27.2.10

Do you remember? #91

The Beatles - Help! - 1965

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

26.2.10

Consultório #20

"Querida Poisoned Apple,

Vinha solicitar um pouco da tua sabedoria. Eu estou numa relação há cerca de 4 anos e neste último ano que passou decidimos juntar os trapinhos. Pouco tempo depois o meu pai ficou doente e cerca de 3 meses depois faleceu, foi um golpe muito duro, pois era muito apegada ao meu pai. A partir da morte do meu pai alguma coisa mudou em mim, inicialmente andei deprimida, o que é de todo normal, não fosse o facto da razão do meu estado depressivo se dever não só à morte do meu pai, como ao facto de pela primeira vez na minha vida ter visto a minha vida com uma lucidez quase assustadora.

Tenho apenas 26 anos e sempre critiquei os meus pais pela vida que levavam, casados sem amor, apenas juntos por conveniência, e sempre considerei isso um absurdo, sempre quis fazer diferente na minha vida, infelizmente nesse momento trágico que nos abalou muito a todos, percebi que estava a fazer exactamente o mesmo com a minha vida. Estou junta com uma pessoa de quem gosto muito, mas que está longe de ser o amor da minha vida (se é que isso existe), deixei o meu curso universitário a meio porque me quis juntar, e não existe o meu curso pós-laboral, nem privado, como tal não consegui conciliar o curso e o trabalho.

Desde miuda que sempre sonhei deixar Portugal e ir estudar e viver para Londres e desde que tudo isto aconteceu esse sonho reacendeu-se em mim, com a força de um incêndio florestal, tudo parece empurrar-me para lá, não paro de pensar nisso, já dei por mim, involuntariamente, por diversas vezes a preparar pequenas coisas para a partida, sinto que estou a perder o controlo do meu juízo (estou a exagerar, claro). O problema é que como disse anteriormente, tenho uma pessoa já não o amo, mas tenho um sentimento de culpa gigante em deixá-lo, e sempre que me preparo para o fazer, falta-me a coragem, falham-me as palavras e não sou capaz. Já o magoei uma vez e odeio a ideia de o fazer outra vez, mas não estou feliz e nem o posso fazer feliz, mas não tenho a força, nem a coragem necessárias para pôr um fim a isto!

Sei que é errado, que deveria fazê-lo até mesmo por ele, sei que não estou a ser justa, inclusivé sei que se fosse ao contrário ele provavelmente não pensaria duas vezes e dava-me um chuto no rabo, mas apesar de tudo simplesmente não sou capaz. Desejo desesperadamente dar andamento ao meu sonho, aqui sinto que tenho a minha vida parada no tempo, não estou a evoluir, daqui a 20 anos se continuar cá, vou estar mais velha mas na mesma vida estupida, já não aguento mais sinto uma angústia quase gritante, e no entanto nada disto parece ser suficiente para pôr fim a um relacionamento que tem os dias contados.

Acho que precisava de uma injecção de coragem, mas parece que isso anda esgotado nas farmácias, por isso já me dou por satisfeita se me puderes dar um conselho. Sempre fui muito independente e agora sinto-me como uma inválida à espera que tomem conta de mim e odeio.

Obrigado pela atenção dispensada."


Olá Lara,

Não sei se é leitora habitual, mas se é já sabe o que vou responder, certo? O que é que ainda anda cá a fazer? Faça sempre mais por si! :)

A perda de alguém importante pode de facto ajudar qualquer um a ver a vida com outras lentes que até então não tinha. E quem diz a perda de alguém, a razão pode até ser mais simples que isso, como um valente susto, um acidente, o desvio de um caminho que se tomava como certo. E isso não tem mal nenhum, não se sinta culpada. Afinal, bem vistas as coisas, a perda, o susto ou o quer que seja, funciona como um refresh, um revigorante que vem colocar tudo em causa, trazer novos objectivos, novos mundos, novas conquistas e novas vontades.

