No plano amoroso, acredito que já todos perdemos a dignidade numa qualquer fase da vida. Se nunca a perdeu, faço votos que a perca em breve, para que lhe possa dar o devido valor num futuro a médio-longo prazo. Mais confusão me fazem aqueles - mais aquelas que aqueles - que mais parece que nunca a tiveram. Hoje sou exactamente o oposto do que fui um dia, tempos em que sempre baixava a cabeça, sempre cedia, fazia tudo em prol do outro, abdicava das minhas vontades e até de dar opiniões relativas à relação amorosa, em nome de algo que me fazia pensar que assim seria mais feliz o que, na verdade, nunca aconteceu.
Sinto-me envergonhada de cada vez que me lembro que por causa de um rapaz que não valia um corno, sabe Deus o que vi nele, fiz as figuras mais tristes de sempre, humilhei-me e perdi mais do que muitas vezes a dignidade, tudo para manter o amor que vivia com ele. Garanto que lembrar-me desta relação me provoca náuseas, tinha 17 anos, era o primeiro namorado e nada sabia da vida, mas ainda assim gostava muito de ter tido alguém que me sacudisse, me enfiasse um par de estalos ou me desse uma tareia sem nome de cada vez que uma discussão por causa de coisa nenhuma levava ao fim do namoro (na adolescência é assim). Ora então, chorava continuamente sentada nos degraus à porta de casa dele. Lá dentro ele ria, bebia Coca-Cola e jogava qualquer coisa parecida com uma playstation. Os vizinhos passavam e viam-me ali. Os amigos entravam e saiam de casa dele para os famosos torneios, contornavam-me para poder entrar e ele olhava-me com quem pergunta ainda estás aí? E ali fiquei horas a fio, tantas vezes. Hesito imenso em escrever isto porque faz de mim uma pior pessoa, uma pessoa sem dignidade não tem nada. Muitas pessoas não vão conseguir imaginar-me a fazer estas figuras indignas, mas só eu sei os erros que já cometi. Se este texto sacudir alguma mulher de repetir este ridículo ou semelhante, já valeu a pena.
E não tenho como fazer compreender uma mulher com quem até nem tenho este tipo de conversas, que nenhum homem gosta de uma mulher que primeiro não goste dela própria. Não que isto tenha a ver com géneros, pois também nenhuma mulher gosta de um homem que viu a dignidade desaparecer por um ralo. Revoltam-me situações como as que eu fiz que, embora não perdoando, consigo perceber numa pessoa que ainda não é adulta. Mas uma adulta por inteiro não consigo compreender que massacre um homem por telefone, todos os dias, num contacto onde não existe diálogo, apenas um questionário (longo) de quem tem uma folhinha no colo e vai preenchendo com cruzes o que corresponde à verdade dele: pensaste em mim hoje? A que horas? E o que pensaste exactamente? E o que sentiste? Achas que vais sonhar comigo? E quando achas que voltas? Achas que ainda há esperança? Saíste com quem? Estavam mesmo só essas pessoas? Hoje alguma mulher te ligou? E até eu já estou cansada de escrever 10% das perguntas proferidas.
Podemos ter defeitos, ser inseguros, não tão expressivos quanto a outra parte gostaria, pode faltar-nos o dinamismo e faltarem-nos as ideias para fazer coisas novas, mas quando perdemos a dignidade e alertamos se me vires com alguém é só um amigo porque sabes que eu continuo sempre à espera que voltes, está o caldo entornado e não há criatura nenhuma no mundo que queira o que não exige qualquer esforço, porque não sabe a nada, não traz a vitória da conquista, para além da exaustão que provoca uma figura inquisitória.
24 caroço(s):
Revejo.me muito no texto porque também eu já cometi muitos desses erros.. às vezes um abanão é o que mais falta faz. Parabéns pelo texto =)
Obrigada.
As pessoas aprendem com os erros cometidos, chama-se a isso crescer, é pena que algumas pessoas tenham dificuldade em ver os erros e que fiquem paradas no espaço sem conseguir andar para a frente.
Também eu cometi erros semelhantes aos teus, mas com eles veio a promessa de nunca mais acontecer.
Boa tarde.
Acho que todos nós, em algum momento, já fizemos algumas coisas das quais não nos sentimos hoje em dia particularmente orgulhosos, no entanto isso fez parte do nosso crescimento como pessoas.
De qualquer forma não acho que deva ser motivo de vergonha, significa que aprendemos com os nossos erros e hoje somos pessoas melhores.
Uns passam por isso e aprendem, outros há, que demoram meses, anos e até a vida inteira.....
Por experiência própria e embora às vezes seja uma tentação tentar "abrir os olhos" aos outros para evitar que passem por situações pelas quais já passámos, raramente funciona. Nessas alturas, as pessoas estão tão concentradas nas suas "dores" que não ouvem ninguém e insistem nos erros. Para aprender, nestes casos, é necessário as pessoas viverem essas experiências, quase nunca as podemos poupar ao sofrimento. Podemos estar próximo, apoiar mas não podemos protege-las, nem viver as coisas por elas.
