
"Não vem que não tem", "dói-me a cabeça", "estou cansada", "hoje não" por qualquer razão não especificada, parecem-me desculpas que estão na ordem do dia. A verdade é que vejo o milagre da multiplicação acontecer com estas histórias e, antes que comecem a chover gilletes, eu sei que cada uma é como é, que ainda tenho muito que viver e que há aspectos de uma vida a dois que desconheço. Mas há algo que conheço com certeza absoluta: a forma como me move o coração.
Contava-me um amigo divorciado que chegavam a passar meses em que não tocava na mulher dele. Ela nunca tomava a iniciativa e ele, às tantas, ao fim de tantas negações, achava que o melhor era estar quieto. Ou estar "sozinho". Impressionava-me a conduta dela, o adormecer no sofá constantemente para só ir para a cama já de madrugada, desencontrando-se o casal no leito; o deitar mais cedo, antes que ele o pudesse fazer também, para que quando chegasse já o sono fosse alto; o deixar a criança na cama, a meio, por razões sem cabimento; um rol de situações que aos meus olhos são desesperantes e que tornam uma relação num verdadeiro campo minado. Um destes dias comentei estes factos com um outro amigo, separado há pouco tempo, que me confirmou: "sim, é assim mesmo. Eu já conheço todos os truques!", enquanto parecia encher o peito de um orgulho estranho, na posse de uma sabedoria de quem pensa que no futuro o equivoco não baterá à porta, peito cheio de quem sabe mais, de quem sabe identificar os sinais e, talvez, cheio porque não permitirá que tal volte a acontecer, recorrendo ao diálogo ou, em alternativa, o rápido diagnóstico permitirá saltar fora da teia mais cedo, minimizando-se o tempo de sofrimento e a perda de tempo numa relação gasta. A esta minha dedução que não confirmei, acrescentou outras estratégias que desconhecia, como o adormecer no chão da sala porque é bom para as costas. Invenções às quais recomendaria pilates.
Fiquei a pensar que existia um claro padrão entre aquelas que são ou foram as mulheres de amigos meus, o que se extenderá a mulheres que não conheço de lado nenhum. Não consigo compreender o que leva uma mulher a este tipo de atitude e, pior, não consigo imaginar o que se sente quando se ouve o esticar dos ossos no sofá, longe da vista, para que uma recusa surda indique que hoje também não. Dão-se por aí verdadeiras facadas nos matrimónios e o que me inquieta não é a falta de sexo, é a falta de diálogo e de se viver "bem" em camas nas quais os lençóis tanto esticam que se rasgam, acabando por dormir um em Brasília e outro no Cairo, com um qualquer Atlântico pelo meio.
Não compreendo a falta de vontade que uma mulher tem em sentir-se desejada todos os dias pelo homem que supostamente quer ao lado, não compreendo que um casal deixe de o ser e passem a conhecer-se como estranhos. Muito menos compreendo que um "não" tenha de ser sinónimo de costas voltadas, amuos, trombas e silêncios de rejeição no dia seguinte, até que a sorte mude. Mas afinal o que juntou duas pessoas? Não foi isto de certeza. E porque é que muda? Porque o par passou a estar garantido?
Sempre que este tipo de reflexões me atormenta, juro que peço ao Anjo da Guarda que nunca me mude, que nunca permita que me torne numa mulher distante e que nunca se altere o meu comportamento a dois. Não sou ninfomaníaca, mas sou viciada no amor e quando a conjuntura diária não permite carnavais na horizontal ou de pé, quero manter sempre aquele carinho que me é característico, substituindo o que fica para outro dia por um sono recheado de afecto, como nos bolos, numa qualquer posição escolhida para amar sem penetração e que não sei se consta do Kamasutra.
22 caroço(s):
Bom dia... Sabes, infelizmente estas coisas não acontecem só com as mulheres!! Eu, revi-me no exemplo do teu primeiro amigo... Mas não fui eu que regeitei!! Como tu dizes, não sou ninfomaniaca, mas Adoro ou Adorava Amar... Só que, de certa forma fui regeitada!! O meu namurado deixou de me tocar, deixou de me querer e eu fartei-me de tentar e nunca dialoguei!! Erro que sei, que não voltarei a repetir... Pois isso, fez-me perder o Homem que eu queria comigo, para sempre!! São com os erros, que aprendemos... Mas as vezes, fica caro!!
Bjinho*
É um facto que a paixão vai morrendo com o tempo. Os casais consomem-se, e cada vez mais acontece isso. Comigo foi exactamente o mesmo do teu amigo. Passavam-se dias, semanas e por fim, meses... até que acabou de vez. Curioso é que depois foi a tentativa desesperada de me trazer de volta. O querer estar debeixo de mim, quando na minha cabeça já tinha morrido tudo. Coisas que custam perceber. Coisas a meu ver, pouco racionais.
