31.5.10

É tão bom que tenho de postar #5

"Corta-interesse" roubado daqui

"Se há coisa que me faz perder o interesse por um rapaz é ele ter medo da namorada (eu sei que o próprio facto de ter namorada devia ser um corta-intersse mas às vezes não o é, o que se há-de fazer?). Adiante, até posso achar um rapaz lindo, interessante, culto, divertido, maravilhoso, que se denoto ali uma certo medinho em relação à sua mais-que-tudo todo o interesse vai por água abaixo. E o Facebook ajuda muito a certo tipo de comportamentos. Conheço pessoas que respondem ao "vamos tirar uma foto todos juntos?" com "ok, mas não ponhas no Facebook" ou que, quando começam a namorar, vão apagar todos os comentários passados de amigas, por mais inofensivos que sejam ou que quando publicam alguma coisa e alguma rapariga (que não a namorada) comenta são capazes de apagar o post inteiro. E isto revela uma falta de personalidade incrível e, confesso, desilude-me muito em relação á pessoa em causa (se forem comentários de ex's ou que revelem qualquer tipo de relação passada já é compreensível, eu também não gostava de namorar com alguém que tivesse no mural uma mensagem da ex a dizer "a noite de ontem foi maravilhosa, adoro-te").

Aqui há uns anos andava a sair com um rapaz que era espectacular mas a quem, como eu tinha a cabeça noutro sítio, nunca dei uma oportunidade e a coisa ficou por dois ou três cafés. Passados uns meses ele começou a namorar com uma rapariga mas nós continuavamos a falar por msn ou uma ou outra sms. Um dia, no aniversário dele, enviei-lhe uma mensagem normalíssima do género "Outro dia disseste-me que ias para Paris mas nem raciocinei, foste comemorar o teu aniversário. Muitos parabéns, diverte-te muito e tudo de bom para ti" ou algo assim parecido, nada de piscadelas, nada de dirty talk, nada de piadas privadas. Em resposta, recebo a seguinte sms: "Rita, desculpa mas podias enviar-me outra sms de aniversário, mas mais normal? É que estou com a Maria e ela viu que eu recebi uma sms mas eu apaguei antes dela ver e queria que me enviasses outra para eu lhe mostrar". Eu olhei para aquilo e pensei, este gajo deve estar maluco, não me vou meter nestes filmes. Entretanto fui lanchar com uns amigos, quando voltei a pegar no telemóvel tinha cerca de 10 sms's a pedir por favor por favor por favor manda-me uma sms só a dizer parabéns, peço-te por tudo, por favor. Eu lá enviei mas depois disso cortei todo e qualquer contacto com ele, tal era a vergonha que eu própria estava a sentir pela humilhação dele em relação a mim.

Enfim... há certos defeitos que eu aceito com um sorriso, mas falta de personalidade afasta-me num tirinho".

29.5.10

Do you remember? #103



Prefab Sprout - The King of Rock n' Roll - 1988

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

28.5.10

"Temos de falar..."

Esta expressão, com as devidas reticências, já foi ouvida por muitos. E 99% das vezes dispensa mais apresentações, como tão bem explica aqui a Miss Glitering.

Eu não me lembro como foi que ouvi esta expressão no passado - nem exactamente com que palavras, já que a frase por vezes vem com floreados - mas sei que de todas as vezes que a ouvi, horas ou dias antes, tinha aquela sensação. Aquele desconforto, o sexto sentido em alta rotação, a sensação de que algo vai mal, mas não se sabe bem o quê, pois das vezes em que me aconteceu nada havia a apontar, como recorrentes discussões ou coisa parecida. Sabemos exactamente o que está para chegar, mas negamos, na esperança que o sexto sentido nos tenha enganado. Mas agora que penso bem nisso, acho que o "temos de falar" não me aconteceu muitas vezes. A minha tendência sempre foi mais para que os homens se desintegrassem no ar, desaparecessem. Cobardes, por outras palavras. Não interessa, já ouvi embora não me lembre como se fosse hoje. É a selecção de memórias que não me deixa lembrar com exactidão.

Mas sei que quando li o texto da Miss Glitering, senti um aperto no peito. Foi como andar anos para trás, voltar ao tempo em que só conhecia desse estado de espírito, de desilusão, de choro e de dor. Um tempo ao qual desesperei para virar as costas, o que levei muito tempo a conseguir fazer. Ou melhor, a acontecer-me, porque estás coisas não dependem de nós.

Não sei porque me custou tanto ler este texto, talvez porque eu e o homem da Poisoned Apple estivéssemos amuados. Como o gelo que derrete ao sol na mesa da varanda, às vezes tudo muda quando algo nos faz lembrar da dor sofrida há tão pouco tempo, o que nos faz logo querer desistir do amuo, organizar as coisas e desejar que não volte a acontecer. Às vezes o olhar para o lado é mais que suficiente para querer agarrar com força aquilo que temos de precioso.

"Temos de falar" é expressão que ninguém deveria dizer sequer. É uma frase estúpida, mais vale ir começando logo a falar e deixar as introduções de lado, saltando essa expressão que em nada muda o assunto. É que "temos de falar" é um egoísmo de quem não sabe dar a volta às palavras, de quem quer dizer tudo numa frase para procurar dar-se a menos trabalho naquilo que tem a dizer. É um "Ok, agora que te disse isto já deves saber o que aí vem, portanto tenho menos a explicar".

