30.8.10
Novas - Denúncia: quem quer trabalhar de graça? Quem quer?
Depois de protestar, a NewSearch decidiu alterar os valores dos vencimentos:
http://www.net-empregos.com/1062917/precisa-se-de-clipper-para-lisboa/
O part-time de 4 horas, de Segunda à Sexta, passou de 150€ a 550€
O full-time de 8 horas, de Segunda à Sexta, passou de 400€ a 850€
Os meus parabéns à NewSearch que foi capaz de mudar para melhor. Os funcionários que aí trabalharem vão ser pessoas mais bem-dispostas, mais empenhadas e mais gratas. Confesso a minha admiração e fiquem cientes de que contribuiram por um mundo melhor.
Obrigada eu também!
Denúncia: quem quer trabalhar de graça? Quem quer?
Para: NewSearch - clipping@newssearch.pt
CC: Ministério do Trabalho - gmtss@mtss.gov.pt
Exmos. Senhores,
obrigada pelo envio da resposta à minha questão.
Apesar da boa vontade com que me responderam, não consigo deixar de me espantar com a resposta. Um part-time de 4 horas diárias, de Segunda à Sexta, por um trabalho de clipping, vale 150€ mensais brutos, conforme se lê no anúncio:
http://www.net-empregos.com/1062917/precisa-se-de-clipper-para-lisboa/
Foi o meu espanto que me levou a perguntar-vos se os 150€ eram realmente valores mensais. Eu não queria esta vaga de emprego, apenas a encontrei por acaso. E de repente surge-me outra questão: para quando a vergonha na cara? A NewSearch não tem vergonha de explorar assim os funcionários? Vamos fazer contas, ora acompanhem-me:
150€/mês são 150€ a dividir por 4 semanas, o que dá 37,5€ POR SEMANA!!! BRUTOS! Exmos. Senhores, isso não compra o vestido que ando a namorar na Mango. Para quando a vergonha na cara?
37,5€/semana são 37,5€ a dividir por 5 dias úteis, o que dá 7,5€ POR DIA!!! BRUTOS! Já fica apertado para almoçar, ora bolas! Para quando a vergonha na cara?
7,5€/dia a dividir por 4 horas de trabalho diárias dá 1,87€ À HORA!!! BRUTOS! Estou tramada com o parquímetro da EMEL! Para quando a vergonha na cara?
A minha mulher-a-dias ganha 7,5€ à hora e não sei se tem o 9º ano. A NewSearch pede recém-licenciados da área de Comunicação para ganhar esta miséria. Para quando a vergonha na cara?
Eu já me licenciei há muito em Comunicação, mas mesmo que fosse "verdinha" nunca aceitaria esta exploração. E não me precisam de dar a conversa "se tivesses fominha e falta de emprego a ver se não trabalhavas por pouco!". É que todos sabem que antes de trabalhar na NewSearch mais vale ser arrumador de carros, pois à hora facturam muito mais que isso.
Mais vale ser mulher-a-dias, trabalhar em eventos e congressos (faz-se esse valor em dois ou três dias) ou ainda num Teatro, como fiz em tempos, onde ganhava 25€/espectáculo e não estava lá 4 horas. Para ganhar o que querem pagar num mês, eu só precisava de fazer seis espectáculos e tinha o resto do mês livre.
O último part-time de 4 horas diárias em que trabalhei como licenciada em Comunicação recebia 600€/mês LÍQUIDOS!
Queiram perdoar o incómodo que vos causei. É que tenho um sentido de justiça apurado e a exploração e aproveitamento dos males alheios revolta-me. Eu sou uma pessoa que chateio, bem sei. Todos os meses escrevo uma reclamação algures, porque este é um país de encostados onde tudo se "deixa andar". Mas eu penso que se quero ver as coisas mudadas, tenho de reclamar. De outra forma jamais verei resultados. Dou-vos um exemplo: ao fim de cinco reclamações por um telemóvel comprado com defeito e depois de ter ameaçado parti-lo na loja (ficando assim sem razões para reclamar pela sexta vez), recebi um telefone novo. Já viram isto? Veio um telefone mil vezes melhor, que custa três vezes mais do que aquele pelo qual paguei e só faltou um bilhete de férias como compensação pelos nervos causados. Pena é que para ver resultados uma pessoa tenha de perder a cabeça e começar a roçar a má educação, logo eu que sou tão educada e adoro rigor.
