26.5.10

Consultório #24

"Olá!

(...) Namoro com um rapaz há dois anos. Ao fim de oito meses de namoro decidimos morar juntos. Na altura ele estava no primeiro ano do doutoramento e eu no primeiro ano do meu pós-doutoramento. Como sempre acontece, no início tudo correu muito bem. No entanto, desde o início deste ano/ fim do ano passado ele tem estado muito distante, alheio a mim... Inicialmente tentei afastar este sentimento de mim, mas ao fim de algum tempo não aguentei mais e perguntei-lhe se estava tudo bem, qual o motivo do seu distanciamento. Ele inicialmente negou tudo, disse que na sua perspectiva estava tudo bem, que não percebia o motivo das minhas perguntas... Mas há cerca de três semanas ele finalmente admitiu que também sentia esse distanciamento entre nós.

Basicamente disse que o facto de morarmos juntos não estava funcionar, que neste momento precisava de se dedicar ao seu trabalho, que isso vinha em primeiro lugar. No entanto, que continuava a amar-me. Ou seja: que me ama mas que não quer morar comigo. Nós estamos os dois deslocados, longe das nossas famílias. E ele tem estado a fazer um esforço financeiro muito grande e o trabalho nao tem corrido nada bem... penso que seja esta a pressão que ele refere... eu tento compreender mas fica difícil ouvir que eu e a nossa relação está em segundo plano na sua vida neste momento.

Estamos prestes a mudar de casa agora no início de Junho, cada um para a sua. A ideia é tentar ver no que isto vai dar... Às vezes sinto que desde que tivemos a tal conversa as coisas melhoraram um pouco. Mas mesmo assim tenho medo de perder o respeito por mim própria ao aceitar uma situação que nao me faz totalmente feliz só com medo de estar sozinha... Sinto-me disposta a tentar mas tenho muitas reticências...

Alguma ideia?

Obrigada pela ajuda".


Olá M.,

gostava de começar esta resposta com paninhos quentes porque eu não quero imaginar o sofrimento do que tudo isso provoca. Mas não posso e vou pegar na frase que usou, o que significa que no fundo sabe a resposta: aceitar tal medida é perder o respeito por si própria. Mas calma, este é o meu ponto de vista. É livre de ter outro contrário.

Eu jamais aceitaria tal coisa, mas isso não significa que não possa ou não deva aceitar, se se sentir confortável com isso. No entanto, dado que me escreveu, não me parece que se sinta por aí além confortável.

Homens que dão a desculpa do trabalho, há-os aos montes. Aparecem que nem paezinhos quentes na padaria logo pela manhã. O aproveitar-se da temática "trabalho" é até uma coisa que já mete nojo. E é insultuoso, não é preciso ser-se génio para ir montando algumas peças. Ora acompanhe-me:

1. Ao fim de 8 meses decidiram viver juntos. Não sei se foi um pedido que partiu dele, mas seja como for, houve uma decisão, uma vontade.
2. Estava distante. Confrontou-o. Disse que era um disparate. Afinal era verdade.
3. "Ai, preciso de me dedicar ao trabalho, está tudo muito mal", ou seja, não só a M. não é nem mais nem tão importante como o trabalho, como ele nem a toma como refúgio, porto de abrigo, o colo para onde foge ao fim do dia e esquece tudo o resto.
4. Diz ele que continua a amá-la. Veja se isto soa bem: "viver contigo não resulta para mim, mas eu amo-te", "não quero mais viver contigo, mas eu amo-te", "quero chegar a casa e ver que não estás cá, mas eu amo-te", "o trabalho é para mim mais importante do que tu, mas eu amo-te", "quero-te mais longe, mas eu amo-te". Não soa bem pois não? A mim também não.
5. Ele está a fazer um esforço financeiro e sugere-lhe que saia de casa. Ou seja, as despesas vão aumentar, já que deixam de ser divididas.
6. Estão os dois longe de casa, noutro país. Mais uma razão para se apoiarem um no outro e quererem viver juntos.
7. As pessoas namoram porque querem estar juntas. Vivem juntas porque gostam uma da outra, vivem juntas para ver se casam, ou melhor, se ficam juntas. Casar não é fundamental. Temos aqui uma escadinha, uma sucessão de decisões, faz sentido voltar atrás?

Eu compreendo o medo de se sentir sozinha. Oh, se compreendo. Esse é um mal de que padeço muitas vezes. Mais do que o medo de me sentir sozinha, é o medo de perder o que me faz feliz.

