2.6.10

Poisoned Apple também falha

Meu amigo Piston, certamente num dia de mau feitio, deixou-me um comentário no blog em que perguntava quando se iria ler um texto no qual se lessem erros meus, do ponto de vista amoroso. Como se ele não os soubesse! Por alguma razão, para tal pedido, fiquei a pensar que talvez transmitisse a sensação de alguém que nunca falhou, nunca caiu em falso, nunca pecou. E já diz o ditado, quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.

Recebi também um comentário de uma mulher que me dizia “aparentas ter uma força que eu invejo!”. Sorri e questionei-me: terei mesmo a força que aparento? Não serão momentos de força alternados com momentos de fraqueza, como toda a gente?

Mas é verdade, não vou mentir, acho que hoje tenho uma força incomparável à que tinha há anos. E isso aconteceu porque percebi que não morria de amor. Morria quase, só isso. Aconteceu porque falhei vezes sem conta. Não acho que tenha falhado com os homens, mas não tive respeito por mim própria, e esse é o pior dos erros. Humilhei-me vezes sem conta e, como toda a gente, aprendi a não repetir alguns erros. No fundo é como fazer cópias. Tanto se repete a gramática para que não se esqueça, mas até lá, travam-se duras batalhas. E em muitas dessas batalhas tinha perfeita consciência de que não procedia de forma digna. Tanto que não tinha coragem de contar a ninguém.

Hoje os tempos são outros, continuo a achar que o pior burro é aquele que não quer aprender. A vergonha não está na falha ou no erro, está em repeti-lo incessantemente sem que nunca se aprenda nada.

Era miúda, não sabia nada da vida, mas já chorei à porta de casa de um rapaz, sentada nas escadas que lavava com as minhas lágrimas, enquanto ele se ria dentro de casa com os amigos e jogavam jogos de computador. De vez em quando abria a porta, mandava-me embora, gozava comigo e todos riam à fartazana. Achava que a minha persistência o levaria a ter pena de mim e a tratar-me bem. Pena? Quão humilhante é isto?

Um namorado acabou a relação por telefone quando me dirigia para casa dele para irmos ao cinema, que era o que ele tinha combinado. Em vez de nunca mais lhe dirigir a palavra, andei a arrastar-me atrás dele. A insistir em telefonemas e SMS que não viam resposta. Quão triste e humilhante é isto? Dois anos depois, reencontrámo-nos. Dois anos que esteve sem dar cavaco e eu ainda queria estar com ele. O clima surgiu, outra miúda também, e quando tudo apontava para um recomeço, abandonou-me via e-mail.

Em casa de um namorado, onde estava a dormir sozinha enquanto ele se divertia pela madrugada fora em festas duvidosas, o telemóvel esquecido apitava histericamente. Demorei a encontrá-lo dentro de um necessaire. A mensagem de uma gaja dizia que tinha adorado o e-card dos sapos que lhe tinha enviado essa tarde, mais umas palavras dengosas quaisquer. O e-card tinha sido enviado por mim, poucos dias antes. Uma gracinha em que uns sapos saltavam de nenúfar em nenúfar e davam beijos de línguas esticadas. O que é que eu fiz? Chorei, calei a boca com medo de perder o que não valia nada e consenti. Continuei com ele sabendo que me enganava com uma gaja que estava do outro lado do mundo. Então achava que não era motivo suficiente para o mandar dar uma volta, como se a distância o justificasse.

Também cheguei a aparecer, vezes sem conta, em casa de um homem que não me atendia o telefone. Homem que era namorado! Ou pelo menos assim achava, me chamava e me apresentou aos pais. Estava lá sempre para ele, nunca falhava, e ele punha e dispunha. Eu fazia bolos e bolinhos, o meu primo mandava-me estar quieta. Devia tê-lo ouvido, mas na altura ainda não tinha percebido que os homens só gostam de desafios e rejeitam o que está ou aparenta estar garantido. O bom disto, é que sei agora que posso ser eu própria. Na verdade sinto que sempre fui, mas depois quando tudo começava a morrer, no meu lugar instalava-se o desespero e a falta de vergonha na cara.

Numa viagem a NY, a primeira que devia ser uma viagem de sonho, ouvi de um homem que conhecia uma mulher com quem não tinha nada, mas se ela desse uma oportunidade não sabia como seria. Como se não bastasse, passou a noite a chamar pela mulher enquanto dormia e enquanto eu observava todos os defeitos do tecto do quarto de hotel. No dia seguinte, só conseguia chorar. Pedi um momento sozinha e em vez de me consolar, pedir desculpa ou no mínimo, dizer que não me deixava sozinha, saiu porta fora e deixou-me com os ácaros num quarto de hotel, a milhares de quilómetros de casa. Bendita a maravilha do telemóvel e das palavras do meu padrasto, que tudo fez para me consolar do outro lado do mundo. Desci a Times Square e fui ajudá-lo a fazer compras para a "irmã" e "cunhada", if you know what I mean. Eu não vi um presente, mas no meio disto ainda fui capaz de lhe dar um. Just call me stupid.