Exmos. Senhores da NewSearch, não vos maço mais. Dada a falta de vergonha na cara, segue esta reclamação para vós, com conhecimento ao Ministério do Trabalho, pois eu até duvido da legalidade deste tipo de pagamento, pois o valor/hora está longe de ser equivalente ao valor/hora do Ordenado Mínimo Nacional.
Este e-mail vai ainda ser publicado no meu blog, A Maçã de Eva, com mais de meio milhão de visitas, para que quem entender proteste também.
À Directora Geral da NewSearch, Raquel Fortes, resta-me ainda uma questão: quanto gasta em média por cada jantar de amigos? Será 37,5€? O valor que a NewSearch deseja pagar por 20 horas de trabalho?
E vergonha na cara? Não, já sei que não.
Cumprimentos,
Quilómetros a mais
29.8.10
Nota
dado o avultado número de mensagens recebidas no e-mail do blog (sobretudo relativamente ao "Consultório"), as respostas estão demoradas.
As minhas desculpas!
28.8.10
Do you remember? #116
Roxy Music - Jealous Guy - 1981
Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com
27.8.10
Consultório #30
Sou uma leitora assídua do blog e tenho reparado que as respostas às questões colocadas na rubrica "Consultório Sentimental" são sempre de muita qualidade. Como tal, decidi experimentar a minha sorte e enviar-lhe um e-mail (...)
Tenho 18 anos e namorava desde os 15 com um rapaz três anos mais velho que eu. Talvez por me ter comprometido tão cedo e por não ter experimentado as coisas normais da adolescência (e juntando isso à monotonia da relação, aliada ao facto de ele ter deixado de ser carinhoso comigo), posso dizer que, infelizmente, no ano passado não fui uma boa namorada. Devido a isso, a nossa relação acabou.
Estivemos separados durante alguns meses, mas eu nunca escondi que queria a reconciliação. Durante esse tempo, aproximei-me de outro rapaz e acabámos por criar uma relação que eu nunca quis assumir, visto que achava que se o meu ex-namorado soubesse, jamais voltaria para mim. Foi errado, eu sei, nunca lhe devia ter mentido e, se queria voltar a namorar com ele, jamais me deveria ter envolvido com outra pessoa.
Depois de muita confusão e zaragata (já depois de ele ter descoberto a verdade), eu decidi terminar tudo com o outro e dedicar-me a provar ao meu ex-namorado o quanto o amava e trabalhar arduamente na tarefa de tê-lo de volta. Ele nunca me escondeu que não tinha conseguido perdoar-me ainda e que precisava de tempo para pensar.
Desde então, já passaram quase três meses. Quando estamos juntos, envolvemo-nos quase sempre e ele continua a dizer que gosta muito de mim mas diz que não consegue partir para uma relação comigo enquanto tiver na cabeça o que sofreu por minha causa. Eu compreendo isso tudo, mas o desprezo que ele me dá também me magoa. Nunca fui de ir atrás de ninguém, mas com ele é sempre diferente a acabo por ser sempre eu a lutar por ele, devido ao peso da minha culpa. Estou mesmo arrependida e gostava de não o ter magoado, mas também gostava de não ser magoada!
Toda a gente me diz para parar de andar atrás dele e seguir com a minha vida, mas custa-me muito fazer isso, até porque ainda mantenho esperanças de voltarmos e, para ser sincera, isso já me pareceu mais longe... No entanto, tenho medo de parar de ir atrás dele e, com isso, piorar as coisas. A questão neste momento é o que é melhor fazer? Lutar por ele e, com isso, acabar por sofrer; ou parar de lutar e deixar as coisas acontecerem, mas sofrendo sempre com a ausência dele?
Um beijinho".
Olá J.,
ainda que acredite que não, quando exploro o seu texto no que respeita ao lado racional vs emocional, a J. contradiz-se, só que ainda nem se ouviu pensar. Há tempo para tudo.
Reforça, várias vezes, o quanto gosta do seu namorado de longa data. No entanto:
1. Reconhece não ter sido uma boa namorada, desleixou-se, encolheu os ombros, não se esforçou. Acontece que, quando gostamos, esforçamo-nos sempre por ser a melhor namorada do mundo. Podemos cometer um ou outro erro isolado, mas por sistema não o fazemos, pois se o fizermos é revelador de um sentimento que não é tão grande assim. É importante mas não tão importante, é um querer mas não querer tanto assim.
