29.6.09

Ser daqueles homens

Gostava de experimentar mudar de sexo, ser daqueles homens que fazem o que lhes dá na real gana, ter tudo e não me chatear com nada, gostar apenas de mim próprio e nunca sofrer de remorsos, arrependimento e expressões que fazem parte do vocabulário dos fracotes. Gostava de ser daqueles homens que põem e dispõem, dizer quero e ela vai lá ter ou dizer não me chateies e ouvi-las chorar o quanto gostam de mim. É, gostava de ser daqueles homens que nunca sofrem porque só sofre aquele que gosta de algo que não controla, de algo exterior a si próprio, de alguém e, quem gosta apenas de si próprio, do que controla, nunca sofre. Gostava de experimentar ser daqueles homens que saem com os amigos, olhar para o visor do telemóvel e não atender fingindo estar a dormir, pensando que amanhã picaria o ponto afirmando estar cansado e ter adormecido a pensar nela. Soluções rápidas para problemas que nunca são difíceis porque neles não está depositado nada de precioso. Entretanto, procurava facturar uma ou outra mulher na noite, talvez amigas dos meus amigos, sem interessar se alguma delas foi de algum deles um qualquer dia no passado. Ditar as regras, os horários, os limites, fazer a vida que entender e permitir que ela me acompanhe muito de vez em quando. Nada de carinhos em público. Ou apenas o suficiente para a manter. Gostava de ser daqueles homens que apenas se ouve a si próprio, provavelmente infeliz, mas o que é que isso interessa para quem nunca conheceu a felicidade? Desgostos? Acho que tive um, foi uma semana horrível, demorou, mas ainda bem que já passou e espero que não volte a repetir-se.

Gostava de ser um destes homens. Ou ser puta. Não daquelas que cobram os serviçoes sexuais em determinadas localizações das grandes cidades, mas das que hoje dormem com um e amanhã com outro, das que enviam mensagem provocadoras a vários destinatários em simultâneo, atirando o barro à parede a ver qual deles quebra, seja casado, comprometido ou solteiro, indiferente aos constrangimentos e efeitos nefastos que puder provocar.

A diferença entre um homem destes ou uma puta é estar condenada a usar pares de calças o resto da vida ou poder usar um vestido de vez em quando.

28.6.09

Este blog é um amor

Obrigada à Rapariga do Batom Vermelho por este prémio tão pink e tão amoroso! :)

27.6.09

Do you remember? #58



Chicago -Hard to say I'm sorry - 1982

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

25.6.09

"O meu pum cheira pior que o teu!"

Está visto que o homem tem uma questão qualquer com merda. A sério, eu, a rainha bufa, ando transtornada. Eu gosto imenso de falar com ele, de ir ao cinema e tudo o mais, mas depois, lá vem a perseguição-bufa a ver se cheira mal só de falar. Achava eu que após o episódio do gelado a coisa não voltaria a repetir-se, que talvez pudesse ter sido apenas uma saída estúpida, coisas tontas dos nervos em que todos já desejámos fazer um rewind nas palavras uma ou outra vez na vida. Mas não, é defeito de fabrico, it comes with the men.

Há uns dias fomos ao cinema, cheios de conversa, pontos oferecidos num bilhete para mim, Starbucks, pipocas, um querido e depois, o peido no topo da conversa, como as ginjas nos bolos, mas completamente a despropósito do assunto que falávamos: o bom destes corredores largos é que um gajo pode ter gases à vontade! Disfarcei o suspiro e perguntei-me qual é a do gajo mais a flatulência? A sério, eu acredito piamente que mais nenhuma menina no mundo dá puns no mesmo número que eu, mas é uma realidade da qual preferia não padecer e, jamais na minha vida, farei disso charme para atrair o sexo oposto! Já me estou a ver com ele num restaurante de luzes baixas, vista para o Tejo, velas, ele perfumado, eu de vestido preto, decote na medida certa, alçar uma nádega a 30º da cadeira e dizer, amor, este é só para ti... e cá vai alho! Charming, sem dúvida. Eu sei que vou receber inúmeros convites para jantar no e-mail deste blog após a leitura deste texto.

