22.11.10

Prémio O Inconveniente 2010

Há umas semanas, tive de ir a um velório de uma pessoa que nunca conheci. O pai de um amigo meu, o A., partiu mais cedo do que era suposto e nós, os amigos, juntámo-nos para dar um beijinho e um abraço. Nestas situações, nunca sei o que dizer, por isso opto sempre por dizer isso mesmo: não sei o que dizer. E mostro-me presente, amiga, disponível para o que for preciso, na esperança que isso baste e não me deixe em falta.

Mas o que é que dizem os estúpidos e os nervosos nestas situações? Disparates.

Quando cheguei ao velório, a cara do meu amigo deixou-me de coração partido. Nada que não esperasse. Para aliviar a tensão no ar, falou-se de cinema, de um filme qualquer, ao que eu respondi:

- Vai ver! É de morrer a rir!

Merda.

Pensamento Poisoned Apple: Por que é que eu disse isto??! De morrer a rir? Não podia apenas antes ter dito que era hilariante? Estúpida! Estúpida!

Sorriso amarelo. Segundos passam, a coisa aligeira e espero que ninguém tenha constatado a minha infeliz escolha de palavras.

Até que chega o M., cheio de boa disposição para animar o A., brincalhão do costume, mas ganhando com isso o prémio O Inconveniente 2010.

O A., com calor, tirou o sobretudo afim de remover a camisola e passou-o para os braços do M. para que o ajudasse.

- Segura aí no casaco
- Não seguro nada! Sou teu pai ou quê???!

Silêncio.

Agarrem-me que eu caio para o lado.

Neste momento pensa-se: sabemos que não disse por mal, mas vamos-lhe aos cornos ou não?

O A., sofrido, fez de conta. Nós também, mas esta cena não me sai da cabeça. Espero ao menos que o A. tenha sentido o nosso apoio e estima e ainda a noção de que não lhe faltaremos, ainda que se digam disparates.

9 caroço(s):

Filipa disse...

Realmente todos passámos por situações constrangedoras desse género...
Mas para mim a que está no pódio é sem dúvida a que se passou com um amigo meu... Também tinha falecido a mãe de um outro amigo e a certa altura do velório, o filho da senhora que tinha morrido afastou-se e ficou algum tempo pensativo a um canto... Ora, o que é que esse outro meu amigo achou por bem regurgitar?? Então, vá anda lá para aqui... Estás a pensar na morte da bezerra ou quê?? Et voilá... Acho que não há mais nada a dizer... :)

Filipa disse...

Ah!!! Gosto imenso do seu blog!! beijinhos

Cate disse...

os velórios são momentos tão constrangedores que a pessoa nem sabe bem o que dizer. e os nervos podem estragar tudo!
uma vez, no velório da avó de uma amiga minha, não conseguia parar de rir. mas não era por mal.

Analog Girl disse...

Acho que ninguém leva isso a mal. São expressões, fazem parte da nossa vida. Na verdade, acho que esses momentos constrangedores, acabam por ser reconfortantes, porque as pessoas continuam a agir de modo "normal" connosco.

Piston disse...

Regista que o uso de "Nem o pai morre nem a gente almoça" também já foi utilizado em situação semelhante.

Carolina disse...

Eu quando era pequena, vá doze anos por aí tive um ataque de riso num cemitério com o meu irmão. No dia de todos os santos quando se faz a voltinha pelos cemitérios... Não sou cristã, não digo que não respeite toda a situação de se visitar a campa mas não é para mim... E com o nervosismo olhei para o meu irmão e ele também nervoso, deu em risada (não sonora, foi contida) mas não somos nada dados a ritual de beijar a foto da campa e etc. Uma urna em casa não me soa mórbido e é o que prefiro. Ri-me com essas observações que foram ditas no velório e outras que li dos comentadores. Expressões que saiem e só posso esperar que quem as ouça não leve a mal.

Rita Reis disse...

Ai, ai...essa do "morrer a rir" deixou-me a rir:) O problema dos funeráis é que nunca sabemos o que dizer quando vemos a/as pessoas mais próximas do falecido. Temos sempre medo de ser inconvenientes, e ás vezes, numa tentativa de sermos afáveis, corre-nos da pior maneira :s

Pepa Xavier disse...

ahaha acontece-me imenso situações destas, parece que não tnh filtro entre o cérebro e a boca.

Anónimo disse...

Deixa estar... a mim já me aconteceu depois do funeral da minha avó... estávamos a almoçar e eu estava tão a leste que me viro no meio de uma conversa qualquer..." À não faz mal, hoje é dia de festa"... sim foi extremamente mau, a minha prima para disfarçar ainda tentou pôr paninhos quentes dizendo "festa à mesa..."... eu não sabia mesmo onde me enfiar...

D.F.