2. Durante um tempo de separação, envolveu-se com outra pessoa. A minha experiência e de outras pessoas é que quando gostamos realmente, numa fase de separação não se pensa noutra coisa, chora-se continuamente e procuram-se estratégias para retomar o que se perdeu. A J. envolveu-se com outra pessoa. Para aqui não interessa se é correcto ou incorrecto, mas a razão que a levou a envolver-se com outra pessoa. O que é que a motivou realmente? A novidade? Terreno desconhecido? Vontade? Quando se gosta realmente de alguém, a possibilidade de um envolvimento íntimo com outra pessoa é coisa que chega a causar vómitos. Quando essa possibilidade é imaginada de coração partido, sabe a violação de espaço, a nojo, a intromissão. É impensável, não queremos mesmo que alguém chegue perto.
Quer-me parecer que a J. quer manter essa relação e um eterno retorno porque é o lugar que conhece. É provavelmente o seu primeiro namorado a sério, é a pessoa de quem conhece as reacções, o que tem e o que não tem para dar, é um terreno onde se sente segura. No entanto, no fundo, parece querer ter asas para voar.
Mas bem sei, do futuro nunca se sabe e não lhe apetece trocar o certo pelo incerto. Já diz o ditado: antes uma pomba na mão do que duas a voar. Pergunta-se, quanto tempo permaneceria sem namorado, e se um novo aparecesse, que tal seria? E dar-me-ia o que quero? E se me arrependo?
Entretanto os meses passam e sempre que estão juntos envolvem-se. O seu namorado, ou ex-namorado, como preferir, tem tudo e chateia-se pouco. Envolve-se quando quer e faz a figura de vítima, coitadinho, "ai que não sei se consigo perdoar". Mas consegue beijar e tudo o resto. Depois de uma traição, os que têm dificuldade em perdoar e medo que volte a acontecer, também têm medo do envolvimento físico, pois isso vem dificultar a tomada de uma decisão, até porque o físico torna-se difícil de resistir. "Ai que estou tão magoado, não sei se perdoo, mas entretanto dá cá um beijinho" é coisa que tem pouco sentido, não acha? Inicialmente compreendo um comportamento destes, quando este comportamento se faz sentir meses a fio começo a desconfiar que temos palco para teatro. Palco esse que é aproveitado para a castigar. Experimente dar ares de quem desistiu a ver se ele não corre atrás! Fique uns dias sem dizer nada.
Como se não bastasse, ainda tem de aturar que a magoe e que a despreze. Desprezam-se por sistema as pessoas de quem se gosta? Sinceramente, "irrita-me" mais o desempenho do papel de coitadinho do que as opções que a J. tomou. É óbvio que não somos todos iguais e, sublinho, o que eu escrevo não é lei. Também, não olho com desdém para o que me relatou. Não se sinta culpada. Cometer erros faz parte de nos tornarmos adultos, faz parte de nos conhecermos a nós próprios e de procurar as nossas preferências. A J. tem ainda 18 anos, muita coisa ainda vai acontecer-lhe (bem sei, conversa de velha chata, mas é mesmo verdade). O erro não me incomoda, o que me incomoda são as pessoas que erram continuamente e nunca aprendem. Esperemos que lhe baste errar uma vez.
No fim de contas, e para concluir, parece-me que essa pessoa é e foi especial na sua vida, mas é mais um porto seguro, um sentimento de posse, que outra coisa qualquer. Como eu dizia, no que respeita ao lado racional vs emocional, a J. contradiz-se pois não quer a mesma coisa, quer uma nova vida, novas experiências e ver-se nelas. E é totalmente livre de o fazer.
Beijinhos!
26.8.10
Questões pertinentes #29
25.8.10
USA road trip 2010 - parte V
San Diego é terra de família, é terra já visitada e, para mim, já com pouca novidade. Foi tempo de descansar e de revisitar. Poucos compreenderão, mas esta viagem tão gira e fabulosa, em termos físicos custou muito a fazer. Assim que o sol caía já estávamos a desesperar pela almofada, procurávamos jantar pouco para poder cair na cama em pouco tempo. Os dias eram inevitavelmente cansativos, sempre de um lado para o outro, a querer aproveitar cada minuto e cada novidade. Eu estava mesmo a precisar de uns dias a fazer muito pouco e assim foi.