Acha que os petardos ficaram por aqui? Claro que não! Viva a bufa alheia! Isto que se segue é real:

- Poisoned Apple (PA) - Dá-me o link
- Cagão Real (GR) - As fotos são muito boas
- PA - São. Estou a ver
- CR - Estou com gases
- PA - [What the fuck...?] E porque partilhas essa informação comigo?
- CR - Aahahha! No gozo, porque sei que te picas!
- PA - Eu não me pico, não sei onde vais buscar isso. Eu não sou nada mete-nojo, mas não tendo a divulgar. Tu tens uma questão qualquer com merda. Passas a vida a remexer o assunto
- CR - Acho piada. Ahahhah!
- PA - Deves ser uma namorado indescritível. Medo!
- CR - Achas que te fazia isto? Ia ao WC, fazia um belo de um cocó e depois lavava o rabinho

A última linha foi para mim aquilo que os brasileiros chamam de "momento uepá"! Decidi omitir toda a conversação que incluia a ex-namorada presa debaixo dos lençóis depois de um repasto inadequado ao funcionamento intestinal e ainda o facto de ela se ter vindo a tornar pior que ele. A acompanhar o desfile dos tristes, halloween fora de horas, ou Festas de Lisboa de esgoto ao ar livre, esteve a minha amiga Matryoshka que passou de um ruborescer, de quem se deixa envergonhar pelo outro, para uma tonalidade algo esverdeada, vómito no teclado e consecutivas agressões ao Cagão Real, referindo falta de noção, falta de filtro, nojo e um problema de desvio comportamental qualquer. Em defesa da rapariga, posso afirmar que em casa dela tenho a liberdade de fazer soltar prisioneiros, pelo que ela também não é de se escandalizar com estas coisas, na medida da relação aceitável/confiança.

E eu perguntava-lhe, conheces alguém que tenha uma história semelhante para contar? Ela garantia que não. Eu também garanto que não. Porque é que isto me acontece a mim? Porquê? Eu só quero amor e o destino atira-me cagalhões!

24.6.09

Entre uns e outros

Mudanças, casa nova, mas não minha. Queres vir viver comigo?, podia ser a melhor música no meu ouvido, mas não foi. Foi apenas mais uma investida - embora não pense nem trate como apenas mais uma entre tantas - de quem me quer bem, de quem me conhece bem, a quem não correspondo e não vejo hipóteses de algum dia isso vir a acontecer. Ousadias amorosas de quem procurou uma pessoa próxima e lançou o apelo: ajude-me que isto é um amor impossível! Sorri, como faço sempre, porque é de facto um doce. Qualquer um de nós sabe que seria um desastre, foi a única resposta que pude dar-lhe, fazer assentar pés no chão e assim ficámos. Afastado o prenúncio de um naufrágio certo, perguntei-lhe se não se chateava de me aturar tantas vezes triste. Já que não te consigo dar o que precisas, dou-te o que posso dar, ou qualquer coisa parecida, entre carinho, um ombro, uma almofada só para mim e a constante presença de um gelado chocolat cookies na casa nova. Deixou-me com o coração apertado.

Ao som de uma guitarra de bandido, o outro cantou-me a letra de estar cada vez mais bonita, que os homens têm de ser parvos, coisa que estou careca de saber e a ousadia de confessar a vontade de um beijo na minha boca. Podia fazer de conta, desconversar, deixar de atender o telefone, responder a mensagens, mas não é o meu estilo, eu que entendo que deve existir sempre uma resposta para quem quer que seja, nem que isso signifique a sinceridade, primeiro polida, de um não, ou a sinceridade brusca de quem já tem a paciência esgotada. Optei pela sinceridade simples de que não correspondo, de ser uma pessoa magoada, de ter um nome escrito no meu coração, facto que nunca lhe escondi. Lamentei, mas pelo menos contava com a verdade, sabendo ele que não me verá nunca lançada em vidas duplas ou fingidas que o envolvessem. Adoro a tua sinceridade!, foi a resposta que não me convenceu. Niguém gosta deste tipo de sinceridade, por isso não pode gostar.