O que eu sei é que se ouvisse isto agora, alguma decisão havia para ser tomada. Se ouvisse isto daqui a um mês, talvez já não fosse o mesmo tipo de decisão. O que quero dizer é que nunca se sabe o dia de amanhã, mas, no momento, uma mulher sabe sempre o que aí vem. Ou talvez o ser-se visionária não seja para todas. É que das vezes que as minhas relações viram um fim, antes de acontecer, andava já sempre com aquela dor no peito, de quem apanha um susto leve, uma moínha física que não desprende e que não nos deixa pensar noutra coisa. É como uma dor de cabeça que lateja, mas no peito. Sempre disse a quem não sabia: a dor de amor é mesmo uma dor física, esta afirmação não é coisa de literatura para que a leitura se torne mais intensa. As dores de amor são dores de quem ama, de quem sente algo maior que nós próprios e, nisso, somos traídos pelo próprio corpo quando nos vemos vazios.

O que eu sei é que, passado tanto tempo a, perdoem a expressão, a aturar merdas, se ouvisse "temos de falar" no pior sentido que ninguém quer conversar, certamente responderia "não é preciso" e partia em silêncio para a minha vida. De facto, acho sempre que o silêncio tem tanto para dizer. É que há coisas que não vale a pena explorar com palavras. E a mim, quando me dizem "não", viro logo as costas e não insisto, pois conto que, como acontece comigo, o uso de um "não", é uma decisão firme que não volta atrás. E eu aprendi a não insistir no que está tomado como decidido.

26.5.10

Consultório #24

"Olá!

(...) Namoro com um rapaz há dois anos. Ao fim de oito meses de namoro decidimos morar juntos. Na altura ele estava no primeiro ano do doutoramento e eu no primeiro ano do meu pós-doutoramento. Como sempre acontece, no início tudo correu muito bem. No entanto, desde o início deste ano/ fim do ano passado ele tem estado muito distante, alheio a mim... Inicialmente tentei afastar este sentimento de mim, mas ao fim de algum tempo não aguentei mais e perguntei-lhe se estava tudo bem, qual o motivo do seu distanciamento. Ele inicialmente negou tudo, disse que na sua perspectiva estava tudo bem, que não percebia o motivo das minhas perguntas... Mas há cerca de três semanas ele finalmente admitiu que também sentia esse distanciamento entre nós.

Basicamente disse que o facto de morarmos juntos não estava funcionar, que neste momento precisava de se dedicar ao seu trabalho, que isso vinha em primeiro lugar. No entanto, que continuava a amar-me. Ou seja: que me ama mas que não quer morar comigo. Nós estamos os dois deslocados, longe das nossas famílias. E ele tem estado a fazer um esforço financeiro muito grande e o trabalho nao tem corrido nada bem... penso que seja esta a pressão que ele refere... eu tento compreender mas fica difícil ouvir que eu e a nossa relação está em segundo plano na sua vida neste momento.

Estamos prestes a mudar de casa agora no início de Junho, cada um para a sua. A ideia é tentar ver no que isto vai dar... Às vezes sinto que desde que tivemos a tal conversa as coisas melhoraram um pouco. Mas mesmo assim tenho medo de perder o respeito por mim própria ao aceitar uma situação que nao me faz totalmente feliz só com medo de estar sozinha... Sinto-me disposta a tentar mas tenho muitas reticências...

Alguma ideia?

Obrigada pela ajuda".


Olá M.,

gostava de começar esta resposta com paninhos quentes porque eu não quero imaginar o sofrimento do que tudo isso provoca. Mas não posso e vou pegar na frase que usou, o que significa que no fundo sabe a resposta: aceitar tal medida é perder o respeito por si própria. Mas calma, este é o meu ponto de vista. É livre de ter outro contrário.

Eu jamais aceitaria tal coisa, mas isso não significa que não possa ou não deva aceitar, se se sentir confortável com isso. No entanto, dado que me escreveu, não me parece que se sinta por aí além confortável.

Homens que dão a desculpa do trabalho, há-os aos montes. Aparecem que nem paezinhos quentes na padaria logo pela manhã. O aproveitar-se da temática "trabalho" é até uma coisa que já mete nojo. E é insultuoso, não é preciso ser-se génio para ir montando algumas peças. Ora acompanhe-me:

1. Ao fim de 8 meses decidiram viver juntos. Não sei se foi um pedido que partiu dele, mas seja como for, houve uma decisão, uma vontade.
2. Estava distante. Confrontou-o. Disse que era um disparate. Afinal era verdade.
3. "Ai, preciso de me dedicar ao trabalho, está tudo muito mal", ou seja, não só a M. não é nem mais nem tão importante como o trabalho, como ele nem a toma como refúgio, porto de abrigo, o colo para onde foge ao fim do dia e esquece tudo o resto.
4. Diz ele que continua a amá-la. Veja se isto soa bem: "viver contigo não resulta para mim, mas eu amo-te", "não quero mais viver contigo, mas eu amo-te", "quero chegar a casa e ver que não estás cá, mas eu amo-te", "o trabalho é para mim mais importante do que tu, mas eu amo-te", "quero-te mais longe, mas eu amo-te". Não soa bem pois não? A mim também não.
5. Ele está a fazer um esforço financeiro e sugere-lhe que saia de casa. Ou seja, as despesas vão aumentar, já que deixam de ser divididas.
6. Estão os dois longe de casa, noutro país. Mais uma razão para se apoiarem um no outro e quererem viver juntos.
7. As pessoas namoram porque querem estar juntas. Vivem juntas porque gostam uma da outra, vivem juntas para ver se casam, ou melhor, se ficam juntas. Casar não é fundamental. Temos aqui uma escadinha, uma sucessão de decisões, faz sentido voltar atrás?

