18.5.09

Paralelos ao peito

Engoli um paralelo, o meu corpo ganhou caruncho até aos ossos, os dias parecem ter mais horas que o habitual. As noites e os fins-de-semana são verdadeiras provações, sacrifícios e literalmente espero que as horas passem. Nestas alturas, o mal do tempo é que leva muito tempo a passar. Os ponteiros de relógios riem-se, como se lhes tivesse mordido, vingativos que se juntam ao que vai em mim e me tornam profundamente infeliz.

Queria eu ter o dom da palavra, poder descrever como é sofrer de amores, na esperança que isso expiasse o pesado paralelo de calçada portuguesa que engoli, vomitar o coração, órgão que se faz sentir no peito quando todos os outros arrumados no tronco não dão conta da sua existência. O coração tem de ser o centro de tudo para que eu o sinta o bater do desgosto como se tivesse subido uma escada em correria, para que nunca me deixe dormir uma noite sossegada. Sofrer um desgosto é não ter uma noite tranquila por muito tempo, é adormecer e de repente, a horas obscenas, abrir repentinamente os olhos como um morto que volta à vida, como quem sentiu um punho fechado bater na garganta. Sofrer de amores é sentir espamos frios no peito, é ter mais água nos olhos do que água tem o Tejo, é abri-los como quem acorda com um susto, o estrondo do bater de uma janela. Sofrer de amores é constatar que nos falta um membro, que afinal não é bem um membro, mas é também parte de nós. Sofrer de amores é pedir a Deus que nos leve durante o sono na esperança de que, finalmente, se acabe a tristeza que arrendou espaço debaixo da pele. É querer fugir de todo o convívio, segurar as lágrimas nos sítios públicos, ir buscar força onde não a há e deixar que as comportas se abram, escondida, quando o peso da água se torna insuportável. Sofrer de amores é não ter como explicar o quanto dói, é ter uma dor física quando não se está doente, é ter um vocabulário insuficiente que o explique, é perguntarmo-nos porquê?, é perder a paciência para quem não merece a falta de cuidado.

Desenham-se noites de namoro perdidas no mais afrodisíaco elemento, o calor. Contam-se já seis verões em que não compararei o tom dos meus braços com os de ninguém a quem pertença verdadeiramente, mais noites de calor sumidas no calendário a quem não darei o que julgo ter de mais especial: o meu amor.

Carrego um arrependimento espinhoso e a falta de sentido obriga-me ao atropelo das lembranças. Não tenho vergonha de sofrer, pois o que vai em mim só existe porque o que tinha por ti e contigo era especial. Tenho apenas vergonha de me ter deixado iludir, eu que já tanto devia saber de pessoas como tu. Contas feitas, resta o consolo de que quem perdeu foste tu. Eu perdi alguém de carácter duvidoso, tu perdeste quem ficaria do teu lado o resto da vida.

Lisboa, 20 de Abril de 2009

17 caroço(s):

Inês disse...

Eu sei que não devia, mas adorei este post. Espero que a dor vá embora tão depressa quanto veio, todos temos direito a encher-nos de felicidade.

Anónimo disse...

A data confunde-me...

Sónia

inez disse...

Como a compreendo... sinto o "mesmo" que está a sentir...

Poisoned Apple disse...

Cara Sónia,

nem sempre publico o que escrevo. Às vezes publico mais tarde. Quando assim é, coloco a data em que foi escrito, ou seja, este texto já tem quase um mês de vida.

inês disse...

Pedaço de mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar

Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais

Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu

Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi

Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus


Chico Buarque.




é mesmo isto, não é?

Rabodesaia disse...

Esta simplesmente brilhante!

Algodão Doce disse...

o post está muito bonito!!
Parabéns

Anónimo disse...

Simplesmente impressionante.

Beijos de uma recém adolescente

Tiny Tear disse...

Excelente texto. Por cá, sente-se o mesmo...

Euzinha disse...

Antes de mais parabéns pelo blog, pela forma simples e fascinante das tuas postagens.
Gosto de te ler, apesar de ser uma leitora recente.
Hoje o teu texto marcou-me, talvez porque senti nas tuas palavras a minha dor, senti nas tuas afirmações e desabafos, as minhas afirmações e os desabafos que talvez nunca tenha conseguido exprimir de uma forma tão clara e aberta.
Parabéns pelo blog e pelo post fantástico.

Wolfhearted disse...

Quem dera poder pôr essa dor em palavras...

Anónimo disse...

Cara Maçã,

A minha dúvida não era bem a data em si (eu percebi que era algo já escrito), era a ilusão de que há um mês a Maçã ainda estava feliz, ainda não se tinha desiludido...

Sónia

Cate disse...

Muito forte, mesmo. Sem dúvida um post que, há uns tempos, eu própria gostaria de saber ter escrito.
Um beijinho de uma leitora assídua.

Poisoned Apple disse...

Cara Sónia,

como disse: "ilusão de que há um mês a Maçã ainda estava feliz". Lembre-se que não trato o blog como um diário e por isso as datas podem não corresponder.

ajoanita disse...

Coloquei partes deste texto no meu blog. Peço desculpa, espero que não te importes, mas achei estas palavras do mais bonito que já vi.

Popeline disse...

Deve ser um ar que por aí anda!
É por este e outros posts igualmente espectaculares que lhe agradeço por não ter fechado o blogue.
We will prevail!!

Luisa disse...

Infelizmente esse sentimento de passar verões, sem sentir o calor de outros braços nos meus é algo que partilho contigo...
Quem conheço não tem mais que um banho de água fria para me oferecer e o inverno pauta-se pela ausncia de quem queira aquecer o meu coração...