Entre um e outro, pelos métodos e sobretudo no olhar, a minha intuição marca uma linha divisória com um à esquerda, representativo de gostar, e outro à direita, representativo de um querer provar que diz gostar. Eu a gostar e ser correspondida é que nada. Estabilidade, equilíbrio e amor, pelos vistos, só na vida dos outros, condenada à eterna questão: para quando a minha vez? Mas a certeira, que eu estou cansada de fingidos.

23.6.09

Ainda há mulheres que sonham

"Usava um vestido leve que deixava perceber as enxutas sinuosidades do seu corpo. Um ligeiro vislumbre das suas coxas pela abertura do vestido entusiasmou-me, fazendo-me esquecer preocupações profissionais. Só então me lembrei que fizera anos na véspera. Desculpei-me de modo atabalhoado (...) Não mostrou sinais de amuo pela minha falta. Estava apenas um pouco desiludida. Comentou que os homens são uns seres ingratos e distraídos que só se preocupam com duas ou três coisas na vida e nenhuma delas é realizar os sonhos de uma mulher".

in A mulher da minha vida

20.6.09

Do you remember? #57



Kim Wilde -You came - 1988

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

18.6.09

Coisas da Mãe Natureza

Levou-me um amigo a resolver umas coisas, uma ajuda preciosa à qual fiquei muito grata. Revolvidos os assuntos e mostrando-se candidato à minha pessoa faz já muito tempo, vai de convidar a rapariga a comer um gelado debaixo de um calor de 35ºC, o que aceitei. Ora, enquanto me deleitava com duas bolas de café e amêndoa num copo, o homem já tinha devorado o seu cone de sabores que não lembro. Caminhávamos lentamente para o carro, quando o mancebo limpa a boca com um guardanapo, aponta para um McDonald's e diz docemente:

- Vou aqui fazer um xixi e mandar um dump, esperas?

Permitam a explicação: dump - a coarse term for defecation; "he took a shit" - que é como quem diz, "arrear o cagalhão".

Caro leitor, como calcula, eu, uma senhora, fiquei com a colher suspensa a pensar na melhor resposta. Fiz sinal afirmativo - pois estava a 30 Km de casa e não me ficava bem fugir - não gregoriei o gelado porque a minha mente selectiva não o imaginou a fazer força, esperando que o tarolo viesse à terra em bom porte, cedesse às leis da gravidade e salpicasse o rabinho do homem na queda. Mas fiquei a pensar no porquê de tamanha afirmação. Era realmente necessário? Quem me lê com regularidade sabe que eu, de Maria Mete-Nojo, não tenho nada. Lido muito bem com as questões da Mãe Natureza, nomeadamente, xixis, cocós e bufas, mas guardo estas coisas para mim, para os meus leitores, ou para situações em que sei que não vou criar constrangimentos!

Não que eu esteja ou estivesse interessada neste homem, mas se estivesse este momento teria sido o verdadeiro turn off. Sai-me cada um... só a mim! É o mal dos homens realmente bonitos, acham que podem tudo. Se à beleza se juntar o sucesso profissional e consequentes gajas nas quais tropeça de cada vez que sai à rua, é a verdadeira dor de cabeça. Não, não gosto de homens bonitos, por isso é que nunca ando com eles. Gosto dos que com o tempo para mim se tornam realmente bonitos, até quando vão ao trono.


17.6.09

Mais um sobrinho!


