20.10.10

Sobre as entidades patronais

Nota: este texto foi enviado para a sede do PS

Este post é um desabafo. Ando transtornada com as entidades patronais deste país. Um destes dias fui a uma entrevista num conhecido Hospital em Lisboa, um posto de trabalho a ser ocupado por seis meses para substituir uma baixa de parto. Depois disso, o desemprego.

E detesto pessoas estúpidas. Mais, detesto de morte o patronato que acha que pode pôr e dispor dos empregados. E queriam eles pagar miseralvelmente a quem fosse trabalhar por apenas seis meses. E afirmavam e sublinhavam que era trabalho de muita responsabilidade. Mas todo esse trabalho e toda a responsabilidade era paga miseravelmente. E perguntavam da disponibilidade horária, o horário é das 09h às 18h, mas é claro que nunca é nada disto! O desplante. Ou seja, muito trabalho, muita responsabilidade, trabalho de sol a sol, pago miseravelmente. E a minha vontade era perguntar se não tinham vergonha na cara, em procurar um licenciado com experiência, pedir-lhe que abdicasse da vida pessoal, que passasse a viver para trabalhar, tudo a troco de menos do que ganha à hora uma mulher a dias.

Não compreendo a ligeireza com que neste país se assina um contrato por um trabalho de oito horas diárias, esperando, obrigando, a que o trabalhador faça muito mais horas que isso sem receber mais um chavo. As pessoas não têm outro remédio senão aceitar estas condições e a medida dos empregadores generaliza-se. É vergonhoso.

E perguntavam-me se tinha formação em audiovisuais. Bem respondido seria: criatura de Deus, leste o meu currículo? A minha licenciatura é a descrita, a experiência é a descrita também. Amor, não leste o meu currículo. Está aí alguma referência a audiovisuais? Então é porque não tenho. Mas queres alguém ainda com formação em finanças? Contabilidade? Recursos humanos? Lava-retretes? Esperam que a pessoa faça tudo. Eu faço de tudo, mas não faço tudo, porque tenho apenas uma licenciatura.

Para trabalhar neste Hospital, teria de abdicar da minha vida pessoal, não podia contar com fins-de-semana certos, nunca saberia a hora de saída, andaria sempre estoirada, sonolenta, irritadiça. O ginásio ia à vida, ficaria gorda e, consequentemente, mais frustrada. Depois disso, infeliz. Os fins-de-semana, os que tivesse, seriam gozados a dormir. Aos poucos, abandonaria momentos com os amigos, com a família, a minha relação deixava de ser prioridade. Chegaria tarde a casa, exausta, irritada, acabaria de jantar sem quase conseguir falar, deixava de conversar, instalava-se um afastamento discreto. Filhos nem pensar.

Depois a separação. Cada vez mais acredito que os divórcios começam aqui, na falta de tempo e, quando o há, não é de qualidade, não pode nunca ser, pois está para lá das capacidades de uma pessoa.

Esta é a vida que os empregadores esperam que tenha, a troco de uns míseros euros. E eu pergunto-me como fazem então os países (muito mais ricos e eficientes) onde existe bom senso, onde a regra das oito horas funciona (8h x 3, para trabalhar, para a vida pessoal e para dormir), e onde a hora extra é paga ao cêntimo. Do outro lado do mundo, o meu “cunhado” está satisfeito com o que ganha, é pago pelas horas extra que tem de fazer, ainda lhe pedem desculpa e agradecem.

O espírito “dei-te um trabalhinho é bom que me agradeças muito e te esfalfes” dá-me cabo dos nervos. Mudar de país era uma boa ideia, mas depois bateria à porta a tristeza, a saudade e começaria uma espiral de descontentamento. Eu quero trabalhar para viver e não viver para trabalhar, o que não significa que não seja eficiente. Não seria era chulada. Eu quero trabalhar para criar condições de ser feliz e não o inverso.

Dos trabalhos que mais gostei na vida davam-me liberdade. Chegava e saía às horas que entendia, o trabalho estava sempre feito, eu geria a minha vida profissional como entendia e não era infeliz.

Se fosse empregadora, não teria coragem de obrigar os trabalhadores a mais do que é suposto sob pena de os substituir. Mas isto sou eu que penso na vida, que acho que a vida é para ser vivida e não me estou nas tintas para os outros. Lamento, mas a minha vida pessoal é mais importante do que a profissional.

