“Tenho 21 anos e tive um relacionamente de 3 anos com o J. que está a ser muito difícil de ultrapassar (…) Ele era emigrante (…) começou a surgir um sentimento entre nós (…) A distância sempre foi muito complicada para ele, por isso decidiu vir viver para Portugal (…) Perdi a virgindade com ele e ele comigo. O primeiro beijo dele até foi comigo, no entanto eu já tinha alguma experiência com namoros e curtes anteriores (...)
Nesse mesmo ano em que ele veio para Portugal eu entrei na Faculdade noutra cidade e isso foi um grande choque para ele. Ele tinha vindo para cá por minha causa (…) mas não podia evitar, tinha de continuar os estudos. O segundo ano de namoro já teve alguns altos e baixos. (…) Quando eu quis terminar, vi-o pela primeira vez em estado de choque, em lágrimas e soluços e se não tivesse sido o primo dele, ele ter-se-ia suicidado de mota. Um dos grandes problemas do namoro foram os meus pais, eles nunca aceitaram o meu namoro com ele. O meu pai não me falava e não me deixava sair com ele (…)
O terceiro ano foi o pior, eram discussões atrás de discussões. Quando fazíamos as pazes era maravilhoso. Mas ele não lutava quase nada por mim, era quase só eu. Isso juntando os meus pais, eu estudar noutra cidade e não ser muito beijoqueira, fez com que a relação chegasse ao fim. Esse dia aconteceu quando ele não apareceu no meu próprio dia de anos, como tínhamos combinado.
A partir daí sofri muito. Ele começou a curtir com outra rapariga da nossa terra e mais tarde a namorar (…) É verdade que ele muda de reacção muito depressa, ora diz que me ama ora não me quer ver e mente-me. Quase tudo o que ele me disse nestes últimos meses era mentira. Quase todas as frases que me dizia tinham uma mentira pelo meio. Mas eu continuo a amá-lo como no primeiro dia!
Passaram 3 meses desde o fim e já tentei o suicídio duas vezes (…) Eu acreditava mesmo que ele era o amor da minha vida. Ainda nos contactamos por telemóvel, mas ele é frio comigo, excepto algumas vezes em que é um amor e parece que quer voltar para mim. O J. não fala para mim todos os dias, mas eu tenho-lhe mandado todos os dias alguma mensagem de telemóvel. Além disso desde que acabámos já tivemos várias vezes sexo e ele já a traiu comigo. Normalmente sempre que nos encontramos acabamos a ter relações. Não sei o que fazer. Quero ultrapassar isto, seguir com a minha vida, mas estou sempre a ter crises e a tentar acabar com a minha vida ou então a tentar que ele volte para mim. O que achas que poderei fazer? Já fui ao médico, que me receitou medicamentos para dormir.
(…) Quanto aos meus pais ainda pioram mais as coisas porque estão sempre a contar-me coisas do namoro de eles os dois e ainda por cima o pai dela é um dos grandes amigos do meu pai.
Por favor ajude-me. Obrigada”
Olá E.,
obrigada pela sua mensagem.
A resposta à sua história não será muito diferente das que já leu neste blog. Ainda tem muito pela frente, ainda vai ter muitos namorados, ser feliz, rir, chorar, sofrer novos desgostos, ir-se abaixo, levantar a cabeça outra vez e por aí fora. Os desgostos custam, mas por si só não matam. E fazem parte de crescer e tornar-se mulher. Eu estou feliz, estive infeliz por muitos anos, mas até quando estou com a pessoa que me faz feliz às vezes as coisas não correm tão bem como gostaríamos e fico triste. Faz parte da vida, acontece comigo e com toda a gente. Foi e vai ser sempre assim.