Em San Diego, dormi estupidamente, fiz compras, cozinhei para os amigos, comi muito, descobri os m&m's com manteiga de amendoim, desfiz pacotes inteiros desta iguaria, conversei até tarde, virei-me para o pouco sol que havia, amaldiçoei as temperaturas amenas de primavera e não de verão, brinquei com as crianças, tomei conta delas, contei tempo entre contracções de uma barriga enorme, andei de papo para o ar, invejei a vida de quem vive "à americana" e foi logo na chegada a San Diego que o GPS cagalhão-TomTom novo morreu com tão poucos dias de uso. Ainda hoje ando aos gritos com a malta que trabalha para a TomTom e nada de resolver o problema. Fora este último pormenor a resolver por terras lusas, aquela terra é fabulosa!
E ao fim de calmos cinco dias era tempo de voar para Nova Iorque. E eu mal sabia o que me esperava...
O voo de atravessar os EUA é tramado. No ar às 22:30, atravessei o país durante a noite, fiz escala em Charlotte às 06:00, aterrei em NY às 09:00 da manhã, morri de jet lag e os fusos horários eram difíceis de compreender. É duro. E muita fominha se passa. Nem todas as companhias aéreas alimentam o povo que transportam, estávamos sem dinheiro e os cartões não estavam a querer dar dinheiro. Os últimos tostões foram gastos no Starbucks.
À saída do aeroporto em NY, o bafo. Eu estou sempre a dizer que não volto a NY no verão, mas acabo sempre por ir lá parar. 30ºC em NY são muito mais difíceis de suportar que 40ºC em Las Vegas. A humidade dá cabo de mim, dos meus cabelos, da minha disposição, de qualquer sensação de limpeza. Eu que não sou rapariga de transpirar, escorria pelas costas. É tortura. Com hotel marcado, esperámos pelo shuttle que nos recolhia na estação do aeroporto e nos levava ao hotel. Era tomar uma banhoca, comer urgentemente e partir para o centro de Manhattan. Achava eu.
A chegar ao hotel, olho a área circundante e pegunto-me que merda é esta?!! Eu e o Poisoned Apple Man não temos por hábito estoirar o dinheiro em hotéis. Precisamos de um sítio normal, com quartos simpáticos, limpos, casas de banho também limpas e boa localização. Não precisamos de grandes luxos, pois preferimos gastar mais dinheiro em restaurantes e menos na dormida. Marcado um Econo Lodge, cadeia tipo Ibis, a área circundante era cenário para homicídios nas melhor películas americanas. Inclusive estava com medo de ser violada pelos mosquitos que lá andavam. Podia ser que o hotel fosse melhor, mas a recepção tinha parado no tempo, onde estava uma obesa de pijama branco (e transparente), de rolos na cabeça a consultar a internet, uma família de franceses com ar de quem não tomavam banho, papel de parede a cair, pendurado no ar com algo semelhante a cogumelos, fios de electricidade puxados aos molhos e pilhas de papel amarelado que deviam lá estar há tanto tempo quanto a minha idade. A medo, proferi: Rafat, estamos aqui para fazer o check-in. Eu tinha visto as fotos dos quartos, a coisa tinha de ser melhor. Ainda perguntei se a zona era perigosa, obtendo como resposta every city is dangerous. Não era bem isso que eu estava a espera, mas prontus. Dirigimo-nos ao quarto.
MEDO!
Se eu tivesse comida no estômago e não andasse a roncar à horas, era capaz de ter vomitado. O Poisoned Apple Man não abria a boca e entre suspiros preparava-se para ficar, tal o cansaço e a fome. A TV era daquelas com antena à antiga-vê-se-já-dá-imagem, a banheira já não era branca, tinha um tom amarelado-mais-limpo-que-isto-já-não-dá, a carpete estava comida, o quarto era raquítico e nem abri a cama não me fosse saltar à boca um pintelho enrolado de um porco qualquer. Dormir ali nem vestida com um preservatico gigante. Malta amiga da Interpol, CIA e FBI, se procuram terroristas, é neste hotel que eles dormem. Não tem nada que enganar.
- Eu não fico aqui! Isto é a casa dos horrores!
