22.6.10

"Ai que nojo" e "Ai que vergonha"

Lembro-me com gratidão do som de sirenes histéricas e dos rotativos ligados, dos velhinhos que não aguentavam o intestino, vítimas de AVC, e da boca ao lado que dispensava apresentações; lembro do rapaz, tão novo e tão magro, nu, que se arrastava pela pedra fria do chão, em Dezembro, em convulsões sucessivas, do sexo que não parava de abanar e da chuva torrencial. Do homem que viu a mulher cortada ao meio pela cintura, filhos que ficaram sem mãe tão perto do Natal, das conversas via e-mail na noite em que chegava o Pai Natal, dos elogios mais rasgados por ficar por perto, da caixa de chocolates que recebi de presente por ter feito tanto, mas nada mais que aquilo a que o coração me obrigou. Diga à sua mãe que criou uma filha extremamente generosa, e os olhos da minha mãe em água ao ler as palavras escritas pelo homem viúvo.

Da I. agarrada a um balde de praia, de lágrimas nos olhos da humilhação, do cheiro insuportável, uma situação inevitável, o carinho e atenção que me foi possível dar e as toalhitas que ia passando. Lembro das fraldas que mudei, dos orifícios besuntados com Halibut, das caganeiras dos meus primos, e dos vomitados cheios nas mãos em forma de concha em viagens para o Algarve. Do senhor para onde corri à velocidade da luz, agarrado ao peito, nu numa sala cheia de gente, do eco da família ele vai ficar bem?, e do jacto de urina que se perdia no ar. Vítimas de acidente de viação com erecções não é tesão, é lesão medular e há quem tenha de ver um desconhecido nesses preparos. E também lembro do que se atirou da janela, por amor, ou por um amor destroçado, que sem ténis era capaz de matar uma equipa inteira tal era o cheiro. E dos genitais desconhecidos virados para mim, cheios de pêlos, os lábios vaginais que afastei para ver se a cabeça de um bebé estava para chegar ou não.

Ai que nojo!, ninguém quer dizer? Ainda tenho a versão ai que vergonha!, para quem quiser agarrar.

Para mim os vomitados, os rabos, os cocós, os gases e os orifícios têm a importância que cada um lhes quiser dar. E para mim tem tanta importância como tudo o resto que faz parte de nós. Assim como um bracinho.

18 caroço(s):

Rita Maria disse...

Vinha aqui só porque ontem vi nao sei onde alguém a gozar com o teu post anterior, que achei tao engraçado, mas vejo que já puseste tudo no lugar.

Às vezes penso como é possível que esta gente tenha uma vida sexual activa e um dia pense ter filhos se ainda etá na fase do "Aaaahhh, cocó"...

Rita Maria disse...

PS:Depois de ir ler os comentários - Adoro as pessoas que querem definir o grau de intimidade adequado aos blogues dos outros (??!!)

a mulher certa disse...

Pronto, tens razão. Os outros é que são estranhos.

Cate disse...

Hm, apesar de tudo, acho que não foi muito boa ideia ler este post enquando almoçava.

Marta Inês disse...

Sabes que isso não me faz diferença nenhuma?
É daquelas coisas que me assustam ao primeiro segundo, mas no segundo seguinte já estão assumidas dentro de mim e tornam-se em coisas tão naturais como beber água.

O meu namorado faz tanatopraxias e eu adoro ouvi-lo a contar como é que se faz.São coisas que tenho curiosidade em experimentar.

Mas ao mesmo tempo consigo desmaiar quando vejo alguém a esfolar um coelho e não sou capaz de ver touradas.

beijinhos*

R* disse...

A mim, tudo o que escreves-te, causa-me medo. Medo daquilo que nao podemos controlar. De resto, é perfeitamente normal. Acho, que é das coisas mais normais na vida de uma pessoa.

Anónimo disse...

Já faltava um pouco de humor escatológico neste blog. Numa destas tardes, dormitava no sofá com uns calções mínimos, perdida entre o sono e a realidade, o Poisoned Apple Man desceu de andar para me deixar um beijo na barriga quando… já era tarde demais!

Tinha acabado de dar um peidinho inocente, coisa de criança, que o homem veio a engolir. Ainda dei um grito, mas não o parei a tempo. E ficou preso no andar de baixo, agarrado ao peito e à garganta, com olhos de enforcado e emitindo sons dignos de um gato que deseja regurgitar um bola de pêlo. No meio daquele sons, consegui ouvir um sumido:

- … engoli um pum…!

Claro que comecei a rir histericamente, mas para ele parecia não ter graça nenhuma. Proferiu umas ameaças quaisquer e o assunto ficou esquecido.

À noite, saímos para jantar. Já ia a entrar no elevador quando ele percebeu que se tinha esquecido da carteira. Voltou atrás para a ir buscar e, eu, que estava sozinha (notem que estava sozinha!), dei mais um pum no elevador. Convenhamos que, do ponto de vista intestinal, estava a ser um dia muito difícil para mim. Ele regressou:

- F#$%&!!! Já me viste este cheiro? Havia necessidade de ir a levar com este cheiro até à garagem?