Embora não tivesse conhecido de perto, não acho que a situação dos seus pais fosse assim tão criticável. Por vezes, quando os anos de casados já são muitos, o fogo do amor esvai-se, mas é substituído por outras coisas, como companhia e carinho. E isso não tem nada de mal. Dou-lhe o exemplo dos meus pais, que estavam prestes a separar-se quando o meu pai ficou doente e, embora o amor já não existisse da mesma forma inicial, a minha mãe ficou com ele até ao último dia. Em vez de divorciada é viúva e nos piores momentos nunca lhe faltou. Talvez a sua mãe tenha feito o mesmo e isso, de condenável, não tem nada. Muito pelo contrário.

Não tenho palavras para lhe dizer o que sinto em relação a uma atitude como a sua, a de abandonar os estudos para juntar trapos. Perdoe-me a franqueza, não se ofenda, mas é burrice. Nunca faça isso! É anular-se para outra pessoa. E para quê? Para lamentar o resto da vida o arrependimento e transmitir às gerações seguintes que nunca devem repetir tal coisa. Já não ouviu esta lenga-lenga antes de uma pessoa mais velha? As pessoas podem namorar até terem uma vida estável. Qual é a pressa?

Trabalhar e estudar ao mesmo tempo é quase de cortar os pulsos. Digo-o eu que sei de experiência própria. Fi-lo não porque tinha necessidade, mas porque queria. E olhando para trás, muitas vezes, não sei como aguentei. Há um tempo para tudo, não ponha o carro à frente dos bois, seja sempre sensata e, sobretudo, pense antes em si e depois nos outros. Isto não é ser egoísta, é proteger-se!

O conceito de "homem da minha vida" pode variar de mulher para mulher, mas se vê que esse homem não é um com quem queira estar muito mais tempo, o que é que anda a fazer? Eu respondo-lhe: a atrasar de forma estúpida a sua vida. E um dia destes deixa de ser uma forma estúpida de atraso e passa a ser um atraso irreversível. Não perca mais tempo! Trilhe novos caminhos.

Tem medo de o magoar? Eu compreendo. Durante 7 anos fui uma mulher triste e infeliz. Magoaram-me tanto que houve alturas em que só queria morrer durante o sono. No entanto, hoje já não estou assim, estou feliz. E por quê? Porque apesar da tristeza eu já sabia que passava, pois tudo passa. Tanto esperei que consegui, hoje estou bem, como queria. Mas para isso tive de partir à procura e tive de sofrer. E é o que que a Lara também tem de fazer, por muito que lhe custe.

A forma correcta de fazer as coisas é falar-lhe como me escreveu, ser honesta, pôr o coração cá fora. Certamente vai ouvir coisas feias, outras que a magoarão, mas a vida é assim mesmo, nunca há uma forma exemplar de fazer as coisas. No entanto, há sempre a possibilidade de ser honesta. Sobretudo porque é como disse, a relação tem os dias contados. E então, quer ir realizar o seu sonho quando ainda vai a tempo, orgulhando o seu Pai, ou quer ficar numa mornice de vida, cheia de filhos, sem curso superior, a ganhar menos do que poderia ganhar, com um emprego que não a satisfaz e com um homem que cada vez lhe diz menos? Eu não hesitava...

Da próxima vez que me escrever espero que seja de Londres, onde tenho tantos e tantos amigos a viver, a estudar ou a trabalhar, e fazem muito bem!

Vai ver os comentários no blog, não acredito que alguém lhe dê um bom argumento para ficar!

Beijinhos,

24.2.10

Ai casas, casas!

O casamento parece estar na moda, sobretudo aquele surge à força. Passeava-me numa festa tentando passar despercebida, com as mãos cheias de cajús que roubava de todas as cestinhas espalhadas pela sala, quando passo pelas costas da minha cara-metade que falava com um homem que só conhecia de vista:

- Ela vai casar??! - dizia o homem da Poisoned Apple de queixo caído.

Ui, antenas parabólicas no ar enviaram a informação de que havia que retroceder o passo. Engoli os cajús e perguntei por cima do ombro: quem é que vai casar? E seguiu-se uma história que envolvia o tal homem que vi poucas vezes na vida.

