22.4.09

Sexo: o lado não da almofada


"Não vem que não tem", "dói-me a cabeça", "estou cansada", "hoje não" por qualquer razão não especificada, parecem-me desculpas que estão na ordem do dia. A verdade é que vejo o milagre da multiplicação acontecer com estas histórias e, antes que comecem a chover gilletes, eu sei que cada uma é como é, que ainda tenho muito que viver e que há aspectos de uma vida a dois que desconheço. Mas há algo que conheço com certeza absoluta: a forma como me move o coração.

Contava-me um amigo divorciado que chegavam a passar meses em que não tocava na mulher dele. Ela nunca tomava a iniciativa e ele, às tantas, ao fim de tantas negações, achava que o melhor era estar quieto. Ou estar "sozinho". Impressionava-me a conduta dela, o adormecer no sofá constantemente para só ir para a cama já de madrugada, desencontrando-se o casal no leito; o deitar mais cedo, antes que ele o pudesse fazer também, para que quando chegasse já o sono fosse alto; o deixar a criança na cama, a meio, por razões sem cabimento; um rol de situações que aos meus olhos são desesperantes e que tornam uma relação num verdadeiro campo minado. Um destes dias comentei estes factos com um outro amigo, separado há pouco tempo, que me confirmou: "sim, é assim mesmo. Eu já conheço todos os truques!", enquanto parecia encher o peito de um orgulho estranho, na posse de uma sabedoria de quem pensa que no futuro o equivoco não baterá à porta, peito cheio de quem sabe mais, de quem sabe identificar os sinais e, talvez, cheio porque não permitirá que tal volte a acontecer, recorrendo ao diálogo ou, em alternativa, o rápido diagnóstico permitirá saltar fora da teia mais cedo, minimizando-se o tempo de sofrimento e a perda de tempo numa relação gasta. A esta minha dedução que não confirmei, acrescentou outras estratégias que desconhecia, como o adormecer no chão da sala porque é bom para as costas. Invenções às quais recomendaria pilates.

Fiquei a pensar que existia um claro padrão entre aquelas que são ou foram as mulheres de amigos meus, o que se extenderá a mulheres que não conheço de lado nenhum. Não consigo compreender o que leva uma mulher a este tipo de atitude e, pior, não consigo imaginar o que se sente quando se ouve o esticar dos ossos no sofá, longe da vista, para que uma recusa surda indique que hoje também não. Dão-se por aí verdadeiras facadas nos matrimónios e o que me inquieta não é a falta de sexo, é a falta de diálogo e de se viver "bem" em camas nas quais os lençóis tanto esticam que se rasgam, acabando por dormir um em Brasília e outro no Cairo, com um qualquer Atlântico pelo meio.

Não compreendo a falta de vontade que uma mulher tem em sentir-se desejada todos os dias pelo homem que supostamente quer ao lado, não compreendo que um casal deixe de o ser e passem a conhecer-se como estranhos. Muito menos compreendo que um "não" tenha de ser sinónimo de costas voltadas, amuos, trombas e silêncios de rejeição no dia seguinte, até que a sorte mude. Mas afinal o que juntou duas pessoas? Não foi isto de certeza. E porque é que muda? Porque o par passou a estar garantido?

Sempre que este tipo de reflexões me atormenta, juro que peço ao Anjo da Guarda que nunca me mude, que nunca permita que me torne numa mulher distante e que nunca se altere o meu comportamento a dois. Não sou ninfomaníaca, mas sou viciada no amor e quando a conjuntura diária não permite carnavais na horizontal ou de pé, quero manter sempre aquele carinho que me é característico, substituindo o que fica para outro dia por um sono recheado de afecto, como nos bolos, numa qualquer posição escolhida para amar sem penetração e que não sei se consta do Kamasutra.

22 caroço(s):

Bailarina disse...

Bom dia... Sabes, infelizmente estas coisas não acontecem só com as mulheres!! Eu, revi-me no exemplo do teu primeiro amigo... Mas não fui eu que regeitei!! Como tu dizes, não sou ninfomaniaca, mas Adoro ou Adorava Amar... Só que, de certa forma fui regeitada!! O meu namurado deixou de me tocar, deixou de me querer e eu fartei-me de tentar e nunca dialoguei!! Erro que sei, que não voltarei a repetir... Pois isso, fez-me perder o Homem que eu queria comigo, para sempre!! São com os erros, que aprendemos... Mas as vezes, fica caro!!
Bjinho*

Walter Fane disse...