Caríssimo leitor, eu nem conseguia falar de tanto rir. Não é o peidinho que tem graça, é a expressão do Poisoned Apple Man. Lá chegámos ao carro, abriu as janelas e disse que estava proibida de me peidar sem o avisar. Censura. Acho inadmissível.

Quando regressámos a casa, ia a entrar no elevador, mas fui empurrada. A vingança tinha chegado!

- Agora vais ver!!!

Abriu as pernas, agachou-se uns poucos graus, equilibrou-se encostando as palmas das mãos às paredes do elevador e foi vê-lo rodar a anca o mais que podia.

- Cheeeeeeira! Agora vais cheiraaaaaaaar!

Aquele movimento circular de anca era digno de travesti. E era nauseabundo. Ali estava eu numa digna câmara de gás nazi. Pedi a Deus que fizesse subir seis andares o mais depressa possível, virada para um canto do elevador em apneia.

Eu não merecia.

Helena Barreta disse...

É verdade, nessas situações o pudor não tem lugar.

Quando me vi, deitada numa cama de hospital, vestida com uma bata que deixava à mostra quase todo o corpo, "presa" à cama, aos fios e máquinas necessárias e precisei de usar a arrastadeira, passou-me a vergonha e o pudor. Teve que ser. E depois, quando já me levantava e não chegava a tempo à casa de banho, porque os passos não acompanhavam a força dos medicamentos, da anestesia e de tudo nos intestinos? Valeu-me uma irmã, mas se não, eram as enfermeiras e auxiliares.

Também sou e era muito zelosa de mim, mas nestes ambientes, aprende-se a conviver com estas coisas e a darmos valor à vida e às pessoas, a entreajuda é indispensável.

Quem diz "ai que nojo" e "ai que vergonha" é porque nunca esteve num hospital, ou numa urgência ou num centro de idosos.

Um beijinho afectuoso

Um gajo qualquer... disse...

Este post é intenso... muito intenso!!

Pi disse...

Minha querida "Maçã", e agora disseste tudo. E como diz a Rita, caramba, "puseste tudo no lugar".

Chega a ser confrangedor pensar que tipo de pessoas são aquelas que se intimidam com um post bem humorado, descontraído e descomplexado, como o anterior.

A condição humana fere susceptibilidades. Infelizmente.

Grande beijinho

Pi*

Joao disse...

Quero reforçar o que já foi escrito aqui. Que este texto é intenso. E que é profundo. E que não me deixou indiferente. Há dias em que se lê muita merda nos blogs, mas hoje e aqui, não. Obrigado.

Poisoned Apple disse...

Anónimo, impaciente criatura de Deus, quanto ao texto que insiste colar nos comentários porque não tem nada para fazer, eu passo a explicar:

No dia em que o escrevi o blogger parecia ter vida própria e não admitiu a data de agendamento, colocando-o on line. Com muita paciência, lá o consegui retirar e estava agendado para daqui a umas semanas. No entanto, como está tão impaciente, vou deixá-lo nos comentários para que esfregue a barriga de contente. E mais! Vou reagendar o texto para sair já amanhã! Contente? Vá, diga lá se não sou uma querida!

Softy Susana disse...

Ó Poisoned,
(desculpe a intimidade, mas acho que jamais me vai levar a mal)
e mandar esta gente da família "Anónimo" ir levar no sítio onde não se observam a lombrigas a olho nu? Xi, pá, isso é que era!!! Estas pessoas não só não têm vidinha como nem sequer se tocam e nem vêem o ridículo por que passam com estas "entradas"... Xi, pá... nervinhos!
Ide para o sítio onde não se observam lombrigas a olho nu! (sim, porque "cu" pode parecer mal, que as mentes são tão sensíveis...)

S* disse...

Ahhh... a ideia é gira, mas as imagens nem por isso.

SN disse...

Como sempre, GRANDE MULHER!

Joana Rosa disse...

Ena...nota-se mesmo que gostas daquilo que fazes!
Isso é a melhor coisa que pode acontecer! Principalmente quando recebes palavras iguais às daquele senhor viúvo...deve ser gratificante e faz-te sentir de certeza que todo o esforço vale a pena!
:) Parabéns, existem muito poucas pessoas como tu!

Juanna disse...

lololol
Cada um é como é. Eu não suporto dar peidos ao pé de ninguém e também não gosto que o façam ao pé de mim. Mas que é normal, é.

Pipi disse...

Olá Poisoned,
tem sido gratificante ler os teus posts. É bom saber que alguém, como nós, partilha a noção de que a vida, a vida a sério, também é feita de coisas sujas. Ou talvez seja que a verdadeira sujidade não está nessas coisas...

Pipi das Meias Altas