25.5.09

Amor e o seu final

Ganhei o braço de ferro, venci a resistência à compra dos crepes que guardei este tempo todo com medo do lamento e da saudade que me podiam provocar. Os crepes que preparavas para mim ao pequeno-almoço, o leite que às sete da manhã deixavas de fora para se encontrar com a temperatura ambiente e não me fazer mal à garganta, afinal já tinham sido comprados por todos. Foi quando rendida à falta de stock dei meia volta e o alperce cruzou o meu caminho junto ao pés, rolando para baixo das estantes frigoríficas. Mesmo ao meu lado, uma criança com cara de Marta, denunciou a expressão mais comprometida. Fui em frente, sorri cúmplice, não ia contar a ninguém.

A Marta não sabe que me perguntei o que seria da vida dela daqui a uns anos. A Marta não sabe que atento nos pormenores, que me pergunto o que mais ninguém se lembra nas situações a que mais ninguém ocorre. A Marta não sabe que é com frequência que me lembro daquele casal tão velho quanto velho se pode ser, deitado numa cama que já teria atravessado gerações, rodeados de molduras com retratos a sépia que já nem todos se lembram quem é quem, dos cogumelos que teimavam em crescer no tecto, do calendário amarelado e já com vinte anos que terá permanecido na cozinha porque deviam era gostar do desenho dos cisnes, do verniz escarlate comido pelo tempo nas mãos da senhora que, diziam, já não dá de si. Faziam-me crer que ela não entenderia nada do que se passava, e eu nunca me convenci.

Nas mãos de ambos estavam marcadas o matrimónio, as bodas de ouro e prata. A mão dele, não conseguia nem levantá-la para pedir ajuda a uns pulmões que se apagavam e a um coração gasto. E ela ali permanecia, deitada ao lado dele na cama, com os dedos cruzados sobre o peito a olhar para o tecto, sem nunca desviar o olhar porque não dá de si, mas para mim, como quem olha para Deus e pede, se mo levares, leva-me também, sempre sem se incomodar com o que se ia deixando por cima da cama, os tubos que se puxavam, as máquinas que se ligavam e sem dar conta do sobrinho que, sentado num sofá que o tempo indefiniu a cor, mostrava a paz de quem está preparado, de quem sabe, o pior está a uma questão de minutos.

Tentou-se. Desfez-se um casal, quebrou-se um amor, ficou um corpo morto ao lado dela que ali permanecia, com as mesmas mãos cruzadas sobre o peito, sem ninguém que lhe pintasse as unhas velhas e tortas, sem o marido de toda a vida, com o olhar fixo no tecto e sem uma lágrima. Ela não dá de si, continuavam, mas eu sabia que o coração sabia, naquela minha mania de quem tem um dom, o de ver mais do que está à vista, o de adivinhar o que está por detrás de um corpo inerte. Amar não se vê, sente-se, e amar uma vida inteira transcende tudo o que posso saber. Levou-se um corpo, ficou a saudade, a raiva, o deveria ter sido eu e não ele, as memórias e, em mim, a crença de que quando se quebra um amor de uma vida inteira, partirão os dois em pouco tempo.

A senhora do verniz carcomido morreu, não lembro se seis, se sete dias depois.

A Marta que faz rolar alperces no chão é pequenina, não sabe que a dor de amor pode ser tão psicossomática que é capaz de levar uma vida. Aos meninos como a Marta, contam-se histórias de finais felizes que, na verdade, não existem. É que o amor quando é verdadeiro, tem sempre um final trágico.

7 caroço(s):

Espiral disse...

Não acredito que todo o amor verdadeiro tenha um final trágico. O desse casal que falas não foi. Viveram uma vida juntos, passaram por tanta coisa... trágicos são os amores que podiam ter sido e não foram.

Beijo

Espiral

Anónimo disse...

É que o amor quando é verdadeiro, tem sempre um final trágico.Pois é, não somos eternos... mais tarde ou mais cedo... irá existir a separação...
Mas acontece que muita gente não consegue viver sem se envolver emocionalmente com alguma coisa... (nem que seja um clube de futebol: os fanáticos do futebol também têm as suas emoções).

Pedro disse...

Também não concordo que o amor verdadeiro tenha sempre um final trágico!
O que o faz trágico, ou não, é quem cá fica!
Pela minha parte, se ela partir primeiro que eu, fico satisfeito, não por aquilo que estão a pensar,mentes preversas, mas sim porque a poupo á tristeza de ficar só!

Beijo

O meu olhar disse...

Na minha opinião, um amor só tem um final trágico quando não é vivido a dois! Se ele for vivido e partilhado pelas duas pessoas terminará sempre de uma forma linda... Pode ser de forma dolorosa porque perder quem amamos deixa sempre uma ferida incurável... mas a meu ver... tragédia é outra coisa!
beijos e uma boa semana

Tiny Tear disse...

Um amor verdadeiro terá, para mim, um final trágico quando não é correspondido ou partilhado...Mas compreendo o que quiseste dizer aqui.Beijinhos

Luisa disse...

Nós falamos demais, amamos muito raramente, odiamos
frequentemente.
Esta é a era dos dois empregos, de vários divórcios, casas
chiques e de lares e corações despedaçados.
Esta é a era das viagens rápidas, fraldas e moral
descartáveis, das rapidinhas, dos cérebros ocos e das
pílulas 'mágicas'.

Anónimo disse...

Mas será que todos os amores têm de ser trágicos para serem verdadeiros? Será que só o amor difícil, pelo qual precisamos lutar contra tudo e todos vale a pena?
Porque não podemos simplesmente gostar e quando correspondidos aproveitar esse gostar? Aproveitar o que é bom? Não percebo...