17.9.10

Consultório #33

“Olá (…),

Actualmente encontro-me numa situação que me tem atormentado, nada de grave mas muito importante para mim (ou seja grave para mim) e por isso resolvi recorrer aqui à procura de uma resposta, de um ponto de vista, de qualquer coisa que me abra a mente... e passo a explicar:

Tenho 35 anos e não tenho uma relação e não prevejo que venha a ter brevemente. Ora bem com esta idade e na fase de vida em que me encontro gostaria muito de já pensar fazer a minha vida com um companheiro (da companhia, do carinho, enfim de tudo).

O meu percurso tem sido complicado, tendo me sempre envolvido com pessoas que não se interessavam por mim verdadeiramente, onde muitas das vezes eu é que andava atrás, por quem sofria horrores, e de quem gostava imenso. Nenhuma destas pessoas eu posso dizer que foram meus namorados, por vezes até digo mas nenhum me assumiu como tal (o que... bem, imagine a minha tristeza). Estas minhas atitudes devem-se provavelmente a uma baixa auto-estima e outros problemas que recentemente fui trabalhar através de psicoterapia.

Mas a verdade é que actualmente estou obcecada com isto de não ter um namorado (e depois de um tarólogo me ter dito uma coisa do género), na minha cabeça está fixada ou implementada a ideia de que vou ficar sozinha para sempre, o que me deixa totalmente desgostosa. Para além de duvidar de mim enquanto mulher. Por que nunca consegui que um homemem ficasse comigo? Por que nunca nenhum cai a meus pés completamente apaixonado? (Bem um caiu, mas totalmente inadequado) Por que nenhuma relação comigo deu certo?

O que devo fazer, desistir da ideia de encontrar um bom homem para mim e tentar abraçar a ideia de ficar sozinha? Mas custa-me tanto pensar assim. Como recuperar a minha auto-estima e confiança como mulher e nos homens e numa boa relação?

O que fazer Maçã?

Desde já agradeço, aguardando ansiosamente uma resposta...

M."


Olá M.,

obrigada pela sua mensagem.

Os meus parabéns. O primeiro passo para uma pessoa recuperar de um mal-estar como o que relatou é saber pedir ajuda. Soube fazer isso e está de parabéns.

Cada pessoa tem um seu tempo. Acredito que com 35 anos queira as coisas que mencionou e fique triste por não as ter, mas já pensou que tal ainda não apareceu na sua vida porque não está preparada? Como contou, cada vez que aparecia alguém, não prestava, envolvia-se, calculo que se aproveitavam e faziam de si o que queriam e, na verdade, vivia relações de dependência emocional e não de amor. Eu também durante sete anos andei a bater com a cabeça nas paredes, fui maltratada, faltou-me a auto-estima, mas a partir de determinada altura não me faltou a vergonha na cara. Quando via que não estava a ser tratada conforme merecia, desaparecia. Sofria feita condenada, mas correr atrás de quem não mostrava quere-me, isso deixei de fazer. E vivia melhor comigo própria apesar do sofrimento inevitável.

Como já escrevi, com o tempo percebi que um homem não quer uma mulher mole, que faça tudo por ele, que se rebaixe, que perca amor próprio, a fala e a convicção. Os homens querem alguém que dê um murro na mesa quando necessário e, homens e mulheres, não podem sentir que a outra pessoa está garantida, pois aí começa a espiral da desgraça. Atenção que há uma diferença em saber que alguém gosta de nós e saber que alguém está garantido. Não é a mesma coisa. Uma coisa é um homem saber que gosto dele, outra é saber que se me trair não tem problema, eu aguentarei porque estou garantida, vivo dependente e não terei coragem de o abandonar. Isso não é gostar, é ser dependente.

É que para gostarmos de alguém e sermos felizes, primeiro temos de gostar de nós próprios, ter orgulho em nós e saber virar as costas quando algo que entendemos ser inaceitável acontece. A melhor coisa a fazer numa relação a dois é dar a conhecer aquilo que somos, no que acreditamos e dar a saber sem sombra de dúvida aquilo que não aceitamos.

