"Querida Poisoned Apple,
Vinha solicitar um pouco da tua sabedoria. Eu estou numa relação há cerca de 4 anos e neste último ano que passou decidimos juntar os trapinhos. Pouco tempo depois o meu pai ficou doente e cerca de 3 meses depois faleceu, foi um golpe muito duro, pois era muito apegada ao meu pai. A partir da morte do meu pai alguma coisa mudou em mim, inicialmente andei deprimida, o que é de todo normal, não fosse o facto da razão do meu estado depressivo se dever não só à morte do meu pai, como ao facto de pela primeira vez na minha vida ter visto a minha vida com uma lucidez quase assustadora.
Tenho apenas 26 anos e sempre critiquei os meus pais pela vida que levavam, casados sem amor, apenas juntos por conveniência, e sempre considerei isso um absurdo, sempre quis fazer diferente na minha vida, infelizmente nesse momento trágico que nos abalou muito a todos, percebi que estava a fazer exactamente o mesmo com a minha vida. Estou junta com uma pessoa de quem gosto muito, mas que está longe de ser o amor da minha vida (se é que isso existe), deixei o meu curso universitário a meio porque me quis juntar, e não existe o meu curso pós-laboral, nem privado, como tal não consegui conciliar o curso e o trabalho.
Desde miuda que sempre sonhei deixar Portugal e ir estudar e viver para Londres e desde que tudo isto aconteceu esse sonho reacendeu-se em mim, com a força de um incêndio florestal, tudo parece empurrar-me para lá, não paro de pensar nisso, já dei por mim, involuntariamente, por diversas vezes a preparar pequenas coisas para a partida, sinto que estou a perder o controlo do meu juízo (estou a exagerar, claro). O problema é que como disse anteriormente, tenho uma pessoa já não o amo, mas tenho um sentimento de culpa gigante em deixá-lo, e sempre que me preparo para o fazer, falta-me a coragem, falham-me as palavras e não sou capaz. Já o magoei uma vez e odeio a ideia de o fazer outra vez, mas não estou feliz e nem o posso fazer feliz, mas não tenho a força, nem a coragem necessárias para pôr um fim a isto!
Sei que é errado, que deveria fazê-lo até mesmo por ele, sei que não estou a ser justa, inclusivé sei que se fosse ao contrário ele provavelmente não pensaria duas vezes e dava-me um chuto no rabo, mas apesar de tudo simplesmente não sou capaz. Desejo desesperadamente dar andamento ao meu sonho, aqui sinto que tenho a minha vida parada no tempo, não estou a evoluir, daqui a 20 anos se continuar cá, vou estar mais velha mas na mesma vida estupida, já não aguento mais sinto uma angústia quase gritante, e no entanto nada disto parece ser suficiente para pôr fim a um relacionamento que tem os dias contados.
Acho que precisava de uma injecção de coragem, mas parece que isso anda esgotado nas farmácias, por isso já me dou por satisfeita se me puderes dar um conselho. Sempre fui muito independente e agora sinto-me como uma inválida à espera que tomem conta de mim e odeio.
Obrigado pela atenção dispensada."
Olá Lara,
Não sei se é leitora habitual, mas se é já sabe o que vou responder, certo? O que é que ainda anda cá a fazer? Faça sempre mais por si! :)
A perda de alguém importante pode de facto ajudar qualquer um a ver a vida com outras lentes que até então não tinha. E quem diz a perda de alguém, a razão pode até ser mais simples que isso, como um valente susto, um acidente, o desvio de um caminho que se tomava como certo. E isso não tem mal nenhum, não se sinta culpada. Afinal, bem vistas as coisas, a perda, o susto ou o quer que seja, funciona como um refresh, um revigorante que vem colocar tudo em causa, trazer novos objectivos, novos mundos, novas conquistas e novas vontades.
Embora não tivesse conhecido de perto, não acho que a situação dos seus pais fosse assim tão criticável. Por vezes, quando os anos de casados já são muitos, o fogo do amor esvai-se, mas é substituído por outras coisas, como companhia e carinho. E isso não tem nada de mal. Dou-lhe o exemplo dos meus pais, que estavam prestes a separar-se quando o meu pai ficou doente e, embora o amor já não existisse da mesma forma inicial, a minha mãe ficou com ele até ao último dia. Em vez de divorciada é viúva e nos piores momentos nunca lhe faltou. Talvez a sua mãe tenha feito o mesmo e isso, de condenável, não tem nada. Muito pelo contrário.
