16.6.10

O outro lado

Sempre me perguntei, quando outras mulheres interferiam nas minhas relações, se elas pensavam nisso. Se se lembravam que havia uma mulher que ficaria infeliz, destroçada, com a sua intromissão. Se teriam vergonha na cara, se se perguntavam "serei castigada por isto?", se as consequências seriam uma preocupação. É que a minha primeira sensação no lugar delas, seria o medo de a vida tratar de me castigar. Bem sei que tenho aquela teoria de que a culpa não é delas, elas são livres, eles é que não, mas ainda assim pensaria nisso. Até porque o mal que fazemos aos outros volta para nós.

Nunca fui a outra, sempre me recusei. Esse respeito por mim própria nunca me faltou. Mas isso não significa que não surgisse um clima ou um sentimento mútuo por alguém quando ainda estava ocupado, ainda que em fase final. Não há formas correctas de fazer as coisas, mas há o minimizar das consequências. Se calhar é apenas um detalhe estúpido, um consolo de consciência, mas antes andar com esta leve.

E no meio de um gelado, perguntei ao homem da Poisoned Apple a razão para que a anterior namorada o apagasse de uma página social. Após três anos de inúmeras interrupções, depois da última deu-se o delete, mas ao que parece, as visitas à página pessoal continuaram.

Seis meses depois cheguei eu. Fizemos uma viagem longa, as fotos apareceram e com as fotos o choque da antiga namorada que o contactou. Pediu-lhe que ao menos tivesse respeito por ela.

Soube isto quase um ano depois e não consegui deixar de me sentir mal. Sei que não fiz nada de errado, que nada tenho a ver com o fim da relação e que, depois do fim desta, não fui certamente a mulher seguinte. Ainda assim, sentia-me mal, porque sei como é o lugar dela. Não se trata de questão de ciúmes, do acusar "agora apareceu esta rameira", o avaliar se ela é mais gira ou mais feia. É o lugar evidente que mostra "ele está feliz, não me quer mais. Acabou mesmo". E esse lugar horrível, o da constatação, é penoso. É sentir "eu não fui suficiente".

Fiz alguém sentir o que sempre condenei noutras mulheres que não se importavam. Se calhar alguma até se importou, mas a vida de cada uma tem de continuar. É, não há formas correctas de fazer algumas coisas, mas o tempo apaga a dor de algumas delas.

17 caroço(s):

Almofadas disse...

O tempo não apaga a dor, o que nós vamos fazendo com o tempo que passa é que pode ajudar ou não a transformar essa dor em algo bom para nós, útil, crescermos, ganharmos maturidade, aprendermos a tomar conta de nós e conseguirmo-nos colocar no lugar do outro, como tu agora, e perceber que no sofrimento, todos nós tomamos atitudes inconscientes.
O sofrimento além de nos fazer crescer, se bem gerido, torna-nos pessoas melhores, mais empaticas, Se mal gerido, o oposto.

Anónimo disse...

Não nos devemos conter pelos relacionamentos anteriores do outro.

Se a 3ª pessoa sofre com algo que em nada lhe diz respeito, não olhe, não veja e já não sente. Agora não pode solicitar "respeito".

Isto não deveria ser uma questão.

Gelatina de morango disse...

Sendo o mais honesta possível, nunca estive com ninguém comprometido mas isto dos sentimentos é muito complicado e nunca se deve dizer nunca.

Mas, se não conseguisse evitar por algum motivo que a razão desconhece, confesso que ia viver atormentada e com um peso gigante na consciência!

Beatriz disse...

E se a pessoa até se importar com a outra mulher mas está tão apixonada que se deixa levar? E se essa pessoa nunca fez nada de errado para prejudicar os outros e isso lhe acontece? E se essa pessoa não é a "outra" mas sim alguem realmente importante? Acho que as pessoas têm de passar pelas situações antes de julgar. Julgar é fácil. Mas isso não tão simples como parece...e nem todos os homens ou mulheres que fazem isto são pessoas horriveis que merecem ser castigadas por isso.

Poisoned Apple disse...

Beatriz,

eu nunca digo que as pessoas devem ser castigadas, o que digo é que no lugar delas teria medo de ser castigada pela vida. Não é a mesma coisa.