Acho que as relações surgem quando têm de surgir, quando estamos preparados. A M., está a trabalhar para isso, para construir as bases que lhe faltam e quando for suficientemente forte, atrairá alguém pela força da sua personalidade. Não procure problemas em si, procure soluções. A M., queixa-se que nenhum homem se apaixona como gostaria, mas pelos vistos já aconteceu antes, só que a M. não quis. Ou seja, não é impossível, pode acontecer quando tiver de acontecer.

Conheço pessoas que vivem e viveram obcecadas por ter alguém. Enquanto não trabalharam esse problema, até podiam ter namorados, mas a coisa nunca corria bem. Conhece relações simpáticas em que um dos elementos quer porque quer ter alguém? É que antes de sentir essa obsessão, há o não saber estar sozinha e isso acontece por alguma razão que precisa de ser trabalhada.

Também eu tive uma altura em que não sabia estar sozinha, depois aprendi e não queria ninguém pela frente, vivia mesmo bem sozinha. Quando passei a tratar tudo a pontapé foi quando me apareceu o Poisoned Apple Man. Curioso, não? Mas não somos todos iguais, é certo. Conheço uma pessoa que já vai nos quarenta e poucos, vai tendo namorados, mas nunca casou, não teve filhos ou relações longas. Mas também é uma pessoa muito difícil de aturar. Ou seja, os motivos não são sempre os mesmos.

Não tem de desistir da ideia de encontrar um homem nem abraçar a ideia de ficar sozinha. Tem é de meter na cabeça que o amor não se procura, encontra-se. E ele vai aparecer quando se tornar uma mulher mais forte.

Boas terapias!

12 caroço(s):

Rodrigo S. disse...

O que me ocorreu logo foi o que mais à frente vim a ler.

"Como já escrevi, com o tempo percebi que um homem não quer uma mulher mole, que faça tudo por ele, que se rebaixe, que perca amor próprio, a fala e a convicção. Os homens querem alguém que dê um murro na mesa quando necessário e, homens e mulheres, não podem sentir que a outra pessoa está garantida, pois aí começa a espiral da desgraça"

Sentir que uma mulher está carente/"desesperada" é "repelente". Sentir o oposto tem, também, o efeito oposto.

Pips disse...

Concordo totalmente com a Poisoned Apple. Também eu, em tempos que lá vão, fui maltratada e sobretudo deixei que me maltratassem. Até que deixei de deixar e dei o tal murro na mesa. A partir daí fui trabalhando nas tais coisas que me fizeram construir as bases para poder voltar a deixar entrar alguém (de bom) na minha vida. Aprender a valorizar-me, alimentar a minha auto-estima,o meu ego, cuidar de mim, e tudo isto não significa apenas pôr-me bonita e desejável, mas passar muito tempo sozinha, a pensar, a reencontrar-me. Sem medo de estar comigo mesma e de descobrir coisas que antes preferia não ver, dando atenção a outros em vez de dar a mim.
M., espero que a terapia a ajude a fazer essa "viagem" interior, que a deixe forte e segura, para trazer até si tudo de bom que merece! Força! :)

Helena Barreta disse...

M., espero que encontre dentro de si a calma,a serenidade e a confiança necessárias para se valorizar. Vai ver que quando se sentir mais segura e de bem consigo mesma o amor acontece.

Coragem e não desista de ser feliz.

Beijinhos

Anónimo disse...

"É que para gostarmos de alguém e sermos felizes, primeiro temos de gostar de nós próprios, ter orgulho em nós e saber virar as costas quando algo que entendemos ser inaceitável acontece."

M.
Todo o texto da Maçã é rico. Todo ele, do princípio ao fim. Mase se há frase de suma importância e que resume o caminho a seguir. é esta.

Também sou Mulher, e posso dizer-lhe sem qualquer problema "Been there, done that". Já passei por tudo o que descreve. Penso, simplesmente, estar um pouquinho mais à frente neste caminho. É que já apliquei esta máxima da Maçã. Mas tal como a M. também ainda não encontrei um Amor que me preencha. Está a ver?? Não é a única. Comece pelo princípio.

Um beijinho grande de alguém que não a conhece de lado nenhum, mas lhe conhece a dor que sente. E chore, chore muito, porque ao contrário do que possam dizer, faz bem (quando se chora pelos otivos e na altura certa). E a seguir a uma noite de choro, vem sempre um dia melhor.