Não tenho palavras para lhe dizer o que sinto em relação a uma atitude como a sua, a de abandonar os estudos para juntar trapos. Perdoe-me a franqueza, não se ofenda, mas é burrice. Nunca faça isso! É anular-se para outra pessoa. E para quê? Para lamentar o resto da vida o arrependimento e transmitir às gerações seguintes que nunca devem repetir tal coisa. Já não ouviu esta lenga-lenga antes de uma pessoa mais velha? As pessoas podem namorar até terem uma vida estável. Qual é a pressa?
Trabalhar e estudar ao mesmo tempo é quase de cortar os pulsos. Digo-o eu que sei de experiência própria. Fi-lo não porque tinha necessidade, mas porque queria. E olhando para trás, muitas vezes, não sei como aguentei. Há um tempo para tudo, não ponha o carro à frente dos bois, seja sempre sensata e, sobretudo, pense antes em si e depois nos outros. Isto não é ser egoísta, é proteger-se!
O conceito de "homem da minha vida" pode variar de mulher para mulher, mas se vê que esse homem não é um com quem queira estar muito mais tempo, o que é que anda a fazer? Eu respondo-lhe: a atrasar de forma estúpida a sua vida. E um dia destes deixa de ser uma forma estúpida de atraso e passa a ser um atraso irreversível. Não perca mais tempo! Trilhe novos caminhos.
Tem medo de o magoar? Eu compreendo. Durante 7 anos fui uma mulher triste e infeliz. Magoaram-me tanto que houve alturas em que só queria morrer durante o sono. No entanto, hoje já não estou assim, estou feliz. E por quê? Porque apesar da tristeza eu já sabia que passava, pois tudo passa. Tanto esperei que consegui, hoje estou bem, como queria. Mas para isso tive de partir à procura e tive de sofrer. E é o que que a Lara também tem de fazer, por muito que lhe custe.
A forma correcta de fazer as coisas é falar-lhe como me escreveu, ser honesta, pôr o coração cá fora. Certamente vai ouvir coisas feias, outras que a magoarão, mas a vida é assim mesmo, nunca há uma forma exemplar de fazer as coisas. No entanto, há sempre a possibilidade de ser honesta. Sobretudo porque é como disse, a relação tem os dias contados. E então, quer ir realizar o seu sonho quando ainda vai a tempo, orgulhando o seu Pai, ou quer ficar numa mornice de vida, cheia de filhos, sem curso superior, a ganhar menos do que poderia ganhar, com um emprego que não a satisfaz e com um homem que cada vez lhe diz menos? Eu não hesitava...
Da próxima vez que me escrever espero que seja de Londres, onde tenho tantos e tantos amigos a viver, a estudar ou a trabalhar, e fazem muito bem!
Vai ver os comentários no blog, não acredito que alguém lhe dê um bom argumento para ficar!
Beijinhos,
8 caroço(s):
Eu acrescento uma outra, sobre o rapaz a quem ela se juntou e que sente culpa em deixar: ninguém, homem ou mulher, merece estar com alguém que nao acha que somos o melhor que lhe pode acontecer, o amor da nossa vida ou pelo menos uma muito imprescindível coisa de meia noite.
Eu vivi uns 7 meses com alguém que se ia desapaixonando de mim devagarinho. Nao lhe levo a mal o dia em que se foi embora, porque deixar de acreditar que conseguia melhorar aquelas relaçao, acreditar nela e fazê-la funcionar foi um alívio tao grande para a minha cabeça e o meu coraçao que estava fina ao fim de pouco tempo, mas demorei a deixar de lhe levar a mal aqueles meses em que ainda estava comigo mas já nao me achava a oitava maravilha, meses esses que deram completamente cabo da minha auto estima, acho que nunca fui tao infeliz, mesmo se tudo estava, em teoria, muito bem. E estas coisas podem arrastar-se anos! Às vezes com pessoas que pensam que se se fossem embora nos provocavam imensa dor...
Ninguém merece que fiquem com ele ou ela por culpa ou acomodaçao e nenhuma partida pode ser pior do que isso. Todos temos direito ao amor em technnicolor. E por isso todos temos a obrigaçao de deixar pessoas por quem nao o sentimos.