Estas são muito poucas, quase nada entre tantas. Querem mais? O texto já vai longo e depois ninguém lê nada. E eu fico cansada de de escrever tanta tristeza, humilhação e falta de amor-próprio. O bom destes sapos todos que engoli, maiores que os do e-card, é que com o tempo dei o grito do Ipiranga, vomitei os sapos todos e passei do oito para o oitenta. Posso vir a falhar em coisas novas, posso sempre, mas estas já não as repito.

Olho para trás e parece que fui quase eternamente adolescente. Não tenho nada a ver com o que era. Hoje gosto mais de mim e percebi que se não me der ao respeito, ninguém me vai respeitar. Isso dispensa mais apresentações e é o segredo do meu bem-estar: as pessoas vão até onde eu lhes permitir, é a minha máxima.

17 caroço(s):

Vera disse...

Não te conheço ainda, sou seguidora há pouco tempo, mas depois de ler isto atentamente só quero dizer que és extremamente corajosa e que por aprenderes com os erros que cometeste ou que os outros cometeram és uma grande mulher.

Beijinhos.

Narizinho Lunático disse...

Mais uma vez, adorei o teu texto. E, mais uma vez, revejo-me em muitas (mais do que as desejadas) palavaras tuas. Bjs

Gelatina de morango disse...

Fui eu a autora do tal comentário =)!

E depois de ler este texto (que me arrepiou por diversas vezes) percebo muito bem a força que tens.
Foi à custa de muito sofrimento, mas com essas experiências deves estar mesmo vacinada contra tudo =)!

Beijinhos

Espiral disse...

Bem... com tanta coisa, só acho mesmo que tens que ter muita força para voltar a acreditar nos homens.

Por personalidade sei que os meus comportamentos em situações semelhantes não seriam esses, mas também sei que por muito menos perco um bocadinho de fé.

Obrigada pela partilha.

Hermione disse...

adoro ler sempre o teu blog por isso mesmo, pela sinceridade das tuas palavras. mostras o que és, e essa transparência nota-se a milhas. Bjinho

Cate disse...

Credo! Isso foi sofrimento e lágrimas a mais. E parece que te tens cruzado com muitos homens de merda pelo caminho. Adorei o texto e, mais uma vez, ao expores estas tuas fragilidades "ao mundo", só demonstras que te tornaste numa mulher forte e corajosa! E quem sabe não ajudes alguém que esteja a passar por situações idênticas a abrir um bocado os olhinhos.
Tudo a correr bem p'ra ti :)

Sofia disse...

Bem, que historias. É preciso ter mesmo muita força para ultrapassar isso. Sem dúvida que a tens.

A mim falta-me uma pouco de amor próprio mas só em relação a uma pessoa. Não lhe consigo dizer que não e ainda por cima não estou apaixonada por ele. Ele tem-me na mãe pelo sexo (quão estúpido é isto?), que é, diga-se, uma coisa do outro mundo.
Isto seria tudo óptimo se não acontecesse só quando ele quer. Tem de ser ele a querer, a desafiar, a convidar. Quando sou eu a desafia-lo, ou não pode, ou diz que sim e depois desmarca. Faz-se desentendido.
Gosta muito de jogar mas o que é demais enjoa. E já me apercebi disso. Por isso, e embora me custe abdicar daquele sexo fantástico, já não há mais nada para ninguém pois sinto que não me respeita. E já devia ter parado com isto há muito tempo.

Sei que este meu comentário não tem nada a ver com sentimentos mas apeteceu-me desabafar, sorry.

Poisoned Apple disse...

Sofia,

o comentário não tem a ver com sentimentos, mas é válido na mesma. Apoie-se na frase "as pessoas vão até onde lhes for permitido". Enquanto permitir, ele vai fazer o que quer. No dia em que puser um travão nisso, deixa de acontecer. É difícil, mas acredite que é assim.

Myself disse...