Kat disse...

Cara M.,

Aconselho a leitura de "A Ilha" de Aldous Huxley, por este descrever uma sociedade na qual a forma de pensar e de nos mentalizarmos para que as coisas aconteçam é a principal razão para sua realização futura. Assim como muitas outras observações que nos põem a pensar!
http://en.wikipedia.org/wiki/Island_%28novel%29

Kat

Lady disse...

Gostei imenso da resposta. Quando a M. menos esperar e já não andar tão ansiosa com isso vai ver que as coisas vão correr melhor.
bj

Anónimo disse...

Olá M.,

Concordo com a Poisoned Apple e realmente tudo começa por gostarmos de nós próprios e não é nenhum cliché ou frase feita, é efectivamente verdade.

Acordar de manhã, olhar ao espelho e gostar do que vemos, afirmar mesmo que somos um Ser maravilhoso e agradecer por isso.

Outra coisa muito importante é não interiorizar sentimentos tão negativos:
" na minha cabeça está fixada ou implementada a ideia de que vou ficar sozinha para sempre, o que me deixa totalmente desgostosa. Para além de duvidar de mim enquanto mulher. Por que nunca consegui que um homem ficasse comigo?".

Ao ter estes pensamentos está a "programar-se" a si mesma, contrarie isso, pense que é uma pessoa maravilhosa e que vai encontrar um dia alguém que lhe dê esse valor...mas comece por si, dê-se valor, ame-se, trate-se bem e centre-se na sua vida. Com isto quero dizer que se torne a pessoa mais importante da sua vida, não dê esse papel aos outros. Não é uma questão de "egoísmo" ao contrário do que algumas pessoas afirmam às vezes. E se o fizer vai encontrar a felicidade por si só, já que ela está dentro de nós e não fora, num parceiro, num objecto ou em outra coisa qualquer. E nessa altura estará então pronta para receber alguém na sua vida que a vai tratar bem, como merece.

Felicito-a por ter procurado ajuda mas muito do trabalho a fazer será muito um trabalho pessoal. Terá que analisar todos esses "relacionamentos" e tentar perceber qual o padrão presente, quer o seu (comportamento), quer dos homens que passaram na sua vida e quem sabe relacioná-lo (pelo menos) com a sua infância ou adolescência, relacionamento com os pais, etc.

É um tema muito interessante e sobre o qual tenho algum conhecimento já que eu própria fiz e continuo a fazer um "trabalho interior" muito semelhante.

Somos mais ou menos da mesma idade e ao ler o seu caso revi-me em algumas coisas do que escreveu.

Desejo-lhe tudo de bom. E acredite em si, veja a vida pelo lado positivo e vai ser isso que vai ver a realizar-se na sua vida.

Athena

Masquediabo disse...

O melhor que sei dizer é: para amar alguém temos de estar bem com nós mesmos. Isso ajuda-nos a encontrar a pessoa certa.

Marilia disse...

M...
Podiam ser minhas as suas palavras. É ouvir o tic tac de um relógio a bater e sentir os nossos sonhos a fugir de nós. Não desista nunca desse sonho, de amar e ser amada, acredite sempre... e um dia coisas boas acontecem.
Vai ser quando menos estivermos à espera :)

Bjs

Marilia

Anónimo disse...

M,

Muita gente se identificará com as suas palavras.

Tenho mais ou menos a sua idade e passei por isso, mais precisamente por essa sensação do “vou ficar sozinha para sempre”. Apesar de ter um CV emocional positivo, com bons relacionamentos, a verdade é que quando o ultimo relacionamento falhou, passado o luto convenci-me mesmo que não ia voltar a amar ou ser amada, que a minha “vez” tinha passado. Andava completamente infeliz. Claro que nessa fase ninguém se aproximou, calculo que a energia que passava aos outros era negativa.