Vou contar um segredo que nunca tinha contado antes a ninguém. Vivia com o homem da Poisoned Apple há dois meses quando um dia o achei esquisito. Perguntei o que se passava, não era nada - nunca se passa nada! Apertei com ele e percebi que se sentia desconfortável, estranho, nunca tinha vivido com ninguém, estava a stressar com isso e outras coisas que não deve ter confessado. Este tipo de coisas é coisa que não compreendo, mas tenho de respeitar. Respeitar não é o mesmo que aceitar e, assim, quando voltou a olhar para mim eu estava a fazer malas.

Eram duas da manhã e eu a carregar o carro, sem abrir a boca.

Logo voltou de roda de mim, a dizer que não era isso que queria, que estava arrependido e pediu-me que ficasse. E repetia-se enquanto levava malas para dentro e eu as levava de volta para fora. Não houve gritos nem discussões de morte, mas eu disse-lhe que não conseguia dormir ao lado de um homem que queria estar comigo a meio-gás. Eu não queria e continuo a não querer a felicidade pela metade. Ou tenho tudo ou não quero nada, porque isso significa viver de migalhas e eu já vivi de migalhas muitas vezes na vida para saber que não me enchem a barriga!

O que é que ele precisava? Uma estalada de realidade. Saber que não pode pôr e dispor. As pessoas educam-se e eu digo sempre: as pessoas só vão até onde lhes for permitido. E foi remédio santo, nunca mais teve uma travadinha destas e sabe que não estou para aturar este tipo de dilemas que, que eu saiba, nunca mais se repetiram. Se me quiser ter, tem-me por inteiro, mas filmes não. Eu não aceito retrocessos, para mim, caminhar, é para a frente. Posso ter altos e baixos, mas mesmo nos baixos sei que gosto dele e é isso que também espero dele.

Um dia destes, um amigo que namora há pouco tempo, contou-me que praticamente vive junto com a namorada, apesar da relação ter menos de um mês. Dormiam sempre juntos, ou na casa dele, ou na casa dela. Pediu-me opinião e eu suspirei: quem sou eu para dar opinião se praticamente comecei a viver com o homem da Poisoned Apple ao fim de uma semana? Vendo as coisas de fora digo logo que é muito cedo, mas depois acho que se chega a uma certa idade, sabe-se o que se quer, sabe-se o que se sente e não faz sentido de outra maneira. Muitas vezes afirmei que achava horrível quando uma mulher se ia mudando para casa de um namorado aos poucos, cheirava-me a imposição, a "já não te livras de mim". Olha quem, sem ter noção disso mudei-me aos poucos, ouvia-o dizer "traz já tudo para casa", morri de medo, continuo a ter medo, mas estou como quero e a minha opinião quanto a estas coisas mudou completamente.

Aquilo que fiz numa noite de madrugada é fácil de escrever, mas não foi fácil de fazer. Os tomates que eu tive de ter para tomar esta atitude... nem me quero lembrar. Mas consegui fazê-lo porque estava cansada de ser infeliz. Eu sabia que a seguir a isso, no meu coração só cairia sofrimento. Afinal, nunca poderia deixar de vê-lo como "o homem com quem vivi uns tempos mas preferiu que fosse namorada ao longe". Isso para mim é o mesmo que pensar: gosta de mim, não muito para viver comigo, mas o suficiente para conseguir ser namorada. As tais migalhas.

M., eu não sou ninguém para lhe dizer o que deve fazer. Apenas posso dizer-lhe que isso também me soa a "preparação". Depois disso quer-me parecer que virá mais. Tenho muita pena, mas acho mesmo que a ele lhe está a faltar coragem de tomar uma decisão final e está a arranjar forma de facilitar a vida à procura de um "assim custa menos". Mas se estiver enganada (espero!), só tem de reflectir se se sente confortável com a medida que ele tomou, e da qual não partilha. Se achar que sim, então continue.

Ao escrever este texto e lembrando as relações mais longas que conheço, há algo em comum: nelas existe uma mulher que vai à frente e comanda as tropas, não deixa nada por conversar, põe os pontos nos "i" e não deixa passar nada em branco. Isto é tornar a comunicação, um pilar tão importante numa relação a dois, em prioridade. Espero tornar-me numa mulher dessas, trabalho para isso, mas é certo que dá muito trabalho.

Depois conte-me como correu e/ou, se quiser, volte a escrever-me antes disso.

