28.6.10

Consultório #26

"Olá Poisoned Apple!

Antes de mais quero dar-te os parabéns pelo teu blog, pela tua humanidade, valores e por aquilo que pareces ser. Gosto do teu blog que acompanho há perto de um ano e também das opiniões que vais dando por lá. Hoje decidi que seria eu própria a pedir-te uma opinião, uma vez que por vezes fico confusa e gostava de expor a minha história a outra pessoa que fosse de fora e me pudesse dar uma opinião mais imparcial.

Tenho 33 anos e namoro com um homem de 36 anos, há quase um ano. O problema é que ele mora no Porto e eu em Aveiro e isso dificulta um pouco as oportunidades de nos vermos. A juntar a isto, trabalho na zona de Santarém e como tal, só venho a casa aos fins-de-semana, de onde acabo por ir depois para a cidade dele para nos vermos, onde ele tem casa (e eu não).

A questão é que muitas vezes me aborrece que tenha sempre de partir de mim a acção de pegar no carro e ir ter com ele - mais raras vezes, comboio - depois de ter feito cerca de 600 km para trabalhar.

Ele, por vezes, vem cá buscar-me mas sou sempre eu que lhe peço para o fazer ou eu que lhe chamo à atenção que estou cansada das viagens. De modo que é assim, não lhe vejo grande iniciativa de fazer as coisas por ele e quando chega ao fim-de-semana acabo sempre por ser eu a ir ao seu encontro. Nunca me diz por ele "hoje vou aí buscar-te". Ir ter comigo ao sítio onde trabalho também está fora de questão pois ele tem um carro muito velho que não está em condições de fazer grandes viagens.

No que toca à nossa relação corre tudo mais ou menos bem. Ele demonstra vontade de estar comigo, que venhamos a viver juntos e que façamos uma vida em comum. No geral, é uma pessoa pouco faladora, um pouco distante, irrita-se com facilidade mas, em certos momentos demonstra gostar de mim e preocupar-se comigo. Já tivemos muitos problemas e discussões, mas temos ultrapassado tudo. Um dos primeiros foi o facto de eu ter querido comprar casa com ele, namorávamos há 3 meses (cedo, eu sei) e ele ter preferido comprar sozinho, tendo-o feito na cidade dele, a 200 metros de casa dos pais e sem ter participado na escolha da casa. Claro que sempre me disse que a casa seria para nós e que mais tarde compraríamos outra, essa sim em conjunto.

Estou muito confusa e gostava que dos dados que te dei, me pudesses dar uma opinião. Obrigada e beijinhos".

Olá!

Obrigada pela sua mensagem e elogios! :)

A primeira pergunta que me coloquei e à qual não me parece enviar resposta é: mas por que é que ainda não vivem juntos?

Namoram há um ano, têm a idade que têm, o que é que vos impede? Se me responder que é o trabalho, então aí o trabalho impedir-vos-á o resto da vida. Tem de pensar se quer viver para trabalhar ou trabalhar para viver. Bem sei que o estado da nação não é o melhor, mas chegou alguma vez a procurar trabalho junto dele? Falam em viver juntos quando, aos cinquenta? A idade que têm é aquela em que a maioria das pessoas começam a "assentar arraiais", a construir a vida em comum e constituir família. É óbvio que isto não é regra e podem sempre fugir às convenções sociais, mas isso nunca lhe passou pela cabeça?

Lamento, mas acho um pouco estranho que um homem de 36 anos demonstre vontade de vir a estar consigo. Um dia, lá longe? Estava aqui a pensar na minha situação (e consciente de que não somos todos iguais!), quando eu morava no centro de Lisboa e o homem da Poisoned Apple na periferia. São uns 15 Km de distância e ele perguntava-me quando me mudava de vez, que andava sempre de um lado para o outro, não dormia sempre em casa, muitas vezes ele chegava a casa eu não estava e isto era situação que ele não queria, queria estar mais perto e fez saber isso mais do que uma vez. Se trabalhasse a quilómetros de distância, não imagino como seria. Claro que a palavra final seria sempre minha e, neste caso sua, mas vê nele vontade que essa vida que têm agora acabe de uma vez por todas para ficarem juntos?

Por aquilo que me descreve parece-me um homem confortável com a situação em que se encontra: tem tudo e não se chateia com nada. Não tem de se deslocar, está sempre no seu lar, a namorada vai lá ter todos os fins-de-semana, já nem precisa de perguntar, está garantido, e nem tem de gastar horas no trânsito ou no comboio, fortunas em combustível, que você trata disso. De resto, tem a semana toda para ele, faz o que quer. Eu não estou a dizer que ele não gosta de si, mas com base naquilo que me descreveu não me parece que exista iniciativa e muito menos um empenho do outro mundo. Parece-me uma pessoa conformada.