Eu compreendo o facto de uma pessoa se deixar levar, de o sentimento se tornar mais forte do que tudo o resto, mas nessa situação teria peso de consciência na mesma. E é disso que falo, será que outras mulheres sentiram o mesmo que eu sentiria? Sobretudo, penso que quando alguém "rouba" uma pessoa comprometida, é porque a relação não era tão forte assim. No fim de contas, sei ver que sempre que uma mulher me tirou um namorado, é porque ele não gostava assim tanto de mim.

marta disse...

No caso da anterior namorada homem da Poisoned Apple não me parece que tenhas feito nada de mal. Se houve aqui alguém a interferir foi ela, que perdeu uma boa oportunidade de apanhar um banho de realidade e seguir em frente.
Há muito tempo que não o fazia, mas ontem espreitei o perfil de um antigo namorado. Vi que agora gostava de reggaeton, que tinha centenas de amigos, mas nunca foi capaz de me adicionar como amiga, nem sequer quando namorávamos (que anedota).
(O que é que eu estava a fazer com ele, mesmo?)

Allie disse...

Se vamos a pensar em todas as pessoas que podem sofrer por sermos felizes, ninguém seria feliz neste mundo. A única coisa a reter é que não foste tu que provocaste o fim da relação anterior. E mesmo que estivesses com ele sem ele ter terminado a relação anterior, mais uma vez a responsabilidade maior era dele. O papel da "outra" não é bonito, não é fácil, e nunca é feliz. Sabendo a verdade (que ele era comprometido) nunca fui a "outra". O mal é quando o somos e nem desconfiamos disso. E para não haver desconfiança da nossa parte a pergunta a fazer é: qual o papel da "oficial" na relação, se o namorado/marido/ companheiro consegue manter outra?

Mi disse...

Nada é linear. Mas eu acho que, seja por que motivos for, uma mulher andar com um homem comprometido, o principal culpado é o homem. Ou, no caso da situação inversa, a mulher, claro. Acho que nunca devemos pôr as "culpas" ou o que quer que seja na outra pessoa...
kiss

Equilibrista disse...

Eu já fui a outra.
Sim, senti-me pessimamente por causa da namorada do rapaz em questão. Sempre agi bem em tudo na vida e tenho sempre em consideração
os sentimentos dos outros e acredito piamente no amor e na honestidade, não sou uma pessoa de quem se esperasse uma atitude dessas.
Não há nada que justifique uma traição, porque eu sou da opinião de que nós temos controlo total e absoluto sobre tudo o que fazemos. Afinal, é isso que nos distingue dos restantes animais.
Mas não temos controlo naquilo que sentimos, e aí é que reside o problema nestas histórias.
No meu caso, foi uma história de amor que teve um péssimo timing. Apaixonámo-nos.
Se devíamos ter esperado que ele se separasse para iniciar a nossa relação? Devíamos.
Mas aí aparece outra questão: onde é que começa a traição? No acto?
Ou na nossa cabeça?

Equilibrista

Equilibrista disse...

Eu já fui a outra.
Sim, senti-me pessimamente por causa da namorada do rapaz em questão. Sempre agi bem em tudo na vida e tenho sempre em consideração
os sentimentos dos outros e acredito piamente no amor e na honestidade, não sou uma pessoa de quem se esperasse uma atitude dessas.
Não há nada que justifique uma traição, porque eu sou da opinião de que nós temos controlo total e absoluto sobre tudo o que fazemos. Afinal, é isso que nos distingue dos restantes animais.
Mas não temos controlo naquilo que sentimos, e aí é que reside o problema nestas histórias.
No meu caso, foi uma história de amor que teve um péssimo timing. Apaixonámo-nos.
Se devíamos ter esperado que ele se separasse para iniciar a nossa relação? Devíamos.
Mas aí aparece outra questão: onde é que começa a traição? No acto?
Ou na nossa cabeça?

Equilibrista

martitha disse...

Apenas fizeste aquilo que te pareceu bem, não podes condicionar a tua vida pelo passado dele. Todos temos um passado e não vamos deixar de ser expontâneos por causa disso. Ela tem de se habituar à ideia que ele deu o passo em frente e ela também deve dar. Beijos

Caia disse...