Pois que tinha chegado a um momento da vida em que tinha de escolher um caminho, tomar um rumo, momento esse de verdadeira provação e provocado pela então cara-metade que protestava: quero casar! Mas que coisa, anda tudo ao mesmo? Pois que queria e queria, e ele, coitado, não sentia essa necessidade ou urgência. A viverem juntos há três anos, não só não sentia a necessidade como se questionou qual seria a razão para não querer casar. E daqui nasceu uma espiral de dúvidas. Aquilo que antes era uma relação sossegada passou a um turbilhão.

Poderão os estimados leitores dizer antes que era uma relação falsa, ainda que não conscientes disso, argumento que aceito, mas acredito sinceramente que para muita gente a visão do altar se torne o princípio do fim. Este género é sobretudo sentido por criaturas mais acomodadas, já está no papo, não preciso de me esforçar, agora é que vou ter descanso - ainda que as palavras não sejam pensadas à letra como as escrevo. Mas há pessoas e pessoas, feitios e feitios, uns mais atentos e mais esforçados (eu!), outros que não vêem nada pela frente a não ser que lhes seja atirado à cara.

Ele não queria casar, foi sincero. Ela partiu naquela estrada e cerca de quatro meses depois da data que marcou o final de três anos de vida em comum, informa que vai casar e que precisa de metade do recheio do apartamento. E pergunta ele para os amigos: mas o gajo quer candeeiros, sofás, talheres e pratos da vida que tivemos?

Não sei o que é que o agora noivo quererá, nem consegui perceber se o ex presente na festa se estava nas tintas ou disfarçava muito bem. Não me esforcei para saber, segui a minha vida à procura de mais cajús antes que acabassem. Mas perguntei-me qual seria a razão para não virar toda a minha atenção para este assunto, o que teria feito há uns tempos. Percebi que não me esforcei porque estas histórias cansam-me, restando o encolher de ombros. O que sei é que há mulheres que querem casar. Muito. Não interessa com quem, desde que casem. Talvez passe muito por uma questão social: a de uma mulher chegar aos trinta e poucos e não ser casada. Chegando a determinada idade sente que vai encalhar para o resto da vida. O relógio esvai-se, é um agora ou nunca. É sobretudo um medo de se pensar aquela ninguém quis. Mesmo que um dia venha a divorciar-se, ao menos já foi casada, já alguém a quis. E isto é consolo que baste para muita gente.

Eu cá não teria nunca coragem de querer levar um homem a casar. Para mim é à antiga: o homem pede a mão dela e ela aceita (se quiser). Não gosto da inversão dos papéis tidos como clássicos. E o casamento não é coisa que faça parte do meu horizonte, mas coloco-me no lugar destas mulheres e penso que se fosse eu a pressionar por um novo estado civil, nunca saberia se o eventual "sim" vinha do coração, da vontade, ou do "sim" que faz sentido, do não tenho coragem de dizer que não e no fundo nem faz diferença. Com isto é que não conseguiria viver.

22.2.10

Sou menina, gosto de brincos

- Trazes-me uns brincos de Belo Horizonte? - pedi esperançosa.

- Não. Lá não há nada... - afirmou enquanto folheava lentamente uma revista de peixinhos.

- Estás a dizer-me que em Belo Horizonte não existem brincos? Eu sei que há! Só que estão dentro das LOJAS! LO-JAS! Sabes o que é?

- Não conheço... - e seguiu a sua leitura.

Mariquinhas, todos com medo de entrar em espaços comerciais.

20.2.10

Do you remember? #90



Supertramp- Logical song - 1979

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19.2.10

Verdade #59

Há meses que lhe digo: não tens espaço para mim! E ele diz que sou louca, já viste a quantidade de armários? Isto é um T4! Sim, mas há roupa de verão e de inverno! E protesta como uma velha chata, diz que estou avariada, que o que é preciso é reorganizar a coisa, mais nada.

Levei-o a minha casa. Abri um roupeiro. Mostrei duas cómodas e informei que lá para dentro estava mais o armário dos vestidos e o armário dos casacos. E aqui estão os sapatos! Abro a porta. Onde é que isto cabe, heim?

