Ando há que tempos para te escrever este texto. Desde o dia em que entrei naquela sala de cadeiras azuis e ouvi a miúda de voz anasalada, com aspirações a "tia", ditando como é piroso dizer amo-te. É ridículo, não se diz, afirmava como quem ensina uma criança que é feio dizer palavrões, mas faltando-lhe o dedo em riste. E logo houve quem atirasse o machado e perguntasse: então como é que se diz, como é que se mostra? E para ela mostrava-se com gestos, não com palavras. No limite, um gosto de ti. E porque estava num dia de verdadeira generosidade, um adoro-te quando o sentimento é realmente forte. A minha boca era muda e eu assistia a um espectáculo de quem sabe pouco. Na altura pensei que talvez, quem sabe, um dia a miúda venha a ter de engolir palavras desprovidas de traquejo, sinais de outras vidas e de outro tipo de amores.
Mas nela, reconheci traços teus. A relutância na entrega verbal e, nessa resistência, a da confissão do sentimento. Também preferias mostrar, mas eu não acreditava conseguir manter uma relação com um homem que não dissesse gostar de mim. Com o tempo, a vontade fez-te dizê-lo. Depois dos gosto de ti vieram os adoro-te e esses dois andaram que tempos juntos, numa brincadeira, uma correria no meu ouvido. E estava feliz. Não sentia necessidade de mais, porque o resto vinha acompanhado nos teus gestos. O amo-te que em tempos foi para mim indispensável, passou a ser facultativo debaixo do teu braço. Mesmo ali onde me encaixo, entre o peito e o ombro.
Mas eu sei razão pela qual não escrevi este texto na altura. Algo haveria para contar, para acrescentar a esta história nas 12 horas de casamento. A festa interminável, a correria do vestido, de umas meias de vidro com malhas, do fato rasgado e do fraque impecável. Haveria razões escondidas entre o bater da porta atrasado e o colar de pérolas esquecido. Entre o voltar atrás para ir buscar as pérolas falsas e os quilómetros extraordinários que fizeste para apagar a minha infelicidade de um pescoço nu que eu não queria ter por 12 horas de casamento.
E quando o tinha comprido, entrelaçado nos dedos, puxaste-me para ti, naquelas 12 horas de casamento, chegaste-te ao meu ouvido e disseste-o. Ali ficou, encaixado entre o pescoço e a orelha, a expressão pirosa, corny, aquela que não se diz, aquela que não me atrevo a transcrever para gelar o momento e ficar com ele para sempre, e ainda a explicação da mudança: nunca o tinhas dito antes, a ninguém, mas não encontravas mais nada que traduzisse o sentimento por mim.
Foi ali mesmo, na mesa branca de um casamento que durou 12 horas.
17 caroço(s):
Que arrepio..
Por um lado prefiro que demorem a dizê-lo... aprendemos a dar muito mais valor. :)
Lindo!
Arrepio, mesmo.
o texto está simplesmente fantástico!
Adorei :)
Fantástico! ;)
Dizer que é piroso dizer "amo-te" é tão ridículo como dizer "ai, namorar ao domingo é parolo!"...agora há dias "in" e dias azeiteiros para se namorar???! My god!
cara "envenenada":
percebi mal ou foi casada por umas singelas 12 horas?
Terá sido a falta das palavras nos anos que precederam ao casamento?
Infelizmente, conheço a sensação. E se antes também me chegaram os "gosto de ti" e os "adoro-te", capacitando-me que "amo-te" não só era piroso como altamente desnecessário, hoje reconheço que apenas me tentei enganar. Num namoro que durou bem mais que 12 horas (mais concretamente, 7 anos) ouvi essa conjunção de palavras AMO+TE apenas uma vez. E nem sequer foi no início de 12 horas de casamento. Felizmente, hoje reconheço, nem sequer chegou a isso mesmo. Ainda que por meras 12 horas.
Olá Softy Susana,
não, não me casei nem fui casada por doze horas! :)
Fui foi a um casamento de uma amiga que teve uma festa que durou doze horas ;) Tudo aconteceu nessa festa.
Parabéns Apple, não é todos os dias que se tem essa sorte. Muitas felicidades, desta fiel seguidora q raramente comenta.beijinho
simplesmente perfeito, cara eva!!!!
O bom de poupar esse verbo e de nunca o conjugar na 2a pessoa do singular é que, quando (finalmente!!!!) ele é pronunciado, depois de adiado até ao expoente máximo da loucura - e qual fórmula mágica finalmente relevada - provoca um turbilhão de emoções que, de outra forma, nunca seria possível sentir.
E percebo tão bem... porque também eu sou uma "pleasure delayer"... pelo menos no que toca ao momento certo para dizer a palavrinha...
"O Pecado é sempre delas. Por causa deles." There's a catchy frase. Faz sentido sim senhora. Acerca do texto... Parece tirado de um filme. Que sorte : )
Lindo... realmente nada se compara com a expressão: "Amo-te!"... mas mais importamnte ainda é a intensidade do sentimento que ela nos transmite...
Simplesmente...Delicioso!
E eis que leio algo que me cativa e que me deixou arrepiada. Escreves de uma forma que ons prende. A cada palavra. A cada linha. Parabéns pelo blog e não deixes de escrever.
Gostei imenso do teu blog. Principalmente deste post. Beijinhos,
Bomboca do Amor.
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