Se no final a pessoa ainda não aprendeu, então é provavel que volte a passar por situações identicas, até um dia abrir os olhos e finalmente aprender...
Maria
P.S: desculpem o texto enorme....
Oh Poisoned, por favor... Podes explicar melhor isto: "Mais confusão me fazem aqueles - mais aquelas que aqueles - que mais parece que nunca a tiveram."
A coisa mais sexista que podes dizer... Qual e' a diferenca? Pois estou tao revoltado com a tua afirmacao que digo exactamente o contrario: fico bem mais enojado quando sao "eles" a perder a dignidade que "elas"!!!
Caro Nexis,
interpretou-me mal. Quando escrevi "mais confusão me fazem aqueles", referia-me a pessoas em geral, quando afirmei "mais aquelas que aqueles - que mais parece que nunca a tiveram", fi-lo porque conheço muito mais mulheres que se perderam por momentos do que homens, o que em termos quantitativos não significa que são mais elas do que eles que perderem a dignidade, é apenas a realidade que eu conheço.
A mim é-me inferente o sexo de quem passou um mau momento, mas como já aqui disseram, faz parte da vida, aprende-se com isso e seguimos em frente. Mulher ou homem é irrelevante. A verdade é que temos todos de errar para poder aprender.
Nas relações tenho uma teoria muito simples...e resmungo sempre quando são vocês mulheres a fazerem-se de vitimas...Aqui tenho a minha teoria:
http://fodassepaisto.blogspot.com/2009/03/7-em-10.html
Não leves como critica, mas sim como tema de discussão :)
Bom fim de semana!
O importante é que aprendeste com o erro... Erro esse que odas nós já cometemos. Em maior ou menor escala!
Eu gostava de comer todos os pratos mais apetitosos do mundo sem engordar uma grama! e gostaria de ter feito amor com todos os homens por quem já me senti atraída… sem peso na consciência! nem moralismos! Não me arrependo dos meus actos… más sim do que realmente não faço! por medo de errar e ser julgada!
Ainda hoje escrevi sobre uma anterior relação que quase me anulou como pessoa, como mulher.E do que aprendi com isso. Eu tb já fiz coisas que não devia, como quase espetar-me numa estrada, porque o carro dele ia noutra direcção e eu ter a certeza que ia ter com a outra...Hoje nem quero acreditar que o fiz! Mas a verdade é que isso me permitiu crescer e saber hoje o que é quase sairmos de nós, fazermos coisas que nunca imaginávamos como possíveis e que até somos capazes de criticar nos outros. Hoje...acima de tudo gosto de mim e respeito-me - aprendi uma boa lição de vida.
Não tens de te sentir mal, é uma fase da vida que todos nós passamos. As paixões de adolescência são assim e não considero que seja perder a dignidade...é apenas a imaturidade que nos leva a tais actos. O que importa é que hoje, reconheces que foi um disparate e alcançaste maturidade suficiente para não voltar a repetir tal situação.
Na minha adolescência cheguei a dar um estalo numa rapariga porque foi tomar café com um rapaz que era meu namorado e eu sabia que ela andava atrás dele...hoje quando a encontro dá-me vontade de rir, mas claro, não me desmancho!
:-)
Beijos
Eu já perdi a dignidade em adulta...mas nunca deixei de GOSTAR de mim. Isso NUNCA. Beijo
Também eu já vivi isso, mas posso dizer que por um lado fico grata: tornei-me muito mais forte e muito mais segura de mim, conquistei-me, ganhei-me a mim própria e percebi que numa relação tem que haver cedências sim...mas de ambas as partes :)
Um beijo!
Bom fim de semana:P
Sem tirar nem pôr. Been there e hoje sou completamente diferente.
Assino por baixo, se me permites!
Mesmo não me tendo humilhado dessa forma,aos 17 anos, tive as minhas tristes humilhações, que até hoje me fazem sentir estupida no minimo.
Não te apetece assim só porque sim..voltar atrás (se pudesses) e ter reagido a isso com uma bela chapada na cara dele e uns pontapés aos amigos dele (a mim apetece), pelas minhas humilhações.
Ora mas como não podemos, deixemo-nos estar pois claro!
De resto, so posso dizer que adorei o teu post!
beijos!
Been there, done that.Cresci e agora sou diferente mas acho que ainda bem que passei por situações mais complicadas a nível amoroso pq estamos cá para aprender com os erros.E quem nunca sofreu uma desilusão amorosa, quem nunca foi rejeitado, saberá com menos certezas o que é amar de verdade....Pelo menos, eu penso assim. Parabéns pelo texto : )
Um post brilhante.
Mais um.