Eu compreendo o medo de se sentir sozinha. Oh, se compreendo. Esse é um mal de que padeço muitas vezes. Mais do que o medo de me sentir sozinha, é o medo de perder o que me faz feliz.

Vou contar um segredo que nunca tinha contado antes a ninguém. Vivia com o homem da Poisoned Apple há dois meses quando um dia o achei esquisito. Perguntei o que se passava, não era nada - nunca se passa nada! Apertei com ele e percebi que se sentia desconfortável, estranho, nunca tinha vivido com ninguém, estava a stressar com isso e outras coisas que não deve ter confessado. Este tipo de coisas é coisa que não compreendo, mas tenho de respeitar. Respeitar não é o mesmo que aceitar e, assim, quando voltou a olhar para mim eu estava a fazer malas.

Eram duas da manhã e eu a carregar o carro, sem abrir a boca.

Logo voltou de roda de mim, a dizer que não era isso que queria, que estava arrependido e pediu-me que ficasse. E repetia-se enquanto levava malas para dentro e eu as levava de volta para fora. Não houve gritos nem discussões de morte, mas eu disse-lhe que não conseguia dormir ao lado de um homem que queria estar comigo a meio-gás. Eu não queria e continuo a não querer a felicidade pela metade. Ou tenho tudo ou não quero nada, porque isso significa viver de migalhas e eu já vivi de migalhas muitas vezes na vida para saber que não me enchem a barriga!

O que é que ele precisava? Uma estalada de realidade. Saber que não pode pôr e dispor. As pessoas educam-se e eu digo sempre: as pessoas só vão até onde lhes for permitido. E foi remédio santo, nunca mais teve uma travadinha destas e sabe que não estou para aturar este tipo de dilemas que, que eu saiba, nunca mais se repetiram. Se me quiser ter, tem-me por inteiro, mas filmes não. Eu não aceito retrocessos, para mim, caminhar, é para a frente. Posso ter altos e baixos, mas mesmo nos baixos sei que gosto dele e é isso que também espero dele.

Um dia destes, um amigo que namora há pouco tempo, contou-me que praticamente vive junto com a namorada, apesar da relação ter menos de um mês. Dormiam sempre juntos, ou na casa dele, ou na casa dela. Pediu-me opinião e eu suspirei: quem sou eu para dar opinião se praticamente comecei a viver com o homem da Poisoned Apple ao fim de uma semana? Vendo as coisas de fora digo logo que é muito cedo, mas depois acho que se chega a uma certa idade, sabe-se o que se quer, sabe-se o que se sente e não faz sentido de outra maneira. Muitas vezes afirmei que achava horrível quando uma mulher se ia mudando para casa de um namorado aos poucos, cheirava-me a imposição, a "já não te livras de mim". Olha quem, sem ter noção disso mudei-me aos poucos, ouvia-o dizer "traz já tudo para casa", morri de medo, continuo a ter medo, mas estou como quero e a minha opinião quanto a estas coisas mudou completamente.

Aquilo que fiz numa noite de madrugada é fácil de escrever, mas não foi fácil de fazer. Os tomates que eu tive de ter para tomar esta atitude... nem me quero lembrar. Mas consegui fazê-lo porque estava cansada de ser infeliz. Eu sabia que a seguir a isso, no meu coração só cairia sofrimento. Afinal, nunca poderia deixar de vê-lo como "o homem com quem vivi uns tempos mas preferiu que fosse namorada ao longe". Isso para mim é o mesmo que pensar: gosta de mim, não muito para viver comigo, mas o suficiente para conseguir ser namorada. As tais migalhas.

M., eu não sou ninguém para lhe dizer o que deve fazer. Apenas posso dizer-lhe que isso também me soa a "preparação". Depois disso quer-me parecer que virá mais. Tenho muita pena, mas acho mesmo que a ele lhe está a faltar coragem de tomar uma decisão final e está a arranjar forma de facilitar a vida à procura de um "assim custa menos". Mas se estiver enganada (espero!), só tem de reflectir se se sente confortável com a medida que ele tomou, e da qual não partilha. Se achar que sim, então continue.

Ao escrever este texto e lembrando as relações mais longas que conheço, há algo em comum: nelas existe uma mulher que vai à frente e comanda as tropas, não deixa nada por conversar, põe os pontos nos "i" e não deixa passar nada em branco. Isto é tornar a comunicação, um pilar tão importante numa relação a dois, em prioridade. Espero tornar-me numa mulher dessas, trabalho para isso, mas é certo que dá muito trabalho.

Depois conte-me como correu e/ou, se quiser, volte a escrever-me antes disso.

Beijinhos,

24.5.10

Não metas a colher

Uma noite destas, o homem da Poisoned Apple tinha o portátil no colo quando um amigo de há muitos anos meteu conversa com ele. Por razões nenhumas, como acontece com muita gente, era um daqueles amigos de quem se continua a sentir como amigo, mas já não falava com ele há muito tempo. Com o tempo e a vida de cada um, foi-se perdendo a frequência dos encontros e das conversas.

