Brotaram para aí tantos textos e frases soltas sobre o João, ou Necas, ou Senhor do Adeus, que hesitei em escrever. Levei o empurrão necessário (do Poisoned Apple Man) e o que se versa por aqui, nada tem a ver com o que já se leu.
Andei ao colo do Senhor do Adeus, não sei que idade tinha a última vez que o vi dentro de uma casa. Agora crescida, num tempo em que travo guerras com o cabelo e os caracóis que me eram característicos perdem força, ao olhar-me, ele não se lembraria nunca de mim. Nunca dei trabalho à buzina das vezes que passei no Saldanha. Fazia-me impressão. Bem sei que ele gostava, que aquilo de dizer adeus às pessoas surgiu do acaso e o divertia, mas ainda assim fazia-me sentir que as pessoas gozavam com ele. E deixava-me o coração pequenino.
A mãe dele, a quem sempre chamei de Avó Minita, era a melhor amiga da minha Avó, Mª do Céu. Lembro-me perfeitamente dela, dos cabelos totalmente brancos tapados por tinta, das saias pelo joelho, das camisas de seda e dos casacos de pele no inverno. Eram as duas senhoras que nunca trabalharam, que jogavam canasta e que bebiam chá inglés todas as tardes. O cabelo, sempre igual, resistia às intempéries impecavelmente armado com laca. Elnette, provavelmente, a marca das senhoras naquele tempo.
O Miguel, primo da minha idade, lembra muitos mais episódios do que eu. A mim falha-me a memória, tenho imagens, mas a maior parte delas desfocadas. Avisou-me que existem muitas fotos, antigas, amareladas, a preto e branco, e que têm pelo menos 25 anos. Fiquei de as rever, talvez me avive a memória, talvez me faça recuar atrás num tempo em que Lisboa era tão diferente. O tempo em que todos na família tínhamos empregadas internas, o tempo dos vestidos de veludo com golas inglesas que estreava no Natal, o tempo em que eu e os meus primos estávamos sempre juntos, o tempo em que o meu pai ainda era vivo e, a minha Avó, Mª do Céu, tinha as costas direitas, a maquilhagem impecável, os anéis não escorregavam dos dedos e as cataratas ainda não lhe tinham roubado a visão dos netos.
Estive quase a chegar-me ao João, ou Necas, ou Senhor do Adeus, no supermercado do El Corte Inglés, onde ele estava tantas vezes. No corredor dos turrones, essas coisas espanholas que fazem parte da minha vida desde que nasci e desde que a Avó do Céu casou com um médico espanhol, o meu Avó que nunca conheci, e foi ali que pensei: vou ou não vou? E não fui, mas hoje arrependo-me. Dir-lhe-ia olá. Sorriria para ele. Diria o meu nome acompanhado do apelido que o João identificaria sem sombra de dúvida e, para que não lhe restassem dúvidas, identificar-me-ia como neta da Avó do Céu, a quem ele talvez chamasse de avó, como eu fazia com a mãe dele. Mas não fiz nada disso, decidi-me por não dar um passo em frente, continuei as minhas compras, talvez com medo de que o passado me mordesse, com medo de o importunar, com medo que ele pudesse não gostar. Mas arrependo-me.
Provavelmente emocionar-se-ia, talvez me desse um abraço. O Miguel diz que depois da morte da Avó Minita, a pessoa de quem ele mais gostava no mundo, perdeu-se de tal forma que acabou por passar a dizer adeus a quem passava no Saldanha, tudo para espantar a grande senhora, como chamava à solidão. Aos oitenta, viu-se sem a mãe e sem os amigos, quase todos enterrados na terra ou enterrados nos quartos, em casa, os que permanecem vivos. Não faço ideia o que terão sido os seus Natais ou os fins-de-ano. Não sei onde passava o verão, apenas sei, porque li, que aos Domingos ia ao cinema com amigos que entretanto fez. Não sabia nada dele, apenas o que via no Saldanha.
