"Olá!
Sou uma leitora assídua do blog e tenho reparado que as respostas às questões colocadas na rubrica "Consultório Sentimental" são sempre de muita qualidade. Como tal, decidi experimentar a minha sorte e enviar-lhe um e-mail (...)
Tenho 18 anos e namorava desde os 15 com um rapaz três anos mais velho que eu. Talvez por me ter comprometido tão cedo e por não ter experimentado as coisas normais da adolescência (e juntando isso à monotonia da relação, aliada ao facto de ele ter deixado de ser carinhoso comigo), posso dizer que, infelizmente, no ano passado não fui uma boa namorada. Devido a isso, a nossa relação acabou.
Estivemos separados durante alguns meses, mas eu nunca escondi que queria a reconciliação. Durante esse tempo, aproximei-me de outro rapaz e acabámos por criar uma relação que eu nunca quis assumir, visto que achava que se o meu ex-namorado soubesse, jamais voltaria para mim. Foi errado, eu sei, nunca lhe devia ter mentido e, se queria voltar a namorar com ele, jamais me deveria ter envolvido com outra pessoa.
Depois de muita confusão e zaragata (já depois de ele ter descoberto a verdade), eu decidi terminar tudo com o outro e dedicar-me a provar ao meu ex-namorado o quanto o amava e trabalhar arduamente na tarefa de tê-lo de volta. Ele nunca me escondeu que não tinha conseguido perdoar-me ainda e que precisava de tempo para pensar.
Desde então, já passaram quase três meses. Quando estamos juntos, envolvemo-nos quase sempre e ele continua a dizer que gosta muito de mim mas diz que não consegue partir para uma relação comigo enquanto tiver na cabeça o que sofreu por minha causa. Eu compreendo isso tudo, mas o desprezo que ele me dá também me magoa. Nunca fui de ir atrás de ninguém, mas com ele é sempre diferente a acabo por ser sempre eu a lutar por ele, devido ao peso da minha culpa. Estou mesmo arrependida e gostava de não o ter magoado, mas também gostava de não ser magoada!
Toda a gente me diz para parar de andar atrás dele e seguir com a minha vida, mas custa-me muito fazer isso, até porque ainda mantenho esperanças de voltarmos e, para ser sincera, isso já me pareceu mais longe... No entanto, tenho medo de parar de ir atrás dele e, com isso, piorar as coisas. A questão neste momento é o que é melhor fazer? Lutar por ele e, com isso, acabar por sofrer; ou parar de lutar e deixar as coisas acontecerem, mas sofrendo sempre com a ausência dele?
Um beijinho".
Olá J.,
ainda que acredite que não, quando exploro o seu texto no que respeita ao lado racional vs emocional, a J. contradiz-se, só que ainda nem se ouviu pensar. Há tempo para tudo.
Reforça, várias vezes, o quanto gosta do seu namorado de longa data. No entanto:
1. Reconhece não ter sido uma boa namorada, desleixou-se, encolheu os ombros, não se esforçou. Acontece que, quando gostamos, esforçamo-nos sempre por ser a melhor namorada do mundo. Podemos cometer um ou outro erro isolado, mas por sistema não o fazemos, pois se o fizermos é revelador de um sentimento que não é tão grande assim. É importante mas não tão importante, é um querer mas não querer tanto assim.
2. Durante um tempo de separação, envolveu-se com outra pessoa. A minha experiência e de outras pessoas é que quando gostamos realmente, numa fase de separação não se pensa noutra coisa, chora-se continuamente e procuram-se estratégias para retomar o que se perdeu. A J. envolveu-se com outra pessoa. Para aqui não interessa se é correcto ou incorrecto, mas a razão que a levou a envolver-se com outra pessoa. O que é que a motivou realmente? A novidade? Terreno desconhecido? Vontade? Quando se gosta realmente de alguém, a possibilidade de um envolvimento íntimo com outra pessoa é coisa que chega a causar vómitos. Quando essa possibilidade é imaginada de coração partido, sabe a violação de espaço, a nojo, a intromissão. É impensável, não queremos mesmo que alguém chegue perto.
Quer-me parecer que a J. quer manter essa relação e um eterno retorno porque é o lugar que conhece. É provavelmente o seu primeiro namorado a sério, é a pessoa de quem conhece as reacções, o que tem e o que não tem para dar, é um terreno onde se sente segura. No entanto, no fundo, parece querer ter asas para voar.