Dizia o tal amigo que, coincidência das coincidências, o homem da Poisoned Apple conhecia a nova namorada dele. E dizia-o cheio de felicidade e paixão por uma T. que é, afinal, colega de trabalho do homem da Poisoned Apple. Ao saber quem era a pequena, entrou em estado de choque, chamou-me e perguntou o que fazia, precisava de um conselho. Cheio de pena do amigo, explicou-me que a pequena é - vamos dar o nome à coisa - uma porca. Dorme com todos, é cama fácil, toda a gente sabe e é de tal ordem que, de tão conhecida que ficou pelo seu desempenho horizontal e modo de vida, optou por mudar o apelido na página de identificação de trabalhadores da empresa, que tem milhares de colaboradores.

- Mas é assim tão mau? Às vezes as pessoas levam esse tipo de vida até que se apaixonam e tudo muda - opinei. Mas ele abanava a cabeça, o meu argumento era inválido e permanecia de olhos no portátil sem saber o que responder ao amigo.

E continuava o tal amigo contando o quanto se sentia apaixonado, que era coisa recente, menos de um mês, mas é tudo tão intenso!, não queria saber de preconceitos e ia viver com ela. Até comprou casa. E o desespero do homem da Poisoned Apple ia aumentando. A conversação acabou e horas depois, quando nos deitámos, ele continuava sem pensar noutra coisa. Se não se tivesse perdido algum contacto, não hesitava em avisá-lo do engano amoroso e do limbo em que caminhava. Mas apesar da certeza das "qualidades" da pequena, não consegue alertar o recente apaixonado.

E apesar de eu ter a certeza que preferia que me avisassem, disse-lhe que o melhor era estar quieto. Se eu própria, sabendo que alguns homens com quem namorei não eram flor que se cheirasse, ainda assim, decidi arriscar; se não soubesse e alguém me dissesse que a flor não prestava, só ia ficar ofendida com o mensageiro e dizer que estava enganado. Temos de ser nós a bater com a cabeça na parede e o mesmo acontecerá, eventualmente, com este rapaz.

Entre marido e mulher não se mete a colher, já diz o ditado. E todos dizem que preferem ser avisados, mas depois não correspondem a essa vontade. Não conheço história nenhuma em que uma "colher" tenha produzido bons efeitos e, assim sendo, o melhor é esperar que a ausência da colher se transforme em faca sem que ninguém se pronuncie.

22.5.10

Do you remember? #102



Patrick Swayze - She's like the wind - 1986

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

21.5.10

Consultório #23

"Olá,

(...) acabei com uma relação de quatro anos há cerca de um mês. Na altura em que terminei sentia-me exausta por causa dos ciúmes dele (controlava tudo, andava sempre comigo e não acreditava numa relação em que não se estivesse sempre ao lado da outra pessoa, e ainda comentava inúmeras vezes as roupas que eu usava, embora eu não concordasse com grande parte desses comentários). Sempre que eu combinava algo com amigas antes de falar com ele, dizia que o estava excluir e que já não parecia ser importante para mim, etc.

(...) O pior foi ouvir (...) toda a gente, inclusivé professores, reparavam que eu não esboçava sorrisos. Lembro-me que grande parte das discussões que tinha com ele afectavam-me imenso e lembro-me de mudar de humor frequentemente, mas lembro-me de ficar super bem quando as coisas "davam para o certo". No entanto acho que sofria tanto quanto estava feliz.

(...) Comecei a reflectir sobre as vezes como me sentia magoada e cheguei à conclusão de que não poderia continuar a sofrer.. O problema é que agora, passado um mês, sinto-me muito em baixo porque gosto muito dele e está a ser muito difícil. Começo a ter dúvidas, se fiz bem ou mal, se exagerei na minha decisão... Não sei o que fazer para me sentir feliz. Nem sei se fiz bem ou mal e tenho receio de me vir a arrepender mais tarde. O que faço?

(...) Recebi uma proposta do meu ex-boss para voltar para o emprego que eu tinha (onde devo dizer que tinha mais a ver com a minha área de formação). Na altura foi difícil responder mas acabei por recusar. Agora sinto dúvidas. Não sei se deveria ter separado as coisas mas também é um pouco complicado quando pensamos que a primeira vez que fomos para aquela região foi por um motivo amoroso e agora iria ser sem esse motivo tendo de lidar com as recordaçoes diariamente. Foi isso o que me fez recusar. Mas agora tenho pensado muito se fiz mal. Mas também penso se isso não me levará a sentir que "tenho" de voltar para ele. Não sei se me faço entender. Ou seja, estou cheia de dúvidas!"

Olá C.,

finalmente a resposta e desculpe o tempo que levei em responder.

Não tenho coisas simpáticas para lhe dizer. Nunca sei se as pessoas me escrevem na esperança de ler palavras mansas e revigoradoras de paciência para continuar a investir no mesmo, mas é difícil que possa escrever tal coisa. Até porque quando me escrevem para isso, é porque já se encontram em ponto de rebuçado-desespero, e quando isso acontece é sinal de desistir. O que é saudável não nos leva ao desespero.