É um facto que a paixão vai morrendo com o tempo. Os casais consomem-se, e cada vez mais acontece isso. Comigo foi exactamente o mesmo do teu amigo. Passavam-se dias, semanas e por fim, meses... até que acabou de vez. Curioso é que depois foi a tentativa desesperada de me trazer de volta. O querer estar debeixo de mim, quando na minha cabeça já tinha morrido tudo. Coisas que custam perceber. Coisas a meu ver, pouco racionais.
Enfim, a vida continua, agora bem melhor e apenas desejo que se amem todos. Como se o mundo acabasse amanha, porque depois pode ser tarde demais!

pimenta disse...

Um bom dia e uma boa semana para todos.
Li atentamente o artigo e identifiquei-me bastante, no entanto no meu caso foi o contrário o meu marido foi-se distanciando.
Mas o que leva a isto não é a falta de amor, mas sim a vida agitada, o stress do dia a dia, os filhos que necessitam de toda a nossa atenção, e vamo-nos esquecendo que existe outro lado da vida, em que amamos e somos amados.
Deixamos de dar e de receber.Passei por um exemplo desses, em que descemos fundo, acordamos para a realidade e ac hamos que valia a pena tentar de novo.Ao fim de 25 anos de casamento aqui estamos nós mais apaixonados que nunca, em que o sexo está a ser uma nova descoberta, e tentamos ser felizes.
Aconselho a que não parem de dialogar, isso é o pior que pode acontecer a qualquer casal.
Aprendemos com os erros destes últimos dois anos, mas foi bom porque nos ensinou como amar de novo.
Um beijinho

disse...

Também não entendo...e o pior é continuarem, muitas vezes, juntos, presos a uma relação sem sentido, sem amor, sem desejo, sem diálogo...

AnNa disse...

Bom dia!
Tal como tu, também eu peço a alguém que olha por mim, que nunca me deixe mudar nesse sentido! =)
Às vezes, quando a vontade é muita mas não se pode (mesmo), até sabe bem ficar aninhada no abraço, sentir o calor do amor que o companheiro no faz sentir!

BeijinhO! *

Pedro disse...

Pois é, as coisas são mesmo assim!
E não é só no teu circulo de amigos, há mais por aí, muito mais.
Acho que o problema passa pelas pessoas não assumirem o que andam a fazer, o que sentem, o que desejam, o que querem!
Apostam em relações já acabadas, mas sem coragem para passar para outras, mais compensadoras, mesmo que com a incerteza das coisas.

BJ

Joao disse...

brutal!
descreves no teu texto o que se passa muitas vezes numa longa relação a dois...
o DIÁLOGO é fundamental... já dizia alguém: "quando chegarmos a velhos, o mais importante é a conversa..."
Por isso, se um casal não fala, não tem futuro...
... e nesta descrição é exactamente o que acontece à maioria das pessoas: não falam!

Piston disse...

Correndo o risco de ser bastante desagradável para com alguns comentadores:
- Toda a gente tem sede
- Toda a gente sente necessidade de beber

Quando alguém não bebe em casa não quererá dizer que já terá bebido noutro sitio?

Medusa disse...

é aterrador pensar que se pode chegar a esse ponto :|

sigo o teu blog há algum tempo. gosto imenso do que escreves e da originalidade com que o fazes. parabéns pelo blog!

vou continuando a seguir...

***

Ele disse...

Gostei muito do que li mas acho que falta explorar um dos lados da questão. O que é que se passa na cabeça de quem rejeita. Porque é que as mulheres de que falas rejeitam os seus companheiros? Será que perderam o desejo por eles? Será que eles se desleixaram, quer no sentido físico, quer afectivo, depois de terem a relação (aparentemente) sólida? Porque é que elas passaram a ter mais vontade de dormir no sofá do que a ir para a cama com os seus (supostamente) mais-que-tudo? E o mesmo é válido quando são eles que rejeitam, o que também acontece e não é tão pouco quanto se possa imaginar. Porque é que preferem estar com eles próprios no duche do que com as suas mulheres? Porque é que a PS3 é mais divertida do que uma cambalhota com a sua amada? Se calhar o sexo, tal como a relação num todo, precisa de ser trabalhado continuamente. O que é suficiente quando a relação está num estado inicial não é de todo suficiente passado 5 anos de relação. Penso que o problema é que não é tão simples perceber isto e quando se percebe, não é muito fácil pôr em prática. Ou porque não há muito diálogo, ou porque por vezes, por questões culturais, não é muito fácil falar sobre este tipo de assunto. Enfim. Nem tudo o que aparentemente é simples, na realidade o é. E sim, eu também me revejo no texto que escreveste.

Osga disse...

A simplicidade do Piston é arrasadora.

Btw, não tinha uma visão tão crua de uma realidade dessas!

Anónimo disse...