- Queres ir para onde? Já fizemos o check-in!
- Desfazemos!
E decidida parti em busca do Rafat - passando pelas prostitutas que percebi trabalharem naqueles quartos - a quem expliquei que não me levasse a mal, mas eu não podia ficar ali. Eu tenho cara de princesa, o que é que ele podia esperar? Nada em contrário, pois disse que não haveria problema. Ele lá deve ter estranhado ver casalinho tão composto naquele sítio. Eu tinha só de desmarcar com a agência através da qual tinha marcado o hotel, o que levou cerca de 60 minutos ao telefone que ele gentilmente emprestou, não deixando de explicar à menina que não podiam ter a Casa dos Horrores como opção de hotel. Detesto maus serviços. Prova superada com sucesso, fomos comer a um restaurante.
Eu estava para lá de f*dida e nem queria comer, só queria marcar um hotel. Arrastámos quatro malas, o restaurante tinha wireless, tirei o portátil da mala, o homem queria obrigar-me a comer, eu queria resolver o problema, a menina queria saber qual era o nosso pedido e eis que eu percebo que o portátil tinha poucos minutos de bateria. Para cúmulo, o iPhone não queria ligação à internet. Isto estava tudo a ser um teste à minha paciência. Estava pronta a partir loiça.
Comemos, regressámos no shuttle ao aeroporto, eu parecia um bife cheio de nervos. Devia ter umas trombas lindas, falava o indispensável, lamentei a minha triste sorte. Desentendi-me com o Poisoned Apple Man, estivemos quase a voltar para Portugal sem passar por NY e adorei a súbita mudança de humor e os miminhos dele para que a viagem não acabasse mal. Alguém que controlasse a situação!
No aeroporto não havia internet, ou melhor, havia mas tinha de a pagar para um mês inteiro. Paguei cheia de nervos. Não havia tomadas no aeroporto. Palmilhei cheia de nervos, perguntei pelas tomadas e ninguém sabia. Encontrei uma em sítio impróprio, sentei-me no chão e comecei a minha saga em-busca-de-um-hotel-em-NY-em-Agosto. Cheia de nervos, claro. As horas iam passando e eu não estava em Times Square. O Poisoned Apple afirmava:
- Sheraton! É já para o Sheraton! Nem procures mais nada! - e depois de alguma resistência inicial, cedi.
Fomos para o Sheraton onde me instalei, dormi e gozei como uma princesa. Piscina, jacuzzi e outras maravilhas, nessa noite jantámos lindamente num restaurante português de nome Seabra's Marisqueira. Fizemos os nossos dias por NY a derreter e transpirar estupidamente, percorremos mais de metade do Central Park a pé, matámos as pernas, ele carregou os meus sacos Victoria Secrets com quilos de cremes (jóia de moço!), comi as divinais pizzas que há em cada esquina e até conseguimos descobrir sítios por onde ainda não tínhamos passado. Adoro NY, é uma cidade à qual se quer sempre voltar, mas no verão não quero mais!
Depois de algumas intempéries, disse para mim própria que ainda me havia de rir destes episódios. Já consigo esboçar algum sorriso, excepto no que respeita ao TomTom. O desentendimento superado pelos Poisoneds Apple é prova de que aguentamos muito, mas custou-me mais a dificuldade que ele tem em entrar nas lojas do que me custou o momento Casa dos Horrores.
Home sweet home, as colunas do iPod griparam, a coluna da TV faz um barulho esquisito, o meu telemóvel que não funcionava foi substituído, uma das máquinas fotográficas revela algumas dificuldades em obedecer, o ar condicionado da sala berrou e eu estou com medo de mexer em qualquer electrodoméstico.
Engordei 3 Kg em 19 dias, já perdi um, o que significa que passei de querer perder 3 Kg para querer perder 5 Kg. Não percebo.
E agora quero mais uma viagenzita!
FIM
23.8.10
USA road trip 2010 - parte IV
Chegados a San Francisco, o choque. Passei de temperaturas de trintas e quarentas graus para uns míseros 15ºC a meio da tarde. Era tempo de casaco de inverno, de meias, de sapatos fechados, de capacete no céu, de uma neblina constante que estragava as fotografias. San Francisco não tem verão, tem estas temperaturas que oscilam entre os 12ºC e os 18ºC o ano inteiro. Mentira. Têm uma espécie de verão de São Martinho algures para Setembro e as temperaturas chegam aos vinte e muitos. Uma loucura!
