13.12.10

Lá longe

O Poisoned Apple Man tem muitos amigos fora. Levei mais de um ano para conhecer alguns deles. Fizeram as malas e, vamos embora que já é tarde. Também, nos meus vinte e poucos, comecei a ver os amigos partir. Fica um vazio nos programas porque há quem não possa aparecer em meia hora, ou um bocadinho atrasado, fica a ausência em algumas festas de aniversário, as chamadas são parcas, só se for mesmo muito importante, e dá-se lugar ao Messenger, ao Skype e aos e-mails. Muitos e-mails. Perdi já a conta aos e-mails enviados para longe. E aos amigos que partiram também. Provavelmente já não me chegam os dedos.

Com eles e com a distância, vai-se também, e inevitavelmente, alguma proximidade. Os anos passam, somos amigos na mesma, mas já não é a mesma coisa. Já não existe o contacto imediato para contar a última novidade, já não se fazem malas para voar para longe onde já se foi mais do que uma vez, deixa de fazer sentido contactar só para contar isto e aquilo e, no fim de contas, devagarinho e sem que se dê por isso, instala-se mais do que a distância geográfica. Somos todos amigos, apenas já não é a mesma coisa. E depois há os que partem para tão longe, os que ficam tanto tempo que, quando voltam, por vezes, até se esgota o assunto em três tempos. E em mim, a distância dá lugar à tristeza, porque são cada vez mais.

A Ritinha partiu, desejámos o melhor do mundo, vingou, descobriu o amor, recebeu um anel de noivado, e temos perfeita consciência de que o Tim a vai levar pelo mundo fora, feliz, mas nunca mais vai voltar.

Mais uma das minhas melhores amigas vai partir e, provavelmente, faltar ao casamento da Rita. Não vai ser a mesma coisa. Fiz figas para que conseguisse o novo trabalho e resultou. Desejo a maior sorte do mundo ao novo desfio, tenho a certeza que se vai safar lindamente, está ansiosa, não tem dúvidas, mas a mudança de vida deixa-lhe o coração apertado. Depois dos parabéns e do contacto efusivo, desliguei, olhei para o chão e sussurei: estou a ficar sem amigas. Entretanto, ela consola-se com quem já fez o mesmo e dita a sua opinião: daqui a um ano, está tudo na mesma. Lisboa tem apenas mais uma rotunda.

Percebo o coração apertado, o medo do desconhecido, mas a tristeza é maior para quem fica do que para quem parte. Já quase não tenho amigas à distância de uma curta viagem de carro, nem passando por uma dessas rotundas que há-de ser construída devagar, devagarinho, no país que se habitua a ver a minha geração desertar. Fico cá, à espera de ser bafejada com a sorte de um emprego que me entusiasme, continuarei a fazer contas aos fusos horários, a teclar cada vez mais, a perguntar as datas de visita ao país que as deixou sem nada para fazer e a encomendar botas Hunter, carregamentos de Clinique e outros artigos que este país não oferece em conta. E claro, a dar as boas novas de mais uma rotunda depois de 15 anos em obras.

6 caroço(s):

clara disse...

Vim há um mês, de armas e bagagens viver para outro país.
Ainda não tinha pensado na perspectiva dos que ficam. O nosso lado mais egoísta, faz-nos pensar em nós próprios, que vamos e ficamos longe não de um, mas de todos os amigos.
É bom conhecer o outro lado.

Cate disse...

E cada vez vai ser pior.

Rita Lisboa disse...

Eu fui-me apercebendo ao longo dos tempos que as pessoas vão e raramente voltam...
Quando voltam é tudo diferente! As pessoas com quem tinhamos mais cumplicidade já não entendem as nossas piadas, já não entendem os olhares de antes.
Ao início toda a gente faz um esforço enorme para fazer parte da vida uns dos outros, mas pouco a pouco a coisa vai-se desvanecendo...

Piston disse...

Sendo que isso tudo verdade também não é mentira que o retorno à normalidade caso os amigos voltem, é rápido e não deixa margem para dúvidas. A cola invisível que vos juntou no passado voltará a funcionar se lhe for dada oportunidade no futuro.

Juanna disse...

A quem o dizes, Maçã... Fui eu a que saiu de Portugal e estou muito contente por o ter feito. Não desejo voltar a não ser de férias. Mas os amigos ficaram lá... e a mãe e os avós e irmãos :(

Jibóia Cega disse...

E qual é o destino? :)