O que custa mais num primeiro desgosto de amor é o facto de ser o primeiro. É horrível o sofrimento e são emoções que se desconhecem. Pior, não nos reconhecemos. Quando já vai no segundo, a experiência já é outra, sabe-se que não se morreu da primeira vez e encara-se a coisa de outra forma, com outra maturidade. O primeiro desgosto é o pior, parece que nunca vamos conseguir ultrapassá-lo, mas é só um "parece", ele passa com o tempo. Outra razão que leva a que o desgosto seja mais doloroso é o facto de não conhecer outra realidade. Nunca se deu a outro homem, sente que ele não valorizou isso, acha que não consegue vir a gostar de mais alguém, quanto mais envolver-se fisicamente. Mas a vida não acaba aqui, nem o amor. Cara E., tem 21 anos, como acha que aguentaram as pessoas mais velhas? Fizeram por ultrapassar, o tempo curou. Bem sei que dizer isto desta forma parece uma insensibilidade. A E. acha que mais ninguém no mundo sofreu assim, mas isso é também o que sentem as outras pessoas que têm um desgosto pela primeira vez, é o que eu senti. Em suma, os desgostos são iguais entre si.
Diz que durante o namoro, um dos problemas foram os seus pais que não o aceitavam e o seu pai deixou inclusive de falar consigo. Aqui já começo a ficar com os olhos raiados de sangue. Eu gostava de ter um diálogo com esse tipo de pais ignorantes. Desculpe-me a franqueza, sei que são seus pais, mas ser burro e ignorante é coisa à qual tenho baixa tolerância. Se não gostam, os seus pais têm de aceitar e ser cordiais. Deixá-la cometer os erros que precisar e, SOBRETUDO, estar sempre do seu lado. Isso é ser um bom pai. Deixar de falar é coisa que me mete nojo. Durante 5 anos namorei com um energúmeno de quem gostava, sabe Deus a razão, que não prestava, que deixou de estudar, que chegou a roubar-me, que se tornou toxicodependente e mais tarde esteve diversas vezes na cadeia. Giro, não? Acha que a minha mãe estava encantada? Odiava-o de morte! Pedia aos santos que eu o abandonasse, procurava fazer-me entender que aquilo não era vida para mim, que merecia muito melhor, mas nunca deixou de me falar nem foi mal-educada para ele. E é isso que os pais fazem, estão do nosso lado, alertam, mas não vivem a vida por nós e é isto que os seus pais têm de compreender. Ao fim de 5 anos acordei para a vida (sozinha) e ele pode estar vivo ou morto que é irrelevante para mim. Tomara até que tenha morrido que é menos um parasita na terra. O que é que isto também significa? Que tudo passa.
O importante E., é que pare de inventar desculpas que é o que as pessoas fazem quando não têm coragem de "agarrar o touro pelos cornos", quem não tem coragem de encarar as evidências. Ora siga-me:
1. Ele mudou-se para Portugal, a E. teve de ir estudar para outra cidade, mas ia a casa, não ia? Pobre, sofreu tanto. E todas as outras pessoas que vivem à distância? E os namorados que vão para Erasmus? Não, não foi isso que condenou a relação.
2. Num interregno do namoro, ele procurou suicidar-se de mota. Maduro. Se há coisa que me dá cabo dos nervos são as pessoas que ameaçam "vou-me matar" ou a minha preferida "agarrem-me ou então eu mato-me". Quem quer realmente matar-se, mata-se. O resto são chamadas de atenção, é "tenham pena de mim", é "tens de ser minha namorada à força ou ficas com peso de consciência o resto da vida". Mais, quem se mata por outra pessoa não é amor, é dependência. E agora, nos dias de hoje, ele diz que se vai matar? Não. O que é que isso significa? Que tudo passa.
3. "O terceiro ano foi o pior, eram discussões atrás de discussões. Quando faziamos as pazes era maravilhoso". É sempre em qualquer relação, isso não significa nada.
4. "Mas ele não lutava quase nada por mim, era quase só eu". E., leve a mão à consciência. Quando uma pessoa não luta por outra é o quê? Eu sei que dói, mas encarar a verdade é o primeiro passa para se começar a libertar da dor.
5. "Isso (...) e não ser muito beijoqueira, fez com que a relação chegasse ao fim". E., vamos parar de inventar desculpas. Ninguém acaba uma relação porque a outra pessoa não é beijoqueira. Conheço mulheres frias que têm maridos. Eles até podem constatar isso mesmo, mas gostam delas assim. É da pessoa que se gosta, de um todo com o que há de bom e de mau, não se deixa de gostar de ninguém porque dá menos beijinhos do que gostaria.