Parabéns à Red Delicious, que veio a abandonar este blog, mas muito alegra as amigas com uma barriga ainda muito pequenina onde guarda um sobrinho muito desejado!
Eu bem dizia que devia estar quase, quase! À minha volta assisto ao milagre da multiplicação! :)

15.6.09

Alto voo

Meu amor,

hoje voei (literalmente) por cima da tua casa. Lá estava ela, de paredes cor-de-rosa e degraus marcados na entrada, a porta verde com o código de entrada que ainda guardo na memória, a rampa onde estacionava o carro, o caminho da auto-estrada que tantas vezes achei longo demais para o tamanho do meu coração. Não te vi, não sei se te poderia ver a tantos mil pés de altura. Claro que não, os carros pareciam formigas, mas o amor tem destas coisas irracionais. Na verdade, não sei se gostaria de te ver, o coração choraria com certeza, a saudade nem sei explicar, transformar-se-ia dos nervos, da ansiedade, da falta que me fazes.

Meu amor, hoje quando voei por cima do teu telhado, pensei que mesmo por debaixo daquelas telhas, tantas vezes estendeste a mão para me levantar e fazer dançar, rodopiar pela sala, passos que tu lideravas, enquanto eu fazia cenas fingidas de desespero, apelando a que não me pisasses os pés, de olhos cerrados, fitas de paixão, de não me faças mal, de toma sempre conta de mim, de puxa-me sempre para dançar. E depois a sobremesa, sempre comigo ao teu colo, uma colher ou um garfo partilhado, um dos teus pratos rectangulares pequeninos, beijos, muitos beijos, tantos gosto de ti, mais beijos com um doce qualquer, natas batidas, chocolate, a variedade de doçuras que fiz para ti, condizente com a força do meu amor que, rejeitaste ou eu deitei a perder, não sei.

Meu amor, gostei de voar por cima de ti e, ao ver o teu telhado, que saudades sinto de ti e de me fazeres rir com as tuas histórias! De te admirar, de te abraçar pelas costas junto ao fogão, de me pedires que não saísse dali, o lugar para quem não cozinhava, porque de mãos vazias ninguém poderia ficar. Palavras faltarão sempre para descrever a minha felicidade na altura, ou a falta que me faz o conforto que me devolvias a noite inteira, nos teus braços maiores que os meus, o sentimento, a certeza de que era contigo que queria ficar.

Meu amor, gosto de ti. Gostei de voar sobre ti, ainda que a vista aérea me tenha trazido um aperto no coração. Gostaria de poder abrir uma janela, saltar à tua varanda, ver que abririas as portas de abraço aberto, dizendo que esperaste por mim este tempo todo e que agora, finalmente, poderíamos ser felizes e arrumar em caixas sem etiqueta o mal que para trás ficou. Mas meu amor, isto são coisas de ficção, impossíveis e o que eu quero é realidade. Ter-te como meu amor, homem da minha vida, com tudo de bom e de mau que isso possa trazer.

Tua,

13.6.09

Do you remember? #56



Genesis -In too deep - 1986

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

11.6.09

80/20 rule

Parece que entre americanos, li eu, circula uma regra 80/20, adaptada a relacionamentos amorosos e criada por um homem qualquer. Diz a regra que um homem obtém do casamento 80% daquilo que precisa, os outros 20% andam por aí, fora do casamento. Mas ninguém tem tudo e há que fazer escolhas. Há os que se mantêm fiéis aos seus 80%, afirmando que não há 20% nenhum que bata o que já tem, sabem que o risco não vale a pena, pois poderão acabar por ficar apenas com 20% das necessidades preenchidas ou, na pior das hipóteses, numa partida (bem) pregada pelo destino, com coisa nenhuma, a zeros.

E há os que não pensam, os que não sabem equilibrar os pratos da balança e esses, não desfazendo, são mais que muitos. São os que não ponderam os riscos, os que talvez pensem que as lições da vida só acontecem aos outros, assim como quem se julga imortal, são os que não se preocupam o quanto podem magoar alguém, egoístas, até porque este é um perfil de quem não se importa com nada, nunca pensa no amanhã, pensa a curto prazo e, verdadeiramente, só gosta de si próprio. Há quem diga quem este é um estilo de quem "vive a vida", seja lá o que isso for, porque, diz-se, a vida são só dois dias e outras expressões do género que associo a tesão do mijo, passageiro. Aqui para mim, vou continuar a opinar que este é um estilo de vida de quem tem amor e interesses apenas por si próprio, ponto.