Lá estavam eles, caixas e caixas, de todas as cores, com salto e sem salto, lindos. Coçou o queixo: Não sei como é que vamos fazer isto...

Quem é que é maluca?

17.2.10

Como fazer uma relação funcionar

- Põe isto no lixo.
Dá-me espaço para lavar os dentes.
Não deixes aqui as cuecas.
Agora que já decidimos as férias de verão, em 2011 era nice fazer um tour pela Tailândia, não era?

- Tenho de fazer tudo o que tu queres?

- Não. Mas é melhor para ti.

15.2.10

Como procurar o momento certo

Vós homens, bem sei que sofreis de uma falta de sensibilidade que nos deixa a nós, mulheres, os nervos em franja, mas isto acontece porque não sabeis encontrar o momento certo para solicitar ou conversar ou que vos aprouver.

Vejamos, quando eu tenho diversas caixas de botas empoleiradas umas nas outras, a uma altura que não me deixa ver porra nenhuma e quando as tento enfiar todas ao mesmo tempo numa prateleira que está longe, lá para o dobro da minha altura, não é o momento que, sem ajudar, se questione como um disco riscado:

- O que é isto*? É para o lixo? Estás a ouvir? Olha, vê lá isto...

Para se encher de paciência, o comum dos mortais inspira e expira. Ao inspirar e expirar o corpo sobe e desce e, na descida, abrem-se todas as caixas e caem todas as botas na minha cara e cabeça, incluindo saltos altos.

- O que é isto? É para o lixo? Estás a ouvir? Olha, vê lá isto...

Palavras que não sei reproduzir.

Silêncio.

Pergunta ele muito quieto, em estado de choque como quem assitiu a um genocídio: isso é o teu verdadeiro eu?

E desatámos a rir.

Homens, não queiram fazer-nos sentir umas bruxas. Saber o momento certo para intervir é simplesmente verificar que ela não se encontra concentrada noutra coisa qualquer. É como uma conversa, não se interrompe quando o outro fala; é o sistema "uma coisa de cada vez". Simples, não é? É como não procurar conversar da outra ponta da casa quando estou a lavar os dentes, a lavar a loiça ou quando tenho a Bimby ligada porque, nenhuma mulher ouve nada! Juro que este meu método é infalível! Agora correi para elas, homens de Portugal! Ide, vai ser um sucesso! E qualquer coisa falem aqui com a Dra. Ruth, meus xuxus.

*"Isto" era uma porra de um catálogo do IKEA de 6 páginas. Uma tripinha.

13.2.10

Do you remember? #89



Jennifer Rush - The power of love - 1984

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12.2.10

Ai, o Carnaval...

Ai, o Carnaval... só eu sei o quanto gosto desta época do ano, cheia de nervos, sempre a olhar por cima do ombro na rua, não vá eu levar com um ovo, como aconteceu noutros anos. E confirmo, a casca de ovo é o cabo dos trabalhos de tirar do cabelo. Mais difícil que piolhos. Adiante.

Estava eu descansada a trabalhar quando no escritório entra uma colega vinda da hora de almoço.

- Que cheiro é este? - pergunta outra colega.
- Ai pah, nem imaginas, o miúdo comprou um daqueles sprays de Carnaval que cheiram a cócó. Levei com aquilo no casaco e agora é isto, tenho mesmo de mandar lavar o casaco na lavandaria... - confessou de jeito sofrido.

Eu, que nem sabia da existência de tal spray no mercado, dizia mentalmente isto não me está a acontecer. Muitas vezes, a ver se se tornava verdade. E o cheiro. O cheiro.

Sempre sem piar e com medo de abrir a boca, não fosse reter o cheiro nauseabundo nas minhas mucosas, já de tom esverdeado na face esperava que alguém mandasse abrir uma janela, atirasse o próprio do casaco pela janela, pedisse para deixar o casaco no corredor, qualquer coisa, quando oiço a observação mais inteligente de todos os tempos, da colega que perguntou pelo cheiro:

- Epah, está muito bem feito esse sray. É que cheira mesmo mal...

Mãos à testa, agradeci a todos os santos ter um gabinete só para mim e reconsiderei a ideia de continuar a trabalhar de porta aberta.