Não compreende porque não viveu ainda uma situação semelhante. Temos de cuidar do amor continuamente, senão acontece-nos a todos isto, mais cedo ou mais tarde. Temos de dialogar, mesmo por gestos, atitudes; mostrar o que queremos. Já passei por um periodo destes quando depois de um ano praticamente sem sexo passei a ter mau sexo, um marido que engordou 20 quilos e é molengão. Chegou uma altura em que preferia não ter sexo e negava. Depois decidi a separação. Ele ainda vai acabar por se queixar como o seu amigo que a mulher o negava... A vida é linda ~´oa é que a complicamos.

Anónimo disse...

Eu concordo com a Pimenta. Em muitos casos é o rush do dia-a-dia. O chegar tarde e cansado a casa, com tanto ainda por fazer.

Vivo apenas há 9 meses com a minha namorada e por vezes passa muito tempo sem "fazermos o amor". Mas não deixa, nunca, de existir o amor verbal, físico e sentido. Apenas uma das suas componentes fica relegada, "temporariamente", para segundo plano.

Pelos vistos é bem mais frequente do que pensamos, só ninguém vai para a praça pública contar.

O tema deste post foi mto mto bom!

Anónimo disse...

Além dos factores de stress diário, há as "micro-depressões" e o complexo que as mulheres criam facilmente com o seu corpo, mesmo quando muito bem amadas.

Perola Luna disse...

Simplesmente adorei!!
eu também espero que nada disso que me aconteça vai fazer um ano de namoro, de finais de dia na cozinha a fumar o biri night e a falar de tudo e mais alguma coisa... mas houve um dia que disse ao meu amor: "há alguns dias que não estamos na cozinha à converseta..."
dia seguinte assim que cheguei a casa mudei de roupa mais confertável, lá estavam os banquitos prontos para a converseta!
e mesmo que às vezes ele seja um mau feitio do pior, eu gosto dele assim, dá-me gozo porque nunca irá mudar logo aprendo a gostar!!
nunca deixar morrer o diálogo nem a paciencia!!
e agora estou aqui e ele na cozinha a lavar a loiça com a boa disposição que nós desejamos!
*******

cantinhodacaa disse...

"...quero manter sempre aquele carinho que me é característico, substituindo o que fica para outro dia por um sono recheado de afecto, como nos bolos, numa qualquer posição escolhida para amar sem penetração e que não sei se consta do Kamasutra."

Esta foi a parte mais bonita do seu post.
Espero que esteja sempre presente na sua relação (faz-me imensa confusão o porquê das mulheres e homens não trocarem carícias, beijos, sorrisos, conversas, palavras...)
Sei que há homens que sofrem. Sei que há mulheres que sofrem...

Isabel Silva disse...

Bom dia... foi a primeira vez que visitei o seu blog e gostei imenso do que escreveu. Vou passar a ser leitora assídua.
Concordo com o que disse. O amor, carinho, afecto e diálogo devem estar sempre presentes num relacionamento e cabe aos dois e não só a um lutar por isso!
Bjinho

ladybug disse...

Infelizmente este é um comportamente que se estende a mulheres que certamente não conheces de lado algum. Também a mim me faz alguma confusão. Pessoalmente, acho que é sintomático de problemas bem maiores na relação mas, e se calhar sou só eu que penso assim, as pessoas acomodam-se tantoooooo!!!! Bjs. Joana

pan-kekas disse...

Sou fã de colinho de final de dia do fazer amor de mimo, do adormecer enrroscados no sofá... mas conheço TAMBÉM o outro lado, o lado da amiga e colega que a caminho do trabalho, nas tais manhãs de "trabalhar pro casamento",atraso, muito stress, porque sabes lá Marta o que é ter que trabalhar pro casamento todas as manhãs?!! De manhã é que é tão bom? Oh rapariga deixa-te de romances que a vida não é cor-de-rosa, o que eu quero é que ele se despache rápido pra me poder arranjar e vir trabalhar.

Bem real esta conversa matinal... e garanto que não foi um caso isolado.

Sigo o teu blogue há um tempo... vi-te na reportagem da tv, reconheci o spot claro eheh não devo ter sido a única.

Aguardo o livro.

_*Marta

Anónimo disse...

e tb há o caso daqueles homens que chegam a casa e sentam-se no sofá, enqt a mulher cansadissima e stressada de um dia de trabalho duro ainda tem a roupa para pôr na maquina e estender, o jantar para fazer, os filhos para banhar e atender, pôr a mesa, tirar a mesa, arrumar a cozinha e ele? continua sentado no sofá a ver o seu programa de desporto.E dps de td isto querem sexo??

Sanxeri disse...

Concordo em pleno. Namorei um ano e nunca usei tais desculpas porque dizer que não a alguem que eu ama me parece inconcebivel. E a verdade é que NUNCA quis dizer nao. :D

Pedro Bom disse...

o que relatas é o principio do fim!!
Por vezes depois elas/eles queixam-se de arranjarem outra/o, ou ainda a falta desse desejo é por uma das partes já ter esse outro/a...
Relações de aparência, não obrigado