Foi a primeira vez que participei numa manifestação. Como disseram diversos comentadores políticos, é verdade, muitos dos que marcaram presença foram a uma manifestação pela primeira vez na vida. Nunca vi tantos programas de televisão do tipo Eixo do Mal como nos últimos tempos, nunca estive tão atenta ao que se passa na Assembleia, nunca liguei a política como agora (sei muito pouco) e procuro inteirar-me do que se passa e compreender conceitos e consequências. Também, nunca estive tão desgostosa com meu país e até com medo do que possa vir acontecer.
Por muitas razões, minhas e de outras pessoas que me são próximas, decidi ir a esta manifestação que teve uma expressão muito maior do que poderia ter imaginado. Quando cheguei eram 14h20. A manifestação estava marcada para as 15h, achei que aquilo estava um tudo nada despido. Mas de repente, a Av. da Liberdade não chegava para todos e as fotografias tiradas em bicos dos pés não deixavam adivinhar onde acabava o mar de gente. Desci pela Avenida que às tantas não circulava. Segui pelas laterais até ao Rossio, que tinha tanta gente como nunca vi. Gostei mesmo de ter ido, não me arrependo nada.
Tenho pena que as pessoas que considero normais não tenham ido a pensar que um outro iria por eles. A manifestação estava cheia de gente manhosa, muitos a precisar de tomar banho, mais ainda a precisar de cortar cabelos e segundo uma amiga que me acompanhava, repetia nervosa, que muitas das orelhas que ali andavam nunca na vida tinham visto um cotonete. Tive um amigo que antes de sair de casa me avisou que ia apanhar piolhos. O Poisoned Apple Man, que não foi, à noite olhava para as imagens de TV e repetia, olha-me o nojo desta gentalha... E é verdade, havia muita gente porca, nojenta, cheios de rastas, a precisar de banho e algum cheirinho a ganza. Condoía-me de cada vez que via cartazes cheios de erros ortográficos, apetecia-me ir lá dizer não é assim que se escreve!, obrigar a repetir 100 linhas daquelas frases e a refazer os cartazes. É óbvio que esta gente não arranja emprego! Mas também havia motivos para todos: gente com dificuldades para pagar o empréstimo à habitação, gente descontente com o governo, gente irada com o preço da gasolina, estudantes que perderam a bolsa, gente que não quer o TGV, o novo aeroporto, eu sei lá... Havia até quem difundisse a data de uma nova manifestação, desta vez em Maio, pela liberalização das drogas leves. Boa sorte, não é a minha praia.
No meio desta mistura, eu concordo com isto, mas fui e não me arrependi porque a culpa morre sempre solteira neste país. A custo e revoltada, eu até posso pagar a crise, mas os culpados não podem depois sentar-se em grandes cadeirões de bancos e empresas e viver felizes para sempre. Eu fui porque toda esta corrupção óbvia, com culpados evidentes, mete nojo aos cães com tribunais que decidem dar como não provado aquilo que uma criança de 5 anos sabe que ficou provado. Eu fui porque a Justiça não anda, os casos precisam de 10 anos para ver solução, quando não prescrevem. Fui porque da mesma forma que existe um ordenado mínimo nacional, entendo que deve existir um valor para os estágios (quando não curriculares), pois trabalho é trabalho. Fui porque é injusto que existam recibos verdes para quem trabalha para numa empresa a full time. Fui porque estes descontam mais que os outros e depois não têm direito a subsídio de desemprego, nem a ficar doentes. O mesmo acontece com proprietários de uma empresa que dá emprego a outros. Fui porque me deixa danada que algumas empresas vão satisfazendo as suas necessidades com estagiários, uns atrás dos outros, sem que nunca sejam contratados. Fui porque odeio a existência da EMEL, da qual me poderia orgulhar se as moedinhas transformadas em milhões servissem para investir em transportes públicos e em passeios e estradas decentes, no lugar de encher os bolsos de alguns porcos. Fui porque o Estado é um comilão com a boca sempre aberta. Aumentem o tabaco para o triplo, se quiserem, mas diminuam a percentagem de impostos em cada litro de combustível. E retirem a taxa da RTP das facturas de electricidade que respeitam a quadros eléctricos que apenas trabalham para regar campos agrícolas.