Cheira mal. Cheira a merda. Trabalho numa latrina.

10.2.10

Ciúmes

(Por favor, chovam comentários a ver se me faço entender!)

Odeio ciúmes. Sim, não há melhor forma de dar início a este texto. Os ciúmes representam para mim um lado mau do ser humano. São irracionais na larga maioria das vezes e irritam-me tanto quanto a ignorância. Quando é quanto-baste, estamos bem, um picozinho leve faz bem a qualquer relação. Mas quando os ciúmes transformam as pessoas para pior, sobem-se-me os calores nas costas, a raiva e a vontade de desatar aos gritos. Fico fora de mim.

Há quem não se dê com o passado, há quem ao fim de algum tempo consiga ficar realmente amigo. E foi o que aconteceu comigo, para desagrado do homem da Poisoned Apple. Há meses, voltei a conversar com um antigo namorado, ficámos amigos, falamos de vez em quando, faço-lhe favores, ele faz-me a mim e tudo corre com normalidade. Na verdade, nem me lembro do passado. E vivo bem assim, de forma saudável, para desagrado do meu par.

Os que são incapazes de ficar amigos do passado não concebem que isso possa acontecer a outros. Posso ser amiga, mas à distância. Posso conversar via telefone, no msn, enviar fotos das minhas viagens, receber fotos da filha dele que entretanto nasceu, tudo no maior dos respeitos. Posso até ir ao consultório dele onde fico de cuecas para me secar derrames e varizes com injecções nas pernas, mas ao convite a ver se jantamos para pôr a conversa em dia, não pode ser. Isso não! Posso comentar com ele que me mudei oficialmente, que até já temos conta conjunta, mostrar-me feliz, mas jantar não! É falta de princípio. E nisto, monta-se o carnaval em casa. Odeio ciúmes. Mesmo.

É que odeio mesmo ciúmes. Tanto que me dá vontade de insultar quem padece deste mal. Posso compreender a sua existência, mas isso não significa que aceite. Mudei a minha vida para estar com um homem num bairro que não adoro, que fica ao dobro da distância do meu trabalho e ao triplo do tempo. Vivo horas de trânsito como nunca vivi na vida, alimento o gato dele, logo eu que não gosto de bichos, passei a fazer jantares qual dona de casa, a tentar ser sempre correcta mesmo nos dias que estou estoirada e só me apetece estar sozinha. Lutei contra mim mesma, contra os meus medos e angústias e mudei-me para uma casa onde até agora não cabem todos os meus sapatos, mas que assim quis. Passei a ter mais despesa, abri uma conta conjunta, passei a fazer e a ter coisas que gosto, outras que não tanto, mas tudo por um bem comum, por algo maior. Porque tinha vontade. Mas não parece ser quanto-baste como prova do meu sentimento.

Apesar de ter mudado de vida, houve algo que nunca quis: mudar a minha vida, quem eu sou e sempre fui perante outros. E é isso que me é pedido. Para ele, trata-se de um ex-namorado; para mim trata-se da minha liberdade, já nem quero saber de um eventual jantar. Eu sou livre de ir, diz ele. É claro que posso ir, mas e as consequências? Primeiro era porque não é amigo coisa nenhuma, sabe Deus com base em quê. Que quer é saltar-me em cima, eu que ali já conheço tudo. Ou seja, em suma, será então uma questão de confiança.

Não, não é confiança porque confia em mim. Então é o quê? Agora é uma questão de princípio, não se faz, não é normal, pergunta no blog e vais ver respostas! E o conceito de "normalidade" adquire aqui um estatuto importante. Admito que me digam não ser vulgar, mas normal é. E quem é que me vai ditar o que devo ou não fazer de acordo com os parâmetros da sociedade? Se eu perguntar no blog a preferência Sporting/Benfica, o que vai acontecer? Vai haver de tudo. E o mesmo acontecerá para o resto. E por que razão eu tenho de pedir opiniões alheias quando eu própria lhe digo o que sinto? Isso não é mais que suficiente? Qual é a pior coisa que pode acontecer num jantar com um amigo? Se eu não gostasse do homem com quem estou, não estava!