Mas bem sei, do futuro nunca se sabe e não lhe apetece trocar o certo pelo incerto. Já diz o ditado: antes uma pomba na mão do que duas a voar. Pergunta-se, quanto tempo permaneceria sem namorado, e se um novo aparecesse, que tal seria? E dar-me-ia o que quero? E se me arrependo?
Entretanto os meses passam e sempre que estão juntos envolvem-se. O seu namorado, ou ex-namorado, como preferir, tem tudo e chateia-se pouco. Envolve-se quando quer e faz a figura de vítima, coitadinho, "ai que não sei se consigo perdoar". Mas consegue beijar e tudo o resto. Depois de uma traição, os que têm dificuldade em perdoar e medo que volte a acontecer, também têm medo do envolvimento físico, pois isso vem dificultar a tomada de uma decisão, até porque o físico torna-se difícil de resistir. "Ai que estou tão magoado, não sei se perdoo, mas entretanto dá cá um beijinho" é coisa que tem pouco sentido, não acha? Inicialmente compreendo um comportamento destes, quando este comportamento se faz sentir meses a fio começo a desconfiar que temos palco para teatro. Palco esse que é aproveitado para a castigar. Experimente dar ares de quem desistiu a ver se ele não corre atrás! Fique uns dias sem dizer nada.
Como se não bastasse, ainda tem de aturar que a magoe e que a despreze. Desprezam-se por sistema as pessoas de quem se gosta? Sinceramente, "irrita-me" mais o desempenho do papel de coitadinho do que as opções que a J. tomou. É óbvio que não somos todos iguais e, sublinho, o que eu escrevo não é lei. Também, não olho com desdém para o que me relatou. Não se sinta culpada. Cometer erros faz parte de nos tornarmos adultos, faz parte de nos conhecermos a nós próprios e de procurar as nossas preferências. A J. tem ainda 18 anos, muita coisa ainda vai acontecer-lhe (bem sei, conversa de velha chata, mas é mesmo verdade). O erro não me incomoda, o que me incomoda são as pessoas que erram continuamente e nunca aprendem. Esperemos que lhe baste errar uma vez.
No fim de contas, e para concluir, parece-me que essa pessoa é e foi especial na sua vida, mas é mais um porto seguro, um sentimento de posse, que outra coisa qualquer. Como eu dizia, no que respeita ao lado racional vs emocional, a J. contradiz-se pois não quer a mesma coisa, quer uma nova vida, novas experiências e ver-se nelas. E é totalmente livre de o fazer.
Beijinhos!
6 caroço(s):
Passei mais ou menos pelo mesmo que a J. quando tinha a idade dela (tirando a parte de me ter envolvido com outra pessoa) e o meu único conselho é: afaste-se, deixe de procurar. Se ele gosta mesmo de si, isso servirá como wake up call. Custa. Tem que ser forte. E estar preparada para o facto de ele poder não procurar também. De qualquer maneira, o resultado será sempre o melhor para si. Viver na angústia da dúvida é o pior.
Afastar. Ou porque faz o referido teatro ou porque se não faz, nunca a vai perdoar e nunca lhe vai passar a ideia de "traição". Pode-se tentar mitigar, disfarçar, mas volta e meia virá ao de cima a revolta da "traição".
o aconselhamento sentimental não é, manifestamente, uma ciência exacta
Também penso que se deverá afastar. Se ele realmente quiser estar com a J., ele irá procurá-la. Senão, deverá pensar que ainda há tanta vida pela frente, por isso tudo o que virá será sempre melhor e não vale a pena ficar presa a alguém que não quer estar com a J.
Olá Poisaned Apple, queria dizer-lhe que gosto muito do seu blog e de a ler, e que hoje gostei especialmente, pela seguinte passagem: "Quando se gosta realmente de alguém, a possibilidade de um envolvimento íntimo com outra pessoa é coisa que chega a causar vómitos (...)sabe a violação de espaço, a nojo, a intromissão." Porque é verdadeiramente isto que sinto, do princípio ao fim e nunca o tinha visto assim, traduzido em palavras. :) Beijinhos
@Ana Lapa: eu acrescentaria que apetece "espancar" quem tem o atrevimento de sugerir tal hipótese...
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