Em vez de ser a esposa de um doutor, de vestir daquelas marcas de roupa que além de vestidos até tinham perfumes, em vez de ter uma empregada, a Nela sentia-se apenas a empregada de alguém. Vivia sem se conseguir descolar do rótulo que a identificava como sendo a irmã de um homem que a droga e as más companhias atiraram para uma cadeia em Caxias. Andava a ver “o sol aos quadradinhos” como gozavam impiedosamente os colegas de profissão ilegal. “Hádes lá ir parar tu também!”, gritou uma vez cheia de coragem da paragem do autocarro, mostrando que não se importava, enquanto se lhe encolhia o coração.
Segurando a faca, olhou as mãos sapudas e grotescas que denunciavam a lida de duas casas, os detergentes viviam debaixo da pele, o que a faziam desistir de ter umas unhas bonitas como as da patroa, que apesar de não ser má pessoa, não compreendia que as molduras e os cinzeiros ficavam muito mais bonitos nas estantes e nas mesas quando colocados de lado, de esquina. Era assim que faziam os que tinham dinheiro, e a patroa com dinheiro não agia de acordo com a classe. Era o mesmo que Deus dar nozes a quem não tinha dentes. Mas assim fazia na casa arrendada com ajuda do Estado, com os bibelots que ia comprando na loja dos trezentos, ela que não tinha as nozes, mas levava Deus ao peito, confiando que lhe haveria de dar, um dia, uma merecida vida melhor, mais endinheirada.
Sem poupanças, e apesar do salário se gastar dias antes do fim do mês, a Nela entendia que o melhor era comportar-se como se a conta fosse recheada. Estes eram os conselhos do tarólogo que vivia lá no prédio, a quem pagava reduzindo na lista de supermercado, alimentando a alma e a esperança em vez do estômago. Num ambiente de baixa luz, entre incensos e arcanos menores, explicou-lhe esta criatura com dom do oculto que tinha de praticar “O Segredo” como o Mourinho, que não era jogador da bola, mas tinha sido, ou coisa assim. Não interessava, o que era preciso era que o praticasse para que o dinheiro chegasse.
Suspirou, tentando aproximar à realidade uma vida melhor, para que esta chegasse de uma vez por todas, afastando as lágrimas que pingavam do nariz, disfarçando a melancolia, culpando cada rodela de cebola. Desistiu, decidindo que o melhor era tratar do jantar antes que o homem, o malandrão escolhido no tempo em que era jovem, chegasse a casa vindo do café junto com o resto da prole, vindos das ruas onde matavam o tempo e ignoravam os estudos que também ela não quis. Ainda tinha uma pilha de roupa para passar a ferro. Trataria de puxar a si melhores energias mais tarde.
*A pedido de algumas famílias, a ficção
4 caroço(s):
A miúda tem jeito...
TG
Muito bom, parabéns. Espero que este seja o primeiro de muitos.
Parece-me que este seu conto, sendo ficção, tem muito de vidas de verdade, infelizmente.
Um beijinho
uma história muito real. excelente e votei tb. continue quem o escreveu.
Bolas, que história triste. E acredito que, para muito boa gente, seja mais real do que ficção.
Gosto muito da tua escrita, Maçã :)
Enviar um comentário