Eu odeio ciúmes. Os homens têm momentos acéfalos. Bem sei que não sou de ter ciúmes e lembro das amigas que me pediam palavras mágicas para acabar com a dor de ver quem gostavam com outras. Mas nunca houve remédios ou mezinhas. Havia inteligência e racionalidade: para quê focar a minhar dor noutra gaja que não conheço? Ele é que me enganou! Ele é que tinha o poder de decidir! Já há muito que aprendi que não é por apertar o cerco ou a qualidade da observação que alguém fica connosco mais tempo. Ao lado de um homem ou uma mulher, pode sentar-se numa mesa do restaurante mais romântico outra mulher ou homem fascinante, mas se ele ou ela gostar mesmo de si, acha que isso faz mossa na relação que tem? Não faz e falo por mim. É-me indiferente, pois quando me dedico a alguém é ali que estou. E então quando na mesa está alguém que já se conhece? Então aí não há nem novidade.

Odeio ciúmes e o que não me é indiferente é a forma como se me colocam as coisas. Alguém tem de ceder, que é disso que as relações são feitas. Ou aceita quem sempre fui antes dele, sem que isso signifique que me torne adúltera; ou eu privo-me da minha liberdade e da minha vontade, passo a viver condicionada e respondo a um amigo não posso ir jantar, não estou autorizada, que é basicamente isso. Os meus amigos passam a ser escolhidos a dedo, como boas ou más companhias.

Esta história já vai na parte II, meses depois da I parte. Não há razões para grandes preocupações, porque estas coisas só têm efeitos danosos a longo prazo, foi o que lhe disse. Há também a hipótese de morrer para o mundo, como se fazia antigamente, e tentar aprender a viver com isso, o que quem me conhece sabe que não vai acontecer nunca. Ou ainda fazer a minha vida sem dizer onde estive nem com quem, o que também não me apetece.

Mas sem dúvida que algo aprendi: o princípio da franqueza, da transparência e da honestidade (com que eu falei já por duas vezes para jantar com um amigo), valeram-me voz alta, frases mal-educadas, conversas entre-dentes para que eu não oiça mas saiba que está a falar, valeram cada um num canto da casa, a minha vontade de estar sozinha, as minhas lágrimas e eu cheia de vontade de ir trabalhar, tudo para não estar em casa. Ou seja, valeu-me infelicidade e uns cigarros na varanda.

Como mulher, deixo ainda esta dica para os homens que não vêem mais do que está à frente: preocupem-se com os homens com quem elas não falam, não dos que são amigas.

8.2.10

Minhas ricas maminhas! - Serviço público para mulheres

Acha que o seu número de soutien está adequado ao seu peito? Não está. Acha que compra o número certo? Não compra.

Eu achava que usava o número certo, mas desconfiava que algo estava errado sem saber muito bem explicar porquê. E eis que descobri na SIC um vídeo que falava sobre isto mesmo. Numa entrevista, a Inês e a Margarida referiam uma série de erros comuns que eu nunca pensei que cometesse. Logo eu que me considero tão feminina e preocupada com estas questões!

Descoberto o site, combinei com quatro amigas e acabámos por entrar naquilo que foi um programa fantástico: uma consulta gratuita de bra fitting. A Dama de Copas é mesmo no centro de Lisboa, no Chiado, na Rua do Carmo nº 51, 2º D. E lá chegámos de manhã, longe de imaginar o que iria acontecer a seguir.

Do nosso grupo de amigas, as maminhas eram do mais variado possível: pós-amamentação recente, pequenas, médias que se queriam maiores e maiores que se queriam mais discretas. Melhor leque que este, impossível!

A Inês e a Margarida são uma simpatia e, imagine-se, a Margarida apareceu com um soutien de número errado, a fazer um sacrifício, como dizia, que à partida parecia correcto, para depois vestir o número correcto e nos deixar de queixo caído. Parecia vinda de uma cirurgia.