Sinto-me entre a espada e a parede. Todos os dias desespero. E a contribuir para tudo isto, ainda que se tratem de "tradições" anteriores, agradeço ao meu governo que não coloquei no poleiro e às suas medidas de austeridade que vão colocar mais lenha na fogueira.

A infelicidade mata-me.

22 caroço(s):

Juanna disse...

Digo-te eu que emigrei há 4 anos...não ficarias infeliz. Adaptar-te-ias mais depressa do que acreditas e desfrutarias. Estou tão decepcionada com Portugal que só posso aconselhar-te a sair daí depressa. Não fosse eu ainda ter avós com 80 e tal anos, e já estaria ainda mais longe de Portugal.

Helena Barreta disse...

Tem toda a razão. Mas, infelizmente, o desespero do desempregado pai de família leva a que aceite as condições degradantes e humilhantes que o empregador lhe oferece. Por isso a classe trabalhadora do nosso país anda infeliz, já há crianças que a única refeição que fazem é a da escola. Os empregadores, qual abutres, valem-se disso. É triste.

Li há poucos dias aqui num blogue, essa mesma indignação com um anúncio de emprego, na área da comunicação social, onde se lia: "...queira trabalhar muito e ganhar pouco".

Um beijinho

Cate disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cate disse...

Penso EXACTAMENTE como tu. Até podia ter escrito este post, a sério.

Pior ainda são aqueles empregadores que na altura das entrevistas são todos muito porreiros e liberais e depois quando já lá estás, toca de mudarem as regras todas. São tipo aranhas a lançar teias. Gente horrorosa.

MakingMoney disse...

Não conheço a situação em causa mas permite-me dizer-te que as entidades patronais por vezes também vivem sufocadas. Sufocadas de dividas que os clientes não pagam, de impostos que são cobrados antes que elas mesmas consigam receber, do próprio sistema fiscal em si. E sim, também eu tenho pensado muito em emigrar...

Analog Girl disse...

Acredito que o sistema também não esteja fácil para os empregadores, digo isto porque trabalho para amigos da faculdade e vejo a frequência com que têm de pagar segurança social, IVAs e outras despesas e como é desesperante que um empregador honesto esteja constantemente a ser escrutinado e pressionado (eles formaram a empresa com subsídios do centro de emprego, o que tem dado uma novela gigantesca por si só).
Mas pondo de parte os empregadores responsáveis, há por aí muito boa gente que anda a abusar, de facto, das pessoas que querem trabalhar. É uma vergonha.
Há pouco tempo vi um anúncio no carga de trabalhos a requisitar um estágio curricular, com a hipótese de vir a ser um estágio profissional, o que bem vistas as coisas não é mau de todo para quem acaba de sair de um curso, mas a expressão "estágio com possibilidade de ter um estágio" pareceu-me completamente ridícula e é nestas bases que as coisas se vão processando.
Sempre pensei da mesma forma que tu, o trabalho serve para complementar a vida e possibilitar as nossas realizações. Gosto de trabalhar, de ser produtiva, mas gosto mais de chegar a casa com tempo e disposição, de fazer as minhas coisas, de eventualmente sair para tomar um café... enfim.
Emigrar ainda é uma ideia algo distante, mas às vezes vem-me à mente. Acho que não resistia à saudade, mas se a situação se tornar incomportável nunca se sabe... e é triste, estou perto dos 30 e sinto que não posso planear, nem estipular metas, porque simplesmente, não é possível. Não há condições para aumentos, para melhorias, para nada.
Valha-me que ainda tenho um horário certinho...

Fiona disse...

Quando pensamos que este nosso país e as "maravilhosas" entidades patronais que por aí existem não podem mesmo surpreender-nos mais, elas conseguem! Parece que um trabalhador é sinónimo de escravo para certas e determinadas chefias e que ter vida própria está completamente fora de questão para quem trabalha. Os trabalhadores tornam-se verdadeiros robots com um único objectivo: produzir. O que as entidades patronais se esquecem é que a produtividade de um trabalhador aumenta muito mais se se sentir realizado em todas as esferas da sua vida e essa realização passa por ter tempo para todas elas e não ser simplesmente um escravo a trabalhar de sol a sol por meia dúzia de trocados... E é isto! Espero que nas próximas entrevistas a que vás tenha mais sorte e que quem esteja do lado de lá da secretária tenha um pouco mais de bom senso.