Escreve-se, por aí, dada a homenagem que se viu no Saldanha, que o povo português afinal é um espectaculo, afinal têm todos coração, viva o país emocionado e dedicado! Pena que a dedicação só aconteça depois do rigor mortis. Até comigo. Afinal, a mim também só agora me dá a pena de não ter dado um passo em frente, de faltar-lhe com um olá, se calhar estúpido. Ou então de estúpido não tinha nada e mudava-nos o rumo de um dia entre prateleiras do supermercado do El Corte Inglés.
Fiquei em falta, não me lembrei que todos vão parar à cova e nunca me lembrei que talvez aquele tivesse sido a minha, ou nossa, última oportunidade.
10 caroço(s):
Parabéns por teres tido a coragem de escrever este texto e assumires que telvez pudesses ter feito algo mais. Ainda assim é de louvar a tua sinceridade.
http://jiboiacega.blogspot.com/2010/11/julgar-pelos-comentarios-na-blogosfera.html
Sim, é de louvar a tua sinceridade. Tb escrevi algures por aí que não entendo por que razão as pessoas gostam tanto de mostrar o seu apreço DEPOIS da pessoa estar morta.
Parecia um senhor fixe.
Também não entendo as homenagens que surgem sempre depois de as pessoas já não estarem cá para as poderem apreciar.
Um beijinho
Sabes por cá, diz-se que quem morre vira santo...e eu entendo bem esta frase...quando se morre ai Jesus que era tão boa pessoa ...esquecemo-nos que as pessoas não são santas ...depois também louvo a tua sinceridade e a forma como descreves toda esta situação e concordo contigo, não acredito que muitas das pessoas que lhe disseram adeus o fizessem com genuinidade como ele o fazia, mas sim em tom de gozo o que é lamentável.....
bjs
Permitam-me discordar.
O Sr. João pode não ter sido homenageado, pode não ter tido os amigos que desejava, mas o "Sr. do Adeus" teve. Além das notícias que aqui e ali saíam nos jornais, houve uma homenagem da qual me recordo bem, feita no programa do Fernando Alvim na Antena 3, recordo-me mesmo de pessoas que vieram da Margem Sul só para lhe dizerem olá, pessoas que ele conhecia pelo nome.
Cumprimentos
Texto sentido e nada hipócrita.Realmente alguns dos nossos encontros adiados, são despedidas.Em Portugal não se entende o valor dos afectos, daí poderem achar que gozavam ao acenar.Pobres de espírito!
E viva o "Sr. do Adeus".
Sinceramente qd toda gente falou na morte do Sr. do Adeus, achei um exagero (com o devido respeito à opinião de cada um)! A tua historia é mais comovente e diz mt mais sobre o que ele seria ou não, da sua vida...
É claro q nao temos sp em mente q alguém vai morrer! Senão dávamos em doidos! Aproveitem a vida e não se esqueçam de dizer a quem gostam o que sentem. O próximo pode não ser um idoso como o Sr. do Adeus, e sim alguém bem jovem com uma saúde de ferro que ninguém esperava...
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Concordo tanto contigo, e isso deixa-me tão, mas tão triste... Nunca damos o devido valor às pessoas. Como se alguma coisa material as pudesse substituir... Mas a verdade é que depois da morte nos apercebemos que isso não acontece, e temos pena, mas já não vale de nada...
O arrependimento mata. Aos poucos, silencioso e devagarinho, mas vai-nos consumindo por dentro... Passei tantas vezes pelo Saldanha e nunca reparei e hoje gostava de o ter feito... Talvez pudesse dar-lhe o que tenho de melhor- o sorriso. e provavelmente servir-lhe-ia de conforto, diferenciando-se de qualquer outra forma material que lhe pudessem oferecer...
Se toda a gente sorrisse espontaneamente, tentasse ser feliz sem se apoiar na má sorte dos outros e esboçasse um sorriso em vez de fazer troça da felicidade dos outros, o mundo seria perfeito.
A propósito, gosto muito das tuas ideias. Este blogue é quase uma bíblia para mim... Obrigada =) Beijinhos*
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