Eu que pensava ser um 36B, não sou coisa nenhuma. Sou 32F! Outra amiga que achava ser 34B, é um 30E!!! E a diferença, caras leitoras, a diferença quando por cima do número de soutien correcto vestimos uma camisola ou um top. Parecemos outras! Estás mais magra? Não, é o soutien certo que nos faz parecer ter a cintura mais fina.

Aconselho seriamente a marcarem uma consulta na Dama de Copas. Depois deste programa de amigas, as nossas maminhas nunca mais serão as mesmas. Percebi que não são os fabricantes de camisas que não fazem a coisa como deve ser quando o botão do peito quer abrir. É o soutien que não é nosso. Percebi que o meu antigo 36B é usado por pessoas que costumam vestir um tamanho de calças 42/44! Até mesmo quem tem o peito como costumamos dizer, "no sítio", como é o nosso caso, nota imensa diferença.

Nos mulheres, saímos da Dama de Copas com energia renovada, mais sexys e confiantes, cheias de vontade de mostrar as novas maminhas às nossas parelhas e cheias de vontade de partilhar a novidade com outras mulheres, o que faço aqui.

Quem mora fora de Lisboa, acreditem que vale a pena a viagem. Eu arrastei as minhas amigas até lá. Faça o mesmo, juntem-se num carro e mudem para melhor.

6.2.10

Do you remember? #88



Inês Laranjeiro - People are strange - 2009

Começa aos 2:34. E sim, tinha de ser esta versão que achei fenomenal!

(versão original Doors - 1967)

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5.2.10

Lições: antes e depois da conta

E eis que chegou o dia de assinar os papéis. Além de uma nova conta no banco, para não pagar despesas absurdas de manutenção, já estávamos a abrir uma poupança. Com esta não contava. E embora tudo para mim fosse natural, sem quaisquer nervos à mistura, não consegui deixar de me surpreender como cheguei ali quase sem dar conta. E enquanto ele se ria para mim e simulava discretamente a entrada de uma aliança no dedo dele, qual gangrena, percebi que não há outra explicação que não a mais simples: ou funciona ou não funciona, ou existe ligação ou não existe, ou faz sentido ou não faz. Esta coisa de andar a perder o sono por homens com quem as coisas não estão a resultar, estão quase a resultar ou são melhor que nada, acreditem, não vale a pena. Experiência própria.

Hoje já sei, tenho a certeza, que se a coisa não se acerta em poucos meses, não terá acerto em espaço temporal nenhum. E não digo isto porque foi o meu tempo, porque foi a minha experiência. Digo-o porque há cantigas que já não me convencem, gastaram-me o ouvido e a experiência, essa, teve uma altura que achei que me matava. Hoje sei que ou resulta naturalmente ou nem vale a pena insistir. Ou vale, para quem ainda não aprendeu. E o resultar não significa "para sempre" nem "até que a morte nos separe". Pense comigo, dos grandes amores que teve na vida, não se entenderam em pouco tempo? É verdade, mas muitas vezes a esperança falou mais alto, a esperança do "agora é que vai ser", ou "é preciso dar-lhe tempo para se entregar", ou "isto com o tempo vai lá". Não vai, não vai porra nenhuma. Ou é ou não é. Mas que seria de nós sem esperança?

3.2.10

Destreza, que te quero!

Há homens que mais parece que nascem com os dedos tortos, buracos nas mãos, unhas encaracoladas, eu sei lá! Há homens com uma falta de destreza que são capazes de nos fazer levar as mãos à cabeça, encher-nos de nervos, vontade de desatar aos gritos, mas nós mulheres não podemos, porque até dá pena, coitaditos, afinal fazem o melhor que conseguem.

Como no dia em que apressada para o ginásio, entro no escritório e peço: aperta-me a alça do soutien! E olhou para aquilo como quem olha para um óvulo ao qual é necessário extrair o ADN. Ora, toda a gente sabe que as alças de soutien têm aquela peça que sobe e desce, o que permite regular a altura da alça. Mas não, ele vai de desprender a alça do soutien e passar-ma por cima do ombro, toma. E eu olhei para ele cheia de nervos e de pressa, fui a correr para a casa-de-banho ver se fazia o serviço sozinha, porque com ele não chegava à aula de abdominais a tempo. E ainda apareceu, de cara triste, a perguntar por que é que és assim para mim? Oh Deus! Traz-me calma!