Mas um dia a postura mudou. Em vez de achar que ia ficar sozinha e infeliz, comecei a consciencializar-me que mesmo que ficasse sozinha, seria feliz, devia isso a mim mesma. De certa forma fiz as pazes comigo e comecei a olhar para a vida de outra forma. Descobri imensas coisas (e são imensas, acredite) que podemos fazer sós e que nos preenchem de uma forma deliciosa. Descobri o prazer de ir a uma exposição sozinha e a seguir parar numa esplanada a beber um café só comigo; descobri que podia ficar noites e noites em casa sem ninguém, a ver filmes escolhidos por mim e só por mim, sem aquela angustia do “a vida lá fora está a acontecer e eu estou feita parva em casa”…porque afinal até estava bem era em casa; descobri a alegria de adquirir coisas para a casa ao meu gosto, moldando-a e transformando-a num prolongamento da minha forma de ser; descobri que passar uma hora e meia num banho de imersão, com velas e musica clássica, pode ser maravilhoso, ainda que sem ninguém; descobri a realização de passar uma noite inteira em silencio a ler um livro; descobri que afinal não tem mal nenhum passarmos uma tarde na cozinha a fazer biscoitos e bolos para nós mesmas; descobri que temos um país fantástico e com sítios maravilhosos, descobri que é excepcional sair a um sábado de manhã e percorrer as ruas de Lisboa como se fosse turista; descobri que temos todo o direito de fazer uma mega árvore de natal em casa mesmo que só lá vivamos nós; descobri que não é preciso nenhuma habilidade excepcional para pintar um quadro, que basta uma tela, tinta, pincéis e boa vontade para sair uma coisa gira, ainda que imperfeita; descobri que pegar no carro ir passar fins de semana fora, numa qualquer pousada, apenas porque sim, e levar na mala apenas livros e chocolates faz muito bem à alma; descobri que ocupar algum do meu tempo livre apenas a ajudar os outros traz-nos verdadeira paz interior; descobri que ter ataques de riso do nada pode ser tão libertador como os ataques de choro. Estes são só alguns exemplos.

Em suma, descobri que podia não chegar ao final da vida com um “e foram felizes para sempre” mas que era possível chegar ao fim da vida com um “e foi feliz quase sempre” e que isso só dependia de mim.

Foi um caminho que demorou um ano a percorrer. E sabe o que aconteceu a seguir? O amor apareceu. Quando finalmente me senti bem comigo mesma, quando aprendi a sentir-me feliz estivesse sozinha ou rodeada de amigos, quando o “desespero” de encontrar um homem que me preenchesse passou, ele apareceu. Quando menos esperava, como sempre.

Podia dizer agora “hoje estou feliz” mas digo-lhe antes “hoje continuo feliz” porque a verdade é que naquele ano que passei sozinha aprendi muito sobre mim, e aprendi acima de tudo a estar BEM independentemente das circunstancias externas. Hoje continuo bem, diferente é certo, mas bem. E no final de contas é isso que interessa.

Deixe de esperar pelo príncipe encantado, ou por aquele homem que acha que merece. Concentre-se em si, na sua família, amigos, trabalho, o que for. E vai ver que um dia, quando realmente menos esperar, quando estiver quem sabe num daqueles cafés consigo mesma, ele vai aparecer.

E se não aparecer…M, ofereça a si mesma uma vida plena de alegrias. Tem a obrigação de o fazer.

Força e desculpem o comentário extenso,

Isabel

Dulce disse...

Tenho 44 anos, nunca casei e não tenho filhos. Estou sózinha há sete anos (sim, sete!). Reconheço que levantar o "cu" não é fácil, reconheço que deixarmo-nos de lamentos ("ai, que sou tão infeliz, vou ficar sózinha para sempre...") não é fácil, reconheço, também, que o facto de nunca termos tido uma relação "normal" com alguém, nos entorpece os movimentos, mas, o segredo, é mesmo habituarmo-nos a estar sózinhas, a fazer coisas só para nós, enfim, não vou repetir o que a "anónima" Isabel tão bem disse - é que é isso mesmo, é mesmo isso que eu tenho feito!. Não sei se haverá por aí um homem que me apareça quando eu, de facto, já não estou à espera, mas também não ando com uma lanterna à procura. Gostava, é certo, mas não deixo de viver por isso.

Fique bem.

Anónimo disse...

Obrigada Isabel, o seu texto foi inspirador, tranquilizador e uma fonte de esperança! Estou a tentar ir por aí, embora mais devagarinho, há 3 anos... :)