Não sei a sua idade, se por uma lado já acabou a licenciatura e já trabalha, por outro lado parece-me muito mais jovem que isso. E isto não é uma crítica destrutiva, todos temos os nossos timings de aprendizagem. Eu também aprendi algumas coisas já tarde. E outras ainda continuo a aprender.

A relação que me descreveu, ainda que tivesse momentos bons (por alguma razão lá andava), parece-me completamente obsessiva. Esse rapaz tem claramente um desvio comportamental. É natural que um namorado tenha ciúmes quando vê outros homens olhar para a namorada. Fica nervoso e ao fim de meia-hora já passou. E no dia seguinte nem se lembra. Mas este homem controla as suas roupas e a sua vida, faz, aliás, da sua vida uma prisão. É a própria C. quem diz "sentia-me exausta por causa dos ciúmes dele, controlava tudo". E eu ainda não compreendo como é que há mulheres (e homens) que aturam este tipo de comportamento. Não poder sair sozinha é logo motivo de problema "ai que estou a ser excluído", "ai que não gostas de mim", "ai que isto não é uma relação normal porque não estamos sempre juntos"? Pois, de facto não é normal, mas é por causa dele! Pense lá comigo, se ele pudesse mantê-la em casa o dia inteiro à espera dele mantinha, não mantinha? Sabe que sim. E isso é normal?

O que seria desse homem se a C. fizesse como o meu, que foi passar 10 dias ao deserto só com amigos, numa espécie de Paris-Dakar. Aquilo deve ter sido um regabofe, mas uma boa relação não é aquilo que o seu namorado afirma: estar sempre ao lado da outra pessoa. Sempre??! Já estou enjoada. Ainda me lembro que o meu namorado, quando se colocou a hipótese da viagem, me perguntou se "podia" ir. Se podes??? Eu lá tenho de dar autorização para o que queres fazer! Lá explicou que era jeito de dizer, queria saber se me incomodava. É óbvio que uma mulher não fica feliz de saber que o namorado de quem gosta anda perdido em países estranhos, de mota, com a civilização a milhares de quilómetros de distância e com não sei quantos amigos malucos, mas vou prender o homem em casa?

Aquilo que uma pessoa nunca deve esquecer é que para ter liberdade, também há que a oferecer. A questão aqui é que o seu namorado parece nunca precisar de liberdade, mas a C. precisa. E é normal por isso! É saudável ter saudades, é saudável ter tempo com outras pessoas, é saudável ter espaço para estar sozinha até para tratar da pele e pôr rolos no cabelo. Sempre fui da opinião que quanto mais se aperta o cerco, mais alguém nos foge. E a C. quer mesmo estar com alguém que controla os seus passos? Que lhe diz o que deve vestir? Bem sei que se pudesse estendia-lhe uma burka. Ou um par de burkas, para poder ir lavando e usar sempre uma ou outra. Mas é isso que quer? E ir perdendo amizades? Pois quem assiste a isso não só fica impressionado, como também corre o risco de se afastar porque, permita-me a franqueza, isso é denunciador de fraqueza, de falta de firmeza.

O meu namorado sabe sempre onde estou, ou quase sempre, mas não é porque me controle a vida, é porque vamos conversando durante o dia. Muitas vezes, ele está fora do país e pergunta-me o que ando a fazer, mas não é porque queira controlar os meus passos, é porque tem curiosidade, porque se importa comigo. Mas quando saio sozinha, não tenho de estender um plano de actividades. O mais normal é sair e quando chego perguntar-me onde andei, por interesse, para saber de mim. E isto não é a mesma coisa que se passava consigo.

A C. acabou o namoro porque precisava de ar, porque foi sufocada. É para isso que quer voltar? E não me diga que ele disse que ia mudar. Acredite, há coisas que não mudam mesmo, nem precisa de ir confirmar. Este comportamento é um problema social que, ao que sei, só é grave para quem quer estar com ele, dado que não a persegue. Se precisou de ar, vai meter-se no mesmo buraco? Quer-me parecer que a C. sente alguma solidão, falta de um namorado, que não é exactamente falta dele, mas como não tem mais nada em vista, projecta a frustração na pessoa disponível, aquela que ainda assim, de vez em quando, lhe dava o que agora sente falta: o último namorado.

E no que respeita ao trabalho que poderia aceitar, por favor mulheres!, não rejeitem uma oportunidade por causa de um homem. O que é que interessa se a zona desse trabalho a vai lembrar do homem? No primeiro dia lembra-se, ao fim de uma semana lembra-se menos e ao fim de um mês já não se lembra mais. Ao fim de uns meses aquela zona vai ser memória de um sítio onde trabalhou e não outra coisa. Memórias todos temos, umas melhores que outras, e a recordação de qualquer uma delas ainda não matou ninguém. Já tive mais que um namorado, às vezes passo de carro na rua onde moram, para não me lembrar devia fazer desvios? Não faz sentido, haverá sempre alguma coisa que a fará lembrar de alguém, mas a memória só é saudável se não perturbar o normal curso da sua vida.

C., acima de tudo, aprenda a colocar-se em primeiro lugar, que é coisa que não tem feito. Não se subestime.

Tenho a certeza que as leitoras do blog lhe vão dizer a mesma coisa! :)

Beijinhos,

19.5.10

"Meu" ou "minha"

Nem "meus", nem "minhas". Não gosto, não quero, não uso. Entendo que são frases que nunca soam soltas, são frases que nos fazem pensar além do conteúdo, que nos fazem divagar e desprender a atenção do diálogo.

