27.4.09

Gostar, estar e ficar

Quem gosta, fica, está. Quem não gosta vai-se, não está. Gostar, amar, deixar-se ficar do lado de quem dita o coração, para mim não tem áreas cinzentas. Ou sim ou sopas. Ou é ou não é. E quando um homem dita que assim não seja, porque precisa de tempo, de espaço, que a culpa é dele, mas gosta muito dela, ama-a de coração, desfaz-se em declarações, mas precisa de estar só e outras mentiras que abafam a existência de terceiros (ou mesmo que a verdade não inclua um trio, porque afinal as pessoas podem simplesmente ser fracas, estúpidas e/ou imaturas), são para mim o fim de um investimento.

Estes são filmes que já vivi e assisti, como outras, sempre incrédula, sempre à procura de respostas, fazendo as vezes daqueles fantasmas de sótão que arrastam no pé uma corrente presa a uma pesada bola de ferro. O latente, repetitivo e arrasador "porquê?" que não vê resposta come uma mulher por dentro, dirige-lhe o olhar e as energias de um dia inteiro para um telefone que se deseja a tocar no próximo instante, para a caixa de e-mail onde sonhamos mil perdões de quem teve medo de encarar a nossa cara sofrida, o que afinal não é mais do que cobardia. É, já todas passámos por isto.

Mas a vida ensinou-me que afinal a verdadeira justificação não é importante, basta o acto para que se tome a decisão de acabar com o sentimento dentro de nós por quem não merece. Há muitos anos, mais do que uma vez, lutava desmedidamente por quem me partia o coração. Expunha-me, humilhava-me, em nome daquilo que era um bem maior, porque pensava que movida por bons sentimentos o bem haveria de prevalecer. E a verdade é que conseguia. Mas por razões desconhecidas mudei, sem data ou fase específica e apesar do sucesso das minhas lutas, passei a ser da opinião que o que fazia não tinha qualquer sentido. Hoje, penso que lutarei sempre por um homem se eu própria cometer um erro, se fizer uma asneira, porque não estou livre de falhar. Mas quem falhar comigo, Deus me livre da tentação de dar um passo na recuperação de uma perda que não provoquei. A vida cansou-me, a luta deixou-me gasta.

Hoje, quem eu quero e me quer tem-me de coração, a minha dedicação e toda a minha generosidade. Tem-me na alma, na pele, e todos os poros. Mas se se lembrar de fazer asneira vai ver-me desaparecer no mapa sem oferecer resistência ou luta. É que o que vejo acontecer por aí extinguia-se se todos agíssemos da mesma forma: sabendo a parte pecadora que não existiriam gritos, lágrimas, puxar de cabelos desesperados e volta que não sei viver sem ti, o medo da verdadeira perda dava lugar ao é-só-um-bocadinho-que-eu-volto-já-já, obrigando muita gente a crescer e a tomar decisões sérias, em vez de andar a dispor da vida da qual se julga dono, mas que afinal é alheia.

17 caroço(s):

Miss Kin disse...

Been there done that! Essa história da luta por "um bem maior" é a pior desculpa que algum dia alguém se lembrou, nenhum bem pode vir de tão grandes males como aqueles que aturamos por esse tal "bem".

Também aprendi que os cinzentos só existem para os cobardes ou para os que há partida já sabem que não nos querem da mesma maneira.

O que é certo é que a partir desta tua descoberta, que ñ é bem descoberta, mas mais um "limpar de céu para se ver o sol", só vais lutar por um bem maior quando ele realmente existir e nunca vai ser de difícil acesso!

Maria disse...

"Epahh Quem és tu??"
Este tem sido o pensamento quando leio os teus textos. Ás vezes parece que "me" estou a ler.
Mais uma vez obrigado por isso. Contínua a pensar assim e a agir de acordo com o que escreves-te, porque se alguém te perder concerteza terá sido pior para ele.Bj
(maria)

Bluebluesky disse...

Oleeee!! CLAP CLAP CLAP CLAP. Apoiadíssima!

Helena de Troia disse...

Identifiquei-me tanto com esse texto que me vieram as lágrimas aos olhos. Estou a passar por uma fase cinzenta, e eu gosto de tudo preto no branco, e não poderias ter tirado mais as palavras da minha boca.
Estive a ler-me a mim própria ao ler isso, e pensei, pensei a sério no que ando a fazer à minha vida.
Enfim.. :)

Walter Fane disse...

Na vida aprendi que é dificil encontral pessoas bi cromáticas como eu (e tu). Es um achado!!... Triste(s) aquele(s) que te perdeu(ram).

Bjooooooooooos

eu... disse...

Este texto é a reflexão do resultado a que cheguei depois de muitos dias e noites a pensar na minha vida... Parabéns.

Pandora disse...

"...a luta deixou-me gasta"...acreditas que ainda ontem escrevi no meu caderninho algo muito parecido e com as mesmas palavras?

Acho que nós mulheres somos todas iguais, lutamos...lutamos, até ao desgaste e um dia finalmente havemos de aprender.

Bjs

Joana disse...

...estava a precisar de uma dose deste teu discurso!
:) só te consigo dizer: tens razão.

ESPARTA e TRÓIA disse...

A primeira linha do texto do discurso resume tudo. O estado das coisas em geral e dos sentimentos em particular. É de louvar a reflexão e o alerta contínuos de mulher para mulheres.

Miss G. disse...

Para variar, identifico-me muito com o que escreveste. :)

Tiny Tear disse...

Certíssimo! Não podia concordar mais. Felizmente estou a sair da fase má, agora tem de ser tudo preto no branco : )Espero que a fase cinzenta não volte nem para mim, nem para ti obviamente : p

Deusa Istar disse...

desculpa-me a falta de criatividade no comentário mas...este post está fantástico! adorei, estou a seguir o blog ;)

Praganitas disse...

Depois de um texto destes resta-me dizer: Obrigada!
Conseguiste traduzir de uma forma tão exacta aquilo que senti que eu nunca faria tão bem!

Cate disse...

Leste-me os pensamentos ou tiraste-me as palavras da boca, é tudo o que posso dizer. Aliás, posso ainda acrescentar o quão fantástico é este blog. Identifico-me. Keep going!

THis Me ... disse...

bem... acho que já foi tudo dito e bem e muito bem, acho que nada poderia adiantar, a não ser que as perdas são sempre perdas e que, independentemente, de sermos fortes ou não, ninguém pode ser indiferente ao coração que chora ou a alma que em silêncio vai definhando, gasta com o tempo. Existe antídoto? um novo grande Amor:)

sofia disse...

ola maçã! a mim aconteceu o mesmo.antes parecia so valorizar quem nao me valorizava mas, mudei aprendi. beijinhus. o teu blog é excelente

Anónimo disse...

É preciso viver muito para conseguirmos "domesticar" os sentimentos. Identifico-me totalmente com este "post" e com muitos outros que já li e reli no teu blog.

Se não gostarmos de nós, se não nos valorizarmos, se não batermos o pé...só vamos arranjar homens que não nos merecem. É sintomático...

Custa muito chegar lá, perdemos partes de nós pelo caminho, mas depois de vermos a luz, jamais voltaremos a aceitar zonas cinzentas...

texto muito sábio, o teu.