Ou como no dia em que pedi para me ajudar a esticar os lençóis. Puxou daquilo com tanto vigor que os cotovelos fugiram para trás e atirou ao chão o candeeiro e tudo o que estava em cima da mesa de cabeceira. Quase foi preciso fazer obras à casa só de fazer uma cama.

Ou ainda como no dia em que a seguir ao almoço lhe pedi que guardasse o arroz da panela num tupperware. Quando olhei para ele estava em alto exercício de concentração a tentar acertar no tupperware e já havia pirâmides de arroz no chão da cozinha.

Não, o amor não é fácil.

2.2.10

Questões pertinentes #22

Vamos lá usar o blog em favor das minhas necessidades.
Procuro desesperadamente uma cómoda parecida com esta. Grande, bonita, maravilhosa, cheia de espaço para arrumação.
Anyone?

1.2.10

Casamento e estágio

Conheço uma criatura que casou há coisa de poucos dias. Criatura essa muito católica, ou pelo menos assim se afirma, com poucos valores morais na prática e nas costas dos outros, mas de altos princípios e imensos valores quando o mundo olha. Tão temente aos ensinamentos de Deus, que (pelo menos que se saiba) nunca o namorado pernoitou em sua casa. Com isto nem vou pela virgindade até ao casamento, mas é que alguma família vivia no mesmo prédio, logo, há que manter as aparências. Ou seja, da porta para dentro cada um sabe de si, mas à noite é que não!!!

Nisto salta-me à memória outra criatura poucochinha, coitadita, que nos seus trintas insistia que não ficava em casa do namorado com quem andava e desandava, não sei, há cinco, seis anos? Pois que só casando e apenas casando. Triqui-triqui tudo bem, mas ficar a dormir só ao fim-de-semana e já a fazer o favorzinho. E pois, o gajo que era mais esperto, dizia que casando só com prévia experiência de ajuntamento, pois nunca se sabe como as coisas poderiam correr, já que passavam a vida a acabar e a começar. Bateu o pé, tanto quis fazer valer a vontade dela, que prontus, nem preciso de vos contar se a coisa deu casamento ou separação definitiva, certo?
Quando penso nisto, vejo que há muitas mulheres a dar tiros nos pés para fazer valer uma vontade de origem duvidosa que, tanto chateiam que acabam por perder o que tinham.

Casar é tudo? Não compreendo a obsessão extrema de querer casar e não gosto de casamentos "combinados", como o dela. Circulava a tal rapariga das aparências Lisboa fora, com a mala do carro cheia de mudanças, a boca cheia de lixo, a experiência cheia de nada e uma dupla de aliança e anel de noivado no dedo que exibia ao jeito "eu tenho e tu não" para quem quisesse ver. Ele e ela, vinte e poucos, preocupados em fazer o máximo possível by the book e sem saber coisa nenhuma do que é viver com alguém. A crer que é tudo amor e boa disposição, que estão protegidos e não haverá momento nenhum em que preferissem estar sozinhos, em que preferissem não fazer porra nenhuma, saltar o jantar ou deixar a cozinha num esterco, ir dormir até ao dia seguinte e estar-se nas tintas para a casa e para o amor, momentos em que a vontade própria não prevalecerá e os deixará chateados, de trombas, momentos em que a prateleira não é montada como nós o faríamos ou os bifes não são cozinhados como deve ser, restando a hipótese de almoçar verdadeiras solas. É, o amor não é fácil, há coisas que fazem crescer calores nas costas.

E eu havia de ser mosca para ver como corre aquilo, eu que vivo em pecado e tenho os dias contados. Coisas que se me dão no nervo. A mim os estágios nunca me fizeram confusão. Servem para aprender e, para muitos, é quanto baste. Confusão faz-me aqueles que acham indecente e largam sentenças ao alheio com uma Bíblia na mão e uma cruz na outra. O melhor é passar a andar com uns dentes de alho no bolso, não vá esta gente tecê-las. E esperar, esperar para ver porque isso tem graça.