O curioso é que ninguém se lembrou de fazer um regra destas adaptada ao universo feminino. Porquê? Porque embora existam excepções à regra masculina (e certamente a uma regra feminina, caso existisse), as mulheres quando amam e se sentem amadas não passam a vida a olhar para os lados a pensar no que poderão ter perdido, as mulheres pensam no valor do que têm, sentem-se sortudas, pensam no que ganharam e que não apostariam em jogo nenhum. As mulheres vêem até onde o copo está cheio, os homens pensam na parte que ainda falta para encher. Nunca fui casada, não posso afirmar com certeza que ao fim de uns anos de matrimónio continuarei fiel a mim mesma - talvez numa realidade destas virasse mulher das cavernas - mas posso afirmar, pelo que sei que sou, que se tiver vontade de olhar para os lados, é porque já não há amor.

E no meio de regras estúpidas, inventadas por homens eternamente insatisfeitos, há por aí mulheres 80% que não sabem que o são, não sabem que falta algo à outra parte, que talvez um dia seja apanhado em falso. Há por aí mulheres 80% com aspirações a, talvez, impossíveis 100%. Há as que ainda têm esperança, as que já não acreditam em coisa nenhuma, e as que contam com a dor que poderá estar sempre ao virar da esquina, escondendo continuamente esta forma de pensar, como quem põe água na fervura. Assim como eu, com a diferença que já não escondo.

10.6.09

Venham eles!

Por aqui segue-se a multiplicação de prémios! Muito obrigada à *B* pelo prémio Qual Nelson Évora, qual quê! que aqui fica bem uma condecoração dourada. Obrigada também à Matryoshka pelos prémios O teu blog merece ser filmado, Prémio Lemniscata e Lista de Desejos. Ó p'ra eles tão catitas!

8.6.09

Através do outro

São poucas as pessoas capazes de me deixar um comentário que não me larga a semana inteira. São poucos os comentários com os quais me identifico no mais profundo de mim, mas quando aparecem, agradeço o facto de se denunciar quem me compreenda. É reconfortante saber que não estou sozinha, que ainda há quem viva para o amor, que o encontre como razão de viver.

Disse-me um leitor que a minha maçã tinha sabor, amor, que sabia que o sentia através do meu corpo e nunca sozinha, porque apenas sentimos existir verdadeiramente através de outro. É verdade, só me sinto realizada quando completa, e isso, é com amor. Serei sempre assim, por muito redutor que isso possa ser para muita gente, mas serei sempre genuína. E sensível, como dizia outro leitor. De facto, há aqui quem me conheça melhor que muita gente.

6.6.09

Do you remember? #55



Nik Kershaw - Wouldn't it be good - 1984

Do you remember? é a rubrica de fim-de-semana do blog A Maçã de Eva, para todos nós a quem a música nos deixou lá atrás no tempo. Envie as suas sugestões para amacadeeva@gmail.com

5.6.09

Engata-me

Ontem, em trabalho, cruzei-me com um piqueno interessante, miúdo, mas com aqueles sorrisos que desarmam; miúdo, mas com muita cabecinha e miúdo, mas cheio de paleio. Já estavámos a conversar há algum tempo, quando um estrondo não permitiu que eu me ouvisse a mim própria, quanto mais ele ter ouvido o que eu disse. O mais descontraído possível, de sorriso e dentes brancos, eis que se sai com a melhor frase de engate que já ouvi em todos os tempos:

- Desculpa? Podes ter acabado de dizer que gostas de mim e eu não consegui ouvir nada.

E eu tanto ria que nem conseguia repetir a frase. Rapaz, mais uns anitos e vais longe!

3.6.09

Make a wish

Temos esta mania de incluir nos nossos diálogos um idioma que não é nosso, mas que tem tanto de meu e teu. Há coisas que só são ouvidas exactamente na forma do que queremos dizer na língua que se fala lá para as Américas. Já diz a música, em inglês fica sempre bem.