Como há uns dias, conversava com o homem da Poisoned Apple sobre o estado da nação, o quanto esse estado me está a irritar, o não saber o que fazer, quando afirmei que se não fosse o bom emprego que ele tem, fazíamos as malinhas e partíamos para os Estados Unidos, em busca de uma vida melhor.

- Isso é o que dizes agora. A minha ex-namorada dizia o mesmo e ainda aí anda - respondeu.

Por que raio usar a expressão "meu/minha ex-namorado/a"? O "meu", pronome possessivo, não soa mal a mais ninguém? Para mim, não torna a frase natural, sem que pense num milhão de coisas. Pormenores, poderão responder, mas esta rapariga dá muita atenção à escolha de palavras. Cada vírgula.

Se tenho de me referir a um antigo namorado, chamo sempre pelo nome, Fulano ou Sicrano, e quando ninguém sabe quem é, identifico dizendo Fulano de tal, um antigo namorado, mas nunca digo "meu". Sabe-me mal, enrola-se na língua, de meu não tem nada, só de passado. É um já era, uma ligação que não se quer, que não se procura, que já não faz sentido. Eu não quero que seja meu!

E divaguei sobre esta temática com o homem da Poisoned Apple, que concordou. Mas explicou que o dizia para evitar dizer o nome, porque estava na dúvida o que soaria mais estranho. Eu cá gosto de de chamar as coisas pelos nomes, melhora o português e ainda posso usar a expressão "dar nome aos bois", o que neste contexto até nem cai mal.

17.5.10

Como fazer uma relação funcionar #4

Estava eu, Poisoned Apple, peladona em frente ao espelho após um duche revigorante, besuntando a pele de hidratante, quando vejo no reflexo do espelho o homem a olhar para mim, mais precisamente para o meu rabo.

- O que foi?

- Não achas que estás com o rabo um bocadinho grande?

- Achas...??! - respondi assustada, de lágrimas nos olhos e queixo tremido. Logo peguei no espelho de rosto para fazer reflexo de espelho para espelho, ver o tamanho do meu rabo o melhor possível, como se estivesse fora do meu corpo. E repetia preocupada - Achas? Achas mesmo?

- Sim. Não. Sei lá.

- ESTÁS A BRINCAR COMIGO??! Responde, quero saber a verdade! - disse já tomada pela fúria.

- Não, estava a brincar. Estás sempre uma gata.

Decidida, larguei o espelho: - Não acredito em ti. Ora dizes que sim, ora dizes que estás a brincar, mas a verdade é que falaste no assunto. Como não sei, vou perguntar a outro homem que saiba dizer a verdade!

- Nãaaaaaaaaaaaaaaaaao!

15.5.10

Do you remember? #101



John Lennon - Woman - 1980

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

14.5.10

Verdade #62

Não escolhi este governo.

Sinto-me uma hermafrodita rara, coisa nova na natureza. Se me masturbar engravido logo, ou seja, estou tramada quer me masturbe (porque engravido), quer não me masturbe (porque não tenho prazer). É assim que este governo me deixa, sem saber o que fazer. Abro empresa? Não abro? Enquanto não me decido, empresta-se à Grécia dinheiro que não temos e então pedimos emprestado para poder emprestar. Confuso? Não me peçam explicações! Dá-se início ao pagamento do TGV um dia antes do aumento do anúncio de aumento de impostos, paga-se a incalculável e inconfessável factura papista. E as estradas cheias de buracos. Perdão, crateras.

Não escolhi este governo.

O grande Eça é que sabia, há 139 anos. Só não sabia que mais de uma centena de anos depois ainda não se aprendeu nada.

"(...) O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos.

A práctica da vida tem por única direcção a conveniência. Não há príncipio que não seja desmentido.

(...) Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria.

(...) O salário diminui (...) O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. Neste salve-se quem puder a burguesia proprietária de casas explora o aluguer.

(...) Não é uma existência, é uma expiação. A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências. Diz-se por toda a parte: o país está perdido!"

Eça de Queirós, 1871

Questões pertinentes #26

Armei-me em rica e em fina. Passei a ter em casa, uma vez por semana, uma fisioterapeuta que me faz sessões de drenagem linfática. Eu mereço, quero chegar aos 40 com estava nos 20, o que significa que os 30 estão a deixar a desejar. Eu devia era deixar de trabalhar e passar o dia nestas coisas, sempre impecável.

Alguém quer partilhar a sua experiência com este tipo de massagens? Preciso de opiniões, apesar de já me ter metido nisto.

12.5.10

Ameaças giras

Na semana passada estive com uma actriz conhecida da praça. Das poucas vezes que a vi na televisão, achava-a gira, mas nada como vim a constatar. À medida que falava com ela pensava, que cara!, e pedia-me a mim própria para não ser tão observadora, que ia parecer mal, ai que ainda parece que estou interessada! A mulher é muito mais gira do que poderia ter pensado. E magra. Ou seja, até me senti mal na minha pele, pensei que era uma pena não ser gira assim. Naquela sala eu não passava de um cão com pulgas, de um patinho feio. O que relativamente aos outros tudo bem, mas também queria ser assim, ver-me ao espelho de pele fantástica, rosto simétrico, tudo no sítio...

