12.8.09

Ninguém (nem eu) diria

Literalmente da noite para o dia tudo mudou. A tristeza e a melancolia persistentes foram sendo arrumadas naquelas caixas de baixo valor do IKEA e nem sei onde andam, não que me pergunte pelo seu paradeiro, mas vou-me lembrando delas. Bastou um jantar entre tantos, aquele vinho que tanto me fez rir e a lembrança daqueles beijos trocados numa semana de verão quando eu tinha 17 anos. Ouvi-te falar de uma paixão a que sucumbiste vendo-me desaparecer nos dias de calor, porque a vida tem destas coisas, as pessoas afastam-se, separam-se por razão nenhuma, apenas porque sim, podendo as estações do ano mudar sem que as pessoas se vejam por muito tempo, mesmo que guardasse carinho e boas memórias por ti, desaparecido, mesmo que fosses perguntando por mim a quem tínhamos em comum ou eu perguntasse por ti à tua irmã.

Encontraste-me outras vezes, sorriste-me mais vezes com aquele que é o teu forte: um sorriso irresistível, perfeitamente alinhado, branco, e não me enganaste na tua vontade, porque uma mulher sabe sempre quando um homem quer estar com ela, sobretudo quando não partilha da mesma vontade. O tempo reaproximou-nos outras vezes em conversas sumidas, consequência de encontros inesperados. O tempo reaproximou-nos há pouco, no tempo da minha tristeza, lamentei-me no teu ombro, levaste-me a comer gelados, a jantar e a falar pelos cotovelos. Interrompeste-me dizendo que outras mulheres vieram sem que nunca te esquecesses de mim. Passaram 13 anos, seria possível que um homem não me tivesse esquecido depois de tanto tempo? Numa idade em que tanto muda e acontece? Falei de ti ao JC, que me conhece tão bem e deixou-me no ar uma frase que nunca esqueci: e que tal pensares em apostar em alguém que mostre gostar de ti? Mas isso é tão difícil. Também os outros achei gostar de mim. Como é que posso ter a certeza disso?

Guardando mais dúvidas que certezas, mostraste-me uma foto escura, tirada contra a luz do sol e cheia de sombras. Numa ousadia da qual só foste capaz porque bebias do mesmo que eu, disseste que se adivinhasse qual a cidade fotografada me darias um beijo. Ri, deixei bem claro que não tinha concorrido ao Jackpot, olhei longamente para a foto, era impossível saber. Mas seria aquela coisinha ao canto, pequenina e preta, uma gôndola?

- Veneza?

Não tive tempo para nada. Deu-me um beijo num sófa onde estava semi-deitada. Durante o beijo pensei se aquilo estaria certo ou errado. Se estava a cavar o buraco maior do que estava. Havia também a possibilidade de estar a sair desse buraco.

Deixei-me ir.

8 caroço(s):

Renata disse...

Arrepiei-me!

Anónimo disse...

É o Cagão Real?

Sou seguidora fiel do seu blog e fã do C.R. desde o primeiro post sobre ele. Fico feliz se se deixou conquistar por uma pessoa terra-a-terra, cheia de sentido de humor e despreconceituosa.

É melhor uma bela surpresa do que ver mais um principe a tornar-se em sapo nojento...

Felicidades

Fabi disse...

Bonito =) É um alívio saber que ainda acontecem coisas assim na vida real...

Ângela Bruno disse...

Entre algo e nada... deixamo-nos ir sempre nalguma coisa não é?

Peruca de Tule disse...

:)

L I N D O.

Tb quero!... (Dito com ar de criança que está a ser contrariada)

BeijOoooOOOoO ;D

*PerucaMaluka* waiting, hoping, wishing & dreaming em perucadetule@gmail.com

Bomboca disse...

Muito Bonito!
Ainda bem que te deixas-te ir ;)
Felicidades

nox disse...

Sabe sempre tão bem fechar os olhos e deixar-se ir. Será mais difícil para um homem esquecer um grande amor do que para uma mulher? Circunstâncias diferentes? razões diferentes?? ...

Ana disse...

Adorei este texto com um final bem delicioso
:)