16.3.09

Versão brasileira

Chegou num inesperado e acompanhou-se pelo meu sorriso que a leu. Veio numa versão mais light, de quem não quer abusar, invadir o espaço, talvez muito mais do que isso: de quem não se quer ver errado na escolha das palavras por, eventualmente, quem sabe, poder não se ver correspondido. Claramente um arrojo de quem pensou ou vai ou racha, de quem respirou fundo e pensou dez vezes antes de arriscar. E pior, a espera de quem cometeu a ousadia, de quem se expôs, de quem se deu, embora comedidamente, numa versão de um outro jeitinho, de quem não quer perder a maior graça. É que língua portuguesa é rija, áspera, quase como lixa, frontal. É uma língua que, mais que as outras, lembra que a palavra proferida não volta atrás. É a língua da expressão "saudade" que dizem não existir em nenhuma outro idioma, embora já me tenham mostrado como se diz em alemão. Sabe-se lá quem tem razão. Mas sabe quem sabe português que as nossas palavras são brutas como ferros em brasa, que marcam e que por isso devem ser usadas com cuidado.

Música de sublimes obras literárias, falta-nos um acordo ortográfico para quem quer aligeirar a coisa, desprender-se da violência que um ou outro pode sentir, como quem busca por uma versão de criança. Na falta desta, surge a versão brasileira, mais cantada, solta, quase como quem diz que não tem mal, suave aos ouvidos, um amo você em vez de um amo-te. Completo em todo o seu sentimento, porque o importante é o que vai no peito, mas incompleto naquilo que são as nossas raízes, o nosso sangue, não menos verdadeiro nem menos sentido, mas mais desprendido pelo medo do que a audácia da inicativa pode provocar.

No entanto, os amo-te continuam a soar-me pirosos, falsos, consequência dos abusos diários, de gentinha que o vai proferindo, dos que não o sentem e dizem-no porque sim ou, pior, porque se tornou um hábito. Na volta, apenas poderia seguir algo que também não fosse completamente meu porque não dou passos em falso, porque já lá vai o tempo em que arriscava, o tempo em que me dava às cegas ou, descobri agora, o tempo em que isso era de importância fundamental na falta de uma certeza e da aprovação de que eu sou mais importante que tudo o resto. Quando se sabe o que se tem, deixa de ser uma busca incessante, pois a calma invade-nos. Não sei se deixei a desejar, se me portei mal, mas já diz a música, na língua inglesa fica sempre bem, ficando-me pelo love you back.

5 caroço(s):

Nexis disse...

Querida Eva, finalmente um post em que estou em completo desacordo consigo (tenho mesmo de a tratar por senhora??)

Um "amo você" esta' muitos furos abaixo dum "amo-te"! Alias, quando o oiço só me vem a cabeça meninas demasiado enrodilhadas em novelas da noite, e nao gosto nada! Um "amo-te" e' muitissimo mais delicioso.

Pior: a língua portuguesa a a língua mais doce das latinas, e falo da língua com o nosso sotaque! Não e' dura como lixa, nem franca-que-doí! E suave e cheia de riquezas de altos e baixos fonéticos! Ja o portugues do Brasil e' uma simplificacao menos rica em sons com a sua própria melodia, se e' melhor, nao se discute (são gostos) mas como bem admite: um "amo-te" (se sentido) e' bem mais poderoso que um "amo você", esse sim com tons de ligeireza e de ser dito a todas as refeições independentemente do prato!

Mas conclusão, parabéns pela bonita historia de amor que esta a viver. Em que língua desejar!

Miss G. disse...

Concordo que o "amo-te" está mais do que banalizado. Mas não acho que seja por isso que perde a beleza, embora ache um exagero quem o diz a toda a hora, minuto e segundo. Eu não o banalizo. Acho que o disse duas vezes na vida. E concordo contigo quando dizes que a nossa língua é séria, madura, algo ríspida, até.

Carla disse...

Para mim um "Amo você" não tem o mesmo encanto que um "Amo-te". Nada melhor do que ouvir um "Amo-te" quando este é verdadeiramente sentido pela pessoa que o diz. Claro que está banalizado, e quando proferido muitas vezes perde o significado.

Anónimo disse...

Amo você?!!!!!!!!!!! Oh pah com a fama (e muito proveito) que têm as brasileiras a verdade é que soa a falso até dizer chega. Mil vezes um AMO-TE ou se te soa esquisito um Love YOU.
Carla

Anónimo disse...

telemovel giro

Stranger