Fui porque até posso ter um lugar de trabalho na função pública, para o qual fui escolhida, o qual precisam urgentemente de preencher. Mas não sabem que esquema hão-de fazer para me contratar, e então mandaram-me para casa e aguardar, enquanto inventam maroscas. Certamente precárias. E eu estou sempre a telefonar para saber novidades, sou uma chata porque nem sempre me podem atender e tudo funciona muito lentamente.
E podia continuar, mas o texto já vai longo. Aguardo por novidades.
6 caroço(s):
Possa, no Porto não se viu gente com rastas, nem mal-cheirosos. MAs como meu marido diz, Setubal é muito perto de voces!!!
Claro que também fui. Caramba, ando à rasca com esta merd* toda! O meu contrato na função pública está a terminar e não vai ser renovado porque.. não há verba para dar contratos aos estagiários... apesar de precisarem deles! É frustrante os concursos a que concorro mas que a vaga já está preenchida; é frustrante dizerem-me que não tenho qualificações.. ou que tenho qualificações a mais.. ou que não tenho experiência.. ou que tenho experiência a mais. É frustrante dizerem-me que só me podem contratar a titulo de estágio.. que eu não posso fazer porque .. JÁ FIZ UM! É nojento que instituições, empresas, vivam e funcionem à conta de estagiários ano após ano.. e dar contrato é mentira. Sou licenciada, pós-graduada, e a entrar num mestrado que provavelmente vou ter de desistir porque .. não terei dinheiro para pagar. Do meu curso, ninguém, NINGUÉM, está a trabalhar na área. Trabalhei 2 anos numa Instituição nojenta, a recibos verdes, onde recebia uma miséria que mal me chegava para pagar a propina da pós-graduação, além dos horários criminosos que eu fazia, 12h diárias ou nocturnas, à escolha do freguês, onde por vezes nem dormia, chegando a trabalhar 18h seguidas.. É um nojo o ponto em que chegámos!!
Estou frustrada, cansada, triste e revoltada com esta situação.
vou partilhar o teu texto (com a respetiva fonte, claro). quando alguém escreve exatamente o que pensamos e de forma tão clara, só partilhando. :)
Grande texto, gostei muito de ler :) Equilibrado e com bom-senso, ao contrário de muitos que por aí andam e que tentam pôr no mesmo saco quem acaba agora uma licenciatura e supostamente vive à custa dos pais, e quem trabalha a 500euros e/ou a falsos recibos verdes. Porque descontar mais de metade do salário para impostos quando se trabalha há 10 anos para uma empresa é nojento, porque um licenciado receber o mesmo que alguém que tenha o 12º ano (não que tenha nada contra, mas o esforço suplementar de continuar a estudar deve ser recompensado monetariamente) é injusto. Contudo, todos sabemos que estas questões são estruturais e para que comecem a ser resolvidas tem de haver primeiro uma revolução na mentalidade, não só de quem governa, mas de todos nós.
Neste momento não estou a recibos verdes, estive nessa modalidade durante 6 anos para o Estado, mas tenho licenciatura, pós-graduação e mestrado e o salário é o que nós sabemos. Fui por mim e por todos os que se encontram na mesma e em situações piores. Porque esta não é uma questão de uma geração, mas é transversal a todas as outras. Ah, e não apanhei piolhos ;)
Repito, a mensagem muito pouco focada e os meios completamente inofensivos fazem com que esta manifestação não tenha consequência nenhuma. Se não dói na carteira, se não incomoda a economia, o resultado é nulo.
Ainda bem que referes o "eixo-do-mal". O programa desta semana está carregado de verdades.
http://sic.sapo.pt/online/video/informacao/Eixo+do+Mal/2011/3/edicao-de-12-03-201113-03-2011-211352.htm
Muito bem dito. Só tenho pena de ter a certeza que esta manif não serviu para nada em termos prácticos.
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