6.12.10

"Poupa-me!"

É expressão que quem a dita, acha que não está a fazer nada de mal. Porque não pensa.

Eu levo cada palavra, cada vírgula, a peito. Sou uma mulher de letras e cuido aquilo que digo aos outros. Não me saem da boca para fora expressões ofensivas, frases feitas porque quero ser a última a dizer qualquer coisa e muito menos digo coisas se não as sentir realmente. Posso dizer alguma coisa horrível, mas se o disser, é porque sinto mesmo.

Detesto, fico com os olhos raiados de sangue, ouvir que não foi por mal, que não foi sentido. Eu quero lá saber. O que eu quero é que, porque se importaram comigo, não tive de ouvir frases estúpidas que não sairam da boca para fora por mal, sem que o remetente se interessasse pelo facto de que para mim é importante. Eu não quero saber se não foi sentido, eu quero saber que existiu um cuidado prévio para com quem se sabe ser sensível. A pedra lançada, a palavra proferida, não volta atrás. Eu nunca me esqueço.

Como há anos, num jantar de aniversário de uma amiga, conversava-se sobre um tema que não lembro, e vi a irmã dela ouvir numa mesa cheia de gente o marido dizer: cala-te! Não sejas estúpida que não é nada assim! Fiquei gelada, furiosa e tive vontade de puxar a tolha da mesa. Mal a conheço, ainda assim fiquei revoltada. Frases como não digas disparates!, é completamente diferente de dizer não concordo nada contigo! Quando oiço estas coisas a minha cara transforma-se. Naquele jantar, a minha vontade foi responder estúpido és tu!, e depois do silêncio constrangedor estragava-se um jantar e queria ver a resposta que recebia.

Mandar calar, dizer poupa-me! ou não me chateies, é o mesmo que mandar à merda: uma falta de respeito entre duas pessoas que vivem uma relação amorosa. As minhas irmãs posso mandar à merda as vezes que me apetecer, mas numa relação a dois é diferente. É desconsiderar o que o outro tem para dizer, é chamar de estúpido ou de burra, dizer que a inteligência é nula, é estar-se nas tintas para o que o outro possa sentir. É não se importar se a pessoa se sente humilhada, é olhar para si próprio e não se lembrar que não está sozinho, que a atitude pode deixar o/a outro/a sentido/a. Em suma, é não querer saber porque, afinal, não foi por mal. E na vez seguinte é algo mais ofensivo. Na outra vez seguinte, algo mais duro. E esta é um espiral difícil de travar.

Poupem-me a mim a raiva que me pega fogo às costas, a vontade de berrar e a revolta que me provoca este tipo de falta de cuidado que uns têm com outros. Eu não faço isto. A mesma opinião ou contra-argumentação posso dá-la com palavras cuidadas e com respeito pelo meu par.

Ou sou eu que tenho uma maneira estúpida de pensar estas coisas a dois.

8 caroço(s):

marie disse...

Maçã, acho que por um lado tens razão, e também não sei o contexto em que foi dito, mas não leves tão a peito o poupa-me. Por vezes é a tal falta de argumentos, ou querer ter a última palavra. Não acho bem, mas acho que por vezes dizemos coisas e não medimos o impacto nas pessoas. E aí sim, falo por mim, que por vezes saiem-me coisas da boca de que depois me arrependo. Não me tenho dado bem com isso, mas quando o faço é uma espécie de defesa ou de ataque quando me sinto atacada. Novamente, não sei o contexto, mas se for só poupa-me e não nomes à pessoa... é dar o desconto!
Beijinhos e boa semana

Rodrigo disse...

As frases feitas e os comentários ofensivos não têm necessariamente de se sobrepor.

Eu concordo que esse tipo de expressão não tem qualquer jeito. Não pelo carácter supostamente ofensivo, mas pela falta de argumento que ele é. Por ser um chavão inversor na busca de vitória na questão em vez de ser uma contribuição para a busca da razão. Infelizmente a maioria das pessoas discute assim. :-|

Helena Barreta disse...

Concordo consigo.

Não temos que ter todos a mesma opinião acerca de um determinado assunto, mas temos que ter todos, ou deveríamos ter, educação para ouvirmos quem discorda de nós. Há sempre aqueles que não tendo argumentos para contrapor, partem para o insulto.

Um beijinho

Gelatina de morango disse...

"As minhas irmãs posso mandar à merda as vezes que me apetecer, mas numa relação a dois é diferente".
Sinceramente eu não vejo diferença absolutamente nenhuma. Trata-se de uma relação com alguém que amas e a quem deves respeito, e em nenhuma das relações é agradável dizê-lo, mas é algo que nos toca a (quase) todos uma vez ao outra, seja em relação a um familiar ou ao parceiro.
Somos seres humanos e acho que em determinadas circunstâncias é desculpável, sim. Que atire a primeira pedra quem nunca o fez...

Poisoned Apple disse...

Olá Gelatina de Morango,

por acaso tem razão. Mas eu apliquei essa frase à minha realidade, às minhas irmãs digamos que bem... deixam muito a desejar no que a mim respeita. Não tenho uma relação próxima e muito menos sentimentos desmedidos, daí a frase.

Anónimo disse...

Apple,

Eu concordo perfeitamente contigo, mas acho que isso aplica-se a todas as relações. Não achoq ue devemos ter mais cuidado com um relação amorosa, do que com uma relação de sangue, etc.

E a mesma aplica-se nas relações de trabalho, pois acontece muitas vezes as pessoas serem mal educadas e dizerem que é culpa de um mau dia, etc.

Enfim, devemos ter cuidado para com o próximo. Ponto final.

Agora, só um pequeno elogio:

Escreve que é uma beleza! :)

Analog Girl disse...

Apple, concordo contigo, sempre me ofendi com palavras demasiado rispídas ou demasiado altas (pessoas que falam alto demais raramente têm algo interessante para dizer).
E recentemente apanho uma prima a ouvir algumas do marido que dá uma raiva para quem ouve...
No entanto acredito que é possível por vezes dizer as coisas a brincar. Tenho o maior respeito pelo meu namorado e companheiro e muitas vezes dizemos coisas que noutros contextos seriam ofensivas, mas são ditas em tom de brincadeira e não ofendem ninguém, antes pelo contrário, parecem fortalecer a nossa comunicação.

Rita Lisboa disse...

Estive a ler este post e apesar de concordar com certas coisas, não posso deixar de discordar com outras!
Eu sou uma mulher muito impulsiva! Tenho o coração demasiado perto da boca o que às vezes me leva a ter discussões onde digo o que quero e o que não quero, mas ao mesmo tempo tenho humildade suficiente para perceber onde errei e pedir desculpa pelo que possa ter dito de excessivo.
Já tentei estar calada, engolir sapos, mas não consigo! Parece que tenho um vulcão dentro de mim em erupção e por isso tenho de dizer o que penso seja a familia ou à pessoa com quem estou e que na minha opinião significa que tenho uma cumplicidade enorme que me permite ser eu mesma. :)