Os sentimentos são deveras estranhos e imprevisíveis.
Mas uma coisa que tenho reparado, é que os homens se deixam muito levar, mesmo tendo um bom relacionamento (estável).
Gostam de atenção, de "conversa", ficam embevecidos com raparigas assim. Pode não passar de um clima, mas custa a quem fica de fora a assistir e finge que não vê! Deve ser por lhes fazer bem ao ego...
Depois, namorar com uma rapariga assim... isso é outra história. Ah pois, porque "nas minhas costas vejo as dos outros".

Ophelia disse...

Eu até percebo o que a MI disse mas pôr as culpas na outra pessoa pode ser uma forma de escondermos o que se pensa, lá no fundo, ser o nosso próprio fracasso.
Eu nunca fui a outra mas a ex-namorara do meu babe apelidou-me de tal. Foi muito mais fácil para ela dizer que estava tudo terminado por causa de mim do que admitir os próprios erros na relação.
De qualquer forma cada caso é um caso e realmente nunca nada é assim tão linear.

Gisa disse...

Muito interessante seu texto. Há sempre alguém que se identifica com um lado ou outro. Visito sempre seu blog, gosto do título dele e do que você escreve. Um abraço.

Madame Butterfly disse...

Já pensei da mesma forma até ao dia em que a vida me pregou uma partida eu passei a ser "a outra". De consciência pesadíssima, é claro, mas ainda assim egoísta o suficiente para passar por cima disso e fazer o que o instinto me mandava.

A determinada altura percebi que a situação não se podia manter por mais tempo e acabei por sair dela. Mas confesso que o fiz unicamente por mim e não por ela.

Cate disse...

Penso exactamente da mesma forma que tu, Poisoned Apple. Há sempre o medo de que, mais cedo ou mais tarde, a vida nos venha castigar.

Mas cada caso é um caso. Há quem se envolva com outra pessoa porque a relação actual já não lhe traz nada (e eventualmente acaba por ganhar coragem de a abandonar), mas há quem se envolva por ser traidor/a quase que por natureza. Há quem tenha um talento natural para enganar, só porque lhe dá prazer. Uma grande amiga minha foi traída durante muito tempo pelo namorado. Vá-se lá saber porquê ou como, ele conseguia dar-lhe a volta e fazê-la crer que já tinha abandonado "a outra". Esta então, sempre desafiou a minha amiga, provocando-a em todos os locais onde se encontravam. E quando eu pensava nisto, perguntava-me se ela não sentiria um mínimo de peso na consciência por estar a fazer aquilo a outra mulher. Acho que é porque é loucamente(!) apaixonada pelo (agora ex) namorado da minha amiga. Felizmente, a minha amiga hoje namora com um rapaz impecável, enquanto que o namorado traidor anda com a outra (e com outras ao mesmo tempo, mal sabe ela que a vida já a anda a castigar).

A Chata disse...

Sempre fui o tipo de mulher que dizia: ser a outra? nunca! Pois é, nunca digam nunca!

Meti-me no meio de uma relação de 14 anos, casamento de 4 e com uma filha de 4 meses. Durou um ano e pouco. Inicialmente, não quis estar com ele, sentia culpa, peso na consciência, mas depois passou, não o posso negar. Porque ele é que fez votos de fidelidade, ele era o casado e pai de uma bebé. Actualmente, a mulher está grávida, ele continua a dizer que me ama e a querer estar comigo, a dizer que sou o grande amor da vida dele e que me está a desperdiçar mas volta sempre para casa no fim do dia. Quem é mais enganada, eu ou a mulher? Quem sofre mais, eu ou a mulher? Demiti-me do emprego para não o ver mais, visto que já tentei pôr um ponto final na relação várias vezes. Agora, só quero esquecer, mesmo com ele a insistir para nos vermos, arranjar um emprego que me ocupe a cabeça e me faça ganhar juízo... Um amigo meu disse-me , quando lhe contei que ela estava grávida: Mas continuares com ele é moralmente errado! Não o senti, apesar de saber que até pode ser mas não me sinto mal pela mulher dele. Quem prometeu fidelidade não fui eu... Nunca culpem só a outra, por muito que ela até possa ter cara de porca!
Terei que ser castigada?