6. O fim "aconteceu quando ele não apareceu no meu próprio dia de anos". Que nome dá a isso? A um namorado que não aparece no seu aniversário? É uma pessoa digna de estar consigo? Acha que os seus pais podem gostar de alguém que tem coragem de lhe fazer isto? Ele merecia uma tareia! Lamentavelmente, uma pessoa que tem coragem de lhe faltar assim, é alguém que não tem cuidado consigo, que não se importa, que não tem consideração, respeito ou cuidado. Quer estar com alguém que não tem nada disto por si? Revolte-se! Interrompa qualquer contacto agora mesmo!
7. "Ele começou a curtir com outra rapariga da nossa terra e mais tarde a namorar". Isto significa que ele virou a página. Se ele gostasse realmente de si, acha que teria coragem? "A" que gosta mesmo de "B" quer alguma vez envolver-se com "C"?
8. "Ele muda de reacção muito depressa, ora diz que me ama ora não me quer ver e mente-me". Isto não é amar, chama-se aproveitar-se de si. É óbvio que ele não quer que a E. siga a sua vida, quer que fique para sempre presa pelo beicinho, que a terra inteira pense "ela coitadinha gosta tanto dele e ele não quer saber", é o pavão que se passeia pelo mundo, tão amado que há quem lhe caia aos pés. Um balde de água fria era o que ele precisava. E uma tareia, claro.
9. "Passaram 3 meses desde o fim e já tentei o suicídio duas vezes". E., aqui já é consigo que me chateio. Isto faz algum sentido? Quer ser a mulher que se matou por um homem que não queria saber dela ou a corajosa que sofreu, deu a volta por cima e foi feliz com outra pessoa? Eu também já quis morrer de desgosto, queria morrer durante o sono de tanta dor, daí a tentar o suicídio vai um abismo. Mulheres fortes não são estúpidas, andam de cabeça erguida e é o que a E. vai fazer. Se acha que a dor é demasiada para si, isso não é uma vergonha, procure ajuda junto de um psicólogo que a faça pensar, que o que precisa é de alinhar ideias e encontrar o seu verdadeiro "eu", saber que não é uma pessoa que só é capaz de viver para um puto que não interessa a ninguém. Ajuda não é um médico passar receitas para medicamentos, isso não a vai ajudar em nada, só vai pô-la a dormir.
10. "Ainda nos contactamos por telemóvel (...) não fala para mim todos os dias, mas eu tenho-lhe mandado todos os dias alguma mensagem". E., corte o contacto imediatamente! Não pedinche amor que ele não tem para lhe dar. Enquanto falar com ele, a sua dor não vai passar, garanto-lhe! Vai apenas perpetuar a sua dependência por ele, vai demorar mais tempo a acabar com o sofrimento, vai ver e ouvir mais coisas que a vão magoar, vai colocar-se à disposição dele.
11. "Desde que acabamos já tivemos várias vezes sexo e ele já a traiu comigo". E isto significa o quê? Que gosta de si? Se um homem que só quer saber dele próprio pode ter sexo com duas, por que é que vai ter só com uma? Isso não é amor! E., isto é de uma falta de respeito por si própria que ultrapassa os limites do aceitável. Ser a outra? Dar-lhe sexo para ejacular e não querer saber de si até à próxima vez? Acha que um homem quer uma mulher que sabe que não se respeita a si própria, que não dá luta, que lhe beija os pés, que não sabe dizer "não"? Os homens gostam de mulheres fortes e determinadas e os que não gostam são os que têm desvios comportamentais e querem um pau mandado e não uma mulher a sério.
Um dia que tenha coragem de cortar o contacto, ele vai andar mais ainda atrás de si. Vai dizer que a ama, que não vive sem si, que tudo não passou de um erro. E será tudo mentira. Ele só a quer ter na mão, pois todos queremos connosco aquilo que sentimos que nos pertence. E na verdade, por enquanto, ele tem-na de facto na mão. Faz de si o que quer. Isso é claro como água. Mas isso só acontecerá enquanto permitir. Lembre-se: as pessoas só vão até onde lhes permitirmos.
E., procure ajuda profissional. Eu sei que vai detestar ler esta resposta, vai achar que sou uma insensível, que não tenho coração nem piedade. Mas guarde este e-mail e leia-o daqui a uns meses e depois daqui a uns anos. Verá como tinha razão. Procure ajuda porque eu não consigo dar-lhe mais que isto e para si não chega.
Beijinhos e cabeça levantada!