É por causa de textos destes que eu leio este blogue religiosamente. Poisoned Apple, subscrevo tudo tudo tudo o que escreveste e acho sinceramente que a Lara deve seguir os seus sonhos, é o mais justo para ela e para o rapaz. Falta-lhe só dar aquele primeiro passo que é o mais difícil e doloroso. Mas depois disso, vai sentir que lhe tiraram uma grande carga dos ombros. Como escreveu a Rita, "ninguém, homem ou mulher, merece estar com alguém que nao acha que somos o melhor que lhe pode acontecer".
Eu passei por uma situação mt mt parecida, deixei-me arrastar numa relação de anos, fui morar com ele, entretanto o meu pai faleceu e nunca mais nada foi igual!!!
A relaçao passado pouco tempo acabou entretanto tb descobri que ele me traía, o que so veio provar que devia ter acabado á mt mais tempo, acho mesmo que os ultimos 3 anos nunca deviam ter existido!!
Fiz e faço tudo o que quero!!!
Primeiro eu e so eu; estou noutra relaçao mas NUNCA mais vou cair no mesmo erro!!!
Quando vir que não estou bem ponho-me!!
Acho que a Lara devia seguir o sonho dela, porque se não o fizer daqui a 20 anos pode ter certeza que vai olhar para tras e vais sentir uma frustraçao, tristeza enorme pq se contentou com algo que não a fazia sentir plena e feliz!!
Força Lara a vida é muito curta vá atras dos seus sonhos!!!
Bjinho*
Se não estamos bem connosco próprias faremos, de facto, bem ou falta a alguém ?
Marta
É curioso... até ao dia de hoje, ainda não me tinha apercebido que acabei uma relação de 7 anos dois meses depois da morte da minha irmã... Uma morte que me abalou tremendamente, mais do que a do meu pai. Por não ser natural, talvez, morrer aos 31 anos. Agora que li este post, o qual subscrevo na íntegra, penso que talvez tenha sido esse sobressalto na minha vida que me fez reavaliar todo o meu persurso...
Boa perspectiva, sem dúvida, poisoned apple
Eu também tinha um cão.
E ele morreu de sarna.~
Depois pensei: e se eu fugisse daqui?
Fiz a malinha com umas cuecas às bolas e uma peúgas rotas.
Troquei a chata lá de casa por uma matulona de mamas fartas.
A culpa do pulgoso do cão, claro.
É só arranjar uma boa desculpa.
:-)
É por isso que eu leio este blog.
Estimada-leitora-que-não-me-pediu opinião a mim:
Discordo da dona Poisoned pelo menos numa ideia grandalhona que ela com frequência expressa: não acho de todo que largar os estudos em beneficio de uma relação seja um erro.
Não acho de todo que um sacrifício pessoal e altruísta seja uma estupidez. Como é que fazer algo de bom a alguém de quem gostamos o pode ser? Se é um esforço necessário para defender algo em que acreditamos é mais que válido.
Aquela lenga-lenga romântica do "largar tudo" para estar com alguém já não vende bilhetes?
Abdicar de algumas coisas não é o mesmo que auto-anulação.
mmm... "pense primeiro em si: não é egoísmo, é proteger-se".
Cara Poisoned, não reconheço nessas palavras alguém que está REALMENTE apaixonada. Também não reconheço a Poisoned que deixou nestes blog inúmeros posts repletos de emoção, verdadeiros manifestos de paixão e amor.
Será que de tanto sofrer resolveste trocar o amor por um ninho confortável onde te sentes segura e "feliz" (mesmo que para que acredites nisso o tenhas de repetir vezes sem conta?). Espero que não, que sejam só umas "férias" e que brevemente voltes a Amar.
Lara, ao ler o teu texto fiquei na dúvida se queres realmente ir para Londres ou se isso é apenas uma desculpa para deixares o teu namorado.
Se Londres for realmente importante então pode ser que o seu namorado a apoie na ida e a acompanhe. Quem sabe se não redescobrem um amor que a Lara julga que já não existe?
Mas se for uma desculpa para mudar de vida (leia-se acabar com o namorado), não se atire para Londres que aquilo não é pêra doce e não seria nada bom descobrir depois de lá estar que afinal não era bem o que realmente queria.
Espero que ajude!
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