Mais tarde falei com o homem da Poisoned Apple a quem contei isto e me disse que era normal, também ele se sentiu ameaçado noutras situações com outros homens. Eu achava que para os homens as ameaças eram mais físicas e do hemisfério-sul, aquele gajo é musculado e eu não, aquele gajo tem a pila maior que a minha, mas não, também passa pelo resto. Afinal sentimo-nos todos diminuídos em certas situações, não é exclusivo do universo feminino.

Mau, mau é quando os ex aparecem com outras que são mulheres bombásticas. Eu gosto mais quando olho para essas e penso: o quê, aquele cabelinho de rato sem sal? E a pessoa sente-se logo melhor. Futilidades, mas acontecem, e antes sentir-me segura de mim do que o contrário.

11.5.10

Questões pertinentes #25 - a resposta

Uma vez que não foi revelado interesse por parte dos leitores e leitoras deste blog, decidi que não serão realizados passatempos.

Obrigada pelas respostas!

10.5.10

Nas costas dos outros...

vejo as minhas! É assim o ditado, certo? Mas parece ser um ditado que muitos esquecem, sobretudo os homens, que são parvos.

Como quando a minha amiga C. ligou a um ex-namorado, com quem até se dá bem, para pedir um favor, mas o barulho ensurdecedor impedia alguma comunicação:

- Estás numa festa de crianças?
- Não, estou numa esplanada, no Algarve.
- No Algarve? Estás de namorada nova?
- Sim!

E ela brincou com aquilo, bem-disposta, sem qualquer sentimento de ciúme, que também já seguiu com a vida dela há mais tempo que ele. Mas um homem é um homem e depois de desligar a chamada, logo ela recebeu um SMS que dizia qualquer coisa como não te incomodes que se não tivesses namorado quem te trazia para o Algarve era eu.

E coitada da outra. Da outra, não!, que essa é que é oficial. Ou pelo menos assim julgamos.

Os homens são básicos. Acham que lançam a isca e que elas ficam sempre um tudo-nada presas, abaladas e com frios no estômago com estas meias-declarações. Eles atiram baldes de charminho para não perder um lugar que julgam que têm e acham que elas ficam com o ego a estoirar no tecto porque ainda são importantes para eles.

Giro, até podia ser, mas o que uma mulher inteligente pensa é: se fosse eu naquela esplanada estava a dizer o mesmo a outra! Assim de simples.

8.5.10

Sondagem #1

Tenham a bondade de ajudar no meu projecto respondendo à sondagem que se encontra mesmo à direita.

Quando se lê "método de preferência", leia-se método que mais gostam ou gostariam e não forçosamente aquele que mais praticam.

Muito obrigada!

Do you remember? #100



Eric Carmen - Hungry Eyes - 1987

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

7.5.10

Questões pertinentes #25

Estarão os leitores e leitoras deste blog interessados em passatempos e prémios como se vê noutros blogs*?

Como estou na dúvida, nada como perguntar! A escolha é vossa.

*Como por exemplo perfumes e cremes.

O amor é lindo até de pijama!

O amor adolescente é assim, desmesurado, público, inocente e apresenta-se de pijama. A Carolina tem uma jóia no YouTube para todo o sempre, como eu tenho algumas cartas guardadas numa caixa em casa da minha mãe. São rabiscos e desenhos de uma caligrafia infantil que eu nunca tive coragem de deitar fora. Em alguns pode ler-se "queres namorar comigo?". E eu corava até às raízes dos cabelos, tremia e perguntava-me sempre como se dizia que não sem deixar ninguém sentido?

Agora os tempos são outros. Diz-se "amo-te" ao desbarato, coisa que tardei em dizer e ainda hoje o digo com parcimónia, são tempos em que imediatamente se dá a vida por alguém, tempos ditados pela pressa de viver, tempos em que aos 12 anos (?) já se teve muitas namoradas. Será que ainda existem bilhetinhos entregues pelas (estafetas) melhores amigas porque aos próprios lhes faltava a coragem? Não posso deixar de notar naquele abanar de cabeça mesmo no fim, de quem se conforma, típico de um esforço tentado pela última vez. Queria saber no que isto deu!

5.5.10

Como fazer uma relação funcionar #3

Quando ele foi ao deserto, numa manhã, preparava para me levantar, liguei a luz da minha mesa de cabeceira e puf!, foi-se a lâmpada. Como os candeeiros das nossas mesas de cabeceira são iguais, sem quaisquer remorsos, fui até ao lado dele e saquei a lâmpada para o meu lado. Uma pessoa tem de fazer por vingar na vida.

Já não me lembrava disto quando na noite do seu regresso o vi de volta do candeeiro.

- Ah, escusas de andar aí. Quando te foste embora a minha lâmpada fundiu-se e eu troquei pela tua.
- Cabrona... - ouvi-o entre dentes a rir e a desistir do candeeiro.

À hora de deitar, já no escuro, o homem lembrou-se de colocar o telefone a carregar. Foi ao candeeiro, click, click e eu já estava a rir.

- Agora não tenho luz! Liga a do teu lado. Cabrona... - e assim fiz sem conseguir deixar de rir com o humor mal iluminado do homem.

Minutos depois no escuro, outra vez:

- Esqueci-me de trancar a porta de casa! - Liguei a luz, já de trombas com o ritual e rapidamente desliguei. No regresso ao quarto gritou - Liga a luz! Não vejo nada!