Enfim, a vida continua, agora bem melhor e apenas desejo que se amem todos. Como se o mundo acabasse amanha, porque depois pode ser tarde demais!
Um bom dia e uma boa semana para todos.
Li atentamente o artigo e identifiquei-me bastante, no entanto no meu caso foi o contrário o meu marido foi-se distanciando.
Mas o que leva a isto não é a falta de amor, mas sim a vida agitada, o stress do dia a dia, os filhos que necessitam de toda a nossa atenção, e vamo-nos esquecendo que existe outro lado da vida, em que amamos e somos amados.
Deixamos de dar e de receber.Passei por um exemplo desses, em que descemos fundo, acordamos para a realidade e ac hamos que valia a pena tentar de novo.Ao fim de 25 anos de casamento aqui estamos nós mais apaixonados que nunca, em que o sexo está a ser uma nova descoberta, e tentamos ser felizes.
Aconselho a que não parem de dialogar, isso é o pior que pode acontecer a qualquer casal.
Aprendemos com os erros destes últimos dois anos, mas foi bom porque nos ensinou como amar de novo.
Um beijinho
Também não entendo...e o pior é continuarem, muitas vezes, juntos, presos a uma relação sem sentido, sem amor, sem desejo, sem diálogo...
Bom dia!
Tal como tu, também eu peço a alguém que olha por mim, que nunca me deixe mudar nesse sentido! =)
Às vezes, quando a vontade é muita mas não se pode (mesmo), até sabe bem ficar aninhada no abraço, sentir o calor do amor que o companheiro no faz sentir!
BeijinhO! *
Pois é, as coisas são mesmo assim!
E não é só no teu circulo de amigos, há mais por aí, muito mais.
Acho que o problema passa pelas pessoas não assumirem o que andam a fazer, o que sentem, o que desejam, o que querem!
Apostam em relações já acabadas, mas sem coragem para passar para outras, mais compensadoras, mesmo que com a incerteza das coisas.
BJ
brutal!
descreves no teu texto o que se passa muitas vezes numa longa relação a dois...
o DIÁLOGO é fundamental... já dizia alguém: "quando chegarmos a velhos, o mais importante é a conversa..."
Por isso, se um casal não fala, não tem futuro...
... e nesta descrição é exactamente o que acontece à maioria das pessoas: não falam!
Correndo o risco de ser bastante desagradável para com alguns comentadores:
- Toda a gente tem sede
- Toda a gente sente necessidade de beber
Quando alguém não bebe em casa não quererá dizer que já terá bebido noutro sitio?
é aterrador pensar que se pode chegar a esse ponto :|
sigo o teu blog há algum tempo. gosto imenso do que escreves e da originalidade com que o fazes. parabéns pelo blog!
vou continuando a seguir...
***
Gostei muito do que li mas acho que falta explorar um dos lados da questão. O que é que se passa na cabeça de quem rejeita. Porque é que as mulheres de que falas rejeitam os seus companheiros? Será que perderam o desejo por eles? Será que eles se desleixaram, quer no sentido físico, quer afectivo, depois de terem a relação (aparentemente) sólida? Porque é que elas passaram a ter mais vontade de dormir no sofá do que a ir para a cama com os seus (supostamente) mais-que-tudo? E o mesmo é válido quando são eles que rejeitam, o que também acontece e não é tão pouco quanto se possa imaginar. Porque é que preferem estar com eles próprios no duche do que com as suas mulheres? Porque é que a PS3 é mais divertida do que uma cambalhota com a sua amada? Se calhar o sexo, tal como a relação num todo, precisa de ser trabalhado continuamente. O que é suficiente quando a relação está num estado inicial não é de todo suficiente passado 5 anos de relação. Penso que o problema é que não é tão simples perceber isto e quando se percebe, não é muito fácil pôr em prática. Ou porque não há muito diálogo, ou porque por vezes, por questões culturais, não é muito fácil falar sobre este tipo de assunto. Enfim. Nem tudo o que aparentemente é simples, na realidade o é. E sim, eu também me revejo no texto que escreveste.
A simplicidade do Piston é arrasadora.
Btw, não tinha uma visão tão crua de uma realidade dessas!
