4.10.10

Conto #2 - E nasce um texto de um vídeo

Caetana Maria, orgulhosamente nome da mãe e de outras gerações, desabafava naquele lanche de mulheres endinheiradas e bem sucedidas. Conspirava e acusava o seu mais-que-tudo de completa inabilidade oral. É um bom namorado, mas… Há sempre um “mas” nas relações, excepto havia para Tita, que não lhe importava a performance do marido, um matrimónio de tantos anos ao qual o tempo roubou a magia mas manteve a pose de um garfo espetado no ânus, pedindo apenas que ele não fosse buscar “disto” e “daquilo” lá fora. Se não gostas por que fazes?, perguntavam as amigas chiques de Earl Grey na mão. E entre um amendoado de canela e outro, coisa fina comprada na Versailles, do alto da sua falsa independência emocional e determinação, explicou que se de vez em quando não aparecesse de vaselina na mão, ele ia com certeza buscar quem lho desse fora de casa. Ele é director de uma empresa, anda sempre com muitas mulheres de um lado para o outro, não posso deixar que caia em tentação. A Tita suportava qualquer coisa, mas nunca cair na desgraça da língua alheia, divorciada como as amigas, que acumulavam casos e namorados queixando-se sempre do mesmo.

Adiante, fechava-se o parêntese do desabafo da Tita, que os problemas sérios eram os de Caetana Maria. No fluir do diálogo, chegaram à conclusão que os problemas desta eram os mesmos da outra amiga de chá, a Belinha. Já a Tixa tinha novidades para contar. E à Tita nada importava, desde que ele não fosse buscar fora de casa.

Caetana Maria estava cansada de simulações, de ser actriz em palco de teatro, de gritar tanto quanto a matança do porco sem sensação que acompanhasse tamanha sinfonia; a Belinha já não sabia o que fazer, qualquer dia ainda dava cabo da coluna de tanto que se dobrava e contorcia de um simulado prazer, já a Tixa tinha algo de novo para contar. Sem explicação aparente, o parceiro, até há tempos uma nulidade oral, qual canídeo atirado a uma taça de ração depois de dez dias sem comer, mostrava-se verdadeiramente competente. Deve ter lido na Internet como é que se fazia. Estes gajos mais novos aprendem qualquer coisa na Internet, dizia sem suspeitar da boa da vizinha do 4º esquerdo, uma sabida de colégios católicos, de olho azul e longos cabelos, ainda sem vinte anos, mas determinada e segura de si, que agarrou o caso da emancipada vizinha de baixo entre as pernas. Naquela tarde, entre diversos avisos relativos ao pouco tempo que tinham, a miúda de olhos azuis soltou um grito destemido: que merda é essa que andas a fazer? Estás parvo ou quê? Anda cá que eu explico. E aprendeu assim o homem, sem pudores e sem ordinarices, o B-A-BÁ da matéria, elevando de forma significativa as suas competências.

Caetana Maria e Belinha, já velhas de bengala, ao lado das placas mergulhadas em copos de água, longe do tempo em que os lençóis não eram só para dormir, riam dementes e falavam baixinho, não fosse uma das enfermeiras dar conta do assunto que lembravam lá no lar onde os filhos as tinham deixado. Vieram mais tarde a morrer sem nunca terem tomado a medida mais simples e óbvia, mas que a estupidez intrincada na sua personalidade fútil nunca permitiu pensar na dicotomia problema/solução: ensinar um homem.

3 caroço(s):

Anónimo disse...

O problema é quando os homens pensam que sabem tudo e não nos deixam ensinar nada. Gostei do conto. Beijinhos

Masquediabo disse...

Este vídeo tem dado que falar e ainda bem.
Espero que sirva abrir o dialogo entre os casais, entre as pessoas.
Que as pessoas sintam vontade de aprender e se deixem ensinar.
Que queiram acima de tudo conhecerem-se e sem preconceitos.

Anónimo disse...

Eu fiquei foi sem vontade nenhuma de dar o nome à minha filha que vai nascer a qualquer momento que o pai tanto insiste - Caetana!!!!