- Não me apetece, faz como os gatos, orienta-te no escuro. Ou então orienta-te com a minha voz - disse enquanto o ouvia bater nos móveis.
- Cabrona...

É assim mesmo, não se lhes pode fazer todas as vontades.

3.5.10

Excesso de intimidade (?)

Há umas semanas, a sexóloga Vânia Beliz escreveu uma crónica sobre "excesso de intimidade" que pode ler-se aqui. Eu espero que a autora não me leve a mal, gosto do blog, tenho-a em boa conta, mas não podia discordar mais de tudo o que escreveu.

Embirrei logo com a expressão. Existirá efectivamente tal coisa como excesso de intimidade entre duas pessoas? Nesta crónica, este conceito passa pelas necessidades fisiológicas e outras rotinas do dia-a-dia, como uma mulher depilar-se. O que duas pessoas fazem juntas, aos olhos de terceiros, sem dúvida que pode ser considerado feio, nojento e até ser rotulado: "isso é excesso de intimidade!". Mas duas pessoas, na sua intimidade, alguma vez considerarão que vivem com esse tipo de excesso?

É por isso que temos relações amorosas com o tipo de pessoa A e não B. Ou seja, as pessoas juntam-se porque têm características em comum e, quando duas pessoas estão juntas, se conhecem, partilham opiniões, educação e casas de banho, a intimidade existe ou não existe.

Aos olhos dos outros, os terceiros, eu sou certamente considerada uma porca. Mas para mim porcaria é não tomar banho. Eu não chamo o homem da Poisoned Apple ao WC para me ver mudar um tampão, mas se ele aparecer não me encolho, não fico envergonhada nem me sinto pouco à-vontade! Eu não preciso de fechar a porta. É, aliás, coisa que nunca senti necessidade de fazer depois da fase em que nos fomos conhecendo e adaptando. Se sofro de gases (o meu eterno problema), eu não me sento ao colo dele para me aliviar, mas não vou andar a fugir pela casa, fazer de conta que estou só a esticar as pernas, quando o meu problema é outro. Cheira mal? Normalmente não, mas se for caso disso afasto-me eu ou ele. E o melhor é rir da desgraça inevitável.

É óbvio que os homens sabem que que as meninas defecam, urinam, têm gases, mudam pensos e tampões, tiram pêlos dos sítios mais esquisitos, blá, blá, blá. A questão não passa por fazer uma festa desses "eventos", mas somos obrigadas a fazer de conta que essas questões foram solucionadas num ápice, por obra e graça do Espírito Santo? Ou ninguém sabe que se gasta tempo em algumas destas coisas? Fazê-lo quando ele não está? E devo fechar-me à chave no WC? E por que razão este papel de discrição deve ser interpretado pelas mulheres enquanto os homens o desempenham à-vontade? Sim, alguém conhece um homem que viva preocupado com a discrição na vida a dois?

Diz o texto que estes momentos podem tornar-se num veneno para a relação. Se assim o é, é porque essas duas pessoas não estão em sintonia, não partilham da mesma opinião em relação à temática e esse é que é o verdadeiro veneno: não combinam.

Os momentos acima referidos, sem dúvida que só a mim me interessam, mas de todas as vezes que procedi da forma que se aconselha, discreta, fi-lo inicialmente ou em relações nas quais tinha a esperança de virem a ser boas, quando na verdade eram mas é uma porra de uma ilusão. Procedia desta forma porque estava à espera que a intimidade chegasse, pois há sempre a esperança, o "isto vai melhorar". Mas a verdade é que foi muito cedo na idade que descobri nas minhas relações amorosas, as verdadeiras, perdoem-me a expressão, que não havia cá merdas (ou havia, depende do ponto de vista). Existia intimidade e essa, lá está, ou existe ou não existe. Sempre que deixava de ter vergonha ou embaraço em fazer à frente de um homem o que fazia sozinha, sem que ele reparasse no quer que fizesse, então aí sim, sabia que era uma relação para valer.

Não, não espero um dia inteiro em ânsias para ver o meu par sentado no trono a puxar pelos intestinos, mas se o vir não morro nem fico enojada. Nem sequer passa pela questão de tal ser atraente ou não. Isso não se coloca. É uma necessidade de todos nós, não há lugar a juízos de valor. Não gosto menos dele porque se alivia à minha frente, e muito menos perco tesão, e nem por sombras isso afecta a minha sexualidade.

É que para ter um homem ao meu lado, eu quero um homem inteiro, com todas as suas necessidades fisiológicas às quais dou a mesma importância que dou às minhas. Quero um homem a sério, não quero um brinquedo fingido. Ou então eles teriam de fazer eternamente o que já fiz numa terrível noite de cólicas: suei em bica, fumei cigarros, apertei o ânus o mais que pude (não cabia nem um alfinete!), fiz sorrisos amarelos e sofri horrores. Não aproveitei o todo porque não sentia outra coisa senão as dores provocadas pelo que não podia libertar, estava com um namorado com quem não tinha intimidade*. E isso, a longo prazo, não é vida para ninguém. Somos humanos, caramba, vamos fingir que não?

* Atenção, é diferente de ainda não ter intimidade, coisa que cresce com o tempo, do que não a ter de todo.

1.5.10

Do you remember? #99



Tears for Fears - Sowing the Seeds of Love - 1989

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com