Beijinhos,

16 caroço(s):

buttercup disse...

olá, não deixou de me chamar a atenção....
eu namorei com uma pessoa 5 anos e ao fim de 4 e meio resolvemos morar juntos. compramos casa.... era uma lua de mel diaria eramos feitos um para o outro... ao fim de uns meses de mrar mos juntos tive de udar de horario de trabalho e fiquei com um horario que me ocupava os domingos e de semana até as 22 hrs.... ao fim de um mes de trabalho o meu "namorado" começou a afastar-se começou a deixar de me procurar... axei estranho, mas como a vida não estava a correr da melhor maneira, dei o espaço que ele precisava...
No dia dos namorados axei k tb merecia alguma atenção fiz um jantar especial preparei td... langerie... e ele adormeceu... fikei piursa,mas ainda nakela de dar o benefico da duvida ainda pedi atenção no dia a seguir e ele nem me apareceu a frente, kd lhe liguei inventou uma serie de mentiras (que desconfiei na altura, mas só agora as confirmei).
depois disso foram 3 dias para ele me dizer k tava farto que queria a vida dele de volta e que não estava bem assim....
o Sr. disse isso mas sair de casa nada... de dia andava sabe deus onde e à noite era cmg que ia dormir (e a estupida com esperança que ele pensasse melhor deixava). uma semana apos esta brincadeira aqui a menina arrumou o lixo lá de casa e foi pa casa da mae...
ele nc se arrependeu... mas tb nc me deixou seguir a minha vida... andava sempre atras de mim....
Quando finalmente abri os olhos, encontrei uma namorada gravida...

Até hj para tudo e todos eu destrui a vida dele... a casa ainda esta a venda... não csg livrar me dele de maneira nenhuma... e já la vai 2 anos....

MAs agradeço a ele o facto de ter ido embora pk pessoas cm ele eu kero longe.... tou mto feliz tenho um namorado fantastico e tou a tentar engravidar.... mais feliz que isto é impossivel...

Pensa bem.... pk uma relação a 2 quer dizer 2 em que nada é mais importante do que um para o outro... agora sei o k é isso...
Boa Sorte

B. disse...

Apple,

Diseste tudo...recebemos o amor que achamos que merecemos. E duvido que haja mulher que mereça migalhas...ou querem ou não querem!!

Facil falar, dificil fazer!

Kiwi da Margem Sul disse...

Concordo com tudo excepto com "Vivem juntas para ver se casam". As pessoas vivem juntas porque se amam. Se tudo é uma escadinha, depois de casar vem o que?

Poisoned Apple disse...

Kiwi da Margem Sul,

concordo consigo, na altura em que escrevi o texto não consegui explicar-me melhor. Alterei o ponto 7 de forma a explicar-me melhor.

Anónimo disse...

Olá, namorei 9 anos e vivo junta há 2. E posso dizer-te que nem sempre é fácil, quer para mim quer para ele, é preciso gostar muito da outra pessoa para se dividir um espaço. Costumamos conversar sobre isso e dizemos muitas vezes que namorar tinha muitas coisas boas que se perderam quando fomos viver juntos. E agora percebo porque é que muitas pessoas namoram anos e quando se casam acabam por se divorciar em pouco tempo. Ou se tem um objectivo de vida comum ou é muito dificil que a coisa resulte.

Andreia

Anónimo disse...

hoje senti me tentada a comentar,gosto dos seus textos apetecer de em alguns assuntos n ter o mesmo ponto de vista,mas compreendo.hoje talvez porque a sua resposta me diz muito nesta altura da vida e dei um pulo da cadeira quando li;"vivem para casar",nunca quis nem quer casar,mas dentro de uma semana estarei a viver com....nem sei o q lhe chamar,amigo colorido,amigo especial..pela primeira vez na vida tomei uma decisão sem pensar no que vem depois,e muito sinceramente hoje com o seu texto entrei em pânico,peço desculpa pelo desabafo.eu acredito que qlq relação deve ter por base mais que a sinceridade eo dialogo n devemos nunca mas nunca deixar de ser leais à nosso pessoa.

Marabunta & Framboesa disse...

Olá! Se calhar essas duas pessoas ainda não estavam prontas para dar esse passo ou então os obstáculos que foram surgindo estão a ser mais fortes que a vontade e o amor.
Há duas hipóteses:
1 - Estão os dois a 100% nesta relação e falam até descobrirem uma maneira de resultar

2 - Separam-se, vai cada um para seu lado com as suas prioridades e continuam amigos.

Uma coisa é certa: O MAIS IMPORTANTE É A NOSSA FELICIDADE E DARMO-NOS AO RESPEITO!

Sejam felizes :)

bjs

Poisoned Apple disse...

Cara Anónima,

se reparar, eu corrigi esse ponto porque não me tinha explicado bem.

