carros mal estacionados sem que alguém faça alguma coisa.

Depois queixem-se que há uns condutores que reajem mal perante os fiscais...

Helena de Troia disse...

Eu pessoalmente também odeio a EMEL e a forma como trabalham e exploram e riem-se com isto tudo. Mas os aumentos levam a um uso dos transportes públicos... no entanto, se toda a gente o fizesse, a EMEL entrarem na falência. O problema é eles saberem que milhares e milhares de pessoas simplesmente não podem ir para o trabalho de transportes. De casa a Lisboa de transportes demoro, 1.30h, de carro, 15minutos pela A5... é portanto, preferível ir de carro... enfim!

Catarina disse...

A rede de transportes públicos em, de e para Lisboa é bastante razoável (excepto a partir de certas horas - madrugadas). Pode ser muito cómoda e prática a deslocação em viatura própria mas cada vez mais se revela uma opção que deverá ser utilizada pontualmente, quer do ponto de vista económico quer ecológico. No entanto, na eventualidade de ter que levar o carro para a cidade porque não utilizar os parques de estacionamento? O acesso para um mês compensa muito mais do que estacionar "na rua", não é necessário andar a desesperar por um lugar nem a controlar constantemente o relógio para ir tirar os tickets...

Já deixei de levar carro para o centro há uns anos e 6 dias por semana utilizo os transportes públicos (são cerca de 2h e picos de viagens) mas compensa não só em dinheiro, como em menos stress e diminui a pegada ecológica. E mesmo quando tinha que usar carro utilizava os parques e não tinha que me preocupar com moedas, fiscais, multas ou arrumadores.

Não nos podemos acomodar ao que nos parece uma injustiça/abuso/roubo/etc, mas também temos o dever de avaliar racionalmente as alternativas, pois muitas vezes elas existem e só o nosso lado mais hedonista é que se recusa a aceitá-las.

Parabéns pelo blog! :)