Adoro o blog e continuarei a ler :)
Caro Fodassepaisto,
sorry, mas discordo em absoluto com o seu comentário. Este texto nada tem a ver com mulheres vítimas, tem a ver com mulheres que atravessam momentos que as tornam estúpidas.
É bom saber que afinal há mesmo muita gente que já passou por situações onde perdeu toda a dignidade, eu na altura que aconteceu, já devia ter tido a capacidade de me manter firme e não tive. Aprendi com isto que, tudo o que nunca passámos, não podemos saber o que faríamos nessa situação.
Não houve abanão que me valesse, quando se está assim, nada que venha de fora é relevante, porque acabamos por arranjar desculpas para os sucedidos, só quando nós próprias atingimos um limite, ou nos agarramos a uma réstia de coragem, é que conseguimos saltar fora.
É certo que aprendi muito e ao mesmo tempo sei que aquela velha frase que diz "se pudesse voltar atrás não fazia nada de diferente", é totalmente romanceada, se voltasse atrás, fazia tudo diferente!
existem coisas que só sabemos porque as fizemos, depois de as ter feito. Já perdi a dignidade algumas vezes, e hei-de continuar a perdê-la sempre que eu sentir que valerá a pena. Faço aquilo que faço, porque faço aquilo que quero.
e se nestes momentos, em que alguem reflectido no nosso rosto é mais do que nós, não conseguirmos descer do nosso pedastal, mal de nós.
Abraço
Solidão Atarefada.
perder a dignidade? erro? está tudo doido. chorar por alguem é errado? Fazer figuras tristes é errado? desde quando? So o facto de ter sentido um amor assim sublime -- que ja senti, foi o primeiro, e com muita pena minha não haverá outro -- faz de mim uma pessoa mais completa. Perder a dignidade? a Dignidade de sofrer por não saber manipular o outro? por amar sem jogos, sem fazer com que o outro faça mais isto ou menos aquilo, sem persuadir com psicologias e artimanhas, mesmo que inconscientes? que me desculpem, mas chorar tão perto quanto se possa, empurrando a porta na esperança de conquistar mais dois centimetros, é mais puro do que chorar e dizer ao telefone "nem me tinha lembrado que existias". Talvez tenha chorado pela pessoa errada, admito, mas isso é outra história.
E ja agora, durante essa fase adulta, em que ja se sabe a história toda, ja se abriu os olhos, não se procura exactamente aquilo que se tinha quando se faziam as tais figuras? Não será exactamente de alguém em quem nos possamos aconchegar e relembrar que ja fomos parvos, e voltar a ser um bocadinho, que tanto ansiamos? alguem com quem as cedencias sejam naturais... alguem que valha a pena tudo aquilo que ja fizemos inconsequentemente?
Não vejo as historias passadas como um mal. Fi-las, magoei-me, magoei muita gente, passei vergonhas, andei à tareia, e se voltasse atrás fazia tudo igual. E saboreava ainda mais, porque agora, mesmo que queira, acho que ja nem sei como se faz.
Cumprimentos e parabéns pela escrita!
Wolve, uma coisa é fazer maluqueiras, perder a cabeça por amor, outra é perder a dignidade, rebaixarmo-nos (ñ é o mesmo que fazer cedências atenção!) e deixarmos que nos passem por cima com um buldozer.
Amar sem condições só vale a pena se formos amados de volta, senão é só um desperdício de tempo, de amor e consequentemente de lágrimas.
Só algum tempo depois do "mau bocado" é que me apercebi que tudo o que eu queria na altura e que me foi negado, não era uma utopia de relações, era o comum de todas as relações equilibradas e honestas. Como a que tenho agora e que não precisei sair de mim, para me ajustar a alguém que ñ se ajustava a mim, foi como dizes, algo que foi acontecendo, de parte a parte.
Faço sentido?
fazes sentdo, claro Miss Kin. Mas atenta por favor no quão certo pode ser estar errado. Não é no "relação errada vs relação certa" que me quero focar, é mais sobre aquela sensação concreta, solida e firme de estar tudo errado e mesmo assim nada disso importar. Obviamente essas relações nunca duram muito tempo, não podem durar, torna-se insuportavel para ambos. Mas ainda assim, é insuportável a um nível mental, porque no plano sentimental tudo é menos valorizado, tudo está bem quando se está perto. O coração não se queixa por termos sido postos fora, so se queixa porque a porta não deixa chegar mais perto. Do ponto de vista moral, "rastejar" por alguém é degradante, sim. Mas até que ponto não é mais importante ser capaz de sentir toda a profusão de sentimentos que nos fazia rastejar? Toda a pulsão, o magnetismo puro (e não do foro sexual), a compulsão apaixonada de querer estar perto a todo - e sublinho, a TODO - o custo?
Não será isso muito mais valioso do que eventuais figuras que tenhamos passado? Não será a capacidade de nutrir esses sentimentos - capacidade que, impreterivelmente, se perde - muito mais ssagrada do que as suas consequencias?
Eu acho/sinto/sei que sim.
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