Mas obrigada pela suas palavras!

xpto disse...

Acho que tens razão no texto que escreveste. Pode ser que ele queira prepará-la para largar de vez ou então simplesmente não tenha a maturidade suficiente para viver com outra pessoa. Uma coisa é certa foi o melhor que fizeram. Se ele mudar de ideias e quiser voltar atrás a a M deve pensar muito bem se lhe deve dar uma outra hipótese... Se tipo há primeira contrariedade bate com a porta é uma pessoa dessas que a M quererá para si?

Rodrigo disse...

Se as coisas estão difíceis no trabalho, maior é a vontade de encontrar a pessoa amada em casa. Se o excesso de trabalho, mesmo em casa, não dá tempo, compreendem-se ou a parte carente não aguenta. Se os sentimentos são verdadeiros não é a parte lotada que procura a separação com essa justificação.

Cate disse...

Cheia de razão, Poisoned Apple.

Jo disse...

migalhas nao enchem a barriga. é assim mesmo:)

Piston disse...

1 - Cá estou eu para insistir na seguinte correcção:
Onde se lê "Homens que dão a desculpa do trabalho..." dever-se-á ler "Homens e mulheres que dão a desculpa do trabalho..." ou "Pessoas que dão a desculpa do trabalho..."
2 - Quando é que vamos ler um post teu onde abordas um erro que cometeste sozinha, sem ajuda e sem atenuantes na tua relação?

Anónimo disse...

Por muito bem que escrevas... eu não consigo dar valor a pessoas que tenham um raciocínio oxímoro como tu.
Aqui, eu pergunto onde está a tua directiva de não metas a colher?!

Anónimo disse...

Infelizmente por mais que nos digam e avisem temos que passar pelas experiências para aprendermos com elas. Achamos sempre que a nossa história, o nosso caso é diferente... Eu concordo totalmente com a Poisoned Apple.... Já passei pela situação há uns anos, depois de 5 meses de namoro fui viver com esse meu namorado. Ao fim de cerca de um ano ele começa a comportar-se de forma mt estranha e depois de muita discussão e sem nunca admitir o que se passava lá me disse que gostava de mim mas queria viver separado. Na altura a desculpa era que nunca tinha vivido sozinho e precisava dessa independência. Eu assustada e porque não via a minha vida sem ele aceitei esse passo. Na altura também não tive ninguém que me dissesse que estava a cometer um erro, mas dúvido que mudasse alguma coisa se me tivessem alertado... Claro que ao fim de uns meses ele me deixou. Vivermos separados foi só uma forma de transição (mais fácil para ele) para dar o segundo passo: deixar-me... Força M.

Poisoned Apple disse...

Caro Anónimo,

não compreendo a razão para um comentário agressivo, mas ainda assim, porque sou parva e a ignorância (ou vontade de chatear) me incomoda de sobremaneira, vou dar-me ao trabalho de lhe explicar algo que me parece óbvio.

Não há nada de contraditório entre o texto "Consultório #24" e o "Não metas a colher". Note o seguinte:

1. "Meter a colher" será sinónimo de uma pessoa "meter-se onde não é chamado", dar opinião sobre a vida de dois sem que ninguém a tenha pedido, intrometer-se, etc...

2. Na rubrica "Consultório" eu não vou atrás de ninguém, são as pessoas que decidem escrever-me. E quando me escrevem noto que têm respeito pela minha opinião, ainda que mais tarde, na resposta, possam discordar. O que nunca aconteceu, mas fazê-lo em tom de diálogo, chamar-se-ia educação. Mais, nas minhas respostas reforço sempre que a minha opinião é uma opinião individual, não é regra nem lei. Tem o mesmo valor que qualquer outra opinião.

3. Ora, se as pessoas me escrevem porque assim decidem, por sua vontade, eu não me estou a intrometer.

4. Se as pessoas PEDEM que lhes dê uma opinião, não é uma intromissão.

5. A isto acresce o facto de as pessoas que me escrevem serem totalmente estranhas, o que não acontece com o amigo que se referia no texto "Não metas a colher". Certamente concordará que quando as pessoas se conhecem, a situação descrita torna-se mais melindrosa.

6. O amigo referido no texto "Não metas a colher" nunca pediu qualquer opinião, apenas divagou sobre os sentimentos que tinha. "Meter a colher" seria uma intromissão, se tivesse pedido opinião, já não o seria.

Consegue perceber a diferença entre intromissão e dar opinião quando solicitada? É que não tem nada a ver! Numa respeita-se o espaço de cada um, noutra procura-se dar resposta a uma solicitação.

Bem-haja!