Minha querida Poisoned, como eu te compreendo... Todas nós já tivemos a nossa dose de idiotas pelo caminho. Todas já nos portamos como idiotas que queriam idiotas ao nosso lado. O bom é quando conseguimos aprender com isso. Eu aprendi algo. Mas ainda não acredito em mim,nem me respeito o suficiente, por isso estou sozinha... Fico contente por saber que ao fim destas peripécias encontraste alguém que te faz sentir especial. E espero que algures por aí também esteja o meu outro eu...
É sempre um prazer ler-te.
Obrigada pela sinceridade...
Beijinho para ti.

o meu lado luar disse...

este texto é de coragem, não é facil admitirmos que permitimos estas coisas e por isso mesmo dout os parabens. mas, tenta nao lembrar mto isto, ja la vai e sinceramente nao interessa. o que importa é que agora tas aqui e que te amas a ti pp!
beijinhus

Anónimo disse...

Depois de ler isto fiquei a tremer por dentro... tenho 24 anos e tive um único namorado, é o mesmo desde os 19 anos. Amo-o. Mas quando há alguma coisa que não está bem...quando acontece algo...sou SEMPRE eu a admitir as culpas(mesmo que não as tenha) e sou SEMPRE eu a ir atrás... Já fiz tantas coisas parecidas com as que contou...há dias em que não entendo porque sou assim com ele, sim porque é só com ele mesmo.

Obrigada por partilhar.
RM

Anónimo disse...

Este post encarna os erros que cometeste em acreditar em alguns homens. Ainda que tenhas evoluido, gostaria de saber se nesse passado, tambem iludiste alguem, se tambem faltaste ao respeito, se perante um nao achaste que nao era suficiente e partiste para a invasao do espaço pessoal da outra pessoa. Falo disto, porque e uma tematica que me afecta, onde ja por umas vezes em relaçoes serias, e perante a minha conclusao de que nao ira resultar, vejo mulheres-adolescentes a ultrapassarem os limites, com telefonemas anonimos, bater a porta a horas improprias, mexerem em telemoveis, coisas que podem ser consideradas violencia psicologica, e que por ser homem, so tenho e que gramar, apesar dos nao dados.

Obrigado

Luis

Piston disse...

Time for some good old spanking!

Um dia de mau feitio? Já não me vês há muuuuuito tempo.

Não me referia a errar com o tipo errado. Referia-me a errar com o tipo certo. É só isso que ainda não li por aqui.
Uns não devem pagar pelos outros.

Poisoned Apple disse...

Piston,

posso considerar que na minha vida tive 2 tipos certos, como lhes chamas: um que foi bom enquanto durou e o actual.

Não tenho memória de errar com qualquer um deles, nem com os outros. Podia admitir que errei sem saber mas, se aconteceu, não fui chamada à atenção. E destas coisas guarda-se memória. Tenho consciência tranquila, não fiz nada que me deixasse com remorsos.

Quando se gosta, quando as relações são sérias, quando o compromisso é real, o errar da forma que colocas é uma coisa mais difícil de fazer, a não ser que se caminhe para um declínio. Nesse tipo de relações as falhas são, geralmente, coisas leves e perfeitamente ultrapassáveis, nem deixam memória.

Mas esta é a minha visão da coisa! Poderia aparecer aí um mancebo dissertando sobre a pessoa indecente que sou! :P Há sempre dois lados para uma história, ainda que factos, sejam factos.

Piston disse...

Imagina que tens um cão que gane porque tem uma dor qualquer. Dás-lhe com um pau e prometes que lhe darás com um pau sempre que ele ganir.
E agora? Como é que sabes quando é que ele está em agonia? Castigaste a sua expressão natural, sinceridade.
Cheira-me a erro.

Belinha disse...

revi-me em muitas das tuas palavras...como tu aprendi com os meus erros (acho)..cresci...faz parte da vida...parabéns pelo blog fantástico...beijinho

Anónimo disse...

Cara poisoned Apple,
Descobri o seu blog há uns dias e tenho andado a lê-lo como se de um livro se tratasse!
Sou uma leitora assídua de determinados blogs mas geralmente não comento porque acho que a minha mensagem não chegará de verdade ao destinatário, que passará despercebida entre tantas outras e que não será valorizada o suficiente para merecer uma leitura atenta!
Porém, este post significou muito para mim porque se percebe que a Poisoned Apple passou por situações desagradáveis e vê-se a evolução gigante que sofreu na forma como hoje se coloca e encara as relações amorosas!
Gosto dos conselhos sensatos que dá no "consultório", penso exactamente da mesma forma!
Mas gosto ainda mais da partilha que faz da sua vida com o Poisoned Apple Man porque me faz acreditar que um dia também eu poderei encontrar um companheiro de verdade!

Gosto muito do que dá a conhecer de si aqui no blog!
Obrigada por partilhar connosco um pouco da sua vida!

Liliana F.