Ana disse...

Concordo plenamente contigo: trabalhar para viver e não viver para trabalhar!

Dulce disse...

De facto é um abuso. E é também por isso que as pessoas se deixam estar desempregadas porque, regra geral, o subsídio é mais alto do que os salários que se oferecem. Não acho que o subsídio devesse baixar, acho sim que as ofertas de salários deviam aumentar. Relativamente a sair do país concordo em género, número e grau com o que o Bagaço Amarelo diz no seu blogue: "O que acho estranho é que todos os que se queixam queiram mudar de país e não mudar o país. Talvez seja por isso que estão sempre os mesmos no Governo."
http://naocompreendoasmulheres.blogspot.com/
(Desculpe colocar aqui um link para outro blogue, mas não me atreveria a fazer minhas as palavras de outra pessoa sem a creditar).

Vany disse...

Faço das suas as minhas palavras... Estou desempregada e sempre que vou a entrevistas sinto essas mesmas dificuldades. E depois essas empresas vão para a comunicação social dizer que as pessoas não querem trabalhar...!! É verdade que há quem não queira trabalhar porque o subsídio de desemprego é melhor, mas há muito mais pessoas que querem trabalhar (como eu) e depois há aqueles que se sujeitam a tudo até as condições precárias que foram descritas neste blog e não as denunciam. Quanto a mim eu preferia trabalhar porque recebo 400€ de subsídio e não chega até ao fim do mês porque tenho contas para pagar,e além disso queria engravidar e não posso porque não tenho emprego e condições financeiras para tal. As empresas aproveitam-se e o Estado simplesmente vira a cara...

Gelatina de morango disse...

Eu penso exactamente como tu mas infelizmente no estado em que estamos não são todos que se podem dar ao luxo de recusar um emprego desse género.

disse...

Estou desempregada, sem direito a qualquer tipo de subsídio, mãe de família.
No seu caso ainda há entrevistas, no meu nem isso, são cerca de 50 CV enviados por CTT, acresce os emails e as deslocações, mensalmente e nada.
Nem se dão ao trabalho de me responder, os poucos anúncios que aparecem, são exploratórios e vergonhosos, mas há quem responda na procura de uma saíde e da tal realização pessoal que tanto almejamos...eu sou uma delas!
Desespero na procura de trabalho, espero que o país mude e olho pela janela, para as fronteiras com outros países que se avizinham!

Mnemósine disse...

Amen.
Há anúncios de tal forma ridiculos que não sei como têm coragem de os apresentar e, pior, como não há uma entidade que controle activamente estas coisas.

Sofia disse...

Tens toda a razão, mas vá toca a animar! Não tarda nada estás aí instalada na vida como grande empresária de vestidos a gerir uma verdadeira fortuna e a ser feliz assim.
[ok, eu sei que não será bem assim, mas força que isto com desânimo não se vai a lado nenhum]

Inês disse...

A minha vida tem sido o 5º parágrafo, sem tirar nem pôr. Quer dizer, tirando a parte de engordar. Não tenho tempo para comer, logo não tenho tempo para engordar.

Madrigal disse...

eu estou tb desempregada e a frequentar um curso de formação, que no final tem um estágio. Ontem, recebemos a visita de uma conhecida imobiliária. Ofereciam 3 estágios com possibilidade de ficar. 1 para tratar dos financiamentos, outro para a parte administrativa e um terceiro para fazer as brochuras das casas que estão à venda. A dita imobiliaria tem mt sucesso, tem um óptimo ambiente de trabalho, o vendedor qeu falou é uma pessoa realizada e cresceu muito como ser humano deste que lá está. Eu sei que os vendedores ganham boas comissões, mas achei humilhante e desumano que às 3 pessoas que iriam integrar na equipa do escritório, iriam pagar o salário minimo e em meses que a agência fizesse mais de 15 mil euros recebiam o.5% dos lucros. Pergunto eu: se é tudo tão bom, se a empresa está entre as melhores para se trabalhar ( faz parte daquela lista que sai todos os anos) então porque é que as pessoas de apoio não recebem um salário melhor? Isso também as motivaria. Eu sei que muitas vezes as empresas não podem pagar mais e quanto custa um empregado. Mas depois de ontem só consigo pensar que aquelas que falam de sucesso, e somos uma grande empresa e tudo mais, são as mais exploradoras e impiedosas.
Não acredito que possa haver um bom ambiente entre pessoas com ordenados tão dispares, disseram eles que os vendedores ganhavam no minimo 40% de comissão.

pero disse...