No que respeita à compra da casa em conjunto, isso não me choca nada. Eu sempre disse que nunca quereria comprar casa em conjunto com alguém. Já vi demasiadas cenas com a divisão de bens quando há separação, fora os anos que se arrastam para que essa divisão seja efectuada. É óbvio que quando uma pessoa se casa ou junta não vai a contar que se vai separar, mas isto é como as bruxas, que as há, há! E tenho a sorte de ter ao meu lado um homem que pensa como eu. Assim, a casa é dele, não pago um tostão de nada que esteja relacionado com a casa, depois no que respeita às despesas do dia-a-dia temos uma conta conjunta que usamos para pagar contas e vivemos confortavelmente com isso. Não estranhe, no fundo acho que é apenas uma questão de feitio, uma adaptação aos dias que correm.

Não pude deixar de notar em algo que parece passar ao lado, mas não passa. Sobre ele e a vossa relação escreveu: "a nossa relação corre tudo mais ou menos bem. Ele demonstra vontade de estar comigo, que venhamos a viver juntos e que façamos uma vida em comum. No geral, é uma pessoa pouco faladora, um pouco distante, irrita-se com facilidade mas, em certos momentos demonstra gostar de mim e preocupar-se comigo".

Já reparou que não lhe atribuiu um único elogio? Já reparou que tudo é "mais ou menos"? Mais me intrigou a afirmação "em certos momentos demonstra gostar de mim e preocupar-se comigo". Em certos momentos é às vezes, de vez em quando, de quando em vez, uma vez por outra, ou seja, não é um hábito. Se havia coisa que eu sentia em relações anteriores que me incomodavam era isso mesmo, eu estava sempre disponível, sempre presente, nunca ficava em falta, investia tudo o que tinha e do outro lado não era tanto assim. Não me sentia em primeiro lugar, e parece-me que é isso que sente também. Hoje, felizmente, a minha vida já não é assim, é o oposto de todas essas sensações que deixam a desejar. O que lhe quero dizer com isto é que é possível ser o primeiro lugar, isso existe!

Diz-me que se sente confusa, mas confusa com o quê exactamente? Calculo que seja não saber realmente o lugar que ocupa e a importância que tem na vida dele, que é também isso que me pergunto pelo que descreveu, mas nessas coisas não há nada como a observação e quando essa não chega, o diálogo. Se não lhe explicar preto no branco como se sente, não me parece que ele lhe vá dar resposta. E essa resposta, já se sabe, pode ser qualquer coisa.

Outra coisa que não deve esquecer é que muitas relações vão funcionando à distância, ao fim-de-semana, mas depois o dia-a-dia é que são elas. Nem sempre é fácil viver em conjunto, há momentos fantásticos, mas também os há não tão simpáticos. Na minha experiência, na soma de todos os momentos, não trocava o que tenho agora por coisa nenhuma e parece-me que é isso que define uma união feliz. Por enquanto é assim, quero que seja assim sempre, mas nunca sei o dia de amanhã, só sei que posso trabalhar para isso. Por isso, se se decidir a mudar de malas e bagagens, de trabalho, da cidade onde vive, acho que faz lindamente, mas só se tiver certezas da parte dele, se se sentir emocionalmente segura. Se o homem da Poisoned Apple tivesse de mudar de local de trabalho, eu sei que ia com ele, sem saber o futuro, mas sabia do presente, que é esse que vivemos agora.

O que quero dizer é que garantias nunca as há, mas o coração sabe sempre qual a melhor opção a tomar. Olhe para dentro de si, dialogue, tenho a certeza que vai encontrar a resposta. Percebo que tenha medo do que pode ouvir, mas esse medo é um travão na sua vida que não lhe vai trazer felicidade nenhuma, vai apenas trazer-lhe estagnação.

Beijinhos!

3 caroço(s):

Allie disse...

No fundo, acredito que a autora da carta sabe a verdade. A confusão só existe quando temos medo de deixar o que já é conhecido e arriscar na incerteza. Quando só conhecemos relações mornas, é difícil acreditar que podemos encontrar uma pessoa que nos preencha por completo. Mas se formos honestas e verdadeiras com o nosso eu, as coisas correrão bem melhor. Não devemos ter vergonha de assumir o que queremos para a nossa vida.

Cate disse...

Tens tanta razão, Poisoned. Mas eu acho que a autora desta carta já sabe perfeitamente que está com uma pessoa acomodada e talvez com pouco interesse em mudar a situação. Espero que não tenha medo de dizer o que sente, pegar o touro pelos cornos e enfrentar a realidade. Pode ser que até se surpreenda. Se não for o caso, espero que tenha a coragem de arriscar e mudar. Pelo bem dela.

FAQ(er) disse...

Sejamos directos: cresce uma espinha dorsal e deixa o pamonha.