Mas a outra música que te enviei falava de outro amor, de promessas, de como é duro viver em desamor, um dueto em que uma das partes pedia para não desistir nunca, ensinando que há um lado do amor que é construído e grita para que nunca pare de lutar. A música fala de desejos, de explosões no peito, de um desejo de amor. Perguntaste-me what's your wish e resposta à tua pergunta podia ser tanta coisa, dividir-se em mil vontades e multiplicar-se em indecisões, mas não. Falou a voz da minha alma, sem pensar duas vezes, como quem parecia ter resposta decorada para a questão que não tinha como adivinhar: find home.

E depois as lágrimas nos olhos. Minhas, são sempre minhas.

1.6.09

Lutar ou não lutar? Eis a questão

"Não deixe uma coisa que descreve como tão especial cair por terra. Lute!"

Este foi um comentário deixado neste blog por alguém anónimo e que nunca me esqueci. Este fim-de-semana, em conversas que revolviam o passado, a Matryohska tocou no tema, na dúvida que fica ao perguntarmo-nos se não valeria a pena ter lutado, se a decisão de lutar por um amor que atrás ficou poderia ter mudado o rumo dos acontecimentos. E apesar de não sentir arrependimento nisso, questiono-me: valerá a pena lutar por alguém que - contas feitas, mas sem garantia de um resultado inequívoco - não nos quer? Será redutora a minha visão simples de quem gosta está, quem não gosta não está? Em nome do amor e da esperança da re-união, valerá a pena correr o risco de sofrer uma humilhação, ouvir palavras dolorosas, ser-nos pedido que nos afastemos de uma vez por todas? Correr esse risco não é atirar pela janela a auto-estima e o amor próprio? Valerá a pena correr o risco de fazer perdurar a dor, o que acontece inevitavelmente ao investir numa luta sem sucesso?

Foram muitas vezes, tantas que perdi a conta, as que fui à luta por um amor em que acreditava. Escrevi cartas de amor, fiz declarações, acho que pouco faltou para me estender no chão e ser pisada, mas lá tive o sucesso que buscava. Não me arrependo de ter lutado, mas tive um qualquer ponto de viragem na minha vida, num tempo que não sei identificar, em que me tornei incapaz de o voltar a fazer. Também não tenho esclarecidas as razões que a isto me levaram, mas provavelmente o cansaço de ser apenas uma a investir no que dois deveriam investir, a sensação de que agora é a minha vez de ver o quanto gostam de mim, razões que se prendem com o apagar dos cinzentos, manter apenas os brancos e pretos, o sim ou o não, triturar o talvez e o quem sabe.

Mas poderia ter mudado o rumo das coisas se tivesse lutado ou faria apenas uma figura ridícula? Seriam bem recebidas as minhas declarações, a prova do meu amor, ou olhada num misto de pena e saturação de quem não já não quer mesmo? Não tenho dúvidas de que não vale a pena lutar por um amor que nos traz mais tristezas que alegrias, por alguém que está sempre aquém do que desejamos, que não está quando precisamos, mas, e por alguém que não temos o que apontar? Poderá apenas uma última conversa marcar o todo, ser o único elemento a apontar? E tudo o resto? Isto nunca me tinha acontecido, é uma experiência nova, no entanto, sei que não darei um passo em frente, já não consigo, não sei sequer se o saberia fazer, estou consumida pela descrença.

E é por uma série de razões que se prendem a estas questões que prefiro sempre não ser eu a dizer que não quero mais ou a afastar-me. Assim não me martela na cabeça a hipótese de ter tomado uma decisão errada, nem a ideia de, eventualmente, num rasgo impensado, ter atirado a felicidade pela janela. Deixar esta responsabilidade nas mãos dos outros é muito mais fácil, é poder pensar que nada poderia ter mudado. Mas afinal, neste caso, e apenas neste caso, penso muito se poderia ter mudado alguma coisa, se será tarde demais, se antes é que era cedo e agora é que é a hora certa, se valeria a pena encher o peito de ar, fazer voar corações na direcção certa e ir buscar o que quero para mim. Mas fico quieta.