Até onde se deve ir para ser uma boa mulher? Qual é o momento que define que a partir dali não estou a ser boa parceira? Não devo nunca omitir o que penso ou devo adaptar-me e ficar calada quando o assunto já está esgotado?
No mês passado estas dúvidas assaltaram-me quando o Poisoned Apple Man anunciou que se queria desfazer de dois bens para comprar um outro. Era um negócio sem pés nem cabeça, um negócio de quem quer um novo brinquedo e a quem só falta bater o pé. Um mau negócio, portanto. E eu que não percebo nada de negócios. O homem olhava para mim, perguntava-me de sorriso aberto o que achava sobre aquilo e eu não mentia: uma burrice. E ele ficava mal-disposto, irritado. Com o tempo consegui fazê-lo perceber que ele não queria uma opinião, mas antes uma palmadinha nas costas. E para não ficar irritado, o melhor era ele parar de me pedir opiniões. Já sabia o que eu pensava, não havia dúvidas a esse respeito, por isso mais valia que tomasse ele sozinho a decisão sobre aquilo que lhe pertencia. A minha opinião mantinha-se.
E o homem continuava a descer números de um lado e a subir do outro, pedia mil opiniões, e ninguém lhe dava a palmadinha nas costas que ele tanto queria. Mas o homem estava obstinado. Caramba, como consegue o homem ser obstinado! Isto durou semanas a fio e eu já não podia ouvir falar no assunto. Num jantar, cheguei a pedir a um amigo, por favor, convence-o a desistir disto! Confesso, cheguei a pedir ainda aos santos que me ajudassem nesta tarefa que parecia revelar-se inglória. Ainda tentei que o Poisoned Apple Man juntasse dois e dois: quando ninguém te dá razão e só tu achas que a tens, no mínimo deverias dar o benefício da dúvida.
Até que um dia entrou em casa de papeladas na mão, um pouco cabisbaixo e disse que já não ia para a frente com o negócio e tudo ficava como estava. Abracei-o, disse que não ficasse triste e afirmei que ainda vai muito a tempo de fazer o mesmo daqui a uns anos, com melhores condições. Juro que olhei para o tecto, fechei os olhos e agradeci. Fui ouvida.
Poucos dias depois já me dava razão e admitiu que teria sido uma estupidez. Isto tem dado lugar a umas gargalhadas da minha parte e a afirmações despojadas de humildade, como "sou tão esperta!", mas a verdade é que essa era uma razão que não me interessava ter. É horrível ter razão. E não a quero para nada, dado que não acrescenta nada à minha vida. Mas esta situação deixou-me angustiada, perguntei-me diversas vezes se estaria a proceder bem, perguntei-me se não estaria a ser um bom apoio quando deveria sê-lo, perguntei-me se estaria a ficar em falta, se não estaria a ser uma boa mulher, perguntei-me quando deveria falar, quando deveria estar calada, quando deveria deixar o assunto morrer, se poderia dizer que me recusava a falar mais no assunto.
Ainda não sei se estive bem, porque o objectivo não era "ganhar" este braço de ferro. Mas fui genuína e com isso tenho de dormir descansada.
6 caroço(s):
Acho que o companheirismo entre um casal passa por isso mesmo. O outro fazer-nos descer os pés à terra mesmo que isso magoe. Ou no caso dele ter ido em frente com o negócio, dar um abraçinho se corresse mal e em vez de dizer "eu bem te avisei", dizer "para a próxima corre melhor". :))
Parece-me que foi, da sua parte, o mais acertado. Se, porventura, lhe tem dado essa palmadinha nas costas, o negócio fazia-se e isso sim, era mau.
E pedir uma opinião é isso mesmo, é ouvir o que o outro acha sobre o assunto e geralmente quem está do lado de fora consegue ajuizar melhor.
Se me permite a opinião, acho que procedeu bem... Uma boa esposa/namorada/ companheira não é aquela que diz sim a todas as ideias e opiniões ou que cala com medo de ferir os sentimentos, uma boa namorada/amiga/esposa é aquela que chama à razão, que aconselha, que quer o melhor para a pessoa que ama... claro que às vezes a outra pessoa pode não aceitar bem, mas tudo depende da forma como expõe as suas opiniões. Pode dar opinião sem parecer que está a intererir na decisão e nos bens que não lhe pertencem :)
Temos que falar de malas, sapatos e vestidos...
Temos que ser honestas,...connosco e com eles...eu penso assim...por muito que custe...e podemos sempre dizer o que pensamos, aqui o truque é a forma de falar! ;)
Bjs
Nestas coisas de desejos a razão de pouco vale. Não em quero armar em Patife, mas quantas vezes não vi já uma mulher fazer um péssimo negócio ao comprar uma mala ou uns sapatos, num mês complicado e com a crise a bater à porta, mas cujo desejo não podia ser recalcado? Quando se deseja muito algo, as razões não entram na equação. Difícil é convencer os outros... Mas o Patife não percebe nada nem de negócios nem de mulheres. ;)
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