(Por favor, chovam comentários a ver se me faço entender!)
Odeio ciúmes. Sim, não há melhor forma de dar início a este texto. Os ciúmes representam para mim um lado mau do ser humano. São irracionais na larga maioria das vezes e irritam-me tanto quanto a ignorância. Quando é quanto-baste, estamos bem, um picozinho leve faz bem a qualquer relação. Mas quando os ciúmes transformam as pessoas para pior, sobem-se-me os calores nas costas, a raiva e a vontade de desatar aos gritos. Fico fora de mim.
Há quem não se dê com o passado, há quem ao fim de algum tempo consiga ficar realmente amigo. E foi o que aconteceu comigo, para desagrado do homem da Poisoned Apple. Há meses, voltei a conversar com um antigo namorado, ficámos amigos, falamos de vez em quando, faço-lhe favores, ele faz-me a mim e tudo corre com normalidade. Na verdade, nem me lembro do passado. E vivo bem assim, de forma saudável, para desagrado do meu par.
Os que são incapazes de ficar amigos do passado não concebem que isso possa acontecer a outros. Posso ser amiga, mas à distância. Posso conversar via telefone, no msn, enviar fotos das minhas viagens, receber fotos da filha dele que entretanto nasceu, tudo no maior dos respeitos. Posso até ir ao consultório dele onde fico de cuecas para me secar derrames e varizes com injecções nas pernas, mas ao convite
a ver se jantamos para pôr a conversa em dia, não pode ser. Isso não! Posso comentar com ele que me mudei oficialmente, que até já temos conta conjunta, mostrar-me feliz, mas jantar não! É falta de princípio. E nisto, monta-se o carnaval em casa. Odeio ciúmes. Mesmo.
É que odeio mesmo ciúmes. Tanto que me dá vontade de insultar quem padece deste mal. Posso compreender a sua existência, mas isso não significa que aceite. Mudei a minha vida para estar com um homem num bairro que não adoro, que fica ao dobro da distância do meu trabalho e ao triplo do tempo. Vivo horas de trânsito como nunca vivi na vida, alimento o gato dele, logo eu que não gosto de bichos, passei a fazer jantares qual dona de casa, a tentar ser sempre correcta mesmo nos dias que estou estoirada e só me apetece estar sozinha. Lutei contra mim mesma, contra os meus medos e angústias e mudei-me para uma casa onde até agora não cabem todos os meus sapatos, mas que assim quis. Passei a ter mais despesa, abri uma conta conjunta, passei a fazer e a ter coisas que gosto, outras que não tanto, mas tudo por um bem comum, por algo maior. Porque tinha vontade. Mas não parece ser quanto-baste como prova do meu sentimento.
Apesar de ter mudado de vida, houve algo que nunca quis: mudar a minha vida, quem eu sou e sempre fui perante outros. E é isso que me é pedido. Para ele, trata-se de um ex-namorado; para mim trata-se da minha liberdade, já nem quero saber de um eventual jantar. Eu sou
livre de ir, diz ele. É claro que posso ir, mas e as consequências? Primeiro era porque não é amigo coisa nenhuma, sabe Deus com base em quê. Que quer é saltar-me em cima, eu que ali já conheço tudo. Ou seja, em suma, será então uma questão de confiança.
Não, não é confiança porque confia em mim.
Então é o quê? Agora é uma questão de princípio, não se faz, não é normal,
pergunta no blog e vais ver respostas! E o conceito de "normalidade" adquire aqui um estatuto importante. Admito que me digam não ser vulgar, mas normal é. E quem é que me vai ditar o que devo ou não fazer de acordo com os parâmetros da sociedade? Se eu perguntar no blog a preferência Sporting/Benfica, o que vai acontecer? Vai haver de tudo. E o mesmo acontecerá para o resto. E por que razão eu tenho de pedir opiniões alheias quando eu própria lhe digo o que sinto? Isso não é mais que suficiente? Qual é a pior coisa que pode acontecer num jantar com um amigo? Se eu não gostasse do homem com quem estou, não estava!
Eu odeio ciúmes. Os homens têm momentos acéfalos. Bem sei que não sou de ter ciúmes e lembro das amigas que me pediam palavras mágicas para acabar com a dor de ver quem gostavam com outras. Mas nunca houve remédios ou mezinhas. Havia inteligência e racionalidade: para quê focar a minhar dor noutra gaja que não conheço? Ele é que me enganou! Ele é que tinha o poder de decidir! Já há muito que aprendi que não é por apertar o cerco ou a qualidade da observação que alguém fica connosco mais tempo. Ao lado de um homem ou uma mulher, pode sentar-se numa mesa do restaurante mais romântico outra mulher ou homem fascinante, mas se ele ou ela gostar mesmo de si, acha que isso faz mossa na relação que tem? Não faz e falo por mim. É-me indiferente, pois quando me dedico a alguém é ali que estou. E então quando na mesa está alguém que já se conhece? Então aí não há nem novidade.
Odeio ciúmes e o que não me é indiferente é a forma como se me colocam as coisas. Alguém tem de ceder, que é disso que as relações são feitas. Ou aceita quem sempre fui antes dele, sem que isso signifique que me torne adúltera; ou eu privo-me da minha liberdade e da minha vontade, passo a viver condicionada e respondo a um amigo
não posso ir jantar, não estou autorizada, que é basicamente isso. Os meus amigos passam a ser escolhidos a dedo, como boas ou más companhias.
Esta história já vai na parte II, meses depois da I parte. Não há razões para grandes preocupações, porque estas coisas só têm efeitos danosos a longo prazo, foi o que lhe disse. Há também a hipótese de morrer para o mundo, como se fazia antigamente, e tentar aprender a viver com isso, o que quem me conhece sabe que não vai acontecer nunca. Ou ainda fazer a minha vida sem dizer onde estive nem com quem, o que também não me apetece.
Mas sem dúvida que algo aprendi: o princípio da franqueza, da transparência e da honestidade (com que eu falei já por duas vezes para jantar com um amigo), valeram-me voz alta, frases mal-educadas, conversas entre-dentes para que eu não oiça mas saiba que está a falar, valeram cada um num canto da casa, a minha vontade de estar sozinha, as minhas lágrimas e eu cheia de vontade de ir trabalhar, tudo para não estar em casa. Ou seja, valeu-me infelicidade e uns cigarros na varanda.
Como mulher, deixo ainda esta dica para os homens que não vêem mais do que está à frente: preocupem-se com os homens com quem elas não falam, não dos que são amigas.