Não compreende porque não viveu ainda uma situação semelhante. Temos de cuidar do amor continuamente, senão acontece-nos a todos isto, mais cedo ou mais tarde. Temos de dialogar, mesmo por gestos, atitudes; mostrar o que queremos. Já passei por um periodo destes quando depois de um ano praticamente sem sexo passei a ter mau sexo, um marido que engordou 20 quilos e é molengão. Chegou uma altura em que preferia não ter sexo e negava. Depois decidi a separação. Ele ainda vai acabar por se queixar como o seu amigo que a mulher o negava... A vida é linda ~´oa é que a complicamos.
Eu concordo com a Pimenta. Em muitos casos é o rush do dia-a-dia. O chegar tarde e cansado a casa, com tanto ainda por fazer.
Vivo apenas há 9 meses com a minha namorada e por vezes passa muito tempo sem "fazermos o amor". Mas não deixa, nunca, de existir o amor verbal, físico e sentido. Apenas uma das suas componentes fica relegada, "temporariamente", para segundo plano.
Pelos vistos é bem mais frequente do que pensamos, só ninguém vai para a praça pública contar.
O tema deste post foi mto mto bom!
Além dos factores de stress diário, há as "micro-depressões" e o complexo que as mulheres criam facilmente com o seu corpo, mesmo quando muito bem amadas.
Simplesmente adorei!!
eu também espero que nada disso que me aconteça vai fazer um ano de namoro, de finais de dia na cozinha a fumar o biri night e a falar de tudo e mais alguma coisa... mas houve um dia que disse ao meu amor: "há alguns dias que não estamos na cozinha à converseta..."
dia seguinte assim que cheguei a casa mudei de roupa mais confertável, lá estavam os banquitos prontos para a converseta!
e mesmo que às vezes ele seja um mau feitio do pior, eu gosto dele assim, dá-me gozo porque nunca irá mudar logo aprendo a gostar!!
nunca deixar morrer o diálogo nem a paciencia!!
e agora estou aqui e ele na cozinha a lavar a loiça com a boa disposição que nós desejamos!
*******
"...quero manter sempre aquele carinho que me é característico, substituindo o que fica para outro dia por um sono recheado de afecto, como nos bolos, numa qualquer posição escolhida para amar sem penetração e que não sei se consta do Kamasutra."
Esta foi a parte mais bonita do seu post.
Espero que esteja sempre presente na sua relação (faz-me imensa confusão o porquê das mulheres e homens não trocarem carícias, beijos, sorrisos, conversas, palavras...)
Sei que há homens que sofrem. Sei que há mulheres que sofrem...
Bom dia... foi a primeira vez que visitei o seu blog e gostei imenso do que escreveu. Vou passar a ser leitora assídua.
Concordo com o que disse. O amor, carinho, afecto e diálogo devem estar sempre presentes num relacionamento e cabe aos dois e não só a um lutar por isso!
Bjinho
Infelizmente este é um comportamente que se estende a mulheres que certamente não conheces de lado algum. Também a mim me faz alguma confusão. Pessoalmente, acho que é sintomático de problemas bem maiores na relação mas, e se calhar sou só eu que penso assim, as pessoas acomodam-se tantoooooo!!!! Bjs. Joana
Sou fã de colinho de final de dia do fazer amor de mimo, do adormecer enrroscados no sofá... mas conheço TAMBÉM o outro lado, o lado da amiga e colega que a caminho do trabalho, nas tais manhãs de "trabalhar pro casamento",atraso, muito stress, porque sabes lá Marta o que é ter que trabalhar pro casamento todas as manhãs?!! De manhã é que é tão bom? Oh rapariga deixa-te de romances que a vida não é cor-de-rosa, o que eu quero é que ele se despache rápido pra me poder arranjar e vir trabalhar.
Bem real esta conversa matinal... e garanto que não foi um caso isolado.
Sigo o teu blogue há um tempo... vi-te na reportagem da tv, reconheci o spot claro eheh não devo ter sido a única.
Aguardo o livro.
_*Marta
e tb há o caso daqueles homens que chegam a casa e sentam-se no sofá, enqt a mulher cansadissima e stressada de um dia de trabalho duro ainda tem a roupa para pôr na maquina e estender, o jantar para fazer, os filhos para banhar e atender, pôr a mesa, tirar a mesa, arrumar a cozinha e ele? continua sentado no sofá a ver o seu programa de desporto.E dps de td isto querem sexo??
Concordo em pleno. Namorei um ano e nunca usei tais desculpas porque dizer que não a alguem que eu ama me parece inconcebivel. E a verdade é que NUNCA quis dizer nao. :D
o que relatas é o principio do fim!!
Por vezes depois elas/eles queixam-se de arranjarem outra/o, ou ainda a falta desse desejo é por uma das partes já ter esse outro/a...
Relações de aparência, não obrigado
Enviar um comentário