Gostei da cidade de San Francisco, adorei as casinhas, mas é uma cidade à qual não voltarei em lazer. Além de estar vista, irritei-me muitas vezes, a começar pela entrada na cidade. O GPS dizia para escolher a faixa da direita, pela direita seguimos e de repente passou-se uma ponte sem pagar, quando do lado esquerdo estavam filinhas nas portagens. Pergunta o caro leitor? Mas porque raio há faixas sem portagem? Porque supostamente ali não se paga. Passámos por uma via (que existe em todo o lado dos EUA) de nome “pool lane” na qual se pode seguir se estiverem duas ou mais pessoas no carro. No entanto, diz-nos quem vive lá que isso acabou um mês antes de chegarmos e que vamos ver uma valente multa. Não sei. Nada me fazia sentido e deixei de pensar no assunto.
Irritação nº 2. Fui insultada pela função pública, fiquei furiosa com a falta de cuidado perante os que vão para lá gastar dinheiro, livrei-me, pelo menos, de outra multa enquanto o Poisoned Apple Man me desconcentrava da negociação gritando de dentro do carro filha da puuuuta! Uma pequena obesa e ordinária que não terá percebido o francês do meu homem. I know you’re not american and I don’t care. Puta. É, os americanos, quando brutos, é de fugir. Fica o aviso.
Pois eis que algures em Japantown procurei estacionar o carro. E um gajo não sabe como estacionar. Não há marcas no chão! Olhar para os colegas de lado nesta altura também não me serviu de muito. Cada lugar tem estacionamento tem uma máquina de parquímetro e eu não sabia se estacionar com a porta da frente ao lado da máquina, com a porta de trás, com a bagageira, eu sei lá! Irritação nº3, os americanos partem do princípio que os outros têm de saber. Perguntar? Quem tem boca vai a Roma, mas não vai aos EUA. Quem passava na rua também não sabia com certeza. Ficou a porta da frente encostada ao pilar, que era o que acahav fazer sentido, mais ou menos a meio do carro, mas afibal era o centro do lado do capot. Uhhh! Infringimos a lei em 70 cm! Mas enganei a porca da gaja. Como o timer do parquímetro tinha dinheiro, tirei foto com o carro e corri quarteirões à procura dela. Fui insultada, perdi a vontade de almoçar, mas safei-me de pagar 55$USA por 70 cm.
Irritação nº4. Estacionar é para esquecer. Mesmo. As pessoas matam por um lugar. E como tal, estacionar custa, nada mais, nada menos, que a módica quantia de 7$USA à HORA!!! Isto nas zonas que interessam. Nas outras, custa apenas 3,5$USA. Muuuito mais barato! Curioso foi ver algo que não existe em Portugal. Algumas zonas têm ruas em que não se paga o estacionamento. Há sinais que avisam para um limite de 2 horas de estacionamento, mas caguei nisso, já que não vi como podiam controlar esse tempo. Já encontrar foi uma sorte, que aquilo são sete cães a um osso, por isso ali ficava e andava a pé.
A cidade é linda, não vale a pena dizer que Lisboa tem colinas, porque aquilo é que são colinas. É de tal modo íngreme que quando se sobe com o carro não se consegue ver o que vai à frente, só o capot. A descer, é facílimo fazer um voo como nos filmes, é só acelarar. Carros antigos é para esquecer, além de beberem um depósito inteiro na tentativa, não vingam as subidas. No entanto, apesar da inclinação, as pessoas circulam de bicicleta.
As casas são adoráveis, de bonecas, como se vê nas fotos, mas curioso é que muitas delas são barracas por dentro e têm rendas baixas. Já as zonas ricas, metem o Restelo num chinelo.
Os parques, como o Golden Gate Park, à semelhança do Central Park em New York ou outros em Londres, são uma maravilha. Gosto mesmo de ir dar voltas a pé, fazer os circuitos marcados, ver bichos, passeando descontraidamente no meio da conversa. Naqueles parques, dá para perder horas. Ao fim-de-semana estão cheios, pois não é para os centros comerciais que as pessoas se dirigem. Ao fim da tarde, estão cheios de gente que vai exercitar o corpo a seguir ao horário de trabalho. O melhor que arranjo em Lisboa é Monsanto, parque florestal onde as putas atacam, onde corro o risco de ser violada, onde o melhor é não explorar muito a zona. E isso lamento realmente. Gostava de ter um parque destes em Lisboa, irrepreensivelmente arranjado, com as indicações de cada árvore, planta e flor em latim. Não que interesse, mas gosto do rigor.