Cara poisoned,

A minha primeira reacção a este post foi de incredulidade total pelo que estava a ler. Não conseguia perceber se o crime da "entidade patronal" estava relacionado com a honestidade acerca do horário de trabalho ("é de 8 horas mas há tanto para fazer que por vezes acabamos por ficar mais tempo") ou se pelo desplante de exigir 8 horas diárias a um recem licenciado.

Imagino que tenha sido escrito a quente, em tom de desabafo irreflectido. Acontece a todos.

Mas proponho que faças o seguinte exercício: olha à tua volta. Repara na cadeira onde te sentas, na mesa onde tens apoiado o teu computador onde escreves os teus posts e o telemóvel; na roupa que tens vestida, NOS TEUS SAPATOS ;-), nos vestidos que vendes, na comida que tens no frigorifico, no próprio frigorifico, no carro que conduzes (ou se não tens carro pensa nos "volvo cor de laranja" ou nas carruagens do metro).

Vizualisa todas estas coisas que tens à tua volta tão intimamente ligadas ao teu dia a dia que aposto que facilmente dirias "não posso viver sem elas". Agora pergunta-te: quantas dessas coisas são feitas em Portugal.

Da próxima vez que voltares a ter um acesso de raiva contra "entidades patronais" exploradoras e desrespeitadoras do direito adquirido que tu, lincenciada com experiência, tens de trabalhar horas fixas e ganhar um salário que te dê para teres os tempos livres achas que mereces e que te permitam ir ao ginásio, ao cinema, jantar fora uma vez por semana e, claro está, fazer viagens de férias ao estrangeiro (tipo rio de janeiro e estados unidos), volta a repetir o exercício.

Facilmente chegaràs à conclusão que o país não produz o suficiente para pagar os teus "direitos adquiridos" de licenciada com experiência.

À terceira ou quarta vez és capaz de concluir que a culpa não é do governo, nem das "entidades patronais", nem dos emigrantes que nos roubam os trabalho, nem da "globalização" ou dos especuladores financeiros (tão em voga estão estas duas desculpas hoje em dia...).

Mas sim de todos nós: trabalhadores, empresas, governo e outras instituições não governamentais que simplesmente não nos conseguimos organizar de forma a produzir o suficiente que nos permita ter o nível de vida que tu achas que mereces.

pero disse...
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Pat disse...

Ah,os empregadores que insinuam o tal "tá mas é caladinha que tens muita sorte de eu te ter dado trabalho", o último que me fez isso, fazia-me tb o " sabes nós gostamos do teu trabalho, mas isto anda mau, precisamos que te esforçes mais" e eu esforcei-me mais....por arranjar outro trabalho e deixei-os pendurados. Copiei o teu post para o meu facebook com um link para o texto original, espero que não te importes, está aqui: http://www.facebook.com/home.php?#!/profile.php?id=1391364075

Patrícia disse...

Desculpa mas não concordo contigo. Cá em Portugal também há muitas boas entidades patronais. Que não abusam dos funcionários e se têm que fazer horas extra são pagos ao cêntimo sim senhor, tu é que tiveste azar...
Eu tirei um curso de contabilidade e gestão e posso dizer-te que não preciso de ir para fora de Portugal ganhar mais dinheiro porque aqui ganho bem graças a Deus. Tive a sorte de já ter sido gestora de uma grande empresa e aí sim ganhava muito dinheiro mesmo, agora mudei de área mas não me queixo. Posso dizer-te até que quando tenho que fazer horas extra ou deixar dias de folga ou até férias a empresa paga-me aquilo que eu quiser.Sei que não há muitos exemplos como eu mas há, assim como noutros países também existem pessoas que trabalham nas condições que tu disseste.
beijinhos e boa sorte para a próxima