É engraçado ouvir dizer que a Golden Gate Bridge é tão parecida com a ponte em Lisboa. Nada disso. Engraçado é que a Golden Gate Bridge seja mostrada aos portugueses, olhem, foi o mesmo engenheiro que a fez!, quando existe uma que é, definitivamente, igual! Também do mesmo piqueno, eis a Bay Bridge. É ver para crer. San Francisco tem tantas pontes que não contei. E há tanta gente, tantos carros e tanto tráfego que algumas delas nem sequer têm dois sentidos, têm apenas um. Há pontes de ida e outras de volta. O número de faixas é a perder de vista.
Jantei no maravilhoso e afamado Sushi Bistro que recomendo e também no Viva Pizza, uma coisa divinal nas ruas da comunidade de italianos. Eu queria comer mais, mas não cabia. No fim, sem sobremesa, tive de ir dar uma volta a pé para não explodir.
Estive quatro dias em San Francisco, que chegam perfeitamente para ver a cidade toda. Num dos dias fui ainda a Santa Cruz, a cerca de uma hora e meia de carro de San Francisco, para sul. Aparece logo o sol, o tempo muda imediatamente! O caminho até lá, numa espécie de marginal junto ao mar, é maravilhoso. Existem campos de plantações de abóboras, de morangos e apanham-se amoras na estradas. Em Santa Cruz, estive também numa espécie de feira popular, onde andei numa montanha russa de madeira com mais de cem anos, acompanhada pelo contrariado e menino Poisoned Apple Man, que lá se encheu de coragem e depois até gostou!
Adorei San Francisco, mas não é um sítio fácil. Não sei se os transportes públicos funcionam bem, mas as filas que eu vi para os cable cars eram de fugir. Há uma espécie de Metro a que chamam de Bart, com bilhetes a preços anormais. Pode-se pagar cerca de 12$USA para fazer uma viagem. Gostei da cidade, mas é aflitiva a forma como se está continuamente a abrir a carteira. É provavelmente a cidade mais cara onde alguma vez estive. E eu não ia a contar tostões, não sei o que será de quem vai assim!
(continua)
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21.8.10
Do you remember? #115
INXS -Need You Tonight - 1987
Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com
20.8.10
Consultório #29
Ora... a minha grande dúvida existencial neste momento é se durante toda a minha vida fui fazendo o mesmo e os resultados não aparecem, será que devo adoptar uma nova estratégia? Será que devo arriscar e dar o primeiro passo? Ser eu a tomar iniciativa? Isto porque conheci uma pessoa com quem já estive algumas vezes e que tem potencial para vir a ser algo mais, e acredito que possa ter havido um certo clima, mas como sempre, tenho as minhas dúvidas. A minha maior dúvida é se entramos no jogo do "se ele não diz, eu também não digo..." (jogo esse que eu detesto) ou se deverei por os meus medos de lado e avançar, discretamente e sem pressões, mas avançar".
Olá A.,
então temos algo em comum: também eu nunca corri atrás de um homem, à excepção de algumas vezes, para os "recuperar" quando já não os tinha, o que com o tempo percebi que não vale a pena e não voltei a fazer. Quem decide ir embora, sabe encontrar o caminho de regresso se assim quiser. Não vale a pena perder tempo em reconquistas, cartas de amor e exposição de um sentimento não correspondido. É demasiado doloroso e desgastante. Bem sei que algumas vezes vinguei, mas não acho que tenha valido a pena.
Não é que considere incorrecto ou feio quando uma mulher se "faz ao piso" de um homem, acho apenas que é uma questão de feitio. Não faz parte de mim, e pelo vistos também não faz parte da A. E não fui solteira a vida inteira, tive namorados, mais do que gostaria de ter tido, preferia ter tido menos em quantidade e mais em qualidade.
O que quero dizer com isto é que não vai morrer sozinha ainda que não faça este tipo de investidas. Estou cá eu para o provar! Na minha vida acho que nunca me aconteceu interessar-me por um homem "a solo". Das duas uma, ou era mútuo, ou o interesse partia dele. E normalmente faziam-me a corte e todo um galanteio floreado, mostravam-se presentes, queridos, interessados e quando se fartavam e anunciavam que desistiam, aí é que me lembrava que se calhar até gostava deles e havia sentimento. Sempre fui assim e com o homem da Poisoned Apple não foi excepção. Ele dizia que me queria dar beijos na boca e eu dizia que não. Ele não desistiu, levei um beijo à força e pensei, "porque não? Tem sido tão bom, pode ser que se torne melhor".
É claro que é incomparavelmente mais confortável dar um passo em frente quando temos a certeza que é recíproco, para homens ou mulheres. No entanto, tenho deixado essa parte para os homens. Digamos que é também mais confortável :) Ainda que seja uma estupidez, existe aquela convenção social de que os homens é que dão os primeiros passos. Ainda que os tempos sejam outros, gosto que seja assim.
Não sei o que significa para si tomar iniciativa, mas essa iniciativa pode passar apenas por mostrar-se disponível, sedutora, dizer tudo sem dizer nada, muito diálogo, indirectas. Já ele poderá tratar da prática: convidar para jantar, cinema, pedir número de telefone, o quer que seja, e daí ao desenrolar da cena é uma questão de tempo. Se um homem quiser, descanse que ele trata disso!, e assim poupa as suas ansiedades. Se pelo contrário sente-se com vontade de avançar e arriscar também pode, mesmo que o risco seja maior. O importante aqui é que compreenda que não há nada de errado consigo, é apenas uma questão de feitio, eu sou igual e não posso dizer que me faltaram namorados, embora tenha tido momentos em que tenha pensado que sim. Contas feitas, deste os 17 anos, é maior o tempo em que estive comprometida, do que o tempo em que estive solteira.
Não pense nisso, não faça disso um problema, seja natural!
Beijinhos,
19.8.10
USA road trip 2010 - parte III





A Ghost City, de nome Bodie, é coisa que desconhecia existência. Bendito o guia do American Express oferecido pelo Poisoned Apple Man. Em 1859 um sortudo qualquer descobriu ouro naquela zona. Começou a assentar arraiais, vieram outros, nasceu uma cidade com escola e tudo. Em 1913, e depois de tempos de crise, declarou-se o ouro como acabado. A malta fez as malas e deixou tudo como estava. A sensação que se tem é que alguém chegou à cidade e professou que a vida acabava ali no dia seguinte. Só falta ouvir a cadeira de baloiço balançar da rapidez com que os habitantes partiram.

18.8.10
USA road trip 2010 - parte II

USA road trip 2010 - parte I
Habituei-me à ideia das tips. As gorjetas sucessivas matam-me, mas à medida que o meu passaporte aumenta o número de carimbos na entrada no país, mais me habituo. O melhor é encolher os ombros. Parto do princípio que as pessoas são pagas pelo seu trabalho, mas alguns dizem-me que não, que vivem das gorjetas. Outros dizem que não é bem assim. É normal andar com um maço de notas de dólar para a quantidade de vezes que é suposto deixar uma tip. Existe no país inteiro uma economia particular com base em gorjetas.
Trocos à parte, vi quem perdesse 10 mil dólares em poucas jogadas. Eu contava fichas a uma distância segura, fazia câmbios mentais do que aquele dinheiro dava para fazer e foi-me pedido que ficasse junto à mesa. Um maluco com comportamento cocainado começou a ganhar assim que cheguei. Chamou-me lucky charm, disse que não podia sair da mesa, onde me sentei e fumei um cigarro, dei uns palpites aos quais não ligou e abandonei-o quando começou a perder. Não queria saber do meu feeling, apenas da minha presença e sem interactividade não tem graça.
Em Las Vegas, às 21h a média era de 40ºC. A melhor forma que tenho para explicar a experiência é colocar um secador no quente e ligá-lo junto à cara. É mais o menos a mesma sensação, ainda que com menos vento. Durante o dia é difícil sair à rua, mais difícil ainda é não ter um aspecto suado por mais banhos que se tome. Nunca cheguei a compreender como algumas mulheres se conseguiam manter impecavelmente maquilhadas e sem aquele brilho desagradável que denuncia olha que parece que estás com calor.
(continua)










